domingo, 1 de maio de 2011

Capítulo V - A ópera do malandro

Evidente que ninguém acreditou na minha história, seria trágico se não fosse cômico eu andando pelas ruas apenas de cueca e sapatos como se nada tivesse ocorrido e cumprimentando as pessoas. Cheguei em casa, contei a história pro meu pai, ele não acreditou, me deu uma surra e decidiu que eu precisava de umas férias.
Férias para o meu cérebro, repousar uns tempos numa casa de repouso, resumindo, meu pai achou que eu estava fazendo jus ao meu nome, um dia entraram dois caras de branco na minha casa, me deram uma injeção e parei num sanatório.
O sanatório ficava na divisa de Minas Gerais com o Rio de Janeiro e lá passava os dias sem fazer nada, com uma espécie de vestido, careca e acompanhado de malucos, seria uma ironia se não fosse uma coisa óbvia um cara chamado Doido parar no meio de malucos. Tinha um que achava que era Napoleão, outro pensava que era o presidente Getúlio Vargas, um terceiro achava que era Cleópatra, esse meu deu problemas porque vivia correndo atrás de mim querendo mostrar sua cobra. Mas acabei fazendo amizade ali, eu era tímido como já disse diversas vezes, mas uma vantagem que sempre tive foi facilidade de criar amizades.
Tinha um rapaz chamado Luis Felipe, devia ter minha idade mais ou menos, o pai o colocou lá porque ele dizia ouvir vozes, na época o estudo sobre esquizofrenia não era tão avançado, me perguntou por que tinha parado no sanatório e com toda naturalidade do mundo respondi.
Felipe: Por que você está aqui?
Doido: Nada demais, na verdade nem eu sei, eu estava na beira do rio com uma menina, beijando, abraçando, aí apareceu uma nave espacial que abriu a porta e a levou embora, meu pai não acreditou e me colocou aqui.
Felipe: Rapaz, você é doido !!
Doido: Sim, desde que nasci.
Ele se afastou de mim com medo, falando que eu era completamente maluco, mas com o tempo fui convencendo que não, que eu era uma pessoa normal, bem, pelo menos eu achava que era.
Nosso laço de amizade foi se estreitando, eu falava de Tremembé, de tudo que vivi. Meu avô, minha mãe, a cabra, a zona, Ericka, é..se eu ouvisse tudo também pensaria que era maluco. Ele era carioca e me contava do Rio de Janeiro. De como era a vida na Capital Federal, a noite do Rio de Janeiro,  boemia,  mulheres,  samba, gafieira, cassinos. Aquelas histórias me fascinavam.
Eu sempre gostei do Rio de Janeiro, lia livros e revistas da capital, ouvia histórias e tinha vontade de conhecer, depois que criei amizade com o Felipe fiquei com mais vontade ainda e combinamos que iríamos pro Rio quando saíssemos do sanatório.
Uma noite estava dormindo e o Felipe me chamou. Sonolento perguntei o que era, ele me disse que havia chegado a hora e perguntei hora de que, me respondeu, ir para o Rio de Janeiro. Falei que ele estava louco e tinha motivo para estar internado, porque não tinha como sair de lá, ele respondeu que durante semanas fez um plano e tinha como sim.  
Fomos disfarçadamente para o pátio, no pátio ele abriu a tampa de um bueiro e entrou. Fiquei ali olhando e ele me perguntou se eu ficaria parado, estava com nojo de entrar no esgoto, mas fui. Evidente a rede de esgoto fedia, estava imunda, barulho de ratos, tudo de nojento possível, rastejamos durante algumas horas e saímos na estrada, era a liberdade.
Pedíamos carona, mas ninguém parava, com o aspecto que estávamos era difícil mesmo. Depois de muito tentar um caminhoneiro parou e nos mandou subir, abrimos a porta da frente e ele exclamou “Nossa, como fedem!! Aqui não, lá atrás”, quando subimos atrás vimos que ele carregava porcos e junto com os porcos fomos até o Rio de Janeiro.
