terça-feira, 31 de maio de 2016

A VOZ DOS EXCLUÍDOS


Como todo mundo já sabe ocorreu um terrível caso de estupro coletivo em uma favela do Rio de Janeiro. Uma jovem foi filmada dopada em uma cama e as suspeitas são que trinta e três criminosos tenham participado do ato.

O caso provoca uma grande comoção em todo país e com ele um debate sobre o que chamam de "Cultura do estupro". Uma tradição machista que existe no Brasil onde desde crianças os homens veem as mulheres como "pedaços de carne" e motivos para satisfação masculina.

Várias situações são citadas como referências da cultura do estupro como desde cedo o menino ser criado para ser o garanhão e a menina a santa, que mulher não pode ir a certos lugares sozinhas, que homem que é homem tem que dar cantadas chulas mesmo em mulheres desconhecidas nas ruas e que a mídia ajuda nessa cultura seja com comerciais onde o corpo da mulher aparece mais vendável que o produto e a música.

Aí o funk entra na história.

Faz algum tempo que eu queria escrever sobre o funk e tinha programado para esta semana, mesmo antes do caso ocorrer. Semana passada fiz um "sobe o som" sobe o funk e sua história e hoje iria entrar nessa história. Infelizmente os fatos acabaram ajudando.

Evidente que o funk atual é uma música machista. A música mais famosa do gênero atualmente se chama "Baile de favela". Uma música que usa palavras chulas em relação a mulher e o clip é de horrorizar qualquer um. Eu, que me considero um cara moderno, não acreditei que as meninas se prestassem a fazer o que fizeram no clip. Elas se abaixavam, ficavam de quatro para serem bolinadas pelos garotos e cantavam a letra machista sem menor pudor.  

A música é um sucesso, toca em rádios e em televisão com a letra modificada e até o jogador da Juventus da Itália, o francês Pogba postou vídeo escutando.


Mas mesmo com tudo isso não posso culpar o funk, nem essa música em específico.

Apesar do refrão grudento e que não sai da minha cabeça não é o tipo de música que eu curto. A letra é pobre, praticamente não existe melodia. Mas vi a história de vida do autor, o Mc João, e não tem como não se comover.

Um menino como vários outros meninos que teve que trabalhar desde cedo para sustentar a família, que perdeu vários amigos para o tráfico e a morte, que muitas vezes abria a geladeira e não tinha o que comer e hoje ganha 15 mil por show e mudou o patamar de sua família.

Existe um grande preconceito em relação ao funk e admito que muitas vezes ele não se ajuda. Quando deprecia a mulher ou exalta o tráfico ele é machista ou se associa a violência, mas eu tento ver o funk além disso, tento ver além do estereótipo que a classe média branca impôs.

O funk é voz. Ele é voz de uma parte da sociedade que é excluída, marginalizada. É a voz do preto, do pobre, do favelado, é a forma que eles encontraram de se expressarem.

Não é a forma mais poética de expressão, mas é a forma que eles conhecem. O funkeiro nada mais é que o fotógrafo de uma paisagem e ele tira as fotos da paisagem que sempre conviveu, por mais feia que possa ser. É sim uma forma de arte, uma forma de cultura por mais que a gente não goste. Como me falaram outro dia cultura não tem que ser necessariamente algo que nos agrade. Não dá para exigir de alguém que teve pouco estudo, vive no limite entre a pobreza e a miséria, convive com a violência em seu dia a dia que tenha uma música da qualidade de um Chico Buarque e Caetano Velloso. Até porque muitos de outros gêneros musicais tiveram essas oportunidades e não conseguem.

Temos que combater a intolerância, o ódio, o preconceito assim como temos que combater o racismo e o machismo. A mulher que é violentada em sua dignidade todos os dias é tão vítima da sociedade em que vivemos quanto o negro da favela. Precisamos prestar mais atenção no que essas vozes querem nos dizer. Não precisamos gostar, mas precisamos ouvir.

Existem várias formas de funk, não apenas "proibidões" e machismo. Mc Marcinho e Claudinho & Buchecha são exemplos de como pode existir romantismo e poesia no funk. Buchecha é um dos grandes expoentes do gênero e teve canções regravadas por astros da MPB. Desafio alguém que mostre uma música tão bonita, emocionante e contundente feita nos últimos vinte e cinco anos como o "Rap da felicidade" feito pela dupla Cidinho & Doca. Essa música é aquela que diz "Eu só quero é ser feliz / andar tranquilamente na favela em que eu nasci".

Essa música abaixo, por exemplo, é um funk.


Assim como o samba um dia foi renegado, sofreu preconceitos (Hoje infelizmente está engomadinho e chapa branca) o funk sofre tudo isso hoje em dia. O funk hoje é o que o samba foi um dia. A voz de quem não tem voz.

Vamos dar voz a essas pessoas, mesmo nem tudo que eles nos digam agrade.


Afinal, só queremos ser felizes.

 

sexta-feira, 27 de maio de 2016

DINASTIA: CAPÍTULO XV - SUBINDO NA VIDA


Pepe perguntava o que ocorria e os homens mal encarados não respondiam. Um deles sentado ao seu lado no banco de trás apontava uma arma para sua cabeça. Pepe temia por sua vida e nem sabia o porque de estar ameaçado.

Foram para o bairro de Feital e entraram no escritório de Domenico. Pepe gritava que tinha direito de saber o que ocorria e queria falar com Domenico. Um dos brutamontes colocou Pepe sentado em uma cadeira e respondeu que ele estava lá para isso.

Domenico entrou e falou para os homens que queria ficar a sós com Pepe. Os homens saíram e Pepe levantou perguntando o que ocorria.

Domenico gritou que ele sentasse e fizesse tudo o que ele mandasse, pois, tinham muitos homens do lado de fora esperando uma ordem dele para que fuzilassem Pepe.

O rapaz tentou se acalmar e perguntou novamente o que ocorria. Domenico muito irritado chegou perto do rosto de Pepe e perguntou se ele não sabia mesmo a causa.

Pepe lembrou-se da noite que dormiu com Cecília e prometeu a Domenico que não ocorreria mais nada, foi um grande erro e também prometeu sumir da vida deles pedindo demissão.

Domenico que andava pela sala se enfureceu, foi até Pepe e pegou pelo colarinho dizendo “Agora que você não vai sumir mesmo bastardo!! Ela está grávida!!.

Sem chão Pepe balbuciou “como?” e Domenico que enchera um copo de uísque jogou o mesmo contra uma parede perguntando a Pepe se ele não sabia mesmo como ela engravidara.

Pepe não sabia o que dizer. Atônito apenas pedia desculpas enquanto Domenico falava que normalmente numa situação dessas ele já estaria morto.

Pepe pediu piedade e Domenico enchendo um novo copo de uísque comentou que a sorte do rapaz era que Cecília gostava muito dele então lhe daria duas opções. Casamento ou morte.

Pepe nem pensou duas vezes e levantou-se afirmando que casava com Cecília, não por temer a morte, mas por ter hombridade.

Domenico encheu mais um copo de uísque, entregou na mão de Pepe e disse “continue”.

Pepe continuou falando que tinha caráter, recebeu educação de seus pais e não largaria uma mulher grávida, além de ter profundo carinho e respeito não só por Cecília como por ele.

Domenico ficou em silêncio por um tempo e levantou o copo dizendo “bem vindo a família”. Os dois brindaram e dessa forma Pepe arrumava uma noiva.

Comentou com Zaqueu o acontecido que abraçou entusiasmado o amigo dizendo que ele deu um golpe de mestre. Pepe repudiou a afirmação respondendo que não se casava para dar golpe e sim por respeito a Cecília. Zaqueu completou que podia até ter sido um grande golpe de sorte apenas, mas que mudaria sua vida e só teria um problema.

Pepe perguntou qual e Zaqueu respondeu “Janete”.

