segunda-feira, 16 de maio de 2011

Capítulo XVIII - Menino do Rio

Cuidei da baleia como Natália pediu, mas nem foi por muito tempo logo Natália voltou. Thiago foi preso ao tentar entrar na Turquia com haxixe presa no corpo e ser pego por cães farejadores. Natália foi deportada pra América enquanto o traidor do Thiago conhecia a agradável e aprazível prisão turca pegando um “expresso que saía meia-noite”.

Aluguei um pequeno apartamento em Manhattan, mas nem fiquei por muito tempo. Logo saiu a notícia que o Brasil havia aprovado a anistia aos presos políticos. Eu estava liberado para voltar ao Brasil. Agradeci aos Estados Unidos tudo que vivi lá e voltei.

Cheguei ao aeroporto do Galeão no Rio de Janeiro muito emocionado dez anos que não pisava no país. Saí na área de desembarque, mas ninguém me esperava. A festa toda já tinha sido feita para as chegadas de Fernando Gabeira, Miguel Arraes, Betinho, Leonel Brizola entre outros.

Peguei um taxi e passeei pela cidade, Maracanã, centro da cidade, a orla da zona Sul, praias de Copacabana, Ipanema. Fazia um dia de Sol bonito no Rio de Janeiro um dia azul lindo como essa cidade havia me acostumado a ver, lindo como essa cidade teimava em não me fazer esquecer em meus pensamentos. Lembrava da música de Gilberto Gil “aquele abraço”. O Rio de Janeiro continuava lindo, o Rio de Janeiro continuava sendo o Rio de janeiro, fevereiro e março.  
    
Desci do taxi na praia de São Conrado tirei a roupa ficando só de sunga e mergulhei na Baía de Guanabara. Que saudades sentia de dar um mergulho daqueles um mergulho não só refrescante, mas que limpava de mim todas as impurezas que aquela ditadura militar maldita impregnou em meu corpo. Lamentei por Raquel, João Batista e todos os companheiros que tombaram na luta e não tiveram a oportunidade de dar aquele mergulho.

Notei que a cidade estava um pouco diferente também. Muita gente bonita na praia, claro o Rio sempre teve gente bonita, mas uma gente jovem que parecia curtir a vida e tirar o melhor dela. Vi alguns surfando, outros com velas praticando Wind surf olhei pro alto e vi praticantes de vôo livre com suas asas. Olhava pro céu e ficava espantado com tamanha coragem. Eu nunca que voaria daquela forma.

Mais uma vez voltava a estudar direito dessa vez com esperanças de não ser obrigado a parar pra entrar em bandas de rock e luta armada ou porque entrei para uma fraternidade louca. Mas os tempos eram outros a juventude só queria ser feliz.

Uma vez fui fazer uma prova e como não sabia bem a matéria coloquei “cola” dentro do código civil. O professor descobriu e tomou minha prova. Discutimos asperamente e ele ordenou que eu cumprisse castigo e sábado fosse para a universidade para o dia do castigo. Argumentei que essa decisão era absurda éramos todos adultos e parecia castigo de colégio. O professor disse para eu cumprir o castigo senão me reprovaria.

Apesar do absurdo daquela decisão resolvi cumprir era melhor que ficar reprovado. Cheguei a tal sala de castigo e tinha mais quatro pessoas, dois homens e duas mulheres. Falei oi ninguém me respondeu e sentei.

O diretor da instituição entrou logo depois entregando folhas pra gente e falando que teríamos o dia inteiro para fazer uma redação sobre o que nós éramos. Saiu e deixou os cinco na sala. Ficamos horas em silêncio até que começamos a conversar. O clube dos cinco estava formado.

Fizemos uma grande amizade. Carlinhos era um cara sonhador, adorava tocar violão, praticar surf e dizia que um dia iria morar na Califórnia viver a vida sob as ondas. Soninha era uma menina bonita, modelo de moda praia. Eduardo Valente, que nós chamávamos de Edu era uma pessoa maravilhosa. Adepto do vôo livre era o amigo sempre pronto para dar conselhos uma espécie de líder do grupo e Gabriela, a Gaby. Menina meiga, amiga, muito especial era a minha melhor amiga.