E o Rio de Janeiro era lindo como eu pensava. Cidade grande, pessoas bonitas, bem arrumadas, só nós dois que não. Praias maravilhosas, uma cidade em ebulição, Felipe gritava e falava que o Rio de Janeiro era a cidade mais bonita do mundo, a terra das oportunidades. Encaminhamo-nos para o bairro da Lapa, a Lapa fica na região central da cidade, berço da boemia carioca.
Na Lapa ficavam concentrados os malandros, as prostitutas, os poetas loucos que declamavam suas poesias com uma garrafa de cachaça na mão chorando a partida da mulher amada. Sob seus arcos muitas histórias de amor começaram e terminaram, muitas brigas com navalha na mão e gingado de bailarinos, mulheres exuberantes, homens com seus ternos brancos, chapéu panamá, era um outro mundo que eu conhecia.
Felipe já sabia aonde ir. Fomos a pensão de uma senhora conhecida como dona Li, ela já havia sido empregada de sua casa. Chegamos os dois lá fedendo, mortos de fome, dona Li nos viu e ficou muito feliz ao reencontrar o Felipe, mas preferiu não abraçá-lo, apenas perguntar o que havia acontecido.
Começamos a trabalhar na pensão de dona Li, ele como garçom e eu lavando pratos, assim pagávamos o quarto que havíamos pego na pensão e mal ou bem nos sustentávamos. A vida era complicada, trabalhava muito, mal tinha tempo pra nada, não saía pra me divertir, mas valia a pena, estava independente pela primeira vez na vida, estava no Rio de Janeiro.
O Rio de Janeiro era uma grande atração para um interiorano jovem como eu, a noite fervilhava, a música, os cabarés, as mulheres, mas eu só queria juntar dinheiro, alugar um canto só pra mim e começar uma universidade. Felipe ao contrário de mim trabalhava e depois só queria saber de curtir a noite, bebia e farreava cada vez mais, sempre andando com várias mulheres. Chegava bêbado quase de manhã, ia trabalhar de ressaca e ganhava broncas de dona Li que o tratava como filho, mas exigia responsabilidade com o trabalho.
Com o tempo mudei de emprego, deixei de lavar pratos pra dona Li e fui trabalhar no mercadinho do seu Joaquim, ali mesmo na Lapa. Ganhava melhor, conseguia assim juntar mais dinheiro e alcançar meus objetivos. Seu Joaquim era um português muito divertido, vascaíno fanático, adorava falar de Portugal, suas origens, quando eu contava minhas histórias ele ria estufando a barriga, alisava o bigode e dizia “tu és doido mesmo gajo”.
A vida até que ia bem, mas havia um problema. Com o fato de estar bebendo bastante o Felipe voltou a ouvir vozes, me contava que as vozes mandavam que ele fizesse coisas, eu argumentava que essas vozes não existiam, era fruto da imaginação dele e que ele devia procurar ajuda, mas eu falar e nada era a mesma coisa. Tentei ainda procurar ajuda com a dona Li, mas ela ria e contava que “o menino sempre foi maluquinho”. 
É..o menino podia ser maluquinho sim, mas estava mais pra um psicopata muito do perigoso. Uma noite eu dormia e acordei ouvindo o Felipe discutir com alguém, não sabia bem quem era, não conseguia ver mais ninguém, abri mais os olhos pra tentar enxergar melhor e perguntei o que estava acontecendo, ele pareceu não me ouvir e só gritava “ta bom, ta bom, vou fazer”.
Nisso, ao falar, ele se vira, está de vestido, uma peruca loira e um facão na mão, parecia a avó do Norman bates. Vira e vem em minha direção dizendo que precisava me matar, que recebeu ordens pra fazer e tentou cravar a faca em mim. Num pulo consegui me desvencilhar, abri a porta do quarto gritando por ajuda com ele atrás de mim, as pessoas da pensão acordaram e viram a cena, dona Li chamou a polícia. Ela chegou rapidamente e levou o Felipe, da delegacia foi transferido de volta para o sanatório, até que eu gostava do Luis Felipe, até tentar me matar.
Bem, a vida pra mim prosseguiu, continuava trabalhando com seu Joaquim, agora com mais uma história pra ele rir de mim e falar que eu era realmente um gajo doido, vivia do trabalho para a pensão, sem ter tempo para mais nada, até que..     