É..Janete seria um problema.

Pepe foi para casa sabendo que teria que enfrentar uma fera. Entrou e encontrou Janete bêbada com um copo de cerveja na mão. Pepe tirou um bom dinheiro da carteira e entregou na mão da mulher dizendo que era pra ajudar nas despesas.

Janete colocou o dinheiro na mesa e continuou bebendo sem dizer uma palavra. Pepe encheu-se de coragem e contou que estava indo embora, completou que fazia tempo que eles não se entendiam e era o melhor para os dois.

Acabou de falar e ficou esperando alguma reação de Janete. A mulher não disse absolutamente nada e continuou bebendo. Pepe resolveu então arrumar sua mala.

Arrumou, contou que estava partindo e Janete continuava quieta. Estranhou, mas achou melhor assim, abriu a porta e partiu.

Desceu e na calçada Zaqueu lhe esperava. Pepe suspirou aliviado e contou ao amigo que tudo fora surpreendentemente bem e Janete não dera um pio. Enquanto falava Janete desceu com fúria, gritando e com uma navalha na mão.

Zaqueu gritou para Pepe ter cuidado. O rapaz virou para ver o que ocorria e Janete acertou com a navalha em seu rosto. Uma grande confusão se iniciou com as pessoas segurando Janete para evitar que ela fizesse coisa pior.

Janete foi detida pela polícia e Pepe levado a um hospital.

O rapaz tomou pontos e foi liberado. Foi para a casa de Domenico para ocupar o quarto dos fundos enquanto esperava o casamento. Domenico viu a cicatriz em seu rosto e pediu o nome de quem fizera isso que ele mandaria uns homens se vingarem. Pepe pediu que o caso fosse deixado de lado.

Pepe foi ao jardim e encontrou Cecília, o primeiro encontro deles desde que o rapaz soube da gravidez. Pepe sentou-se na cadeira ao lado da moça, as mesmas de quando se conheceram e perguntou como ela estava.

Cecília respondeu que estava bem e pediu desculpas. Pepe perguntou pelo que e a moça respondeu pela gravidez.

Pepe sorriu e virou-se para Cecília contando que a moça não precisava pedir desculpas e ela completou que por causa dessa gravidez ele seria forçado a casar. Pepe acariciou o rosto de Cecília e comentou que gostava muito dela e isso não seria um sacrifício.

Continuaram em silêncio e Cecília quebrou o mesmo perguntando “Você não me ama né?”. Sincero Pepe respondeu “Você sabe quem eu amo”. Cecília resignada abaixou os olhos e completou “É, sei sim”.

Voltaram ao silêncio e Pepe pegou a mão de Cecília. Os dois ficaram lá olhando a Lua de mãos dadas.

Domenico queria o casamento de forma mais rápida possível para que Cecília não casasse com barriga. Marcou a data convidando toda a sociedade carioca e Pepe mandou carta para a família comunicando o casório e pedindo por sua presença.

Domenico chamou Pepe para uma conversa no escritório e contou que estava lhe dando uma banca de bicho e seria seu braço direito na organização. Pepe contou que entendia nada de jogo do bicho e o sogro mandou que não se preocupasse já que ensinaria.

Domenico mostrou a Pepe como era uma banca e seu funcionamento, sistema de apostas e no escritório mostrou a contabilidade e negócios feitos.

O jogo do bicho, muito popular no Rio de Janeiro, era o jogo preferido da população por a pessoa poder apostar a quantia que quisesse, que coubesse em seu bolso.

Dessa forma Pepe começava a entender do ramo e a lucrar com sua banca que ficava no centro de Feital.

Chegou o casamento e Pepe recebeu ansioso sua família na estação de trem. Mais de dois anos que não via os familiares e a saudade era grande.

Deu um sorriso de alegria ao ver descerem Salvatore, Dora, Constância, Oscar, Giuliana e Mariana. Abraçou forte a cada um deles, comentou que Mariana crescera e ao dar um abraço em Salvatore comentou “Não disse que lhe veria ainda com vida?”.

Salvatore retrucou “E quem disse que eu estou vivo?”.

Mostrou o Rio de Janeiro aos familiares que estavam encantados, Menos Salvatore que sorria para nada. Pepe comentou com Oscar que vira notícias que ele estava cotado para a seleção brasileira e o rapaz respondeu que estava próximo do sonho de jogar a copa do mundo.

Perguntou como estavam as coisas com a família e Oscar respondeu que não muito boas. O pai só pensava em morrer e a loja não ia bem. Pepe prometeu dar um dinheiro para que o irmão levasse e segurasse um pouco as coisas.

Perguntou se tinha notícias de Beatriz e o irmão respondeu que não.

O casamento chegou e Oscar e Zaqueu arrumavam um ansioso Pepe. Salvatore já arrumado em um canto apenas olhava pela janela. Os três rapazes conversavam animadamente quando Pepe notou o olhar vazio do pai. Oscar pediu que não se preocupasse, pois, aquilo já era normal de Salvatore.

Pepe lamentou e lembrou-se do pai forte, vigoroso e corajoso que conhecera na infância e de quem ouvia histórias de vida. Oscar respondeu que infelizmente aquele Salvatore não existia mais.

Pepe aproximou-se do pai e colocou a mão em seu ombro. Salvatore na cadeira de rodas continuava olhando a vista e Pepe perguntou o que o pai tanto olhava.

Salvatore respondeu “Estou procurando minha vida”.

Pepe foi para a igreja e se posicionou ao lado dos pais e padrinhos. Cecília entrou sendo levada pelo pai e ao som da marcha nupcial. A moça estava linda.

Pepe desceu para recebê-la e deu um abraço em Domenico. Pegou a mão de Cecília dizendo o quanto a noiva estava deslumbrante e Cecília respondeu fazendo um pedido “realize o meu sonho”.

O padre realizou a cerimônia e durante a mesma Pepe lembrava-se de Beatriz e em alguns momentos conseguia vê-la no lugar de Cecília. Disse o sim, Cecília também e no fim se beijaram sob aplausos dos convidados.

Uma grande festa italiana foi dada na mansão de Domenico com massa, vinho, danças italianas, tarantela, tudo que se tem direito e Domenico e Pepe cantaram animadamente a “Reginella campagnola”.

Domenico chamou Pepe em um canto e contou que tinha filha única e ela precisava ser cuidada, já não era mais moço e precisava de uma pessoa de confiança para isso.  

Pepe perguntou o que o sogro queria falar com aquilo Domenico respondeu que quando ele morresse Pepe seria o homem a comandar os negócios. Pepe argumentou que não achava bom, ele tinha uma herdeira, a Cecília.

Domenico esbravejou que Cecília era mulher e arruinaria tudo que ele construiu, reforçou dizendo “você é o meu homem, você é meu escolhido, cuidará de Cecília e dos negócios”.

Pepe concordou e Domenico entregou um cheque para Pepe. O rapaz olhou e tomou um susto com os valores. Ele perguntou para que era e o italiano respondeu que era para Pepe tomar um “banho de loja”, comprar roupas novas e um carro. Era seu braço direito e precisava estar a sua altura.

Pepe agradeceu e Domenico lhe convidou para voltar à festa.

Voltaram e encontraram os convidados cantado “Mérica, Mérica, Mérica.”Pepe abraçou sua esposa que perguntou o que ocorria, Pepe respondeu “negócios” e passou a cantar junto com todos os outros.

Um pouco afastado Salvatore observava a festa e lembrou-se de seu casamento com Lorena na fazenda de Ribeirão Preto. A saudade doeu em seu peito. Saudade da mulher, do amigo Manolo, de tudo que vivera. Sentiu saudade de viver.

