sexta-feira, 20 de maio de 2016

DINASTIA: CAPÍTULO XIV - CECÍLIA


Já era começo de 1937, primeiros dias de Janeiro e Pepe estava na janela do barraco no morro de Mangueira assistindo conjuntos de pastores e pastorinhas percorrendo o morro e entoando as suas cantorias. Uma tradição na favela entre o dia de Natal e o dia de Reis.

Morava ainda no barraco de Manuel e Romeu. Romeu fora morto e Manuel estava preso na penitenciária do Frei Caneca. O crime de Manuel ganhou grande repercussão e ficou conhecido como “O crime da rua Matoso”.

Pepe foi visitar Manuel na cadeia e encontrou um homem triste e resignado. Tentou dar forças ao homem dizendo que o juiz entenderia que ele passara por um grande drama. Manuel riu e afirmou que se fosse branco até poderia ser, mas sendo negro, sem chance.

O homem riu e perguntou se Pepe sabia quem estava preso lá. O rapaz não soube responder e Manuel sorrindo contou “Graciliano Ramos”.

Ao notar que Pepe desconhecia o escritor Manuel recomendou que o rapaz lesse “Caetés”. Um grande livro.

Finalizou contando que os livros não deixavam que ele enlouquecesse.

Chegou o julgamento e esse ganhou bastante repercussão da imprensa. Finalmente seria julgado o “crime da rua Matoso” e o clima não estava bom para Manuel.

A imprensa e a opinião pública se voltou contra o homem que sofreu um linchamento moral. Falavam em nome da moral, da família, mas o certo era que a cor influenciava muito.

Uma multidão na frente do fórum se manifestava contra Manuel e dentro do mesmo o massacre continuava. No fim Manuel foi condenado a vinte anos e quatro meses de cadeia.

O homem foi levado pelos guardas e antes de desaparecer por uma sala gritou para que Pepe cuidasse de suas plantinhas. Sorriu e foi levado embora.

Pepe cuidou das plantas como Manuel pediu e fez mais, cuidou da casa com muito carinho.

A vida continuou para o rapaz. Um novo garçom fora contratado para o boteco do Barbosa chamado Zaqueu. Zaqueu era um típico carioca morador da Lapa e com toda malandragem típica da região.

Frequentando a Lapa conheceu sua vida noturna cercada de malandros, meretrizes, intelectuais. Gente de todas as espécies que hoje são chamadas de “tribos”. Frequentador de casa noturnas também tentou a sorte em cassinos chegando a ganhar alguma graninha.

Em um desses estabelecimentos conheceu uma prostituta chamada Janete com quem começou um caso. Pepe deixou o morro de Mangueira e foi morar na Lapa na casa de mulher que ficava no segundo andar da boate em que trabalhava. Voltava sempre ao morro, pois, tinha se iniciado no Candomblé e frequentava a casa de Mãe Baiana.

Por causa da vida noturna acabou demitido do bar de Barbosa e passou a ser sustentado por Janete.

Pepe estava totalmente adaptado ao Rio de Janeiro.

Enganava a família dizendo que trabalhava duro, pesado e já era gerente de um restaurante na cidade prometendo que em pouco tempo traria a família toda ao Rio. Sua mãe Dora respondia que estava feliz pelo filho, que ele se cuidasse direitinho e estava preocupada com Salvatore, cada dia mais amargurado.

Pepe também visitava Manuel na cadeia. O homem que não era bobo nem nada notou que o rapaz estava diferente. O jeito de malandro, olheiras pelas noites mal dormidas e mandava que Pepe tomasse jeito, pois, o tempo passava.

Pepe mandava o homem não se preocupar que viera com uma missão ao Rio de Janeiro, enriquecer e iria conseguir. Manuel perguntava como se ele não trabalhava.

Pepe irônico respondia “E desde quando trabalho enriquece alguém?”.

Janete reclamava da situação. Acordava Pepe gritando e contando não aguentar mais sustentar vagabundo. O rapaz não deixava barato e as brigas eram homéricas muitas vezes com agressões físicas mútuas.

Zaqueu, que levara o amigo para a vida de esbórnia e orgia se preocupava e arrumava vários “bicos” para Pepe. Nisso surgiu o bico que mudaria sua vida.

Janete ganhava a vida enquanto Pepe dormia naquele calorão conhecido do Rio de Janeiro. O jovem dormia profundamente quando bateram na porta.

Pepe ainda tentou ignorar, colocou o travesseiro na cabeça, mas a batida era insistente. Irritado levantou-se e atendeu a porta. Era Zaqueu.