Até que como tudo na minha vida, nada pode ficar normal e eu sou movido a confusões, ainda mais se foram confusões amorosas e foi o que ocorreu. Dona Li chegou a mim e disse que estava com um problema, havia hóspede chegando à pensão e não tinha onde colocar, se eu me importava de dividir meu quarto e que se eu aceitasse me deixaria morando de graça lá. Bem, não queria dividir quarto, principalmente depois do último problema, mas estava juntando dinheiro e ficar sem pagar o quarto era uma ótima pra mim, topei e desci para o saguão a fim de conhecer meu novo companheiro de quarto.
Qual não foi minha surpresa quando desci e dei de cara com uma mulher bonita, cabelos ruivos, cacheados, branca. Dona Li apontou e disse que ela era minha nova companheira de quarto, ri e disse que era uma mulher, a menina fechou a cara e respondeu “que bom que você notou, pensei que fosse menos inteligente”
Dona Li me apresentou, o nome dela era Suzana, quando falei meu nome ela riu e disse “Nunca vi ninguém cujo nome combinasse tanto”, só pensei bem desanimado “é..pelo jeito vamos nos dar bem” .
No começo nem tínhamos muito contato, ela mal parava na pensão, trabalhava de dia como professora e a noite tomava conta de senhoras. Não nego que Suzana era  atraente e não podemos esquecer que mesmo eu já na altura dos meus vinte anos era virgem, devido aos inúmeros fatores que já relatei, o fato de morar no mesmo quarto de uma mulher mexia demais comigo.
Uma noite não agüentei, olhei para o lado e a vi de costas pra mim, coberta da cintura pra baixo, com uma camiseta e comecei a me tocar, com muita vontade. Do nada ela retira a coberta e mostra que está apenas de calcinha, aí não agüento, começo a me tocar freneticamente até chegar ao orgasmo, no fim ela pergunta “Acabou?”, constrangido respondo que sim e então ela diz “boa noite”, se cobre novamente e diz mais nada. Eu não sabia onde enfiar meu rosto.   
No dia seguinte ela veio pro almoço, não agüentei e sentei em sua mesa perguntando por que ela tinha feito aquilo, Susana riu e falou que achava que eu era virgem, ri e contei que tinha tido muitas mulheres, que até havia perdido a conta, ela deu um gole no café e exclamou “virgem!”
Começamos a nos dar bem, assim como eu ela também não era do Rio de Janeiro, era de Bauru, interior de São Paulo e foi ao Rio para estudar e tentar a vida formou-se no curso normal e virou professora. Perguntei se ela realmente precisava tomar conta de senhoras de noite, senão era cansativo, ela riu e contou que de noite me levaria ao seu local de trabalho.
De noite saímos e ela me levou a um cabaré, nunca havia entrado em um, era glamoroso, pessoas bonitas. Ela foi logo me dizendo que não se prostituía, apenas cantava no local, fiquei lá a noite toda, bebi demais, fiz amigos, conheci a nata da malandragem carioca, ainda tive tempo de ver Madame Satã derrubar três no chão em uma briga e também ver Susana cantar e ela cantava divinamente.
Voltamos pra pensão e eu estava entusiasmado, não estava acostumado com um local como aquele e ela parecia um rouxinol cantando. Falei que ela devia tentar carreira, me contou então que o seu sonho era um dia se apresentar na Rádio Nacional, a Nacional era o mais canal de comunicação da época, que alcançava mais lugares no Brasil, lançava tendências, consagrava artistas.
Eu, que era um jovem homem tímido que vivia pro trabalho mudei completamente, comecei a curtir a noite carioca. Ia aos cabarés, rodas de samba na Mangueira, Estácio, Vila Isabel, Madureira, convivi com gente como Nelson Cavaquinho, Geraldo Pereira, Ismael Silva, conheci Cartola. As escolas de samba como Estação Primeira de Mangueira e Portela, o carnaval do Rio com confetes e serpentinas, os cassinos, Cassino da Urca, do Hotel Glória, suas roletas que traziam sorte e azar. Comecei a usar terno branco, chapéu Panamá, um fino brigodinho e um lenço e uma navalha no bolso, o Rio sem aterro, o Rio dos bondes, a cidade maravilhosa em sua essência.