Lembrou de toda sua vida, sua saga desde a Itália, do navio, de Morgana, dos pais falecidos, dos irmãos que se perderam no mundo e se perguntou se tudo valera a pena. Viveu aquilo tudo, tantos amores, dramas, sonhos para acabar em uma cadeira de rodas desejando morrer.

Salvatore colocara na cabeça que foi ao Brasil para vencer e perdeu.

Pepe e Cecília foram passar a lua de mel em Buenos Aires e aos poucos a barriga da moça foi crescendo. Um dia Pepe estava no escritório com Domenico e recebeu uma ligação de Mariana. Oscar em um amistoso do Palestra quebrara a perna.

Pepe pegou o trem para São Paulo e encontrou o irmão no hospital. Oscar amargurado contou ao irmão que acabara sua carreira no futebol. Pepe lamentou, mas disse que existia muita vida pela frente convidando Oscar a morar no Rio com ele.

Pepe foi até a casa da família em São Paulo e comentou com a família que vivia uma boa situação financeira e tinha como levar a todos para morar no Rio de Janeiro.

Mariana e Constância se animaram com a possibilidade de morar no Rio. Giuliana morava no convento então não participava da reunião e Dora respondeu que dependia de Salvatore.

Pepe perguntou ao pai o que ele achava e Salvatore respondeu que São Paulo era sua terra, seu lar e não iria embora de lá ser sustentado por um filho.

Irritado Pepe argumentou que o pai era italiano, não era paulista o que provocou a fúria de Salvatore “Essa terra nos adotou, lutamos por ela, por ela eu fiquei nessa cadeira, como você ousa dizer que não é a minha terra?”.

Pepe então tocou na ferida “E o que ela te deu? O que ela deu para nossa família? O vô Benito deixou a Itália para dar uma chance a sua família, está na hora do senhor deixar São Paulo e fazer o mesmo”.

Dessa forma a família Granata foi para o Rio de Janeiro.

Pepe montou uma loja para a família no centro de Feital, a loja seria comandada por Oscar e Salvatore. Comprou uma boa casa em Feital para a família e matriculou Mariana em uma das melhores escolas da cidade.

O tempo passou e Cecília começou a sentir as contrações. Pepe e Domenico nervosos esperavam na recepção enquanto Dora entrou na sala de parto com Cecília.

Oscar e Zaqueu chegaram ao hospital e encontraram os dois homens tensos. Perguntaram como estava a situação e Pepe respondeu que sabia de nada, o parto parecia estar difícil.

Veio aos Granata presentes o fantasma do parto de Lorena quando a moça morreu junto com o filho e a angústia tomava conta de Pepe, até que Dora apareceu na recepção.

Os homens correram até Dora perguntando e a mulher sorrindo contou “sou avó de um lindo bambino”. Pepe com lágrimas nos olhos foi abraçado por Domenico, Oscar e Zaqueu enquanto sua mãe lhe puxava para conhecer o filho.

Pepe entrou no quarto e viu seu filho no colo de Cecília. O rapaz inebriado de felicidade chegou até os dois e pegou pela primeira vez o bebê no colo. Sorriu para ele e disse “bem vindo Pepino Granata”.

Deu um beijo na testa da esposa agradecendo pelo momento mais feliz de sua vida. Cecília devolveu a gentileza e agradeceu pelo começo de seu sonho sendo realizado.

Do lado de fora Domenico distribuía charutos para comemorar quando Pepe saiu e pediu que o homem entrasse para conhecer o neto. Domenico entregou um charuto a Pepe e mandou o genro saborear.

De noite Pepe entrou na mansão de Domenico e encontrou o homem sentado no sofá da sala ouvindo Enrico Caruso, assim como seu pai amava.

Domenico ouvia “Uma furtiva lágrima” quando notou a presença do genro. Pediu um abraço a Pepe que se abaixou e abraçou o sogro sentado.

Domenico agradeceu a Pepe o sonho realizado de ter um neto e que tinha certeza que os negócios da família estariam muito bem em sua mão. Pepe agradeceu a confiança e respondeu que o sogro nunca se arrependeria.

Domenico respondeu que tinha certeza disso e pediu que Pepe pegasse um vinho na adega para que eles brindassem a chegada de Pepino. Pepe foi, pegou o vinho, duas taças e voltou para a sala.

Pepe elogiou a marca do vinho e encontrou Domenico com os olhos fechados. Encheu as duas taças e ofereceu uma para o sogro que não pegou. Continuou com os olhos fechados.

Pepe insistiu falando “pegue seu Domenico”. Nada do homem pegar e Pepe imaginou que ele estivesse dormido. Sentou ao lado, bebeu um gole do vinho, olhou novamente Domenico e começou a estranhar a situação.

Chamou novamente por Domenico e nada, mexeu no homem para acordar e ele não se mexia. Assustou-se, olhou bem para Domenico e exclamou “Meu Deus!!” correndo para um telefone e discando pedindo uma ambulância.

Mas já era tarde. Domenico Vergara estava morto.


CAPÍTULO ANTERIOR:

CECÍLIA 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

SOBE O SOM: FUNK BRASIL


Hoje o "Sobe o som" mostra o ritmo mais polêmico que existe no Brasil. O funk.

Um ritmo cheio de swing e musicalidade surgido nos Estados Unidos. Chegou ao Brasil nos anos 70 e foi variando seu estilo até chegar em 1989 com o disco "Funk Brasil" do Mc Marlboro próximo do conhecido de hoje. Música que expressa o cotidiano de uma boa parte da população brasileira que nunca foi ouvida. Um tipo de música polêmica, cheia de conotações sexuais, algumas vezes com letras incentivando violência, criminalidade ou mesmo acusada de pobreza rítmica e em letra. Mas antes de tudo o funk é a voz de um povo excluído e pode e deve ser encarado como estudo sociológico.

Existe sim exaltação a sexo, criminalidade e pobreza musical em algumas obras. Mas também existe beleza, poesia e através do funk vários artistas nacionais surgiram. O funk produziu alguns hinos que até hoje são exaltados por artistas da MPB e vale a pena dar uma ouvida sem preconceitos. O funk é um retrato do Brasil desfavorecido. Uma possibilidade desses desfavorecidos produzirem cultura.

Então vamos lá!!


Sobe o som Funk Brasil!!


BR3 - Tony Tornado


Sossego - Tim Maia


A noite vai chegar - Lady Zu


Rap do centenário - Junior e Leonardo


Rap das armas - Cidinho e Doca


Rap do Borel - William e Duda


Rap da Estrada da Posse - Mc Sapão


Rap do Salgueiro - Claudinho & Buchecha


Nosso sonho - Claudinho & Bucchecha


A conquista - Claudinho & Buchecha


Garota nota cem - Mc Marcinho


Glamurosa - Mc Marcinho


Anjo - Mc Cacau


Baile do Dendê - Mc Marcio do Cacuia e Mano Cacau do Dendê


Cerol na mão - Bonde do Tigrão


Sai voada amante - Mc Colibri


10 mandamento - Menor do Chapa


Agora eu sou solteira - Gaiola das Popozudas


Beijinho no ombro - Valeska Popozuda


Dako é bom - Mc Tati Quebra Barraco


Adultério - Mister Catra


Bigode grosso - Mc Marcelly


Show das poderosas - Anitta


Amor de chocolate - Naldo


Lelek lek - Bonde do Lelek Lek e os Federados


Quadradinho de oito - Bonde das maravilhas


Nego resolve - Nego do Borel


Minha história - Mc Daleste


País do futebol - Mc Guinê e Emicida


Tá tranquilo, tá favorável - Mc Bin Laden e Lucas Lucco


Baile de Favela - Mc João


Bem. Aí está um pouco do repertório do funk Brasil ao longo dos anos. Semana que vem tem romantismo, tem charme. Tem Julio Iglesias.