Com o tempo se junto ao grupo o Diego. Rapaz bem humorado, irônico, sarcástico que fumava como uma chaminé e bebia álcool como se fosse água. Dizia-se bissexual e falava que era a melhor opção existente porque tinha duas vezes mais chances que todos de se dar bem num sábado à noite. Éramos uma turma unida e bem feliz.

Curtimos muito juntos. Estávamos no show de 1° de maio no Riocentro quando a tal bomba explodiu no carro dos militares. Só soubemos quando paramos pra beber na Gávea e a Gaby que não havia nos acompanhado ao show veio correndo contar. Freqüentávamos os melhores “points” da cidade, subíamos o morro da Urca para assistir shows, íamos direto ao Circo Voador, ao Hippopotamus e de dia estávamos na praia. Era o nosso escritório.

O tempo passava e nossa irmandade aumentava. Abri com Carlinhos uma pequena loja de vendas de prancha de surf que ele mesmo fazia. Edu abriu uma barraca na praia em sociedade com Soninha que vendia produtos naturais. A “barraca do Valente” virou um grande sucesso na praia de São Conrado. Gaby era mais engajada politicamente lembrava um pouco Raquel no seu jeito de ser e Diego decidiu trabalhar com música virando empresário de grupos musicais que estavam em começo de carreira.

Eu ficava o dia todo ouvindo Carlinhos falar que um dia iria morar na Califórnia, que surfaria as melhores ondas do Havaí. Eu ria e ouvia meu amigo, quem me salvava as vezes era Gaby que passava lá para me levar pra tomar água de coco na praia. Ele decidiu que eu tinha que aprender a surfar e me ensinou. Aprendi bem, não eram raros os dias que ele batia em minha casa ainda amanhecendo para pegarmos nossas pranchas pra ir surfar no Arpoador. Gaby sempre parava para nos ver e incentivava. Edu nos esperava depois com coco geladíssimo para repor energia.

Edu era brilhante no vôo livre já havia sido campeão mundial. Era uma espécie de ídolo da garotada que freqüentava a praia nasceu naquelas areias praticamente e sempre contava suas histórias. Fazia parceria com Carlinhos nos violões e cantava muito bem. Falava que um dia seria cantor e cantaria no Maracanã como Frank Sinatra fez. Sua fã número um era Soninha, os dois acabaram namorando.

Um dia Carlinhos veio com a notícia que iríamos pro Havaí disputar um torneio de surf. Ri e falei para ele contar a próxima piada, mas ele não contou mais nenhuma disse que era sério nós iríamos eu querendo ou não porque já tinha nos inscrito no torneio.

Ele saiu andando pra atender um cliente e perguntei como ele podia ter feito isso sem minha autorização. Carlinhos respondeu que não adiantava mais eu reclamar, eles não devolveriam dinheiro e só restaria a nós treinar e fazer bonito.  

Contei pra Gaby e ela riu falando que eu não devia ter medo, tinha potencial. Falei pra ela do meu trauma com esportes de quando morava nos Estados Unidos. A menina respondeu que confiava em mim no meu talento e que iria junto pra torcer pela gente. Agradeci e falei que realmente precisava dela lá pra me resgatar quando me afogasse. Gaby fez carinho no meu rosto e disse que eu era doido mesmo. Não respondi o “desde que nasci” o carinho estava mais gostoso.

Amava todos os meus amigos, mas tinha um carinho especial por Gaby. Parecíamos almas gêmeas, uma grande sintonia. Ela era muito carinhosa comigo sempre me dando força, me colocando pra cima. Lembrava a irmandade que eu tinha com Sandra. As vezes parecia que ela tinha ciúmes de mim, mas eu pensava ser ciúme de irmã e uma preocupação dessas comigo me fazia muito bem sempre me senti uma pessoa carente, não sei se já perceberam...