Acabou que engatilhei um namorico com a Susana. Gostávamos da companhia um do outro e ela tinha um beijo ardente, de tirar o fôlego, mas não queria transar comigo. Quando eu tentava ela ria e falava “só casando”, isso me deixava literalmente doido, subindo pelas paredes, mas cada vez mais eu era um malandro considerado, não respeitariam um malandro virgem, então disfarçava a dramática situação.
Parei de trabalhar, sobrevivia ganhando algum no jogo aqui e ali, vendia músicas que escrevia também, fato muito comum na época.
Vocês sabiam que alguns dos grandes clássicos da MPB do início dos anos 40  são meus? Por exemplo tem aquela música, a..melhor não falar, não tenho como provar que é minha e ainda posso tomar um processo. Mas enfim, até que dava pra tirar um dinheiro assim e dessa forma tinha mais tempo pra curtir a cidade, curtir a vida, com o namoro e quartos vagando na pensão Susana achou melhor não morar mais comigo pra não haver tentação e a virgindade continuava...        
Uma tarde estava jogando sinuca no bar em frente da pensão e vi uma menina bastante interessante entrando, fui atrás pra ver  quem era, entrei e vi dona Li a abraçando e falando bem vinda. Era sua sobrinha Luciana que iria morar conosco na pensão, uma loirinha linda, ar juvenil, logo me apresentei e falei que se ela quisesse conhecer a cidade que pudesse contar comigo, Luciana sorriu e contou que era carioca, só tinha passado uns tempos fora e assim o malandro já se encantara por mais uma.
Ninguém sabia de meu namoro com a Susana, decidimos manter segredo pra não atrair fofoca, como ela mal parava na pensão, trabalhava muito, ficava mais fácil uma aproximação com a Luciana. A menina começou a trabalhar no local ajudando a tia, eu sempre falava que ela merecia coisa melhor, que uma menina tão linda como aquela não poderia perder sua beleza e juventude lavando chão.
De tanto falar isso um dia ela concordou comigo, me puxou em um canto e disse que queria ganhar dinheiro, muito dinheiro e precisava da minha ajuda. Perguntei como se mal tinha pra mim, ela me disse que queria ser prostituta, gargalhei achando que era uma piada, falei que a piada era muito boa, mas que ela contasse a verdade, o que ela queria. Ela reforçou, queria ser prostituta, mas precisava de alguém para protegê-la. 
Mandei que ela falasse baixo, que se a tia dela escutasse uma conversa como aquela os dois estavam no olho da rua, ela reforçou a pergunta querendo saber se eu a ajudaria ou não, que se eu não quisesse arrumava outro pra ajudar. Respondi que não, que aquilo era loucura, ela ficou enfurecida, disse que tudo bem e saiu.
Mais tarde desceu toda arrumada, disse para a tia que iria tomar conta de senhoras, aquele velho papo que a Susana também tinha me passado. Eu estava com a Susana naquele momento conversando na sala, ficamos mais uns minutos lá e ela notou que eu não estava bem e perguntou se eu tinha algo, respondi que não, mas que não poderia acompanhá-la no cabaré naquela noite porque tinha que resolver algo importante na rua.
Fui pra rua atrás de Luciana, vasculhei por várias e nada de achá-la, até que achei na frente de um hotel do tipo barato. Falei pra ela vir embora comigo, ela disse que não, que estava decidida e nada iria impedir, me virei pra ir embora e mudei de idéia falando que tudo bem, concordava em ser seu cafetão, mas que ela seguisse tudo o que eu mandasse. Ela concordou e pediu para que eu me afastasse porque um homem estava chegando.
Fiquei cheio de ciúmes vendo a negociação, entraram no hotel e fui pra um bar perto beber, me enchi de cachaça, sentado no balcão vendo os homens jogando sinuca e imaginando a Luciana lá em cima com aquele homem lhe tocando.