Enquanto isso eu só quero é ser feliz


Andar tranquilamente na favela onde nasci


E poder me orgulhar


E ter a consciência que o pobre tem seu lugar


SOBE O SOM ANTERIOR:

BEYONCÉ 

quarta-feira, 25 de maio de 2016

CINEBLOG: SEM DESTINO


Cineblog fala hoje de um filme cultuado feito nos anos 60.

Cineblog orgulhosamente apresenta:


Sem destino



Easy Rider (br: Sem Destino / pt: Easy Rider) é um road movie americano de 1969, escrito por Peter Fonda, Dennis Hopper e Terry Southern, produzido por Fonda e dirigido por Hopper.

Conta a história de dois motociclistas que viajam através do sul e sudoeste do Estados Unidos, com o objectivo de alcançar a liberdade pessoal. O sucesso de Easy Rider ajudou a avivar a fase New Hollywood do cinema norte-americano durante a década de 1960.

Um marco na filmografia de contracultura, e a "pedra-de-toque" de uma geração" que "capturou a imaginação nacional", Easy Rider explora as paisagens sociais, assuntos e tensões na América da década de 1960, tal como a ascensão e queda do movimento hippie, o uso de drogas e estilo de vida comunal.


Sinopse


Os protagonistas são dois motociclistas, Wyatt (Fonda) e Billy (Hopper). Fonda e Hopper disseram que os nomes referem-se a Wyatt Earp e Billy the Kid. Wyatt veste-se de cabedal adornado com a bandeira americana, enquanto Billy se veste com calças e camisa ao estilo dos nativos americanos.

Depois de contrabandearem drogas do México para Los Angeles, Wyat e Billy vendem a mercadoria para um homem (protagonizado por Phil Spector) em um Rolls-Royce. Com o dinheiro da venda armazenado em mangueiras dentro dos tanques de gasolina, eles vão rumo ao leste do país na tentativa de chegar em Nova Orleans, na Luisiana, em tempo para o Mardi Gras.


Elenco



Dennis Hopper .... Billy
Peter Fonda .... Wyatt
Jack Nicholson .... George Hanson
Karen Black .... Karen
Phil Spector... The Connection
Toni Basil .... Mary


Trilha sonora



1. The Pusher - Steppenwolf
2. Born To Be Wild - Steppenwolf
3. I Wasn't Born To Follow - The Byrds
4. The Weight - The Band.
5. If You Want To Be A Bird - The Holy Modal Rounders.
6. Don't Bogart Me - Fraternity of Man.
7. If Six Was Nine - The Jimi Hendrix Experience.
8. Let's Turkey Trot - Little Eva.
9. Kyrie Eleison - The Electric Prunes.
10. Flash, Bam, Pow - The Electric Flag.
11. It's Alright Ma (I'm Only Bleeding) - Roger McGuinn.
12. Ballad Of Easy Rider - Roger McGuinn.


Principais prêmios e indicações



Oscar 1970 (EUA)

Indicado nas categorias de melhor ator coadjuvante (Jack Nicholson) e melhor roteiro original.

BAFTA 1970 (Reino Unido)

Indicado na categoria de melhor ator coadjuvante (Jack Nicholson).

Festival de Cinema de Cannes 1969 (França)

Ganhou o prêmio de melhor filme de diretor estreante (Dennis Hopper).

Indicado à Palma de Ouro.

Globo de Ouro 1970 (EUA)

Indicado na categoria de melhor ator coadjuvante (Jack Nicholson).]

AFI's 100 Years

O filme ocupa o 88º lugar dentre os melhores filmes norte-americanos das últimas décadas, e o 29º dentre as melhores trilhas-sonoras de filmes.


A produção


A gênese para o filme Sem Destino começou com uma fotografia. Peter Fonda conta: "Eu me lembro o dia em que apareci com a ideia para Sem Destino, 27 de setembro de 1967. Estava olhando uma fotografia minha e de Bruce Dern em frente a uma motocicleta. Nós parecíamos grandes, numa imagem 18x24, em contra-luz, de forma que ninguém poderia dizer que éramos nós. E isso me deu um estalo, para fazer este filme".

Fonda chamou seu amigo Dennis Hopper e disse a ele sua ideia de dois jovens experimentando a "liberdade total" enquanto cruzavam o país de motocicleta. Hopper, no cinema desde Juventude Transviada (1955), estava pensando em abandonar a profissão de ator para se tornar professor de teatro. Fonda mudou a cabeça de Hopper, oferecendo-lhe a oportunidade de dirigir o filme.

Para financiar o projeto, Hopper pediu a seu amigo Jack Nicholson para apresentá-lo a Bert Schneider, um dos sócios da BBS Productions, uma companhia independente que lançava seus projetos pela Columbia Pictures. A BBS concordou em colocar 400 mil dólares para fazer Sem Destino.

A produção começou com locações em Nova Orleans, em 23 de fevereiro de 1968. Juntando-se a Hopper e Fonda estavam Karen Black e a futura coreógrafa e cantora Toni Basil. Apesar de Rip Torn ter sido originalmente escolhido para fazer o papel do advogado alcoólatra George Hanson, ele acabou deixando a produção antes do início das filmagens. Jack Nicholson - que a BBS havia enviado a Nova Orleans no cargo de produtor executivo - concordou em fazer o papel. Sua atuação o transformou num astro.


Capitão América



A moto usada pelo personagem Wyatt (Peter Fonda) é uma Harley Davidson denominada de "Capitão América" e ficou exposta por 12 anos no National Motorcycle Museum (Museu Nacional da Motocicleta), em Anamosa, Iowa. Ela foi a única motocicleta original que se salvou, pois, nas filmagens foram utilizadas quatro motos e três foram roubadas antes do lançamento do filme, mesmo a cópia da Capitão América que foi usada nas cenas finais do longa, quando ela é explodida na perseguição e morte de Wyatt. Em 2014, esta motocicleta foi leiloada por mais de US$ 1 milhão.


Cineblog continua semana que vem com  filme nacional. Tem Orfeu.


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O ADVOGADO DO DIABO

terça-feira, 24 de maio de 2016

A CULTURA EM XEQUE


Não podemos negar que o governo de Michel Temer começou animado. Em doze dias medidas impopulares, protestos, quedas de ministros, difícil focar em algo para analisar, mas vou focar naquilo que é a minha área.

A cultura.

Em qualquer lugar do mundo artista tem tendência de esquerda, a cultura é de esquerda e aqui no Brasil não é diferente. Durante a história do país tivemos muitos exemplos disso com o auge ocorrendo na ditadura militar onde artistas lutaram contra o governo.

Quase toda a classe artística agora se mobilizou na luta pela defesa do governo Dilma Rousseff. A diferença é que agora tiveram "confronto" nessa atitude. O governo era longe de ser uma unanimidade, muitos setores da população se voltaram contra e não gostaram dessa atitude dos artistas. Tivemos nesse período casos como o de Chico Buarque sendo xingado na saída de um restaurante no Rio de Janeiro e o lamentável episódio com José de Abreu que acabou em cusparada em São Paulo.  

Como todos sabem o governo caiu. Temer assumiu e por "coincidência" acabou com o ministério da Cultura. O ministério foi reduzido a uma secretaria atrelada ao ministério da Educação.

Aí a confusão foi formada.

Poucas vezes vi a classe artística tão engajada e unida como depois desse episódio. Quem era contra e a favor do impeachment se uniu, locais foram ocupados pelos artistas como ocorreu com colégios do Rio pelos estudantes (Aliás, parabéns aos alunos do Mendes de Morais por conquistarem o que queriam com a a ocupação). No fim o governo Temer recuou de novo e vai voltar com o ministério.

O que fica disso tudo?

Além do evidente sentimento que as coisas não estão bem e o país está longe de uma pacificação fica a cultura em xeque.