Perguntou o que o amigo queria e ele entrou contando que tinha uma boa para os dois. Pepe perguntou o que era e Zaqueu respondeu que uma festa de aniversário.

O rapaz reclamou que festas de aniversário costumavam não pagar bem, mas Zaqueu respondeu que essa era diferente. Era o aniversário da filha única de quinze anos do maior banqueiro de bicho da cidade. Domenico Vergara.

Pepe ouviu a tudo com desdém e Zaqueu riu dizendo “carcamano, deve nem saber o que é jogo do bicho”. Ele respondeu que já jogara algumas vezes e pediu o endereço do aniversário.

Zaqueu anotou o endereço em um papel e entregou a Pepe. O jovem leu e respondeu ao amigo que lhe esperasse lá.

Antes de sair Zaqueu se virou e comentou com Pepe “Vê se pelo menos na próxima vez coloque um calção para receber visitas, não é bom ter que olhar homem nu”.

Um tempo depois Pepe voltara a dormir profundamente quando assustado acordou com água gelada sobre o corpo relembrando a época que chegara ao Rio de Janeiro. Irritado perguntou o que ocorria e era Janete mandando o jovem procurar emprego.

Pepe levantou dizendo que teria trabalho naquela noite, trabalharia como garçom em uma festa. Janete tirou a navalha da bolsa e encostou no rosto do rapaz dizendo achar bom que ele levasse dinheiro para casa e não gastasse um tostão sequer em jogatina.

Pepe na hora marcada chegou à mansão de Domenico e foi recebido por um apressado Zaqueu pedindo que o amigo colocasse rapidamente a roupa de trabalho, pois, a festa já iria começar.

A festa foi no jardim da casa de Domenico. Um imigrante italiano que chegou ao Brasil no fim do século XIX assim como Salvatore. Tentou primeiro a vida em São Paulo e rapidamente chegou ao Rio de Janeiro por fracassar em terras paulistas.

Sem conseguir emprego na capital Federal Domenico teve que trabalhar como apontador do jogo do bicho. Apontador vem a ser o homem que realiza o jogo. Mostrando esperteza e inteligência logo passou a gerente de banca. Local que é feito o jogo e a dono de uma banca no bairro de Feital, zona Norte do Rio de Janeiro.

Com o tempo os negócios foram evoluindo e se tornou um banqueiro do jogo do bicho com várias bancas espalhadas pelo bairro de Feital e outros da proximidade.

Enriqueceu e muito graças ao jogo do bicho.

E a festa mostrava esse poder financeiro de Domenico. Uma orquestra tocava nos jardins e champanhes e cascatas de camarão distribuídos com bastante fartura.

Pepe, Zaqueu e mais dez garçons trabalhavam na festa com mais de trezentos convidados. Um corre-corre danado, a cozinha em polvorosa para que tudo saísse certo e os garçons sem tempo para descanso.

Pepe conseguiu alguns minutos de folga e se afastou um pouco sentando em uma cadeira. Ficou admirando a Lua quando uma moça perguntou se podia sentar na cadeira ao lado.

O rapaz consentiu e ela sentou. Ficaram um tempo em silêncio e a moça para quebrar o gelo perguntou se ele estava gostando da festa. Pepe respondeu que sim, pois, estava ganhando dinheiro e precisava dele.  

Apenas ali a moça percebeu que Pepe era garçom. Rindo pediu desculpas pela gafe e completou que nunca sabia diferenciar roupa de garçom das roupas cheia de pose que rico gostava de usar.

Pepe devolveu a pergunta e perguntou se ela estava gostando da festa. A moça respondeu que nem sabia, não conhecia ninguém ali e se sentia uma intrusa. Pepe riu e brincou que seria bom os dois ficarem ali escondidos mesmo enquanto a festa acontecia.

A moça gargalhou e depois ficaram mais um tempo em silêncio. A moça perguntou se ele era feliz. Pepe não esperava uma pergunta desse tipo e sem jeito respondeu que sim. Devolveu a pergunta e a moça respondeu “É um dos meus maiores sonhos”.

Depois da resposta ficaram de novo em silêncio e Pepe disse que tinha que voltar ao trabalho. A moça respondeu que compreendia e que não queria lhe prejudicar. Pepe agradeceu e se despediu.

Antes de ir perguntou se ela ficaria por lá. A moça respondeu que ficaria apenas mais um pouco porque fatalmente lhe chamariam.

Pepe voltou ao trabalho e serviu as pessoas em um ritmo frenético. Domenico começou a falar no microfone sobre sua vinda ao Brasil, tudo que passou e do amor que sentia por sua filha única sem que Pepe prestasse atenção.

