sexta-feira, 6 de maio de 2016

DINASTIA: CAPÍTULO XII - RIO DE JANEIRO


Completamente derrotado Pepe voltou para o Brás. Abriu a porta de casa e ouviu um som “Santa Lucia” cantada por Enrico Caruso tocava no gramofone.

Andou até a sala e encontrou seu pai de olhos fechados ouvindo. Estava sozinho. Pepe lembrou que não era o único a sentir dor naquele dia. Seu pai perdera a mãe.

Sentou-se em um sofá em silêncio ouvindo a música e olhando Salvatore. O homem quieto ouvia sem esboçar nenhuma reação física, totalmente inerte como se não estivesse ali.

De repente começou a falar contando ao filho como era a vida na Itália. Não era a primeira, nem a segunda vez que ele falava de Nápoles. Mas daquela vez era diferente. Falava com tristeza, saudade. Falava com dor.

Pepe apenas ouvia juntando sua dor a do pai. Salvatore olhando para o vazio contou que nunca conseguira ser feliz de verdade no Brasil, a vida colocou muitas tragédias na sua frente.

Pepe perguntou se o pai não era feliz nem por ter construído a família. Ainda de olhos fechados o homem respondeu que família era universal, teria construído em qualquer lugar, mas que apesar de São Paulo ter lhe acolhido bem ele não conseguiu o que queria, vencer.

Pepe ouviu e perguntou “Como não? O senhor tem uma casa, uma loja”. Salvatore finalmente abriu os olhos, olhou para o filho e respondeu “Tem gente que veio da Itália e tem fazendas, indústrias, eu tenho uma pequena loja que nem posso tomar conta direito por minhas pernas não obedecerem”.

Pepe ficou em silêncio, o ambiente ficou quieto com essa quietude sendo cortada apenas por Enrico Caruso e Salvatore completou “O que mais me dói é saber que nunca mais voltarei a Itália”.

Pepe levantou, foi até dentro da casa e voltou com um vinho e duas taças. Abriu o vinho, encheu as taças e falou “Não vamos até a Itália, mas a Itália vem a nós, viva a Itália!!”.

Salvatore com a taça na mão olhou o filho por um tempo e respondeu “Viva a Itália”.

Os dois brindam e bebem com a companhia de Santa Lucia.

O dolce Napoli
O suol beato
Ove sorridere
Volle il creato
Tu sei I`impero
Dell`armonia
Santa Lucia! Santa Lucia!

Ao deitar Pepe lembra de Beatriz. Pensa que naquele instante ela está nos braços de outro e seu coração ferve ao mesmo tempo em que o corpo gela. Sente uma grande dor no peito, nunca mais teria seu amor.

Pensa no pai também, nas palavras que ele disse, do jeito derrotado que se sentia e não queria aquele destino para ele.

Queria enriquecer não importava como e fazendo o que.

Naquela noite não conseguiu dormir e a chuva batia na janela como na noite de amor com Beatriz e naquela noite tomou uma decisão.

Iria embora de São Paulo.

Comunicou à família no café da manhã provocando grande choque em todos. Oscar perguntou quem tomaria conta da loja enquanto ele estivesse no futebol. Salvatore respondeu que era aleijado, mas estava vivo e poderia muito bem dar conta, completou afirmando que “a bonequinha lhe ajudaria”.

Deu um sorriso para Mariana que sorriu de volta mostrando estar ambientada aos Granata. Dora pediu ao filho que não fizesse isso por ser uma loucura. Salvatore mandou que a mulher não interrompesse os planos do filho, que se era para ele vencer e ser feliz fazia gosto.

Aproveitando que naquele dia Giuliana voltaria para o convento decidiu partir. Subiu e fez a mala sob olhar de Oscar que nada dizia. Ao terminar o irmão perguntou se ele realmente estava certo da atitude.

Pepe respondeu que sim, como poucas vezes estivera na vida. Oscar então lhe deu um abraço desejando boa sorte.

Pepe pediu que o irmão tomasse conta da família e ele respondeu que tomaria. O rapaz se despediu e saiu do quarto, mas resolveu voltar para as últimas palavras. Uma promessa a Oscar.

“Eu vou enriquecer e vou lhe buscar”.

Apertou a mão do irmão para firmar a promessa e Oscar lhe deu um novo abraço dizendo que esperaria por esse dia.

Desceu e se despediu de Constância. A mulher chorosa lhe deu um abraço dizendo que nunca esqueceria “seu bambino”. Pepe agradeceu por tudo e em seu ouvido disse “obrigado por me fazer homem”.