Edu, Soninha e Diego foram se despedir de nós e eu, Carlinhos e Gaby embarcamos pro Havaí. Não fazia nem muito tempo que tinha partido dos Estados Unidos e estava de volta à terra do Tio Sam. Mas no Havaí nunca tinha ido e era lindo, praias exuberantes, ondas fantásticas e as nativas maravilhosas, isso que mais empolgou Carlinhos. Gaby como uma irmã tomava conta de mim e falava para eu não me envolver com as havaianas tinha que focar no torneio.

Chegou o dia do torneio e a primeira bateria foi logo de Carlinhos. Ele era um ótimo surfista e mostrou isso manobrando, entrando em tubos vencendo facilmente seu adversário. Saiu do mar e eu e Gaby já lhe esperávamos para cumprimentar. Ele me abraçou e desejou boa sorte. Minha bateria estava chegando e eu ficando nervoso.

Gaby notou meu nervosismo e com os dois sentados na areia fez massagem em meus ombros e meu pescoço. O locutor anunciou minha bateria, ela me deu um abraço por trás, um beijo no pescoço e no meu ouvido disse “boa sorte campeão”. A presença dela me fazia muito bem. Estava calmo para fazer uma grande bateria.    

Peguei minha prancha fiz o sinal da cruz e entrei na água. Remei em direção as ondas e levantei. Sentia-me forte, seguro, queria conquistar aquela competição. Uma onda maior veio e aproveitei para entrar nela e fazer um tubo.

Só acordei na areia com salva-vidas loiras e peitudas vestidas de vermelho fazendo respiração boca a boca em mim.

Gaby e Carlinhos vieram correndo ver como eu estava. Gaby afastou as salva vidas de perto de mim e chorando me abraçou perguntando se eu estava bem. Respondi que sim só me sentia um pouco tonto. Carlinhos falou que fui bem em minha bateria fiz cinco segundos perfeitos depois que a coisa ficou triste. É minha carreira no surf se encerrava ali.

Mas ainda tinha o Carlinhos disputando. Os dias iam passando e ele se classificando nas baterias. Meu amigo sempre ia dormir cedo porque as provas eram logo de manhã e eu tentava curtir a noite. Gaby sempre ia junto comigo e falava pra eu não ficar com nenhuma moça do local porque logo iríamos embora e a moça só sofreria. Eu mandava que ela desencanasse e curtisse também arrumando um havaiano. Gaby ficava de mau humor e dizia que não estava lá para isso.

Chegou o dia da final e Carlinhos se saiu muito bem, surfou como um verdadeiro campeão. Ganhou a competição e saiu do mar correndo para me abraçar. Recebeu um troféu, uma medalha e um cheque de dez mil dólares que investiu na loja.

Voltamos ao Brasil. Carlinhos com troféu, medalha e dinheiro, eu com as mãos abanando e Gaby com óculos escuros novos que tinha comprado.

Nossos amigos nos receberam com festa no aeroporto e Edu falou que aquilo merecia uma comemoração. Ele e Soninha estavam organizando um lual. Diego irônico disse que era uma dupla comemoração porque não era todo dia que num mesmo grupo tínhamos o primeiro e o último colocado de uma competição. Sorri pra ele com cara de quem queria esganar.

A noite do lual chegou e além de nós seis outros amigos participaram. A noite estava muito boa com Carlinhos e Edu com seus violões cantando, Soninha encostada no ombro de Edu mostrava que o namoro era pra valer.

Em um determinado momento vejo uma moça se aproximar, estava com um vestido vermelho que quase levantou com o vento e ela segurou. Perguntei ao Diego quem era a dama de vermelho e ele não soube responder. Nesse instante Soninha levanta e vai correndo abraçar a moça leva ao nosso grupo e conta que o nome dela era Alessandra. Aquele sentimento de atração e encantamento que tantas vezes já havia me perseguido voltava.

 Aproximei, me apresentei e começamos um papo animado ficando boa parte da noite conversando até que ela se despediu dizendo que tinha uma sessão de fotos pra manhã seguinte. Deu um beijo no meu rosto e partiu me deixando encantado, notei que Gaby estava em um canto, parecia triste. Perguntei para minha amiga que acontecia e ela só disse que estava cansada.

