terça-feira, 24 de maio de 2011

Capítulo XXIV - Despedida do autor

FECHANDO OS TRABALHOS


Esse livro é dedicado a todas as pessoas que passaram por minha vida e moldaram a pessoa que sou hoje. Procurei homenagear essas pessoas dando seus nomes aos personagens.

Procurei homenagear também filmes, séries, livros, situações culturais e lugares que fizeram meu jeito de ser, minha cultura. Obrigado e reverência a todos esses criadores.

Um beijo carinhoso com agradecimento eterno as mulheres da minha vida. Minha avó Lieida por me apresentar livros, filmes, cultura.. Minha mãe Regina que pelo imenso amor que sempre me deu e me passou seus valores e legado e minha filha Ana Beatriz que me faz querer sempre ser uma pessoa melhor.

Não tenho obrigação com realismo nem com coerência, apenas com minha imaginação. Por isso sou escritor.

Não sou um cara doido, apenas uma pessoa que quer ser feliz


















O RETRATO DA VIDA
















Aloisio Villar    

Capítulo XXIII - O fim (2°Parte)

Cheguei ao cemitério, uma chuva torrencial caía sob Tremembé misturando-se com minhas lágrimas. Caminhei e passei por todos os túmulos de pessoas que me marcaram. Minha mãe, meu pai, Tadeu, Sandra, meu avô Ventania, Rodrigo, Gustavo e padre Pinheiro. Caminhei até encontrar o túmulo de Aloemi.

Cheguei perto de seu túmulo enquanto a chuva aumentava. Ajoelhei-me em frente a ele chorando e murmurando que a amava e seria pra sempre. Deitei-me sob o túmulo como se colasse meu corpo ao dela para sentir sua presença. Fechei meus olhos e fiquei ali tomando chuva e pensando em Aloemi.

De repente começo a ouvir uma voz, uma música. Mas quem seria àquela hora perto de virada do ano em um cemitério? Levantei para tentar entender e comecei a caminhar em direção a voz. Eu conhecia aquela música !! Chegando mais forte consegui descobrir qual era. Esses versos eram cantados.

“Você sabe o que é ter um amor meu senhor..ter loucura por uma mulher..”..

Não..não podia ser..parei congelado e balbuciei “Aloemi..”. A pessoa chegou mais próxima de mim e o balbuciar virou um grito “ALOEMI !!!”.

Olhei pra trás e não tinha mais túmulo olhei pra frente e ela estava lá nítida, em carne e osso. E com a aparência que eu havia lhe deixado cinqüenta anos antes. Gritei seu nome de novo e corri ao seu encontro.

Ela correu também e nos abraçamos forte. Um abraço de saudade, de amor, um abraço esperado e aguardado por mim durante cinqüenta anos. Um abraço que sonhei no trem indo pro Rio, nas duas vezes que estive numa igreja pra casar, nos subterrâneos do DOPS, na fazenda de Jesse Jones, na ilha deserta. Na prisão nos EUA, no meu vôo livre, em Brasília!! Em todos os cantos que eu estive sonhei com aquele abraço !!.  

Um abraço acompanhado de um beijo apaixonado exatamente meia noite de 1 de janeiro de 2001. Nesse instante a chuva parou e surgiu um Sol forte, vigoroso. A população de Tremembé que confraternizava a virada do ano e via os fogos foi toda pra praça sem entender aquele “Sol da meia-noite”. As beatas gritavam que era o juízo final. O padre desesperado balançava o sino. E Alexandre e Doido Tadeu com Aninha no colo e  pimpão latindo ao lado sorriam na frente do Moulin Rouge sabendo que algo bom estava acontecendo. 

E eu e Aloemi nos beijávamos. Molhados da chuva e de choro. Não percebi na hora, mas enquanto lhe beijava envelheci. Minha pele enrugou, meus cabelos embranqueceram, fiquei com corpo condizente com minha idade e ela também enquanto na foto eu voltava ao aspecto que tinha quando tirei. O retrato voltava ao seu estado normal. O retrato da vida

Nessa hora reparei que Marta nos olhava. Ela soltou o cabelo e o balançou. Quando fui ver era a cigana Regina que piscou o olho pra mim se virou e sumiu.

Aloemi sorriu e disse que até que eu era um velhinho bonito e eu falei que pra mim ela era a mesma menina linda de quando conheci. Rindo me perguntou então quanto tempo fazia mesmo que não nos víamos e respondi.

“Uma vida”

RECEITA DE UMA VIDA INTENSA

Ingredientes

- Infância saudável com um vô bacana
- Adolescência com descobertas e amigos eternos
- Uma paixão no colégio
- Namorar duas ao mesmo tempo
- Ir para guerra com irmão e refazer sua relação com ele
- O pai casar de novo e madrasta ser maravilhosa
- Morar em uma zona
- Fazer as pazes com o passado
- Tentar vida nova em outro lugar
- Tomar “não” no altar
- Conviver com fantasmas
- Lutar por um ideal
- Fazer parte de uma seita e enganar o fim do mundo
- Morar em fraternidade e cair com avião em uma ilha
- Virar um astro pornô
-Voar de asa delta e fazer grandes amigos
-Denunciar políticos safados
- Conhecer pessoas inesquecíveis na internet
- Ser pai
- Voltar as suas origens
- Sempre se apaixonar, por várias pessoas ou sempre pela mesma

MODO DE PREPARO

Misture todos os ingredientes e acrescente amor a tudo que faz. Desde um sonho de vida, uma relação amorosa ou de amizade. Até mesmo ao levantar da cama e chupar um picolé. Faça com amor. Coloque uma dose grande de paixão na massa para que ela cresça.

