terça-feira, 2 de abril de 2013

TEU CENÁRIO É UMA BELEZA


*Conto da coluna enredo do meu samba publicado no blog  Ouro de Tolo em 26/1/2013


Subi com Manolo e o segundo andar era um ambiente charmoso com inúmeros quadros de pessoas importantes para o samba. Meu pai, seu Jair, é um apaixonado por escolas de samba, diretor de harmonia de várias escolas e tentou passar esse amor para mim.

Não conseguiu muito. Sim, via desfiles na minha infância e até desfilei algumas vezes, mas não me tornei um apaixonado. Só que confesso que entrar naquele lugar mexeu comigo.

Além do bar ser mítico e saber que meu pai fora frequentador conhecia muitos dos rostos ali fotografados. Muitas fotos em preto e branco desgastadas pelo tempo, mas fantásticas e com uma grande história por trás.

O segundo andar era mais tranqüilo, toda a movimentação estava embaixo e Manolo perguntou se eu bebia alguma coisa. Sentei em uma cadeira e respondi que o tempo “pedia uma gelada”. Manolo sorrindo pegou a bebida e sentou a minha frente. A cerveja suava de tão gelada e ele então serviu meu copo dizendo que era aquilo que fizera a vida inteira e era só o que sabia fazer.

Bebi a cerveja e perguntei se na Espanha ele já trabalhava como garçom. Manolo sorriu e respondeu que não era espanhol, nascera em Cavalcanti.

Ri e perguntei como era aquela história. Manolo sorrindo olhou para um dos retratos e disse que era coisa do pai.

Levantei e fui até o quadro. Retrato antigo com um bonito homem sentado, uma mulher em pé ao seu lado e uma criança sentada no colo do homem. Cheio de orgulho Manolo respondeu que a criança era ele.

Curioso perguntei como surgira afinal aquela história de espanhol. Manolo as gargalhadas pediu que eu sentasse para me contar.

Voltamos mais de sessenta anos no tempo, aos anos dourados do Brasil e aos primórdios dos desfiles de escolas de samba.

Um homem bonito, atlético, com um fino bigodinho e na altura de seus trinta anos de idade descia o morro de Mangueira bem alinhado com terno e gravata. Todos lhe cumprimentavam, chama-se Juan.

Ou espanhol como preferissem. Juan contava a todos que nascera em Madri e adorava contar histórias de sua terra natal, inclusive contava que era amigo de Braguinha e “Touradas em Madri” fora em sua homenagem.

O homem bem alinhado pegou o bonde e foi em direção a Tijuca. Parou na frente de uma casa e bateu palmas. Um homem abriu o portão e disse que ele estava atrasado.

Juan entrou e na sala rolava a jogatina. Poker para ser mais preciso. Todos cumprimentaram Juan que se sentou à mesa e foi logo bebendo um pouco de uísque.

O jogo já era proibido no Brasil, mas aqueles homens não queriam saber. Amigo o jogo era a vera, dinheiro alto apostado em roda com grandes figurões da cidade.

E como Juan, um sujeito pobre morador do morro de Mangueira conseguia parar em uma roda daquelas? O homem era malandro demais..

Conhecido malandro da cidade Juan tinha muitos amigos e alguns deles figuras importantes que sabiam de sua habilidade no carteado e financiavam seus jogos. Geralmente o homem vencia e depois dividia a grana com seus financiadores.

Naquela noite Juan bebeu uísque de um, fumou charuto de outro e enquanto olhava suas cartas contou que estava com “aquela coceira no pé” e quando tinha a tal coceira era porque a sorte lhe acompanhava.

E foi assim naquela noite. Juan ganhou muito, mas muito dinheiro e saiu com uma sacola para poder levar toda a grana. Os homens desolados sentados na mesa olhavam o espanhol colocar o saco de dinheiro nas costas e dizer “Estamos perto do carnaval, mas me sinto como o Papai Noel oh oh oh”.

Dessa forma Juan saiu da casa e foi ao financiador dar sua parte. Ainda saiu com uma boa bufunfa pelas ruas e comprou um terno novo e um sapato.

Viu um menino na rua engraxando e fez questão de dar a primeira engraxada dos sapatos novos e dessa forma ajudar o menino. Gritou pelo moleque e sentou para a engraxada enquanto lia o jornal e via o movimento das ruas.

Enquanto olhava noticiário e reclamava por uma nova derrota do Vasco da Gama Juan olhou sobre o jornal e reparou em uma menina linda, normalista andando com uma amiga pela calçada no outro lado da rua.

Deu dinheiro para o menino e levantou-se com o garoto dizendo que ainda não tinha acabado. Aproveitou uma florista perto, comprou um buquê de flores e foi em direção a moça.

Ela se assustou e Juan pediu que se acalmasse, pois apenas queria lhe ofertar flores. A amiga que acompanhava sorriu e a moça sem nada entender pegou as flores e agradeceu. Juan tirou o chapéu, se apresentou e perguntou se podia lhes acompanhar.