No dia seguinte já fui cedo à barraca do Edu incomodar a ele e Soninha. Perguntei a Soninha mais informações sobre Alessandra e como conseguia encontrá-la. Soninha respondeu que ela sempre ia numa danceteria na Lagoa, quase todas as noites e que eu tentasse a sorte lá.

O grupo foi a tal danceteria e ficamos lá dançando e nos divertindo. Diego logo arrumou um rapaz e eles ficaram se beijando num canto da casa. Edu e Soninha eram clima de amor total e eu Gaby e Carlinhos circulávamos pela disco. Gaby perguntava o que eu tinha que estava ansioso. Eu respondia que era nada estava apenas procurando uma pessoa. Ela perguntou quem quando Alessandra chegou à danceteria.

Estava linda com uma calça justa e um top branco deixando à mostra a marca de biquíni. O DJ tocava a música do radio taxi “garota dourada” e eu pensava, era a música perfeita para ela. Aproximei-me e perguntei se lembrava de mim. Ela sorrindo respondeu que sim e perguntei se queria dançar, me deu a mão e fomos pra pista.

Dançamos algumas músicas e trocamos nosso primeiro beijo ao som de “lança perfume” de Rita Lee. Nem percebi, mas nesse momento Gaby foi embora da casa.

Edu e Soninha não eram mais o único casal agora tinha Alessandra e eu. Diego não contava porque cada hora ele agarrava uma pessoa diferente não importando se era homem ou mulher.

Meus dias viraram uma grande loucura. Engrenei um tórrido romance com Alessandra a ponto dela me levar em sua casa. Era uma casarão chique em Laranjeiras e seus pais me receberam de modo frio. Depois soube que eles não gostaram de mim porque queriam um homem rico para a filha. Mas mesmo com esse problema continuei com ela e começamos a namorar.

A loja com Carlinhos ia de vento em popa, cada vez mais clientes e nessa época decidi me aventurar em outro esporte. Um dia subi a pedra da Gávea para ver Edu saltar com a asa. Perguntei para ele se não sentia medo quando saltava e ele respondeu que não quando saltava se sentia uma pessoa livre e perto de Deus.

Falei que achava bacana o vôo livre, mas não sabia se um dia teria coragem de saltar. Edu respondeu e disse que eu não tinha muito tempo para arrumar essa coragem porque eu saltaria com ele.      

Perguntei se ele estava maluco porque eu nunca faria isso. Meu amigo riu e disse que não tinha jeito eu iria saltar teria umas aulas naquele dia de como proceder no salto e saltaria com ele na mesma asa. Relutei, mas não adiantou nada o Edu era uma pessoa muito carismática e de fácil convencimento. Saltei com ele.

E realmente saltar era uma situação única. Comecei a gritar primeiro de pavor e depois de euforia. Edu mandava que eu curtisse o momento porque éramos dois passarinhos tendo o céu pra desbravar e eu curti. Olhava as pessoas embaixo parecendo formigas, as nuvens perto de mim como se eu pudesse tocá-las, o vento no meu rosto. Sentia um grande prazer parecia mesmo um contato direto com Deus. Descemos na praia e meu amigo perguntou o que eu achei. Respondi que tinha achado meu esporte era aquilo que eu queria vôo livre. Algumas semanas depois já estava saltando sozinho.

Edu e Soninha se casaram e fizeram seu casamento na praia em um lual. Foi uma cerimônia diferente de tudo que eu já tinha visto todo mundo com bermudas e camisas floridas inclusive o noivo. A noiva claro de véu porque é o sonho de toda mulher.

A festa foi ali mesmo nas areias onde conheci muita gente bacana, inclusive um casal esquisito formado por dois homens e uma mulher que estavam acompanhados de uma criança. Eles me contaram que trabalhavam como dublês e em eventos esportivos e também como era aquela estranha vida a três, Achei todos muito legais, mas achei que aquela história tinha cheiro de armação.   