Agachou-se e deu um beijo em Mariana que gastando todo seu italiano respondeu “ti ringrazio tanto”. Pepe se emocionou, abraçou a menina e disse que ela não precisava agradecer nada e já era uma Granata.

Chegou à frente da mãe, lhe deu um beijo na testa e disse que escreveria sempre. Dora com lágrimas nos olhos pediu que o filho se cuidasse e que se tivesse algum aperto que voltasse, pois, estariam todos de braços abertos.

Pepe agradeceu, mas respondeu que não voltaria derrotado. Por fim chegou a hora de se despedir do pai.

Pepe se abaixou e pediu a benção. Salvatore respondeu “Deus lhe abençoe” e completou que era a última vez que se veriam em vida.

Pepe pediu que o pai não falasse daquela forma e que se veriam muito ainda. Salvatore respondeu que não, mas não se sentia amargurado por isso, pois, sabia que o filho venceria na vida. Completou dizendo.

“Você é um Granata, tem sangue Granata, faísca nos olhos e vencerá na capital e onde eu estiver terei muito orgulho”.

Pepe deu um abraço emocionado no pai e disse que lhe amava. Salvatore respondeu “também te amo muito filho querido”.

Limpando as lágrimas Pepe levantou e chamou Giuliana que se despedia dos familiares para partirem.

Abriu a porta, a irmã saiu, respirou fundo e foi embora.

Compraram as passagens e Giuliana foi a primeira a embarcar. Antes de subir ao trem deu um abraço no irmão e pediu que ele nunca se esquecesse que Deus sempre estaria ao seu lado. Pepe respondeu que nunca esqueceria e agradeceu por toda ajuda em relação a Beatriz.

Giuliana subiu no trem e ainda na porta virou-se para o irmão e disse “Pena que minha amiga não teve forças para ficar com um homem maravilhoso como você”.

O trem partiu e Pepe sentou-se em um banco a espera do seu. Assim como ficara esperando por Beatriz em vão. Lembrou-se de todos os momentos esperando a amada e de todas as suas frustrações.

Chegou a hora de partir e antes de subir no trem prometeu “só volto a essa cidade rico”.

Dormiu profundamente na viagem. Dormiu todo o sono acumulado pela tensão dos últimos anos e só acordou no Rio de Janeiro.

Eram meados dos anos 30 e Pepe Granata chegou ao Rio de Janeiro justamente no carnaval. Andando com sua mala pelas ruas da
Capital Federal viu um monte de pessoas fantasiadas jogando
confetes e serpentinas ao som de “mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar” e “Chiquita bacana lá da Martinica”.

Viu uma alegria, uma festa que não estava acostumado em São Paulo, lembrava muito a Itália que seu pai tanto contava.

Pepe entrou em um bonde e disse ao condutor que queria ver o mar. O homem respondeu que ele pegara o bonde certo e lhe convidou a sentar.

Pepe deslumbrado via o Rio de Janeiro através do bonde. Viu blocos, ranchos, cordões, ouviu marchinhas, batuques. Perguntou ao condutor se a cidade era sempre assim e o homem rindo respondeu que não, apenas no carnaval, mas tinha a impressão que o Rio de Janeiro era uma festa pertinente.

Pepe sorriu e comentou que as pessoas na cidade pareciam felizes. O condutor riu e perguntou ao rapaz “Moço, tem como não ser feliz com esse visual?”.

Não..Não tinha como.

Chegou em Copacabana. Área com algumas construções e muito verde. Perguntou o caminho da praia e andou até ela. Avenida Atlântica.

Viu carros andando na rua e mãe levando bebês em seus carrinhos na larga calçada. Extasiou-se com a vista, o mar. Achou mais bonito que o de Santos.

Viu que algumas pessoas tomavam banho de mar e resolveu aproveitar. Tirou a roupa ficando de calção e se jogou nas águas.

Voltou do mergulho revigorado, feliz. Estendeu os braços para o alto e gritou que seria feliz naquela cidade e nada lhe deteria. Naquele instante uma onda veio e lhe derrubou.

Foi difícil, mas ele conseguiu achar o calção.

Recompôs-se e achou uma pensão para se hospedar. Hospedou-se e começou a procurar emprego no mesmo dia não encontrando nada.

Levou um dinheiro consigo que gastou na hospedagem, alimentação e ele foi partindo a cada dia não sendo reposto pela dificuldade de trabalhar.

A situação foi ficando crítica. Começou a atrasar o pagamento na pensão até que um dia o senhorio não aguentou mais suas desculpas e lhe colocou pra fora.