Senti-me um homem traído, a pior espécie de corno, como das músicas de Lupicínio Rodrigues, bebia e a voz de Carlos Gardel e seus tangos cantando dor de amor teimavam em invadir minha mente através de fichinhas que os homens colocavam na máquina. Depois de um tempo o homem foi embora, ela desceu logo atrás e me chamou nervosa.
Perguntei o que havia acontecido, Luciana me informou que o homem não tinha pagado o combinado, me enfureci e fui atrás dele. Toquei em seu ombro e perguntei se ele não estava esquecendo nada, ele respondeu que não e eu disse que sim, que não tinha dado o dinheiro da moça direito, tirei a navalha do bolso e comecei a rodar como um capoeirista na sua frente, pronto pra furar-lhe. Na hora de atacar ele foi mais rápido, me deu um soco no meu rosto e eu fui nocauteado, no chão ainda deu tempo de ver a Luciana dar um monte de bolsadas no cliente gritando que “ninguém batia no seu homem” antes que eu desmaiasse.
Acordei nos braços dela, perguntando se estava tudo bem, respondi que sim, ela riu e mostrou o dinheiro, havia conseguido todo combinado, tirou uma parte e me deu. Perguntei por que ela estava me dando e ela respondeu que foi porque eu havia a protegido, agradeceu e me deu um beijo na boca. Os dois ali no chão, enquanto curtia aquele beijo delicioso pensei que eu que tinha que pagá-la pra me proteger.
Assim como a Susana ela me pediu segredo, evidente que aceitei, era uma maravilha pra mim, namorava às duas e uma não sabia da outra. O problema era que a Luciana também não queria transar comigo, falava que vivia de sexo então comigo não podia ser uma coisa qualquer, tinha que ser especial então só casando, a mesma expressão que a Susana usou comigo, assim minha sina continuava. Não foi fácil explicar pra Susana o porquê do meu olho roxo, disse que havia vencido uma aposta na sinuca e o opositor não se conformou.
Dessa forma o rapaz que chegou naquela cidade tímido e acompanhado por um maluco que ele sim merecia o nome de doido, vivia pro trabalho e pra juntar dinheiro pra entrar numa universidade virou um típico malandro carioca que namorava duas mulheres e se sustentava de jogatina e de cafetinagem.
Conseguia dividir meu tempo entre acompanhar a Susana cantando, sinuca, jogo de cartas, roletas, corridas de cavalo, samba com os parceiros de fé e proteção à Luciana. Era uma vida cansativa, mas maravilhosa, só chegava em casa quando o galo cantava e acordava tarde. Uma noite o preto 17 saiu 10 vezes seguidas no cassino e ganhei um dinheirão, dei presentes caros pras duas, roupas novas pra mim, era a vida que pedi a Deus.
Enquanto vivia essa situação tentava ajudar a Susana a concretizar o seu sonho, cantar no programa de calouros do Ary Barroso tentei com alguns contatos e consegui.
Contei a novidade e ela se emocionou. Abraçou-me e disse que eu era o amor de sua vida, treinou com afinco. Apresentou-se no programa em plena Rádio Nacional pro país inteiro ouvir, cantou um samba meu e se saiu muito bem, no fim ao microfone citou meu nome, disse que eu era o seu amor e agradeceu tudo que eu fiz.
Fiquei orgulhoso e ao mesmo tempo gelado, temendo que a Luciana tivesse ouvido o programa também, Susana saiu do estúdio e disse no meu ouvido “hoje depois do show no cabaré vou fazer amor com você, você merece”, o pavor que estava virou entusiasmo, naquela noite finalmente eu iria transar.   
Uma tinha ciúmes da outra. Para Luciana contava que a Susana era apenas uma amiga e que era lésbica e eu que deveria ter ciúmes. Para Susana eu contava que via a Lu como uma irmã mais nova que precisava de atenção e a protegia como agradecimento por tudo que dona Li fez por mim e assim malandramente levei as duas na maciota e tudo ia tranquilamente até a apresentação no cabaré.
Susana como sempre cantou lindamente, desceu do palco, puxou minha mão e falou vamos pra casa que vou dar seu prêmio, me empolguei, mas nem conseguimos dar três passos.