Aprecie mais um por do Sol seja no Arpoador ou na janela de sua casa. Veja crianças brincando, o mar, as estrelas. Não corra tanto a vida foi feita pra ser saboreada lentamente.

 Diga “bom dia”, “obrigado”, ”por favor,” e principalmente “desculpa”. Aprenda a perdoar e aceitar as pessoas como elas são.

Que somos seres humanos e por isso seres limitados com virtudes e falhas, aprenda a ter bom humor e rir de si mesmo

E por fim uma pitada de felicidade, não faça dela utopia e sim objetivo

Só evitem cabras, podem dar indigestão e não acreditem em ETs, eles não são confiáveis. Portanto não os convide pra mesa..ah..sirvam-se e bom apetite

Na boa, eu merecia um final feliz.


FIM



segunda-feira, 23 de maio de 2011

Capítulo XXII - O fim

E assim em meados do ano 2000, cinqüenta anos depois de partir eu voltava a Tremembé do Oeste. Como diria a pequena Dorothy em “O mágico de Oz” não existe lugar melhor que o nosso lar.  

Apesar de que o “meu lar” estava bem diferente. Enquanto saía da rodoviária quase fui atropelado por um ônibus. A cidade estava muito diferente tinha se modernizado. Mostrava pra Aninha que aquela era a cidade que papai havia nascido e pimpão latia eufórico. Eu estava com peruca branca e óculos para disfarçar-me de velho. Sim eu estava ridículo, mas se não fosse isso ninguém acreditaria que era eu.

Fui até o Moulin Rouge e ele estava lindo. Sandra havia cuidado muito bem dele. Bati na porta ansioso por ver minha irmã e um rapaz com jeito bem afetado atendeu gritando “titiooooo” me abraçando.

Não sabia de onde havia surgido aquela borboleta esvoaçante e perguntei que. Era. Respondeu que era meu sobrinho Doido Tadeu. Pois é a Sandra teve um filho e cometeu essa sacanagem com ele de botar meu nome. E o pior que aquele se chamava Doido, mas o apelido dele poderia ser normalmente “Muito louca”.

Entrei e emocionei-me em estar naquela casa depois de tantos anos. Na casa que nasci e fui criado, casa que trazia tantas lembranças. Recompus-me e perguntei ao meu sobrinho sobre sua mãe. Doido Tadeu respondeu que ela não estava bem de saúde, mas me esperava em seu quarto.
Fui até lá e quando entrei encontrei minha irmã Sandra velhinha 
deitada na cama. Ela me viu e deu um grande sorriso de felicidade abrindo os braços.

Abracei minha irmã emocionado e lá ficamos abraçados por longos minutos. Ela beijou meu rosto e disse que eu estava lindo mesmo com aquela peruca ridícula. Eu ri e falei que era melhor com a peruca. Abraçamo-nos de novo e ficamos os dois ali em silêncio sem falar nada. Apenas matando a saudade e colocando todo aquele amor pra fora.

Minha irmã morreu alguns dias depois e assim foi embora a última pessoa de minha infância e adolescência.

O prefeito da cidade decidiu me homenagear. Falavam em Tremembé que eu era o filho mais querido e famoso do local. Fez uma grande festa na praça com uma grande multidão. Fizeram os discursos de praxe e pediram que eu falasse ao povo tremembense.

Passaram-me o microfone e o prefeito pediu para que eu falasse. Lembrei do meu pai e no discurso que fiz ao voltar da guerra e engasguei. O prefeito insistia dizendo “Fala Doido, como foi sua vida fora de Tremembé para esse povo que anseia por suas palavras!!”.

Eu com o microfone na mão comecei a balbuciar..”a vida..a vida..a vida.....a vida foi fo..” Todos paralisados olhando pra mim o prefeito já branco e eu emendei “ vida foi fo..a vida foi fo..rmidável”. Todos me aplaudiram e o prefeito respirou aliviado.

Depois passei pela praça lembrando meus bons momentos lá. Meus papos com Gustavo e Rodrigo, as vezes que esperava Ericka passar até do Lindão eu lembrei. Via a meninada jogar bola na rua e lembrava de nós ali. Sandra sumindo com os garotos e meu pai assoviando..ser velho é ser refém de suas lembranças. 

Olhei a igreja e vi as pessoas entrando pra missa, vi o padre do lado de fora chamando seu rebanho e lembrei-me de padre Pinheiro. O pai que eu só soube que tinha depois de morrer. Lembrei de minha mãe também. Quanta saudade eu tinha dela.

Doido Tadeu passou a ser administrador do Moulin Rouge junto com Alexandre, um negão “dois por dois” que vinha a ser seu companheiro. Os dois cuidavam de um menininho chamado Duda de mais ou menos nove anos que acabou sendo um bom amiguinho pra Aninha, uma espécie de irmão mais velho. Aquela família estruturada e feliz me animava em relação ao futuro da Aninha. Sabia que ela não estaria mais sozinha. As meninas que trabalhavam no local eram maravilhosas e como eu estava velho, mas não estava morto aproveitava.