Enquanto beijava Alessandra via Gaby triste em um canto, pedi licença e fui até a minha amiga perguntar o que ela tinha. Ela respondeu que nada apenas estava preocupada se a emenda das diretas do deputado Dante de Oliveira iria passar no congresso. Respondi que passaria sim e perguntei se ela queria ir comigo na manifestação pró diretas que teria na Cinelândia. Gaby abriu um sorriso como há tempos não abria e disse que iria.

E fomos ao comício e depois consolei Gaby quando ela no meu ombro chorou porque a emenda não foi aprovada. Alessandra tinha ciúmes de nossa relação e brigávamos sempre porque eu também não aceitava que os pais dela nem me recebessem em casa. Mas apesar desses problemas todos nosso namoro continuava e de certa forma dávamos bem.

Um dia Carlinhos me contou uma novidade. Estava repassando sua parte da loja pra mim porque finalmente realizaria o sonho de morar na Califórnia. Fiquei feliz pelo meu amigo e perguntei como havia surgido aquela surpresa.

Ele me contou que havia sido observado no torneio que venceu e uma empresa que fabricava roupas esportivas de San Francisco entrou em contato  querendo patrociná-lo e ele só precisava se mudar pra lá. Dei um abraço em Carlinhos e desejei toda a sorte do mundo perguntando quando ele iria. Respondeu que seria depois do Rock in Rio.

Fomos ao Rock in Rio e pela última vez os seis amigos estariam reunidos. Celebramos ao som do Barão Vermelho a vitória de Tancredo Neves na eleição indireta pra presidente do Brasil e o futuro que esperava nosso amigo. Carlinhos eufórico falava que seria artista de cinema e seu destino era ser star. No dia seguinte o levamos no aeroporto e a despedida foi emocionante. Quando ele entrou na área de embarque e o perdemos de vista parecia que nosso grupo nunca mais seria o mesmo.

Passado um tempo voava com minha asa quando desci e encontrei Diego sentado na areia com semblante abatido. Sentei ao seu lado e perguntei se havia acontecido algo e ele me respondeu que estava preocupado e precisava desabafar com alguém. Perguntei se queria desabafar comigo e respondeu que sim.

Disse que estava há algum tempo com febre, diarréia e tosse e não sabia o que era, tinha perdido peso também. Falei para ele que com saúde não se brincava e ele devia procurar um médico. Diego com lágrimas nos olhos respondeu que tinha medo de se consultar e descobrir que estava com a “maldita”. A maldita era a AIDS.

Falei com ele que viver na dúvida e no pavor adiantaria nada e que era bom que ele fizesse logo o exame e tirasse aquela perturbação da cabeça. Diego começou a chorar e me ofereci para ir com ele ao médico.

Fomos ao médico e foi recomendado que ele fizesse o exame. Ele fez e no dia de pegar o resultado eu estava bem cedo em sua casa para levá-lo. Fomos ao hospital e eu fiquei na recepção enquanto ele entrou na sala do médico. Ficou um bom tempo lá e saiu correndo e chorando, fui atrás dele e o alcancei na porta do elevador apertando o botão para descer como um louco.

Perguntei o que tinha acontecido e ele chorando virou pra mim e disse “eu fui tocado!! Eu vou morrer!!”. Abracei meu amigo e evitando que ele visse minhas lágrimas descendo falei que ele não estava sozinho.

De noite Alessandra, eu, Edu, Soninha e Gaby fomos à casa de Diego lhe fazer uma visita. Ele nos atendeu bem desanimado. Entramos e perguntamos se ele estava bem, Diego respondeu que sim na medida do possível e batemos papo na sala. A conversa parecia que tinha o animado um pouco porque ele estava até rindo. Num momento ele levantou e respondeu que
iria ao banheiro e já voltava.

Diego demorava a voltar e achamos estranho. Edu virou para mim e falou que era melhor irmos ao banheiro para ver o que acontecia. Fui com ele e batemos na porta perguntando se estava tudo bem e ele não respondia, batemos de novo e nada. Assustado e com péssimo pressentimento falei para Edu que era melhor arrombarmos.