Porque assim como os artistas se uniram acabou-se revelando um ódio a eles inesperado. Por essa mobilização chamam os artistas de vagabundos, de gente que mama nas tetas do governos, de aproveitadores da Lei Rouanet. Chegam ao ponto de xingar gente como Chico Buarque, Fernanda Montenegro, Caetano Velloso, Wagner Moura..Gente com serviços prestados a cultura e a esse país em geral maior que a maioria dos políticos, esses sim mamadores de dinheiro público, que se sustentam com dinheiro do contribuinte.

Passam uma total ignorância que foi bem revelada na maior parte desse processo de impeachment. Lei Rouanet tem nada a ver com ministério da Cultura.O governo não dá dinheiro diretamente ao artista. O artista faz o projeto e leva para ser aprovado ou não, caso seja aprovado aí ele vai até as empresas tentar captar o recurso. Esse recurso que a empresa passa ao artista é descontado de impostos. Essa é a lei, o governo apenas aprova o projeto que pode ser de qualquer um seja grande artista, iniciante, de direita ou esquerda. Claudio Botelho, aquele que em uma peça pediu a queda da Dilma, é um dos maiores arrecadadores.

Então é besteira falar de vagabundagem de artista ou de mamadores da lei Roaunet, assim como é besteira se voltar contra a cultura. Um país só se transforma de verdade com cultura e educação. Com esclarecimento, visão, princípios básicos de cidadania, de nossos direitos e deveres, coisas que só a educação permite e existem poucas formas de educar melhor que a cultura.

Cultura dá emprego, muitos empregos diretos e indiretos. Artistas não são vagabundos. Pintam, escrevem, dirigem, atuam, desenham, produzem. Fazem o retrato de um tempo. Reclamam de quem retratam em vez de reclamar da paisagem. A burrice chegou a tal ponto que artista terá que ressuscitar o "Julinho da Adelaide" do Chico para poder emitir opinião no twitter.

Chegou a tal ponto de muitos vibrarem porque o filme "Aquarius", aquele que denunciou o "golpe" em Cannes, perdeu a Palma de Ouro. Acho engraçado isso porque trataram como se fosse fácil ganhar o prêmio. Desde o "Pagador de promessas" o Brasil não vence e derrota por derrota o Danilo Gentilli perdeu o troféu Imprensa então ficou 1x1.

Contestar o nível cultural brasileiro até aceito. Tempo que não produzimos nada de valor no cinema, teatro, música. Mas isso só prova que precisamos ainda mais de cultura, não de cortes.

Assim como é besteira contestar investimento em cultura usando saúde e educação para tal. Há dinheiro para tudo, só pararem de roubar.

Roubo que fez cair ministro com onze dias de governo.

Talvez a corrupção seja a nossa maior cultura e por isso não vamos para a frente. Se é para acabar com uma cultura que seja com essa.


Desse golpe sou a favor.


sexta-feira, 20 de maio de 2016

DINASTIA: CAPÍTULO XIV - CECÍLIA


Já era começo de 1937, primeiros dias de Janeiro e Pepe estava na janela do barraco no morro de Mangueira assistindo conjuntos de pastores e pastorinhas percorrendo o morro e entoando as suas cantorias. Uma tradição na favela entre o dia de Natal e o dia de Reis.

Morava ainda no barraco de Manuel e Romeu. Romeu fora morto e Manuel estava preso na penitenciária do Frei Caneca. O crime de Manuel ganhou grande repercussão e ficou conhecido como “O crime da rua Matoso”.

Pepe foi visitar Manuel na cadeia e encontrou um homem triste e resignado. Tentou dar forças ao homem dizendo que o juiz entenderia que ele passara por um grande drama. Manuel riu e afirmou que se fosse branco até poderia ser, mas sendo negro, sem chance.

O homem riu e perguntou se Pepe sabia quem estava preso lá. O rapaz não soube responder e Manuel sorrindo contou “Graciliano Ramos”.

Ao notar que Pepe desconhecia o escritor Manuel recomendou que o rapaz lesse “Caetés”. Um grande livro.

Finalizou contando que os livros não deixavam que ele enlouquecesse.

Chegou o julgamento e esse ganhou bastante repercussão da imprensa. Finalmente seria julgado o “crime da rua Matoso” e o clima não estava bom para Manuel.

A imprensa e a opinião pública se voltou contra o homem que sofreu um linchamento moral. Falavam em nome da moral, da família, mas o certo era que a cor influenciava muito.

Uma multidão na frente do fórum se manifestava contra Manuel e dentro do mesmo o massacre continuava. No fim Manuel foi condenado a vinte anos e quatro meses de cadeia.

O homem foi levado pelos guardas e antes de desaparecer por uma sala gritou para que Pepe cuidasse de suas plantinhas. Sorriu e foi levado embora.

Pepe cuidou das plantas como Manuel pediu e fez mais, cuidou da casa com muito carinho.

A vida continuou para o rapaz. Um novo garçom fora contratado para o boteco do Barbosa chamado Zaqueu. Zaqueu era um típico carioca morador da Lapa e com toda malandragem típica da região.

Frequentando a Lapa conheceu sua vida noturna cercada de malandros, meretrizes, intelectuais. Gente de todas as espécies que hoje são chamadas de “tribos”. Frequentador de casa noturnas também tentou a sorte em cassinos chegando a ganhar alguma graninha.

Em um desses estabelecimentos conheceu uma prostituta chamada Janete com quem começou um caso. Pepe deixou o morro de Mangueira e foi morar na Lapa na casa de mulher que ficava no segundo andar da boate em que trabalhava. Voltava sempre ao morro, pois, tinha se iniciado no Candomblé e frequentava a casa de Mãe Baiana.

Por causa da vida noturna acabou demitido do bar de Barbosa e passou a ser sustentado por Janete.

Pepe estava totalmente adaptado ao Rio de Janeiro.

Enganava a família dizendo que trabalhava duro, pesado e já era gerente de um restaurante na cidade prometendo que em pouco tempo traria a família toda ao Rio. Sua mãe Dora respondia que estava feliz pelo filho, que ele se cuidasse direitinho e estava preocupada com Salvatore, cada dia mais amargurado.

Pepe também visitava Manuel na cadeia. O homem que não era bobo nem nada notou que o rapaz estava diferente. O jeito de malandro, olheiras pelas noites mal dormidas e mandava que Pepe tomasse jeito, pois, o tempo passava.

Pepe mandava o homem não se preocupar que viera com uma missão ao Rio de Janeiro, enriquecer e iria conseguir. Manuel perguntava como se ele não trabalhava.

Pepe irônico respondia “E desde quando trabalho enriquece alguém?”.

Janete reclamava da situação. Acordava Pepe gritando e contando não aguentar mais sustentar vagabundo. O rapaz não deixava barato e as brigas eram homéricas muitas vezes com agressões físicas mútuas.

Zaqueu, que levara o amigo para a vida de esbórnia e orgia se preocupava e arrumava vários “bicos” para Pepe. Nisso surgiu o bico que mudaria sua vida.

Janete ganhava a vida enquanto Pepe dormia naquele calorão conhecido do Rio de Janeiro. O jovem dormia profundamente quando bateram na porta.

Pepe ainda tentou ignorar, colocou o travesseiro na cabeça, mas a batida era insistente. Irritado levantou-se e atendeu a porta. Era Zaqueu.

Perguntou o que o amigo queria e ele entrou contando que tinha uma boa para os dois. Pepe perguntou o que era e Zaqueu respondeu que uma festa de aniversário.

O rapaz reclamou que festas de aniversário costumavam não pagar bem, mas Zaqueu respondeu que essa era diferente. Era o aniversário da filha única de quinze anos do maior banqueiro de bicho da cidade. Domenico Vergara.

Pepe ouviu a tudo com desdém e Zaqueu riu dizendo “carcamano, deve nem saber o que é jogo do bicho”. Ele respondeu que já jogara algumas vezes e pediu o endereço do aniversário.