Um dia apareceu uma mulher atrás de mim. Devia ter mais ou menos trinta anos, morena, sorriso bonito e seios que nem falo nada..chamava-se Marta.

Desci a escada e perguntei se poderia ajudar em algo. Ela respondeu que era jornalista do “Correio de Tremembé”, sempre ouviu falar de mim e queria me fazer uma proposta. Escrever minha biografia.

Fiquei lisonjeado com a proposta e disse que nem tinha tantas histórias assim pra contar. Ele falou que sabia que eu tinha sim acompanhou todas as minhas histórias pelo mundo, até as mais fantásticas e queria fazer minha biografia. Atacado pela vaidade topei.

Assim via Marta todos os dias e contava minhas histórias para ela. Tudo inclusive as mais loucas. Fazia minha biografia, brincava com minha família, ajudava Doido Tadeu e Alexandre a cuidar da casa. Minha rotina era essa.

Um dia Duda entrou chorando em casa e perguntei o que havia acontecido. Ele respondeu que havia perdido todas suas figurinhas em um jogo de bafo. Jogo de bafo é um jogo que várias figurinhas são empilhadas e os jogadores batendo com a mão em cima tem que vira-las.

Lembrei da história de meu avô e as bolinhas de gude e resolvi ajudar Duda. Passei a semana lhe ensinando a jogar passando todas as minhas táticas. Duda marcou uma revanche e nesse dia o levei no colégio desejando boa sorte. Voltei para casa com sensação do dever cumprido, o legado que meu avô havia me passado passei pra ele. No fim do dia Duda voltou pra casa e chorando mais que da outra vez. Perguntei o que havia acontecido e ele falou que minhas táticas eram furadas, tinha perdido de novo. É..eu era bom nas bolinhas de gude mesmo.

Mas jogava botão com ele e deixava ganhar como meu avô fazia e até de bonecas com Aninha eu brincava. Minha filha era uma pessoa feliz e aquele ambiente de cidade do interior fazia bem para ela. Aprendi coisas como dar laços em cabelos só por causa dela. Sua festa de dois anos acabou sendo em Tremembé e ela ficou linda vestida de “moranguinho”.

Eu não era o Luiz Ayrão, mas a nostalgia também tomava conta de mim. Mesmo a cidade diferente Tremembé lembrava meu passado e evidente meu passado lembrava Aloemi o grande amor da minha vida. Cheguei a Tremembé na esperança de revê-la ou ao menos ter notícias suas e nada. Era incrível como Aloemi tinha desaparecido no mapa, última vez que a vi foi quando estive de carro com meus amigos em sua casa e nem notícias suas tive depois. Não me conformava com a idéia cada vez mais real de morrer sem ter notícias dela.

Fiz oitenta anos e uma grande festa foi feita para mim no Moulin Rouge. Eu com a peruca ridícula para ninguém se espantar com minha “jovialidade” assoprei aquela imensidão de velas. Depois da festa fiquei sentado na sala pensando em Aloemi quando Marta apareceu e disse que eu estava pensando nela. Perguntei como ela sabia e Marta disse que eu sempre fazia a mesma cara quando pensava em Aloemi. Eu ri e confirmei que sim. Marta então sentou do meu lado e disse que estava na hora de contar essa história para a biografia.     

Contei toda a história e parecia que Aloemi revivia dentro de mim. Todo aquele amor forte. Eu vivi muito tive grandes experiências, mas a impressão que eu tinha é que minha vida fora incompleta. Tive em guerra na Europa, nos porões do DOPS, caí de avião, voei de asa delta em condições terríveis. Fiz de tudo na vida, mas não consegui ser feliz no amor. Nem com aquelas que tive rompantes de paixão nem aquela que foi o grande amor da minha vida. Tudo o que restava de Aloemi para mim era um retrato encantado. Retrato que eu desaparecia cada vez mais.

Meses passaram e chegou o fim do ano, a virada de 2000 para 2001. Doido Tadeu animado preparava o Moulin Rouge para a festa de réveillon e contava de seus planos para o novo milênio.

Estava tudo certo dele e Alexandre irem em setembro de 2001 para Nova York. Falei que era uma ótima idéia porque havia morado em Nova York e era uma cidade fantástica. Meu sobrinho disse que ansiava por setembro chegar e conhecer a Estátua da Liberdade e o World Trade Center. Imaginava-se no alto das torres gêmeas vendo a cidade pequenininha. Falei que ele iria adorar e que Nova York nunca mais seria a mesma depois de setembro de 2001.

Naquela noite fui dormir e tive um sonho estranho. Todas as mulheres da minha vida apareceram. Minha mãe, Sandra, Manoela, Dona Li, Susana, Luciana, Iani, Paola, Marcela, dona Áurea, Rafaela, Alice, Karina, Silvana, Laryssa, Ana Cristina, Raquel, Thais, Vivian, Kelly, Natália, Alessandra, Gabriela, Bianca, Bia..no fim até cigana Regina e Marta apareceram e todas falando a mesma coisa “procure Aloemi!”. Menos a Luciana que disse “Seu viad..procura Aloemi porr..!!”    

Depois desse redemoinho de emoções, com todas essas mulheres falando na minha cabeça sonhei que estava no fundo do mar e não conseguia sair. Tentava sair e ouvia as vozes falando “procure Aloemi.” Acordei assustando, sem ar e sentei na cama tossindo muito e espantado com o sonho.