Sem eira nem beira, com pouco dinheiro que só dava pra comer pão duro e sem dinheiro para procurar outro quarto só restou a Pepe dormir na rua.

O homem arrumou um papelão na rua e deitou na frente de um pequeno prédio. Jurava a si mesmo que não voltaria a São Paulo nem pediria ajuda a família quando sentiu uma água gelada no corpo.

Uma senhora de sua janela jogara água em Pepe dizendo que não queria ninguém dormindo em sua calçada.

Pepe pediu desculpas. Humilhado, molhado se levantou e partiu.

Vagou pelo Rio de Janeiro se perguntando se aquela cidade era feliz e acessível como pensara. Pela primeira vez Pepe pensou se tinha valido a pena ir embora de São Paulo, de sua família para aquela “aventura”, pela primeira vez pensou se conseguiria cumprir a promessa que fez ao pai, família e principalmente ao pai de Beatriz.

Depois de vagar, sentir fome e não ter mais dinheiro nem para o pão decidiu que tinha que descansar. Viu um estabelecimento fechado e pensou em dormir na frente. Não achou papelão, mas achou jornal e decidiu deitar em cima.

Uma das manchetes do jornal era sobre as Olimpíadas de Berlim e contava a vitória do negro Jesse Owens sobre a Alemanha de Hitler.

Pepe ainda nem desconfiava sobre como os negros teriam influência em sua vida.    

Deitou sobre o jornal e uma chuva torrencial caiu sobre a cidade. Por sua sorte estava protegido por um parapeito.

Com a chuva veio frio e Pepe não tinha como se proteger do mesmo, apenas se encolhendo. Perguntou se valia a pena realmente passar por tudo aquilo e como alguns anos atrás o pai fez perguntou porque Deus não gostava dele.

Logo depois adormeceu.

Dormiu profundamente e nem viu a chuva passar. Como é costume no Rio de Janeiro o Sol não se intimidou com a forte chuva e apareceu brilhante na capital Federal. Barbosa, um careca português com vasto bigode abriu o estabelecimento, que era um bar e reclamou da presença do rapaz no local. Pediu que seu garçom se livrasse de Pepe.  

O garçom, um negro na altura de seus cinquenta anos, cabelos grisalhos, um pouco curvado e com passos lentos e firmes aproximou-se de Pepe e com doçura lhe tocou pedindo que acordasse.

Pepe dormia pesado e se assustou com o toque dando um salto e ficando sentado. O homem pediu que não se assustasse, pois, era amigo, mas ele não podia dormir ali.

Pepe esfregou os olhos e pediu desculpas ao senhor dizendo que não tinha onde dormir e só conseguiu ali, mas aquilo não se repetiria. O rapaz levantou, deu bom dia ao homem e começou a andar.

O garçom gritou “espere” e Pepe parou. Virou-se e perguntou o que ele queria, o homem perguntou “O que um rapaz tão forte e tão moço faz dormindo na rua?”.

Pepe aproximou-se e respondeu “Vim de São Paulo tentar a sorte aqui apenas com a cara e a coragem, mas não consigo emprego. A coragem está indo embora e a cara humilhada”.

O homem olhou um pouco o rapaz e perguntou “Está com fome?”. Pepe olhou para um lado, o outro e respondeu “Meu orgulho mandaria dizer ao senhor que não, mas estou sim, com muita fome”.     

O senhor negro mandou que Pepe entrasse e sentasse. Voltou com uma média com pão e manteiga imediatamente devorada por Pepe. Quando o rapaz terminava de comer Barbosa apareceu e perguntou “Manuel, já colocaste o aviso que contratamos garçom na porta?”.

O negro de pronto respondeu “Não precisa sr Barbosa, já contratei um, esse rapaz aqui”. 

Pepe se assustou com a resposta de Manuel e o dono do bar respondeu que tudo bem e que eles começassem logo o serviço.

Pepe perguntou “mas como?” e Manuel respondeu que o salário não era muito bom, mas pelo menos o suficiente para não morar na rua e se alimentar direito. Pepe continuou não acreditando e alegou que nunca trabalhara de garçom na vida e nem sabia como era o serviço.

O negro riu e comentou “Não tem mistério, é só me imitar” e mandou Pepe levantar para trabalharem.

Manuel levantou, olhou para Pepe, estendeu a mão e perguntou “vamos?”.

Pepe olhou por uns segundos o homem, sorriu e estendeu a mão apertando a de Manuel e respondendo “vamos”.

Um aperto de mão que mudava sua vida.


CAPÍTULO ANTERIOR:

BEATRIZ

Nenhum comentário:

Postar um comentário