terça-feira, 24 de maio de 2011

Capítulo XXIII - O fim (2°Parte)

Cheguei ao cemitério, uma chuva torrencial caía sob Tremembé misturando-se com minhas lágrimas. Caminhei e passei por todos os túmulos de pessoas que me marcaram. Minha mãe, meu pai, Tadeu, Sandra, meu avô Ventania, Rodrigo, Gustavo e padre Pinheiro. Caminhei até encontrar o túmulo de Aloemi.

Cheguei perto de seu túmulo enquanto a chuva aumentava. Ajoelhei-me em frente a ele chorando e murmurando que a amava e seria pra sempre. Deitei-me sob o túmulo como se colasse meu corpo ao dela para sentir sua presença. Fechei meus olhos e fiquei ali tomando chuva e pensando em Aloemi.

De repente começo a ouvir uma voz, uma música. Mas quem seria àquela hora perto de virada do ano em um cemitério? Levantei para tentar entender e comecei a caminhar em direção a voz. Eu conhecia aquela música !! Chegando mais forte consegui descobrir qual era. Esses versos eram cantados.

“Você sabe o que é ter um amor meu senhor..ter loucura por uma mulher..”..

Não..não podia ser..parei congelado e balbuciei “Aloemi..”. A pessoa chegou mais próxima de mim e o balbuciar virou um grito “ALOEMI !!!”.

Olhei pra trás e não tinha mais túmulo olhei pra frente e ela estava lá nítida, em carne e osso. E com a aparência que eu havia lhe deixado cinqüenta anos antes. Gritei seu nome de novo e corri ao seu encontro.

Ela correu também e nos abraçamos forte. Um abraço de saudade, de amor, um abraço esperado e aguardado por mim durante cinqüenta anos. Um abraço que sonhei no trem indo pro Rio, nas duas vezes que estive numa igreja pra casar, nos subterrâneos do DOPS, na fazenda de Jesse Jones, na ilha deserta. Na prisão nos EUA, no meu vôo livre, em Brasília!! Em todos os cantos que eu estive sonhei com aquele abraço !!.  

Um abraço acompanhado de um beijo apaixonado exatamente meia noite de 1 de janeiro de 2001. Nesse instante a chuva parou e surgiu um Sol forte, vigoroso. A população de Tremembé que confraternizava a virada do ano e via os fogos foi toda pra praça sem entender aquele “Sol da meia-noite”. As beatas gritavam que era o juízo final. O padre desesperado balançava o sino. E Alexandre e Doido Tadeu com Aninha no colo e  pimpão latindo ao lado sorriam na frente do Moulin Rouge sabendo que algo bom estava acontecendo. 

E eu e Aloemi nos beijávamos. Molhados da chuva e de choro. Não percebi na hora, mas enquanto lhe beijava envelheci. Minha pele enrugou, meus cabelos embranqueceram, fiquei com corpo condizente com minha idade e ela também enquanto na foto eu voltava ao aspecto que tinha quando tirei. O retrato voltava ao seu estado normal. O retrato da vida

Nessa hora reparei que Marta nos olhava. Ela soltou o cabelo e o balançou. Quando fui ver era a cigana Regina que piscou o olho pra mim se virou e sumiu.

Aloemi sorriu e disse que até que eu era um velhinho bonito e eu falei que pra mim ela era a mesma menina linda de quando conheci. Rindo me perguntou então quanto tempo fazia mesmo que não nos víamos e respondi.

“Uma vida”

RECEITA DE UMA VIDA INTENSA

Ingredientes

- Infância saudável com um vô bacana
- Adolescência com descobertas e amigos eternos
- Uma paixão no colégio
- Namorar duas ao mesmo tempo
- Ir para guerra com irmão e refazer sua relação com ele
- O pai casar de novo e madrasta ser maravilhosa
- Morar em uma zona
- Fazer as pazes com o passado
- Tentar vida nova em outro lugar
- Tomar “não” no altar
- Conviver com fantasmas
- Lutar por um ideal
- Fazer parte de uma seita e enganar o fim do mundo
- Morar em fraternidade e cair com avião em uma ilha
- Virar um astro pornô
-Voar de asa delta e fazer grandes amigos
-Denunciar políticos safados
- Conhecer pessoas inesquecíveis na internet
- Ser pai
- Voltar as suas origens
- Sempre se apaixonar, por várias pessoas ou sempre pela mesma

MODO DE PREPARO

Misture todos os ingredientes e acrescente amor a tudo que faz. Desde um sonho de vida, uma relação amorosa ou de amizade. Até mesmo ao levantar da cama e chupar um picolé. Faça com amor. Coloque uma dose grande de paixão na massa para que ela cresça.

Aprecie mais um por do Sol seja no Arpoador ou na janela de sua casa. Veja crianças brincando, o mar, as estrelas. Não corra tanto a vida foi feita pra ser saboreada lentamente.

 Diga “bom dia”, “obrigado”, ”por favor,” e principalmente “desculpa”. Aprenda a perdoar e aceitar as pessoas como elas são.

Que somos seres humanos e por isso seres limitados com virtudes e falhas, aprenda a ter bom humor e rir de si mesmo

E por fim uma pitada de felicidade, não faça dela utopia e sim objetivo

Só evitem cabras, podem dar indigestão e não acreditem em ETs, eles não são confiáveis. Portanto não os convide pra mesa..ah..sirvam-se e bom apetite

Na boa, eu merecia um final feliz.


FIM



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