Desci e Alexandre contou que tinha carta para mim. Estranhei e olhei o remetente..era a Ericka!!!

Abri correndo a carta e nela Ericka pedia desculpas pela forma estranha que foi embora do rio no dia da festa de formatura. Contou como era sua vida em AXT 49, planeta que vivia. Havia casado com um daqueles ETs e com ele teve muitos ETzinhos e que sentia saudades de mim, que era pra eu ser feliz.

No fim da carta tinha um PS e nele estava escrito “procure Aloemi”. Ericka havia sido a única que não apareceu no meu sonho. Botei a carta na mesa da sala sentei no sofá com aquela minha cara de bunda habitual e Aninha se aproximou passou a mão no meu rosto e disse “Aloemi papai”.

Marta chegou para escrever o último capítulo de minha biografia. Sentei com ela em uma mesa e mostrei a carta e contei do sonho. Ela disse que o nosso papo naquele dia seria difícil não ligaria o gravador porque achava melhor adiar o último capítulo porque tinha uma notícia pra me contar.

Assustado perguntei o que havia acontecido e Marta contou que Aloemi tinha morrido. Ela descobrira naquela manhã que fazia umas semanas de sua morte e ela estava enterrada no cemitério de Tremembé.

Ouvi a notícia e meu chão sumiu, meu corpo gelou. Fiquei tonto e falei pra Marta que não estava me sentindo bem precisava deitar. Ela entendeu e mandou que eu fosse. Sem falar uma palavra subi as escadas e fui para meu quarto.

Deitei olhando pro teto como fiz várias vezes na minha juventude ali naquele mesmo quarto e comecei a chorar. Um choro de desespero, doído demais era como se minha vida tivesse acabado. Aquela mulher que eu tanto havia amado durante cinqüenta anos, que fez a esperança de vê-la novamente um dia ser a força maior de minha vida estava morta. Era a cereja do bolo, a morte que faltava para minha vida acabar de vez. Peguei a foto de nós dois e com ela no peito chorava o choro mais doído de minha vida. Estava tudo acabado, nunca mais beijaria Aloemi, nunca mais afagaria seus cabelos, nunca mais teria meu amor comigo.

De noite depois de muito chorar levantei, troquei de roupa e sem peruca nem nada com meu aspecto natural desci. Ninguém percebeu que passei pela sala, abri a porta e saí. Estavam todos tão ocupados com suas alegrias que não perceberam minha tristeza.

Fui para a beira do rio, a mesma beira do rio que tanto já havia sido minha companheira e consolado minhas tristezas.

Pensei muito na minha vida até aquele momento. Cheguei aos oitenta anos e por essa necessidade de ser livre eu construí nada. Não me dei bem em uma profissão não comprei uma casa, ta ganhei de herança, mas é diferente. Não fiz uma família, ganhei uma filha que eu não verei crescer. Eu não tinha uma pessoa para dividir meus anseios, minhas dúvidas, esperanças.

Acabei a história sozinho. Não fazia diferença na vida de ninguém, ninguém ia dormir pensando em mim e eu não aparecia na mente de ninguém ao acordar. Pessoas me amaram e deixaram de me amar com a mesma facilidade. A vida foi passando, as pessoas foram caminhando e eu fiquei. Na vida dos sonhos eu fui um sucesso. Na vida real fui um projeto ambicioso e fracassado.

 Fiquei algumas horas lá e mais ou menos onze da noite de 31 de dezembro de 2000 levantei e decidi que tinha que ir a outro
lugar.

Precisava ir ao cemitério de Tremembé.


Cotinua amanhã...

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Capítulo XXI - Valsa para uma menininha

Voltei para o Rio de janeiro sem ela, sem o seu amor. Continuei algum tempo ainda participando do chat, mas o ex noivo dela também começou a frequentar me dando um certo incômodo. Eles agora eram o casal perfeito da sala 2.