Arrombamos a porta e encontramos Diego caído em cima da privada com o pulso cheio de sangue e uma gilete caída no chão. Entramos em desespero e pedimos para as mulheres ligarem urgente para o hospital. Pegamos sua cabeça e batíamos no seu rosto para que ele reagisse.

A tentativa de suicídio foi fracassada, mas a verdade é que estávamos na metade dos anos oitenta e naquele tempo mais do que nunca a AIDS era uma doença fatal e ela foi muito cruel com Diego. O menino bronzeado, cabeludo com permanente sorriso no rosto teve que experimentar todos os tipos de drogas para diminuir a agressividade da doença, viajou várias vezes aos Estados Unidos com a família e começou tratamento com AZT, aquele aspecto que relatei acima foi embora.

Diego ficou com os cabelos ralos, pele escureceu, o rosto parecia ser apenas osso e emagreceu muito baixando dos quarenta quilos. Nós tentávamos animá-lo, levávamos pra sair e ele mesmo não podendo bebia muito e aprontava grandes escândalos. Perdemos a conta de quantas internações sofreu. Era grande o sofrimento de nosso amigo, mas parecia que o fim desse sofrimento estava cada vez mais próximo.

Diego não conseguia mais andar então em um fim de tarde fui até sua casa levá-lo para assistir o por do Sol do posto 9 de Ipanema. Garanto a vocês que existem poucas imagens no mundo tão bonitas. Empurrei sua cadeira de rodas até as areias e sentei ao seu lado para admirar a natureza e sua criação.

Diego olhava fixo pro horizonte, perguntei o que ele tanto olhava e ele respondeu que era sua próxima moradia, depois entregou um envelope para mim. Perguntei o que era e ele respondeu para que eu não abrisse até a sua morte e que lesse no dia de seu enterro.

Mandei que ele parasse de besteiras porque não iria morrer. Ele implorou para que eu prometesse que não abriria e só abriria e leria em voz alta nesse dia. Prometi e falei que esse dia iria demorar muito. Continuamos olhando o Sol se por quando ele perguntou por que eu namorava Alessandra. Respondi que gostava dela, ela era um tesão e combinávamos muito.

Meu amigo riu e disse que eu estava falando besteira e sabia disso que nós dois tínhamos nada a ver ela era uma filhinha de papai rico que nem o namoro tinha coragem de assumir direito e perguntou quantas vezes eu fui à casa deles nesses anos todos de namoro. Respondi que só uma vez quando os conheci. Diego falou que eu não enxergava o óbvio que Alessandra não era mulher pra mim, que mulher pra mim era a Gabriela.

Eu ri e falei que aquela coisa de AZT deixava doidão mesmo e se ele podia me arrumar um comprimido porque também queria sentir aquela onda. Diego disse que falava sério e que eu além de doido era idiota porque só eu não percebia que a Gaby era louca por mim e que sempre estava do meu lado em todos os momentos.

Eu abaixei a cabeça e sorrindo comecei a pensar se aquilo poderia ser verdade. Diego olhou pra mim e falou que até que eu era bonitão e que se eu não fosse um pára raio de confusões me pegaria. Nesse momento gargalhamos e dei um beijo no rosto do meu amigo.

Foi a última vez que vi Diego vivo.

No dia do enterro foi quase todo mundo. Estávamos Gaby, Edu, Soninha e eu. Carlinhos não foi porque não teve como sair da Califórnia e Alessandra não sabia por qual motivo. Dei um abraço nos pais de Diego e falei que eles deviam ter muito orgulho de filho que era uma pessoa maravilhosa. O padre rezou por sua alma e antes que fechassem o caixão pedi para que esperassem que o Diego tinha um último pedido. Retirei o envelope do bolso e dele uma folha. Era uma poesia e como ele queria declamei.