A moça ficou sem resposta e a amiga se antecipou respondendo “claro”. Dessa forma Juan acompanhou as duas moças até a casa da que recebeu as flores contando sobre sua vida e que era espanhol. A amiga entrou em casa e Juan segurou seu objeto de paixão pelo braço perguntando seu nome.

Ela respondeu se chamar Luisa e Juan perguntou se poderia lhe ver de novo. A moça ficou reticente e entrou.

Juan estava apaixonado.

O malandro voltou ao morro de Mangueira e encontrou Eliomar, seu melhor amigo, na frente de casa chupando uma laranja. Eliomar cumprimentou Juan que chegou próximo e disse estar apaixonado.

Eliomar nada entendeu e perguntou que história era aquela. Juan explicou toda a situação e o amigo disse que o malandro estava louco, ninguém se apaixonava tão rápido. 

Juan suspirou e olhando o luar contou que por ela até se endireitava na vida.

Eliomar riu e respondeu não acreditar. Juan comentou que por ela até arrumava um emprego. Eliomar preocupado colocou a mão na testa do amigo, perguntou se ele estava bem e lembrou que o carnaval se aproximava e a Mangueira contava com ele na bateria.

Juan lembrou-se do carnaval e disse que iria se endireitar, mas antes desfilaria na Mangueira, pois tinha certeza que aquele ano era o da Estação Primeira. Despediu-se do amigo indo em direção a sua casa e voltou perguntando se ele poderia emprestar o carro.

No dia seguinte Juan estava com o carro na frente do colégio de Luisa. A moça ao sair do prédio tomou um susto ao ver Juan em pé encostado no carro e sorrindo. Perguntou o que o homem queria e Juan perguntou se ela queria dar uma volta.

Luisa relutou respondendo que precisava voltar logo para casa e Juan insistiu dizendo que era só uma volta para lanchar. O malandro tinha um charme irresistível e Luisa acabou aceitando.

Entrou no carro e foram para a confeitaria Colombo. Lá Juan continuou o jogo de sedução e em poucos minutos Luisa estava completamente encantada. Juan e Luisa partiram para a casa da moça onde o homem iria pedir sua mão ao pai.

Entraram na casa, Juan garboso beijou a mão de sua futura sogra e Luisa empolgada correu para dentro de casa e assim chamar seu pai.

O homem, Dr Migão, um conceituado empresário saiu de dentro de seus aposentos em direção a sala e se assustou ao ver Juan perguntando o que ele fazia ali.

Juan engoliu em seco e perguntou como o homem passava. Luisa perguntou se eles se conheciam e Dr Migão respondeu que sim, aquele era um jogador profissional.

Para azar de Juan Dr Migão fazia parte da roda de poker.

Juan ainda tentou argumentar alegando que se apaixonara por Luisa e estava disposto a arranjar emprego, mudar de vida para casar com a moça, mas em vão. Dr Migão não só não aceitou as promessas de Juan como pediu que fosse embora e nunca mais procurasse sua filha.

Juan aceitou as ordens e desolado foi embora ouvindo o choro de Luisa. O homem parecia destruído, acabado. O outrora homem feliz e charmoso transformou-se em um “farrapo humano” com barba por fazer, tristeza e nem mais sorte no jogo tinha. Na última roda voltou para casa apenas de cueca.

Mas tinha compromisso com sua outra paixão, a Estação Primeira de Mangueira e ao lado de Eliomar foi para avenida tocar caixa na bateria da escola.

Mas diferente de outros carnavais Juan estava triste, nem mesmo todo o amor que sentia pela escola de samba conseguia aplacar esse sofrimento.

Ao fim do desfile enquanto todos voltaram para o morro Juan decidiu andar pelo centro da cidade. Via as pessoas comemorando o carnaval, jogando confetes, serpentinas, mas parecia estar em um mundo paralelo.

Andava por uma rua até que viu um grupo de homens vestidos de mulheres brincando e cantando marchinhas. Juan passou pelo meio do grupo que cantava “Touradas em Madri” quando recebeu um punhado de confetes no rosto e os dizeres “oi bonitão”.

Quando Juan olhou tomou um susto. Era Dr Migão.

Com um vestido decotado, batom, peruca ruiva e jeito afetado Dr Migão parecia ver o capeta ao olhar Juan. Com olhar arregalado, gaguejando Dr Migão tentou se explicar dizendo que a família fora passar o carnaval em Petrópolis quando Juan sorrindo pôs a mão no ombro do empresário e respondeu “somos uma família meu sogro, fique tranqüilo e pode confiar em mim que seu segredo está guardado”.

Dr Migão mudou de idéia e não só concedeu a mão como arrumou um emprego para Juan. O casamento foi suntuoso, na Candelária e enquanto saíam da igreja Juan comentou “tenho um segredo para te contar”. Aflita Luisa perguntou o que era e ele respondeu.

“Eu não sou espanhol, sou de Bangu”.

Luisa sorriu e respondeu que estava tudo bem e também tinha um segredo para contar. Juan feliz perguntou o que era e a moça respondeu.

“Eu Não sou mais virgem”.

Juan olhou assustado para uma sorridente Luisa enquanto recebiam chuva de arroz.

E foram felizes para sempre.

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