Zaqueu anotou o endereço em um papel e entregou a Pepe. O jovem leu e respondeu ao amigo que lhe esperasse lá.

Antes de sair Zaqueu se virou e comentou com Pepe “Vê se pelo menos na próxima vez coloque um calção para receber visitas, não é bom ter que olhar homem nu”.

Um tempo depois Pepe voltara a dormir profundamente quando assustado acordou com água gelada sobre o corpo relembrando a época que chegara ao Rio de Janeiro. Irritado perguntou o que ocorria e era Janete mandando o jovem procurar emprego.

Pepe levantou dizendo que teria trabalho naquela noite, trabalharia como garçom em uma festa. Janete tirou a navalha da bolsa e encostou no rosto do rapaz dizendo achar bom que ele levasse dinheiro para casa e não gastasse um tostão sequer em jogatina.

Pepe na hora marcada chegou à mansão de Domenico e foi recebido por um apressado Zaqueu pedindo que o amigo colocasse rapidamente a roupa de trabalho, pois, a festa já iria começar.

A festa foi no jardim da casa de Domenico. Um imigrante italiano que chegou ao Brasil no fim do século XIX assim como Salvatore. Tentou primeiro a vida em São Paulo e rapidamente chegou ao Rio de Janeiro por fracassar em terras paulistas.

Sem conseguir emprego na capital Federal Domenico teve que trabalhar como apontador do jogo do bicho. Apontador vem a ser o homem que realiza o jogo. Mostrando esperteza e inteligência logo passou a gerente de banca. Local que é feito o jogo e a dono de uma banca no bairro de Feital, zona Norte do Rio de Janeiro.

Com o tempo os negócios foram evoluindo e se tornou um banqueiro do jogo do bicho com várias bancas espalhadas pelo bairro de Feital e outros da proximidade.

Enriqueceu e muito graças ao jogo do bicho.

E a festa mostrava esse poder financeiro de Domenico. Uma orquestra tocava nos jardins e champanhes e cascatas de camarão distribuídos com bastante fartura.

Pepe, Zaqueu e mais dez garçons trabalhavam na festa com mais de trezentos convidados. Um corre-corre danado, a cozinha em polvorosa para que tudo saísse certo e os garçons sem tempo para descanso.

Pepe conseguiu alguns minutos de folga e se afastou um pouco sentando em uma cadeira. Ficou admirando a Lua quando uma moça perguntou se podia sentar na cadeira ao lado.

O rapaz consentiu e ela sentou. Ficaram um tempo em silêncio e a moça para quebrar o gelo perguntou se ele estava gostando da festa. Pepe respondeu que sim, pois, estava ganhando dinheiro e precisava dele.  

Apenas ali a moça percebeu que Pepe era garçom. Rindo pediu desculpas pela gafe e completou que nunca sabia diferenciar roupa de garçom das roupas cheia de pose que rico gostava de usar.

Pepe devolveu a pergunta e perguntou se ela estava gostando da festa. A moça respondeu que nem sabia, não conhecia ninguém ali e se sentia uma intrusa. Pepe riu e brincou que seria bom os dois ficarem ali escondidos mesmo enquanto a festa acontecia.

A moça gargalhou e depois ficaram mais um tempo em silêncio. A moça perguntou se ele era feliz. Pepe não esperava uma pergunta desse tipo e sem jeito respondeu que sim. Devolveu a pergunta e a moça respondeu “É um dos meus maiores sonhos”.

Depois da resposta ficaram de novo em silêncio e Pepe disse que tinha que voltar ao trabalho. A moça respondeu que compreendia e que não queria lhe prejudicar. Pepe agradeceu e se despediu.

Antes de ir perguntou se ela ficaria por lá. A moça respondeu que ficaria apenas mais um pouco porque fatalmente lhe chamariam.

Pepe voltou ao trabalho e serviu as pessoas em um ritmo frenético. Domenico começou a falar no microfone sobre sua vinda ao Brasil, tudo que passou e do amor que sentia por sua filha única sem que Pepe prestasse atenção.

Domenico chamou sua filha Cecília Vergara e a moça caminhou até o pai sob o aplauso de todos. Pepe continuava sem prestar atenção mesmo com Zaqueu comentando que era linda. Domenico ao microfone pediu que a filha dissesse algumas palavras. Tímida e constrangida ela fazia sinais que não queria, mas o pai insistia.

Cecília não teve alternativas e pegou o microfone. Tímida disse “boa noite a todos” e finalmente Pepe se virou para prestar atenção.

Era a moça que conversara com ele.

Trêmula Cecília agradeceu a presença de todos e que esperava que estivessem se divertindo. Todos aplaudiram e ela rapidamente entregou o microfone ao pai e afastou-se.

Passou por Pepe e disse em seu ouvido que aquele seu sonho aumentava cada vez mais.

Pepe continuou trabalhando, mas não conseguia mais se concentrar. Pensava no caso da “pobre menina rica” e ali se tocara que não era por a pessoa ser rica que necessariamente seria feliz.

Sentiu pena de Cecília.

Continuou trabalhando até que a festa acabou. Exausto recolhia as cadeiras, varria enquanto Domenico, cercado por três amigos, ainda conversava.

O homem falava da Itália, de sua infância lá e emocionado lembrava-se de sua mãe. Tentava lembrar da música que ela cantava nas festas e não conseguia. Anos que não conseguia lembrar e aquilo lhe remoía.

Um dos amigos perguntou se ele não lembrava ao menos o nome da música e com muito esforço Domenico lembrou-se. A canção folclórica chamava-se “Reginella campagnola”.

Nenhum dos amigos sabia. Fato que Domenico lamentou.

Mas Pepe sabia.

Pensou por um tempo se devia e encheu-se de coragem. Aproximou-se de Domenico e perguntou “Permita-me?”, o italiano sem nada entender perguntou “O quê?”.

Pepe cantou a música.

All`Alba quando spunta il sole
Là nell` Abruzzo tutto d`or
Le properose camagnole
Discendono le valle in flor
Là..Là..Là..Là..Là

Oh campagnola Bella
Tu sei la reginella
Negliocci tuoi c`e il sole
C`è il colore delle viole
Delle valli tutte in flor
Se canti la tua voce
È un` armonia di pace
Che se diffonde e dice
Se voi vivere felice deve vivere quassù
Là..Là..Là..Là

Quand` la festa Del, paesello
Cone la sua cesta se ne và
Trotterellando I`asinello
La porta verso la città

Oh campagnola Bella
Tu sei la reginella
Negliocci tuoi c`e il sole
C`è il colore delle viole
Delle valli tutte in flor
Se canti la tua voce
È un` armonia di pace
Che se diffonde e dice
Se voi vivere felice deve vivere quassù
Là..Là..Là..Là

Ma poi la será, al tramontare
Com le sue amiche se ne và
E tutta inmtenta a raccontera
Quel che ha visto là in città

Oh campagnola Bella
Tu sei la reginella
Negliocci tuoi c`e il sole
C`è il colore delle viole
Delle valli tutte in flor
Se canti la tua voce
È un` armonia di pace
Che se diffonde e dice
Se voi vivere felice deve vivere quassù
Là..Là..Là..Là

No fim os dois cantavam alegres. Um emocionado Domenico abraçou Pepe e não cansava de dizer “obrigado, muito obrigado”. Pepe sem jeito respondia que não precisava.

Domenico perguntou como ele sabia a canção e Pepe respondeu que era filho de imigrante, que veio para o Brasil no fim do século. Domenico sorriu contando que era igual a ele.

Pepe então pediu licença que tinha muitos afazeres ainda. Virou-se para voltar ao trabalho e Domenico falou “espere”.

O rapaz parou, virou e Domenico argumentou que ele não precisava mais trabalhar naquela noite e perguntou se o rapaz sabia dirigir. Pepe respondeu que sim e Domenico completou perguntando se ele queria trabalhar para a família como chofer.