Continuei amigo da Bia normalmente, mas não era a mesma coisa. Era uma situação estranha você ser amigo assim um amigo como qualquer outro de uma pessoa com a qual você viveu tantos momentos. Meu amor amenizou, na verdade não posso dizer que havia passado porque como eu disse tinha guardado em um freezer, mas amenizou e consegui conviver numa boa com ela.
Só que como tudo na vida existem ciclos. Começamos sempre nos falando muito amigos aí com o tempo foi diminuindo, diminuindo. Até que acabou. Não entrei mais no chat e não tive mais contatos com a Bia.
 Essa última apancada havia doído mesmo sendo culpa minha. Eu tinha quase oitenta anos e começava a sentir o peso dessa idade nas costas. Como a cigana Regina havia dito eu não envelhecia, mas não seria imortal e apenas meu corpo por fora não envelheceria.
Por dentro todos os meus órgãos eram de um idoso. Parei de fazer vôo livre por causa da vista cansada. Tomei um tombo simples em casa e quebrei o braço. O médico espantado detectou artrose. Depois de um tempo fui também detectado com “Mal de Parkinson”. Pequenos tremores, meus movimentos tornaram-se um pouco mais lentos e depressão. Sentia-me deprimido, solitário. Muito do destino que escolhera pra minha vida viajando o mundo sem criar uma família. Naquele momento sentia falta.
Os meus médicos ficavam espantados de como um jovem com aparência de trinta anos poderia ter tantos problemas de velho. Eu sabia porque, mas não contava porque me achariam “doido”. Passei a viver uma vida de velho. Dormia pouco, acordava cedo e ia pra praça jogar dama com outras pessoas de idade. Na maior parte do tempo ficava sentado em um banco lá da praça olhando pro nada.
Um dia senti saudades e entrei na internet. Entrei na sala de bate papo e notei que a Bia não estava. Perguntei para uma moça amiga nossa e ela ficou constrangida pra dizer. Fiquei nervoso e pedi para que ela me contasse o que havia ocorrido e ela contou. Bia havia morrido de Leucemia.
Eu não contei para vocês, mas a Bia em nosso primeiro encontro disse que teve leucemia e que havia se curado. Três anos sem sintomas. Só que ele voltou e foi devastador. Já havia seis meses de sua morte. 
Aquela notícia era a pá de cal pra mim pra me enterrar de vez. Desliguei o computador muito mal, mas não conseguia chorar. Estava apenas cansado. Não aguentava mais aquela vida. Fui até a pedra da Gávea disposto a me matar.
Sozinho de noite cheguei na beira fechei os olhos abri os braços e falei “Deus já que você não gosta de mim me mande pro inferno”. Pulei e a altura era imensa, pra não sobrar nada de mim. Mas cheguei intacto embaixo só com uns arranhões.
Levantei me limpei e entendi nada. Será que eu estava do outro lado? A morte era indolor? Andei pela praia e parecia tudo igual. Será que eu vivia em outra dimensão? Encontrei um rapaz passando e perguntei se ele me via, o homem perguntou se eu era doido e respondi”desde que nasci ou morri, sei lá”. O homem reforçou que eu era maluco e estava me vendo sim tanto estava que iria me assaltar.
Levou todo meu dinheiro, minha identidade e meu celular. Sim eu era moderninho tinha celular. O dinheiro eu nem liguei tanto, mas me enfureci por ter que tirar outro RG falso. Vocês não sabem o trabalhão que eu tinha tirando RGs falsos para ter idades que conduzissem com meu rosto ou vocês acham que eu com rosto de trinta anos andaria com identidade falando que tinha mais de setenta?
Bem..naquele momento percebi que não estava morto. Imaginei que não seria assaltado depois de morto.
Deus não me queria morto naquele momento então eu continuei vivendo minha vida. Tinha uns contratempos como quando fui fazer xixi em casa e do nada apareceu o dr.Walkir pra dizer que estava de volta. Mas não durou muito esse problema. Chamei o padre Quevedo em casa e ele me livrou do fantasma chato.
Tinha azar quando almoçava fora de casa. Uma vez estava sentado comendo em um bar quando apareceu um senhor olhando pra mim. Ele olhava fixo e eu fiquei envergonhado. Do nada ele começou a gritar “eu te matei !! você não pode estar vivo!! É um fantasma que o capeta mandou tanto que não mudou o rosto”.
Pegou uma faca e partiu pra cima de mim. Nessa hora dei um salto, saí correndo e gritando “Put.. que par..o maluco do Luis Felipe!!”. Sim, aquele doido verdadeiro que eu dividi quarto na primeira vez que fui ao Rio.
Saí correndo por dentro do bar com ele atrás de mim dizendo que as vozes mandavam me matar de novo. Falei que devia ser linha cruzada e que era melhor ele mudar sua operadora. Ficou essa grande confusão até que chegou uma ambulância e os enfermeiros lhe colocaram uma camisa de força e levaram. Respirei aliviado, minha vida não aguentava mais tantas emoções.
Outro dia no mesmo bar eu comia e apareceu uma freira velhinha com outras pedindo doações para igreja, reconheci de cara. Era Luciana.
Escondi-me atrás do cardápio, mas nada adiantou. Ela chegou à mesa pedindo uma doação, me viu e gritou assustada “Doido!!”. Respondi que não, eu era o filho dele e perguntei quem ela era. Ela se apresentou como irmã Luciana e pediu uma doação. Dei um dinheiro e ela agradeceu falando que Jesus sempre se lembraria desse momento. É eu só imaginando que Jesus lembraria de muitos momentos meus com ela.
Aproveitei que ela foi para outras mesas paguei a conta e fui saindo de fininho do bar até ouvir um “espera”.
Olhei e era Luciana que se virou pra mim e falou “seu put..gostoso será que você é tão bom de fod..quanto o filh..da put..do arrombad..do seu pai?”.
Com sorriso amarelo respondi que não e saí andando. Ela veio atrás de mim falando pra esperar. O desespero tomou conta de mim e saí correndo com ela atrás gritando “espera seu viad..!! Tem medo de mulher?”.
A cena era patética eu correndo de uma freira velhinha que gritava que queria fud... comigo. Passando na frente de um motel notei que tinha um anão com uma cadeira apontando jogo do bicho. Era aquele anão safado, mais velho, mas eu não esquecia aquele rosto.
Voltei para a frente do motel e Luciana me alcançou. Olhou para a fachada e disse “sugestivo..Vamos?”. Apontei para o anão que escrevia em um papel na cadeira e falei “Sim vamos, mas se eu fosse você iria com aquele anão, tomou três mulheres minhas.”   
Luciana puxou o anão e disse “vamos injustiçado verticalmente, quero saber se é verdade que todo anão tem caralh..grande”. E assim levou o anão pra dentro do motel que gritava desesperado por socorro e antes de sumir de minha vista com ela soltou um “Doido filh..da put..”!!!.
Na rua comecei a pular de alegria e pegar na minha região íntima com mão cheia apontando pra entrada do hotel e gritando “anão desgraçado!! Se fud..!!!” era a minha vingança contra aquele maldito salva vidas de aquário depois de tantos anos. As pessoas passavam na rua e entendiam nada perbeci que me olhavam e parei de pular e fazer gestos. Fui embora andando feliz e desejando boa tarde para todos.
Pelo sim, pelo não decidi não voltar mais naquele bar.
Prosseguia minha vida solitária. Comprei um cachorro dei o nome de Pimpão e ele passou a ser o meu maior companheiro indo para todos os lados comigo.
 Assistia futebol com ele passeava, tomávamos banho juntos, sem pederastia por favor e ele dormia na minha cama. Continuando sem pederastias. Pimpão era um poodle cinza muito invocado nunca que deixaria fazer aquelas afetações que fazem normalmente com os cachorros dessa raça. Era machão e meu companheiro.
Um dia brincando com Pimpão na Lagoa joguei um graveto para ele pegar. Pimpão inteligente como era saiu correndo e eu fiquei muito orgulhoso do meu cachorro. Fiquei lá olhando sorrindo de orgulho esperando sua volta, esperando, esperando. Até de noite esperando e ele não voltou. Fui abandonado por meu cachorro.
Nem cachorro eu conseguia manter perto de mim, que situação.
Cada vez mais me sentia sozinho. Cheguei a comprar plantas, mas esqueci de regar e morreram. Nada dava certo na minha vida até que tocaram a campainha de meu apartamento.
Mandei que esperasse que eu iria atender. Estranhei que não haviam avisado da portaria que teria visita pensei então que devia ser alguém do prédio. Olhei no visor e vi nada. Achei que fosse trote e deixei de lado.
Sentei no sofá para ler o jornal e novamente tocaram a campainha. Olhei no visor e nada. Furioso abri a porta e mandei que parassem de brincadeira, quando ia fechar a porta novamente ouvi um choro.
Tinha uma criança enrolada em uma mantinha dentro de um berço. Peguei e coloquei em cima do sofá. Depois saí pelo corredor procurando quem havia deixado lá e fui até a portaria. Perguntei ao porteiro se tinha entrado alguém lá com recém nascido e ele respondeu que não.
Subi para meu apartamento e a criança chorava muito. Peguei no colo para tentar acalmar e ela estava molhada. Mas eu tinha nada ali para crianças. Peguei o telefone e liguei para uma farmácia próxima pedindo alguns produtos. Eles chegaram e troquei a fralda da criança, era uma menina.
Nem preciso contar o desastre que fui trocando a fralda, nunca havia trocado uma na vida, mas consegui. Troquei e ela continuou chorando pensei que poderia ser fome. Peguei a pequena mamadeira que tinha comprado enchi de leite que tinha na geladeira e dei. Ela estava com muita fome mesmo porque mamou tudo. Depois como já tinha visto em televisão coloquei no meu ombro dei uns tapinhas nas costas e ela arrotou.
Coloquei a menina em minha cama para dormir e botei um lençol no chão para mim. Vi em seu bracinho uma fita e nela escrito um nome, estava escrito Aninha. Olhei para ela que dormia e fiz um carinho no seu cabelo ralo falando “Aninha, bonito nome”, dei um beijo na sua testa e deitei no chão para dormir.
Acho que consegui dormir aproximadamente trinta e sete segundos porque ela acordou chorando e foi assim a noite toda. Aninha acordava, chorava e eu não sabia o que fazer. Dava leite, trocava fralda, apertava sua barriga para ver se era cólica e nada. Desesperado andando de um lado para o outro no colo lembrei que minha mãe sempre falava que música acalmava crianças.
Não sabia que música cantar, cantava várias e nada. Até que lembrei de uma música que eu gostava muito e cantei para ela.
Valsa Para Uma Menininha