Domenico chamou sua filha Cecília Vergara e a moça caminhou até o pai sob o aplauso de todos. Pepe continuava sem prestar atenção mesmo com Zaqueu comentando que era linda. Domenico ao microfone pediu que a filha dissesse algumas palavras. Tímida e constrangida ela fazia sinais que não queria, mas o pai insistia.

Cecília não teve alternativas e pegou o microfone. Tímida disse “boa noite a todos” e finalmente Pepe se virou para prestar atenção.

Era a moça que conversara com ele.

Trêmula Cecília agradeceu a presença de todos e que esperava que estivessem se divertindo. Todos aplaudiram e ela rapidamente entregou o microfone ao pai e afastou-se.

Passou por Pepe e disse em seu ouvido que aquele seu sonho aumentava cada vez mais.

Pepe continuou trabalhando, mas não conseguia mais se concentrar. Pensava no caso da “pobre menina rica” e ali se tocara que não era por a pessoa ser rica que necessariamente seria feliz.

Sentiu pena de Cecília.

Continuou trabalhando até que a festa acabou. Exausto recolhia as cadeiras, varria enquanto Domenico, cercado por três amigos, ainda conversava.

O homem falava da Itália, de sua infância lá e emocionado lembrava-se de sua mãe. Tentava lembrar da música que ela cantava nas festas e não conseguia. Anos que não conseguia lembrar e aquilo lhe remoía.

Um dos amigos perguntou se ele não lembrava ao menos o nome da música e com muito esforço Domenico lembrou-se. A canção folclórica chamava-se “Reginella campagnola”.

Nenhum dos amigos sabia. Fato que Domenico lamentou.

Mas Pepe sabia.

Pensou por um tempo se devia e encheu-se de coragem. Aproximou-se de Domenico e perguntou “Permita-me?”, o italiano sem nada entender perguntou “O quê?”.

Pepe cantou a música.

All`Alba quando spunta il sole
Là nell` Abruzzo tutto d`or
Le properose camagnole
Discendono le valle in flor
Là..Là..Là..Là..Là

Oh campagnola Bella
Tu sei la reginella
Negliocci tuoi c`e il sole
C`è il colore delle viole
Delle valli tutte in flor
Se canti la tua voce
È un` armonia di pace
Che se diffonde e dice
Se voi vivere felice deve vivere quassù
Là..Là..Là..Là

Quand` la festa Del, paesello
Cone la sua cesta se ne và
Trotterellando I`asinello
La porta verso la città

Oh campagnola Bella
Tu sei la reginella
Negliocci tuoi c`e il sole
C`è il colore delle viole
Delle valli tutte in flor
Se canti la tua voce
È un` armonia di pace
Che se diffonde e dice
Se voi vivere felice deve vivere quassù
Là..Là..Là..Là

Ma poi la será, al tramontare
Com le sue amiche se ne và
E tutta inmtenta a raccontera
Quel che ha visto là in città

Oh campagnola Bella
Tu sei la reginella
Negliocci tuoi c`e il sole
C`è il colore delle viole
Delle valli tutte in flor
Se canti la tua voce
È un` armonia di pace
Che se diffonde e dice
Se voi vivere felice deve vivere quassù
Là..Là..Là..Là

No fim os dois cantavam alegres. Um emocionado Domenico abraçou Pepe e não cansava de dizer “obrigado, muito obrigado”. Pepe sem jeito respondia que não precisava.

Domenico perguntou como ele sabia a canção e Pepe respondeu que era filho de imigrante, que veio para o Brasil no fim do século. Domenico sorriu contando que era igual a ele.

Pepe então pediu licença que tinha muitos afazeres ainda. Virou-se para voltar ao trabalho e Domenico falou “espere”.

O rapaz parou, virou e Domenico argumentou que ele não precisava mais trabalhar naquela noite e perguntou se o rapaz sabia dirigir. Pepe respondeu que sim e Domenico completou perguntando se ele queria trabalhar para a família como chofer.

Pepe viu ali a chance de trabalhar para uma família rica e quem sabe ganhar bem e sorrindo respondeu que sim. Domenico mandou o rapaz ir cedo ao seu escritório no centro de Feital no dia seguinte para acertar tudo.

Perguntou se Pepe sabia chegar. O rapaz naquela noite foi pela primeira vez ao bairro, mas mesmo assim firme respondeu que sim. Mais uma vez Domenico disse “obrigado”.

Por saber uma canção do folclore italiano Pepe conseguira um emprego.

Voltou para a casa e encontrou Janete pintando as unhas do pé sobre a cama. Jogou o dinheiro em cima da mulher e ela se espantou com tanto dinheiro. O rapaz completou contando que arrumara um emprego e foi direito para o banho.