Pepe viu ali a chance de trabalhar para uma família rica e quem sabe ganhar bem e sorrindo respondeu que sim. Domenico mandou o rapaz ir cedo ao seu escritório no centro de Feital no dia seguinte para acertar tudo.

Perguntou se Pepe sabia chegar. O rapaz naquela noite foi pela primeira vez ao bairro, mas mesmo assim firme respondeu que sim. Mais uma vez Domenico disse “obrigado”.

Por saber uma canção do folclore italiano Pepe conseguira um emprego.

Voltou para a casa e encontrou Janete pintando as unhas do pé sobre a cama. Jogou o dinheiro em cima da mulher e ela se espantou com tanto dinheiro. O rapaz completou contando que arrumara um emprego e foi direito para o banho.

De manhã acertou tudo com Domenico no escritório e foi direto para a mansão dos Vergara. Colocou a roupa de trabalho e encostado no carro esperava sua primeira missão. Levar Cecília para a escola.

A moça desceu pelo jardim em direção ao carro e chegando perto viu Pepe encostado no mesmo. Pepe ao ver sua patroa sorriu e ela pareceu irradiar felicidade ao ver o novo motorista.

Pepe levou Cecília ao colégio e conversaram bastante no caminho. Fizeram uma boa amizade e o rapaz tornou-se íntimo da moça.

Cecília contava detalhes da sua vida, de como se sentia presa naquela casa, sentia a falta da mãe que morrera no ano anterior e como o pai lhe sufocava. Pepe também se abria contando de sua vida e um dia contou a falta que sentia de Beatriz.

Os olhos de Pepe marejaram ao falar do amor de sua vida que perdeu por ser pobre. Cecília limpou suas lágrimas, acariciou seu cabelo e contou que nunca abriria mão de um amor por sua classe social. Amor tinha que ser pra sempre.

Os rostos ficaram perto um do outro, bocas próximas de um beijo, mas Cecília se despediu contando que precisava entrar.

Jogando sinuca Pepe contou o ocorrido a Zaqueu que falou ao amigo que a moça se apaixonara. Pepe riu e respondeu que nunca Cecília se apaixonaria por ele. Um pobre coitado que não tinha onde cair morto.

Zaqueu acertou uma tacada e afirmou que apostaria com o amigo se quisesse, mas a moça estava apaixonada e isso seria muito bom para ele já que Cecília era filha única e Pepe subiria na vida.

Pepe pensativo respondeu que nunca teria coragem de casar por interesse ou se aproveitar de Cecília. Zaqueu acertou outra tacada e falou “cavalo encilhado só passa uma vez”.

Um dia Domenico perguntou se tinha problema em Pepe dormir em sua casa. O rapaz respondeu que não. Domenico contou que passaria uma noite em São Paulo e não queria a filha sozinha, confiava em Pepe e queria o rapaz lá para que a levasse onde quisesse. O jovem concordou.

Avisou a Janete que dormiria no emprego e a mulher irritada perguntou quando ele tinha virado cachorrinho de madame do patrão. Furioso Pepe disse que a mulher nunca estava satisfeita, reclamava por ele estar sem emprego ou quando está empregado. Os dois tiveram mais uma briga e Pepe saiu batendo a porta.

Chegou na mansão e encontrou Cecília sentada no sofá ouvindo música e bebendo vinho. Pepe perguntou se ela já tinha idade para beber e rindo Cecília perguntou quando ele virara seu pai.

Pepe pediu desculpas e Cecília pegou mais uma taça convidando o rapaz para beber.

Pepe sentou e recebeu a taça. Cecília perguntou se Pepe gostava de Carlos Gardel e o rapaz respondeu que sim. Cecília então colocou um disco do artista.

Beberam e Cecília lamentou a morte do cantor “tão jovem ainda”. Pepe respondeu que era verdade e eles continuaram bebendo e conversando. A carência mútua misturada com o álcool fez com que o casal se beijasse ao som de “El dia que me queiras”.

Acabaram fazendo amor, a primeira vez de Cecília.

Cecília acordou em sua cama e ao se notar nua e ver Pepe dormindo ao seu lado deu um grito. O rapaz acordou na hora e assustou-se também ao ver a cena.

Constrangidos os dois rapidamente colocaram as roupas e sem conseguir encarar a moça Pepe pedia desculpas e falava que nunca mais beberia perto dela.

Antes de sair do quarto teve coragem e olhou para a moça. Olhando em seus olhos Pepe pediu que esquecessem aquela noite e nunca comentassem com ninguém o que ocorreu ali. Cecília concordou e Pepe se retirou.

Pepe continuou trabalhando na casa, mas o clima com Cecília ficou diferente. Existia uma barreira entre eles, um grande constrangimento que lhes afastava, não permitia ter a mesma intimidade e fazia Pepe pensar em pedir demissão.

Em um dia de folga Pepe dormia sozinho em casa quando esmurraram a porta. O Rapaz, com muito sono, relutava em atender e mandava voltar mais tarde.

Cansaram de bater e arrombaram a porta. Quatro homens enormes que pegaram Pepe da cama apenas de camiseta e calção e lhe carregaram com o rapaz assustado gritando por socorro.

Empurraram Pepe para dentro de um carro e saíram em disparada.

Algo de muito grave ocorria.


CAPÍTULO ANTERIOR:

CHIBATA

quinta-feira, 19 de maio de 2016

SOBE O SOM: BEYONCÉ


Beyoncé Giselle Knowles Carter (Houston, 4 de setembro de 1981), mais conhecida simplesmente como Beyoncé, é uma cantora, compositora, atriz, dançarina, coreógrafa, arranjadora vocal, produtora, diretora de vídeo e empresária americana nascida e criada em Houston, no Texas.

Cantora desde a infância, Beyoncé se tornou conhecida no ano de 1997, como uma das vocalistas do grupo feminino de R&B Destiny's Child, que já vendeu mais de 50 milhões de discos mundialmente. Em 2003, ela lançou seu álbum de estreia em carreira solo, Dangerously in Love. O álbum teve um bom desempenho comercial . No ano seguinte foi premiada com cinco Grammy Awards. Em 2006, lançou seu segundo álbum de estúdio, B'Day, dando continuidade a sua carreira solo depois da separação do grupo Destiny's Child em 2005. B'Day se tornou seu segundo disco consecutivo em primeiro lugar na Billboard 200.

Nos Grammy Awards de 2010, Beyoncé se tornou a artista feminina que mais foi premiada em apenas uma edição da premiação, por vencer seis das dez categorias em que estava concorrendo. Atualmente Beyoncé já ganhou ao longo de sua carreira 20 Grammys (17 em carreira solo e 3 com o grupo Destiny's Child). Ela é uma dos artistas que mais ganhou esse prêmio.

Então vamos lá!!

Sobe o som Beyonce!!


Halo


If I were a boy


Crazy in love


Formation


Drunk in love


Listen


Run the world


Partition


Love on top


Sorry


Don`t hurt yourself


Bem. Aí está um pouco da história dessa grande diva internacional. Semana que vem tem explosão de cultura nacional. Tem funk.


Enquanto isso uma música para os solteiros.


SOBE O SOM ANTERIOR:

KID ABELHA

quarta-feira, 18 de maio de 2016

CINEBLOG: O ADVOGADO DO DIABO


Cineblog fala hoje de um filme que fez sucesso nos anos 90 e que influenciou minha vida como escritor

Cineblog orgulhosamente apresenta:


O advogado do Diabo



The Devil's Advocate (no Brasil, Advogado do Diabo), é um filme estadunidense de 1997, do gênero suspense, dirigido por Taylor Hackford e estrelado por Al Pacino e Keanu Reeves.