Composição : Toquinho / Vinícius de Moraes

Menininha do meu coração
Eu só quero você a três palmos do chão.
Menininha não cresça mais não,
Fique pequenininha na minha canção.

Senhorinha levada, batendo palminha,
Fingindo assustada do bicho-papão.

Menininha, que graça é você,
Uma coisinha assim, começando a viver.
Fique assim, meu amor, sem crescer,
Porque o mundo é ruim, é ruim, e você
Vai sofrer de repente uma desilusão
Porque o mundo somente é seu bicho-papão.

Fique assim, fique assim, sempre assim
E se lembre de mim pelas coisas que eu dei.
E também não se esqueça de mim

Quando você souber, enfim,
De tudo que eu amei.

E ela dormiu como um anjinho.

Não podia ficar com aquela menina. Eu era um ancião já com pé na cova cheio de doenças como ficaria com aquela menina? Eu não conseguia nem tomar conta de mim direito. Na manhã seguinte fui com ela na secretaria de proteção a infância entregá-la para adoção.

Anunciei meu propósito e sentei lá esperando até que vi duas cenas que me chocaram. Em uma mulher grávida chegou e disse que já queria entregar a criança antes de nascer porque tinha dado cinco e daria o sexto. Considerava-se cachorra de rua e estava nem aí para as crianças.

