terça-feira, 31 de maio de 2016

A VOZ DOS EXCLUÍDOS


Como todo mundo já sabe ocorreu um terrível caso de estupro coletivo em uma favela do Rio de Janeiro. Uma jovem foi filmada dopada em uma cama e as suspeitas são que trinta e três criminosos tenham participado do ato.

O caso provoca uma grande comoção em todo país e com ele um debate sobre o que chamam de "Cultura do estupro". Uma tradição machista que existe no Brasil onde desde crianças os homens veem as mulheres como "pedaços de carne" e motivos para satisfação masculina.

Várias situações são citadas como referências da cultura do estupro como desde cedo o menino ser criado para ser o garanhão e a menina a santa, que mulher não pode ir a certos lugares sozinhas, que homem que é homem tem que dar cantadas chulas mesmo em mulheres desconhecidas nas ruas e que a mídia ajuda nessa cultura seja com comerciais onde o corpo da mulher aparece mais vendável que o produto e a música.

Aí o funk entra na história.

Faz algum tempo que eu queria escrever sobre o funk e tinha programado para esta semana, mesmo antes do caso ocorrer. Semana passada fiz um "sobe o som" sobe o funk e sua história e hoje iria entrar nessa história. Infelizmente os fatos acabaram ajudando.

Evidente que o funk atual é uma música machista. A música mais famosa do gênero atualmente se chama "Baile de favela". Uma música que usa palavras chulas em relação a mulher e o clip é de horrorizar qualquer um. Eu, que me considero um cara moderno, não acreditei que as meninas se prestassem a fazer o que fizeram no clip. Elas se abaixavam, ficavam de quatro para serem bolinadas pelos garotos e cantavam a letra machista sem menor pudor.  

A música é um sucesso, toca em rádios e em televisão com a letra modificada e até o jogador da Juventus da Itália, o francês Pogba postou vídeo escutando.


Mas mesmo com tudo isso não posso culpar o funk, nem essa música em específico.

Apesar do refrão grudento e que não sai da minha cabeça não é o tipo de música que eu curto. A letra é pobre, praticamente não existe melodia. Mas vi a história de vida do autor, o Mc João, e não tem como não se comover.

Um menino como vários outros meninos que teve que trabalhar desde cedo para sustentar a família, que perdeu vários amigos para o tráfico e a morte, que muitas vezes abria a geladeira e não tinha o que comer e hoje ganha 15 mil por show e mudou o patamar de sua família.

Existe um grande preconceito em relação ao funk e admito que muitas vezes ele não se ajuda. Quando deprecia a mulher ou exalta o tráfico ele é machista ou se associa a violência, mas eu tento ver o funk além disso, tento ver além do estereótipo que a classe média branca impôs.

O funk é voz. Ele é voz de uma parte da sociedade que é excluída, marginalizada. É a voz do preto, do pobre, do favelado, é a forma que eles encontraram de se expressarem.

Não é a forma mais poética de expressão, mas é a forma que eles conhecem. O funkeiro nada mais é que o fotógrafo de uma paisagem e ele tira as fotos da paisagem que sempre conviveu, por mais feia que possa ser. É sim uma forma de arte, uma forma de cultura por mais que a gente não goste. Como me falaram outro dia cultura não tem que ser necessariamente algo que nos agrade. Não dá para exigir de alguém que teve pouco estudo, vive no limite entre a pobreza e a miséria, convive com a violência em seu dia a dia que tenha uma música da qualidade de um Chico Buarque e Caetano Velloso. Até porque muitos de outros gêneros musicais tiveram essas oportunidades e não conseguem.

Temos que combater a intolerância, o ódio, o preconceito assim como temos que combater o racismo e o machismo. A mulher que é violentada em sua dignidade todos os dias é tão vítima da sociedade em que vivemos quanto o negro da favela. Precisamos prestar mais atenção no que essas vozes querem nos dizer. Não precisamos gostar, mas precisamos ouvir.

Existem várias formas de funk, não apenas "proibidões" e machismo. Mc Marcinho e Claudinho & Buchecha são exemplos de como pode existir romantismo e poesia no funk. Buchecha é um dos grandes expoentes do gênero e teve canções regravadas por astros da MPB. Desafio alguém que mostre uma música tão bonita, emocionante e contundente feita nos últimos vinte e cinco anos como o "Rap da felicidade" feito pela dupla Cidinho & Doca. Essa música é aquela que diz "Eu só quero é ser feliz / andar tranquilamente na favela em que eu nasci".

Essa música abaixo, por exemplo, é um funk.


Assim como o samba um dia foi renegado, sofreu preconceitos (Hoje infelizmente está engomadinho e chapa branca) o funk sofre tudo isso hoje em dia. O funk hoje é o que o samba foi um dia. A voz de quem não tem voz.

Vamos dar voz a essas pessoas, mesmo nem tudo que eles nos digam agrade.


Afinal, só queremos ser felizes.

 

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