Sinopse



Kevin Lomax, advogado de uma pequena cidade da Flórida, que nunca perdeu um caso, é contratado por John Milton, dono da maior firma de advocacia de Nova York. Kevin passa a receber um alto salário e a contar com diversas mordomias, porém sofre a desaprovação de sua mãe, Alice Lomax, uma religiosa fervorosa que compara Nova York à Babilônia.

No início, tudo parece correr bem, mas logo Mary Ann, esposa de Lomax, passa a sentir saudades de sua antiga casa e ter visões demoníacas. No entanto, Kevin, empenhado em defender as causas de seus clientes, entre eles um acusado de triplo homicídio, dá pouca atenção à mulher, enquanto seu misterioso chefe parece sempre saber como contornar cada uma das situações que perturbam o jovem advogado.


Elenco



Keanu Reeves como Kevin Lomax
Al Pacino como John Milton
Charlize Theron como Mary Ann
Judith Ivey como Alice Lomax
Jeffrey Jones como Ed Barzoon


Semana que vem Cineblog volta com um filme cult dos anos 60. Sem destino.



CINEBLOG ANTERIOR:

O GRANDE DITADOR

segunda-feira, 16 de maio de 2016

TROCANDO EM VERSOS ESPECIAL: VALSA PARA UMA MENININHA


Mais uma vez que coloco aqui uma letra que não fui eu quem fez. Mas, ao contrário da indignação decorrente da postagem da letra "Brasil". Hoje é com alegria.

"Valsa para uma menininha" é marcante para mim desde minha infância. Minha mãe cantava para mim quando eu era pequeno adaptando para "menininho" e só depois de grande descobri que fora feita para uma menina. Quis o destino que meu primeiro filho fosse menina. Uma linda menina chamada Ana Beatriz e todas as noites canto essa música para ela antes que durma.

Bia, Biazinha, Bibica cara de pinica, bibiquinha, princesa a dona da minha poesia..Muitos são os nomes que eu te chamo quando na verdade devia te chamar de "amor". Você me fez sentir um amor que nunca mais achei que sentiria na vida. Despertou em mim sentimentos tão bonitos e já esquecidos pelas tristezas que a vida dá. Que bom que você surgiu Bia. Que bom que Deus me deu a alegria e orgulho de ser seu pai. São sete anos de imensa felicidade e gratidão.

Hoje o "Trocando em versos" é para você. Para sempre todos os meus versos serão para você.



VALSA PARA UMA MENININHA

(Vinícius de Moraes / Toquinho)


Menininha do meu coração 
Eu só quero você a três palmos do chão
Menininha não cresça mais não
Fique pequenininha na minha canção
Senhorinha levada batendo palminha
Fingindo assustada com o bicho papão
Menininha que graça é você
Uma coisinha assim
Começando a crescer
Fique assim meu amor sem crescer
Porque o mundo é ruim
É ruim e você vai sofrer de repente
Uma desilusão, pois a vida somente é
Teu bicho papão
Fique assim, fique assim, sempre assim
E se lembre de mim pelas coisas que eu dei
E também não se esqueça de mim
Quando souber enfim
Do quanto que eu amei...



TROCANDO EM VERSOS ANTERIOR:

TRIBUTO A UM DESCONHECIDO

CHOREI, CHOREI..


Poderia falar de forma técnica sobre Cauby Peixoto. Sobre sua imensa voz que lhe faz o maior cantor do Brasil. Poderia falar de sua história, mas não. Muitos falarão sobre isso. Prefiro falar da dor.

Que dor..Desde a morte de Michael Jackson não sentia isso, não deixava cair lágrimas com a morte de uma celebridade, alguém que eu não conhecia.

Acho que aí está o erro. Eu não apenas conhecia Cauby Peixoto. Ele fazia e faz parte da minha vida de forma essencial.

Podem estranhar como um cara que ainda não chegou aos 40 anos ter em Cauby Peixoto como um dos maiores ídolos da sua vida. Diria que essa história tem uma culpada. Dona Lieida Quintanilha de Castro Villar. A minha avó.

Perdi as contas de quantas vezes acordei quando criança ouvindo a voz de Cauby entrando na minha mente e se misturando a meus sonhos. Cauby, Julio Iglesias, Agnaldo Timóteo e Ângela Maria eram suas preferências musicais e logo de manhã colocava seus ídolos alto na vitrola e ia arrumar a casa ou fazer almoço. Os vizinhos se juntavam e sentavam na frente da minha casa para ouvir. Todos embevecidos.

E eu irritado descia as escadas tendo que aturar aquela "música de velho". Eu gostava de Michael Jackson, rock nacional, não queria saber daquela velharia.


Na grande maioria das vezes que eu ouvia a voz de Cauby em minha casa era sinal que a mesma estava feliz. Várias vezes me deparei com a cena de Cauby na vitrola cantando Bastidores, Amei você, Ave Maria no Morro ou a mítica Conceição enquanto minha avó e minha mãe arrumavam a mesa e preparavam os quitutes porque o namorado de minha avó estava chegando. Era o campari na mesa junto com torradas, patê e a trilha sonora. Ele chegava em seu Santana e íamos todos para a mesa lanchar, depois minha mãe me levava ao colégio.

Minha avó foi a vários shows do Cauby, tinha inúmeras fotos e me levou a um em uma boate que existia no aeroporto internacional do Rio. Cabelo enroladinho, bigode fino, roupa espalhafatosa, lembro  pouco daquele show, mas lembro das mulheres gritando e do carinho que ele tratou a minha avó. Tantos shows que ela foi que ele já lhe conhecia.

Também teve apresentação do Cauby no famoso show de 1º de maio no Riocentro que minha mãe foi e explodiu a bomba no colo dos militares. História que sempre minha mãe contava e eu me lembro muito bem, assim como ele lembrava de sua querida Conceição.

Muitas histórias..Muitas saudades.

Saudades de minha mãe, imensas e doídas, de minha avó que hoje está velhinha e mora em uma clínica em Curitiba, do namorado dela que morreu de câncer no fim do anos 90. Restou mais nada daquela época. Nem existe mais vitrola, o campari já foi todo bebido. Só restou a mim e essa maldita saudade.

Porque nem o Cauby está mais aqui.


O que era chato quando criança virou admiração com a maturidade. Admiração pelo talento, pelo carisma. O que era chato virou lembrança e o que era lembrança virou saudade.

Tinha como sonho um dia levar minha avó para rever "seu amigo" Cauby cantando. Mais um sonho que se vai sem ser realizado. Nem sei como vão contar para ela que ele morreu.

A morte de Cauby Peixoto para mim é carregada de simbolismos. Com ele morreu mais uma enorme parte de minha infância, das minhas memórias. Com ele mais um pedacinho de mim.

Difícil crescer, difícil virar adulto e olhar para trás vendo que nem tudo que você amava prosseguiu junto nessa caminhada.

Costumo pensar bem nos textos que escrevo, mas esse foi no impulso, na emoção do acontecido. Nem sei se ficou bom. Mas tem momentos que não precisamos ser bons, temos que ser verdadeiros.

"Lembro eu deitado na relva
No frio da manhã
Numa clareira da aldeia Tupi
Entre mil pássaros só uma voz
Uma voz, minha mãe
Música doce
Chamando meu nome
Cauby! Cauby!"


Cauby foi homenageado um um livro meu. "Era da Violência 2" tinha um traficante chamado Cauby Peixoto que alegava ter esse nome porque sua mãe se chamava Conceição. Tem nada mais nada menos que quatorze textos nesse blog em que seu nome é citado e são duas as colunas dedicadas a ele e que colocarei links. Obrigado por tudo professor.


Chorei..Chorei..


Até ficar com dó de mim...


LINKS RELACIONADOS:

SOBE O SOM: CAUBY PEIXOTO 

ELES, EU E MINHA AVÓ