Depois chegou uma outra com uma menina de olhar triste vestida com roupa de colégio. Queria de qualquer forma entregar para adoção, mas como a menina já tinha certa idade aconselharam a não fazer isso porque ela não conseguiria um lar. A mãe saiu furiosa com a filha de lá puxando a menina pelo braço e dizendo que ela era um estorvo, mas se livaria uma hora ou outra. A menina saiu com aquele olhar triste do local e olhando pra mim.  

Olhei para Aninha no meu colo nesse momento. Ela dormia candidamente, falei “dou meu jeito “ e fui embora com ela. Já havia feito tantas loucuras na vida essa pelo menos era por uma boa causa.

E assim ganhei uma filha. Não foi nada fácil no começo eu todo enrolado tentando cuidar dela, não conseguia de jeito nenhum fazer uma boa troca de fraldas até que um dia eu consegui e saí pulando de alegria. Aninha olhou pra mim e riu, a primeira risada de sua vida.

E eu fui me apaixonando por ela. Aquela menininha que apareceu do nada na frente do meu apartamento se tornou o amor da minha vida. Sentia-me revigorado em pelo menos quarenta anos, forte de novo e sem sentir mais nenhum sintoma de doença. Voltei aos médicos e eles se espantaram eu estava curado tanto da artrose quanto do Mal de Parkinson e achavam isso extraordinário porque eram doenças incuráveis. Sentia-me como se tivesse mergulhado na piscina de Cocoon, mas a piscina a minha verdadeira fonte da juventude se chamava Aninha.

E ela foi crescendo. Chorei de emoção quando nasceu o primeiro dentinho ou quando ela segurou sozinha a mamadeira. Depois sapeca engatinhava pela casa e eu ficava rindo sentado no sofá vendo. Eu não tinha dúvidas aquela menina engatinhando e rindo era a mulher da minha vida !! Eu que tive tantas mulheres maravilhosas na vida. Um amor forte de cinquenta anos por uma.. minha vida foi direcionada pelas mulheres. Tinha achado minha alma gêmea

Eu era um apaixonado por mulheres, sempre convivi mais com elas. Sempre tive as mulheres como minha fortaleza. Desde minha mãe nos primórdios passando por todas as mulheres fantásticas que eu conheci na vida até chegar em Aninha. O meu sopro de vida, a menininha do meu coração.

Ela começou a andar e nem preciso dizer o quanto fiquei “babão” quando ocorreu. Fez um ano de idade e reuni as pessoas do prédio que morava para uma festa. Curioso que todos falavam que ela era a minha cara, mas eu não escondi de ninguém a verdade. As pessoas riam e falavam que eu era doido mesmo eu repetia a minha frase habitual e as pessoas mandavam que eu fizesse exame de DNA porque ela era minha filha. Eu gargalhava e falava “quem dera”.

Um dia ela estava brincando em seu cercadinho quando peguei o retrato pra ver como estavam as coisas e eu estava lá. Velhinho, mas com uma ótima aparência, corado, parecia que tinha renascido. De repente percebi algo na foto que me assustou joguei a foto no chão e levantei incrédulo.

Peguei a foto novamente e sentei abismado olhando para ela. Estava tudo normal. Aloemi, eu, senão fosse um fato novo. Aninha estava no nosso colo.

Fiquei paralisado olhando a foto. Como podia isso? Como Aninha foi parar na foto? Nessa hora ouvi um “papai”. Olhei e era ela falando em pé no cercadinho e sorrindo para mim. Sua primeira palavra. Peguei Aninha no colo e abracei chorando.

Fiquei intrigado com a foto e por mais loucura que pudesse ser fiz exame de DNA. Desde meu namoro com Bia eu não transava então não tinha como ela ser minha filha. Como também não tinha como eu perder uma namoradinha pra Ets, ser perseguido pelo fantasma do meu sogro e não envelhecer com uma foto envelhecendo no meu lugar. Além de sobreviver a um pulo da pedra da Gávea. Minha vida era uma loucura tão grande que me permitia fazer o exame.

Fui pegar o resultado com Aninha e com ela no meu colo abri o envelope e mais uma loucura ocorria na minha vida. Ela realmente era minha filha. Com lágrimas nos olhos dei um beijo em sua cabeça e ela falou acariciando meu rosto “não chola papai”.

Meu pai sempre repetia para nós que homem não chorava, mas eu não consegui seguir essa sua regra. Sempre fui muito chorão, emotivo, chorava até com comercial de banco e chorando fui à praia com Aninha logo depois que saímos do exame e a via brincando na areia. Chorava e sorria. Minha vida tinha sentido estava aí o motivo de ter passado por tanto, sofrido tanto, ter sobrevivido a tentativa de suicídio. No fim veio a recompensa eu era pai de uma menina maravilhosa, encantadora, sentia-me o homem mais feliz do mundo fazendo castelo de areia com ela.

Tínhamos uma relação perfeita, ela crescia e além de filha se tornava minha amiga. Ainda cantava “valsa para uma menininha” para ela dormir tocava em meu violão enquanto minha filha pegava no sono. Depois de um tempo lhe ensinei a dançar com essa música. Colocava a canção no cd e dançava com ela como uma valsa. Aninha gargalhava.

Fazia também minha especialidade culinária para ela. Tinha uma empregada que limpava a casa e fazia comida, mas essa comida eu fazia questão de fazer. Era a única coisa que sabia fazer na cozinha e minha filha adorava.