 Luciana apareceu na nossa frente irritadíssima, cheia de ciúmes gritando canalha, Susana gritou mais alto ainda e perguntou como ela ousava falar assim com o seu homem, Luciana respondeu dizendo que eu era o homem dela.
Ficaram gritando uma pra outra até que a Luciana quebrou uma garrafa e apontou pra Susana gritando “eu vou te matar, o homem é meu !!”, no mesmo instante Susana também quebrou uma garrafa e gritou “Não, é meu!!”. Ainda tentei argumentar dizendo que poderíamos negociar a minha posse, as duas juntas gritaram para que eu calasse a boca, me empurraram e começaram a brigar. Uma briga generalizada tomou conta do cabaré, ainda deu tempo de ver uma errando soco na outra e nocauteando o Madame Satã, saí de fininho e quando já estava na porta do cabaré suspirando aliviado por ter escapado me puxam para dentro de um carro.
Quando olho pro banco ao lado dou de cara com meu pai que esbraveja “Seu irresponsável, você sumiu, por onde andou???”, tentei ainda falar alguma coisa mas ele não deixou, pegou na minha orelha e gritou “Você vai voltar pra Tremembé comigo e vai aprender a ser homem!!!”, assim o carro partiu e deixou a briga pra trás, com ela meus dois amores.
Encerrava assim a minha vida de malandro carioca, não durou muito tempo, mas foi ótimo. Uma vida de farras, bebedeiras, samba, jogatina, amor, muito amor e nenhum sexo pra variar. Voltaria pra Tremembé tão virgem quanto fui embora, mas não voltava igual.
Voltava pra minha cidade apaixonado pelo Rio de Janeiro e prometendo a mim mesmo que voltaria um dia praquela cidade maravilhosa e morar em definitivo. Vivi muitas coisas na minha vida, mas nada se compara a beleza e felicidade que era o Rio de Janeiro dos anos 40, era tão bom que a gente nem lembrava que tinha uma guerra mundial em curso. Vou colocar uma letra de uma música que pra mim é a que melhor retrata o momento que vivi. O momento que me apaixonei pelo Rio de Janeiro.
RIO ANTIGO

Composição: (Nonato Buzar - Chico Anysio)
Quero um bate-papo na esquina
Eu quero o Rio antigo
Com crianças na calçada
Brincando sem perigo
Sem metrô e sem frescão
O ontem no amanhã
Eu que pego o bonde 12 de Ipanema
Pra ver o Oscarito e o Grande Otelo no
cinema
Domingo no Rian
Me deixa eu querer mais, mais paz

Quero um pregão de garrafeiro
Zizinho no gramado
Eu quero um
samba sincopado
Baioba, bagageiro
E o desafinado que o Jobim sacou
Quero o programa de calouros
Com Ary Barroso
O Lamartine me ensinando
Um lá, lá, lá, lá, lá, gostoso
Quero o Café Nice
De onde o samba vem
Quero a Cinelândia estreando "E o Vento Levou"
Um velho samba do Ataulfo
Que ninguém jamais agravou
PRK 30 que valia 100
Como nos velhos tempos

Quero o
carnaval com serpentinas
Eu quero a Copa Roca de Brasil e Argentina
Os Anjos do Inferno, 4 Ases e Um Coringa
Eu quero, eu quero porque é bom
É que pego no meu
rádio uma novela
Depois eu vou à Lapa, faço um lanche no Capela
Mais tarde eu e ela, nos lados do Hotel Leblon

Quero um som de fossa da Dolores
Uma valsa do Orestes, zum-zum-zum dos Cafajestes
Um bife lá no Lamas
Cidade sem Aterro, como Deus criou
Quero o chá dançante lá no clube
Com Waldir Calmon
                                                                                                                                                            
Trio de Ouro com a Dalva
Estrela Dalva do Brasil
Quero o Sérgio Porto
E o seu bom humor

Eu quero ver o show do Walter Pinto
Com mulheres mil
O Rio aceso em lampiões
E violões que quem não viu
Não pode entender
O que é paz e amor
















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