De manhã acertou tudo com Domenico no escritório e foi direto para a mansão dos Vergara. Colocou a roupa de trabalho e encostado no carro esperava sua primeira missão. Levar Cecília para a escola.

A moça desceu pelo jardim em direção ao carro e chegando perto viu Pepe encostado no mesmo. Pepe ao ver sua patroa sorriu e ela pareceu irradiar felicidade ao ver o novo motorista.

Pepe levou Cecília ao colégio e conversaram bastante no caminho. Fizeram uma boa amizade e o rapaz tornou-se íntimo da moça.

Cecília contava detalhes da sua vida, de como se sentia presa naquela casa, sentia a falta da mãe que morrera no ano anterior e como o pai lhe sufocava. Pepe também se abria contando de sua vida e um dia contou a falta que sentia de Beatriz.

Os olhos de Pepe marejaram ao falar do amor de sua vida que perdeu por ser pobre. Cecília limpou suas lágrimas, acariciou seu cabelo e contou que nunca abriria mão de um amor por sua classe social. Amor tinha que ser pra sempre.

Os rostos ficaram perto um do outro, bocas próximas de um beijo, mas Cecília se despediu contando que precisava entrar.

Jogando sinuca Pepe contou o ocorrido a Zaqueu que falou ao amigo que a moça se apaixonara. Pepe riu e respondeu que nunca Cecília se apaixonaria por ele. Um pobre coitado que não tinha onde cair morto.

Zaqueu acertou uma tacada e afirmou que apostaria com o amigo se quisesse, mas a moça estava apaixonada e isso seria muito bom para ele já que Cecília era filha única e Pepe subiria na vida.

Pepe pensativo respondeu que nunca teria coragem de casar por interesse ou se aproveitar de Cecília. Zaqueu acertou outra tacada e falou “cavalo encilhado só passa uma vez”.

Um dia Domenico perguntou se tinha problema em Pepe dormir em sua casa. O rapaz respondeu que não. Domenico contou que passaria uma noite em São Paulo e não queria a filha sozinha, confiava em Pepe e queria o rapaz lá para que a levasse onde quisesse. O jovem concordou.

Avisou a Janete que dormiria no emprego e a mulher irritada perguntou quando ele tinha virado cachorrinho de madame do patrão. Furioso Pepe disse que a mulher nunca estava satisfeita, reclamava por ele estar sem emprego ou quando está empregado. Os dois tiveram mais uma briga e Pepe saiu batendo a porta.

Chegou na mansão e encontrou Cecília sentada no sofá ouvindo música e bebendo vinho. Pepe perguntou se ela já tinha idade para beber e rindo Cecília perguntou quando ele virara seu pai.

Pepe pediu desculpas e Cecília pegou mais uma taça convidando o rapaz para beber.

Pepe sentou e recebeu a taça. Cecília perguntou se Pepe gostava de Carlos Gardel e o rapaz respondeu que sim. Cecília então colocou um disco do artista.

Beberam e Cecília lamentou a morte do cantor “tão jovem ainda”. Pepe respondeu que era verdade e eles continuaram bebendo e conversando. A carência mútua misturada com o álcool fez com que o casal se beijasse ao som de “El dia que me queiras”.

Acabaram fazendo amor, a primeira vez de Cecília.

Cecília acordou em sua cama e ao se notar nua e ver Pepe dormindo ao seu lado deu um grito. O rapaz acordou na hora e assustou-se também ao ver a cena.

Constrangidos os dois rapidamente colocaram as roupas e sem conseguir encarar a moça Pepe pedia desculpas e falava que nunca mais beberia perto dela.

Antes de sair do quarto teve coragem e olhou para a moça. Olhando em seus olhos Pepe pediu que esquecessem aquela noite e nunca comentassem com ninguém o que ocorreu ali. Cecília concordou e Pepe se retirou.

Pepe continuou trabalhando na casa, mas o clima com Cecília ficou diferente. Existia uma barreira entre eles, um grande constrangimento que lhes afastava, não permitia ter a mesma intimidade e fazia Pepe pensar em pedir demissão.

Em um dia de folga Pepe dormia sozinho em casa quando esmurraram a porta. O Rapaz, com muito sono, relutava em atender e mandava voltar mais tarde.

Cansaram de bater e arrombaram a porta. Quatro homens enormes que pegaram Pepe da cama apenas de camiseta e calção e lhe carregaram com o rapaz assustado gritando por socorro.

Empurraram Pepe para dentro de um carro e saíram em disparada.

Algo de muito grave ocorria.


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CHIBATA

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