Vai aí a receita é meio complicado de fazer, mas espero que aprendam

MISTO QUENTE

Ingredientes

Dois pães de forma
Manteiga
Presunto
Queijo

Modo de preparo

Passar manteiga nos pães
Colocar uma fatia de queijo entre eles
Colocar também uma fatia de presunto
Botar três minutos em uma sanduicheira

Fica uma delícia, até deu fome..ai ai..ah..bom apetite

Coloquei em uma creche para ela começar a se adaptar a outras crianças e comecei a planejar sua festinha de dois anos. Mas antes tinha o carnaval e seria o primeiro carnaval dela mais crescida. Seria especial.

Comprei uma roupa de pirata para mim e de bailarina pra ela. Aninha ficou linda. Fomos para o meu programa favorito no carnaval, o Cordão da Bola Preta.

Era um sábado de Sol, um lindo sábado de Sol de carnaval e o centro da cidade lotou de pessoas de todos os cantos do país querendo se divertir. Aninha estava muito feliz seu primeiro grande evento e eu também com orgulho de ter minha mocinha ao lado. Estava eu lá animado cantando “quem não chora não mama/segura meu bem a chupeta/lugar quente é na cama/ou então no Bola Preta” quando senti uma dormência no braço, depois uma fisgada e caí.

Antes de desmaiar ainda vi uma multidão me cercar e Aninha chorando se abaixar gritando papai, depois lembro de mais nada.

Acordei em um hospital todo entubado. Era uma UTI, um médico surgiu e eu perguntei o que havia acontecido. O médico disse que eu tive um infarte e era um milagre estar vivo, segunda vez que ouvia isso de médico. Implantaram duas pontas de safena em mim e eu poderia ter uma vida normal, mas com cautelas.

Alguns dias depois voltei pra casa e peguei Aninha que estava na vizinha. Ela veio correndo e pulou nos meus braços me dando um abraço apertado. Beijei minha filha e perguntei se ela estava bem, mexendo em meu cabelo ela só disse “saudade papai”. Agradeci a vizinha a fomos pra casa.

De noite ela adormeceu depois que cantei e eu fiquei velando seu sono. Peguei a foto e notei que eu estava desaparecendo nela. Achei que era um sinal eu estava morrendo. Guardei a foto e encostei minha cabeça em minhas mãos que estavam no berço e fiquei olhando minha filha dormir. Triste por saber que não estava distante o dia de me separar dela. Preocupado por não saber como seria seu futuro, ela só tinha a mim. Fiquei a noite toda olhando minha filha e pensando no futuro.

Voltei a ficar triste, depressivo. Nem Aninha me animava. Deixava minha filha na creche e voltava pra cama deitando no sofá e olhando pro nada. Como se tivesse esperando a morte. Sentia novamente todo o peso da idade em cima de mim. As doenças não voltaram, mas eu tinha uma doença nova. O médico se disse impressionado de como um rapaz ainda tinha um coração tão maltratado,  coração de velho..esse coração apanhou muito na vida, uma hora realmente ele não aguentaria.

Um dia deixei Aninha na creche e fui caminhar um pouco. Fui até as pedras do Arpoador e sentei lá olhando para o mar e pensando na vida. Em tudo que tinha vivido e como seria dali por diante. Estava triste, deprimido, sem chão e sem o que fazer.

De repente um homem sentou do meu lado. Devia ter a minha idade corporal mais ou menos. Uns trinta, trinta e cinco anos. Era gordo, barba por fazer, cabelo nem grande nem curto. Estranhei, mas fingi que nem tinha visto continuei olhando o mar como se nada tivesse acontecido até que ele puxou assunto. Segue o diálogo estranho.

Homem: Bonito esse mar né?

Doido: Verdade, muito bonito.

Homem: Essa vista é maravil...

Doido: Olha cara desculpe, mas não tenho maconha nem gosto de pederastias

Homem: Que bom porque nem eu, eu só ia falar que a vista é maravilhosa.

Doido: Tá bom, desculpa

Homem: Eu comecei um namoro aqui com uma menina de São Paulo, mas não deu certo

Doido: Eu também, que coincidência

Homem: Não existem coincidências na vida Doido.

Doido: Como você sabe meu nome?

Homem: Sabendo, sei que você se chama Doido e ah..desde que nasceu.

O homem se levantou e olhando pro mar disse

Homem: E tenta mais suicídio não tá? Vai dar em nada se você pular daqui, no máximo vai pegar um resfriado e levante essa cabeça que sua história ainda não acabou.

Doido: Sabe meu nome, sabe que tentei me matar e que minha história não acabou. Como pode saber tanto de mim?

O homem se virou para ir embora, botou a mão no meu ombro e disse..

Homem: Porque fui eu que te criei.

Espantado virei para trás pra perguntar algo para o homem estranho, mas ele sumiu do nada.

Fiquei ali sentado sem entender nada, quem era aquele homem afinal? O que ele queria dizer com aquelas coisas? Do nada ouvi um latido e senti um cachorro se aproximando e pulando em cima de mim. Era Pimpão com o graveto que joguei pra ele na boca. Fiz uma grande festa com meu cachorro dizendo que tava com saudades e perguntando por onde ele tinha se metido.

Nisso um grande vento começa no Arpoador e uma folha cai em cima da minha cabeça. Olho para a folha e era um promocional da minha cidade, Tremembé de Oeste chamando turistas.

Olhei a folha, fiz carinho no Pimpão e disse que era hora de voltar pra casa..voltar para Tremembé.