Poesia de Diego

“Adeus amigos, tenho que partir
A morte me chamou para dançar
E não posso recusar seu convite
Muito dancei por essa vida
Muitas bocas beijei
Homens e mulheres amei
Mas adeus amigos
A morte me chamou para dançar

Morrer não é ruim
Pior é perder a vida
E a vida é tão boa de ser vivida
Como o vento fresco que vem da praia
O toque certo da pessoa certa
O amasso molhado num dia de chuva
Adeus amigos
Mas a morte me chamou para dançar

Não chorem por mim
Celebrem a vida
Festejem a amizade
O amor que enfurecido
Sai de todos os nossos poros
Saber morrer é um charme
Saber viver é um dom
E eu aproveitei ao máximo
E posso dizer que tenho dever cumprido

Adeus amigos, tenho que partir
A morte me chamou para dançar
E eu nunca soube dizer não”

Acabei de ler e o caixão foi fechado. Mais uma vez pegava na alça por uma pessoa querida. O caixão desceu ao som de “Canção da América” e eu o tempo todo quieto era o único que não cantava. No fim Edu, Soninha e Gaby me chamaram para ir embora e eu disse que tinha que resolver uma situação.
Saí do enterro e fui direto à casa de Alessandra. Toquei a campainha e ela desceu perguntando o que eu queria e que já tinha dito para eu não ir lá porque os pais dela não iriam gostar. Respondi que queria que os pais dela se ferrassem e perguntei por que ela não foi ao enterro do Diego. Alessandra respondeu que o pai não tinha deixado sob argumento que Diego era “aidético” e que ela achava que o pai estava certo não era de bom tom e pegaria mal.
Olhei para ela beijei seu rosto e disse até nunca mais, fui embora e deixei Alessandra sem reação. 
A vida tinha que continuar. De um lado havia morte, mas de outro vinha a vida. Edu e Soninha tiveram um filho que fui padrinho batizaram de Jorge Guilherme e alguns meses só depois Soninha engravidou de novo e Edu se entusiasmou e falava a todos que agora viria uma menina. O entusiasmo de meu amigo não vinha só disso. O campeonato mundial de vôo livre se aproximava seria disputado naquele ano no Japão mesmo local que anos antes Edu conquistara seu título e ele sonhava com esse bicampeonato, mas queria que eu participasse do mundial também. 
Eu desanimado falava que não que tinha vários traumas com esportes. Mas o problema não era esse eu até gostava muito de vôo livre e era bom no esporte. Mas estava preocupado porque assim como Diego também estava com uma febre e diarréia que não passavam. Inscrevi-me no torneio, mas não sabia se iria participar e estava com medo de ir ao médico e descobrir que tinha AIDS. Lembrei dos meus tempos de ator pornô nos Estados Unidos e me apavorei.  
Gaby notou que eu não estava bem e contei. Assim como fiz com Diego ela disse que eu não poderia ficar sem saber o que eu tinha e que iria comigo fazer o exame, fui com ela e fiz. Os dias seguintes foram de terror sabia que se tivesse com AIDS era meu fim. Olhava o tal retrato da vida e lá eu estava envelhecido, mas não aparentava doença. Pegava-me naquela esperança.
Na noite anterior de pegar o exame Gaby dormiu comigo na minha cama para me fazer companhia. Fez carinho no meu cabelo até que eu dormisse, mas não fizemos nada, agimos como irmãos.
Fomos pegar o exame e ela ficou na recepção esperando. Era o mesmo hospital e o mesmo médico que atendeu Diego. Ele me passou o resultado, abri o exame e quando li “não reativo” gritei e chorei de felicidade. Eu não tinha AIDS.
Fui pra recepção e chorando abracei Gaby e disse que tinha nada. Ela chorou abraçada a mim e ficamos minutos daquela forma até que limpei suas lágrimas e lhe dei um beijo na boca.
Depois do beijo ficamos constrangidos pedi desculpas e ela sem graça respondeu que tudo bem.
No dia seguinte parti com Edu pro Japão. Seriam alguns dias de prova e o traçado feito pela organização era bem complicado, uma área montanhosa em que qualquer erro poderia ser fatal. Começamos a competição muito bem com Edu em primeiro e eu em segundo, fatalmente um de nós seria campeão mundial e aquilo nos empolgava.
No último dia de competição a situação não estava boa. Chovia, o vento era muito forte e era o trecho mais difícil com montanhas e vales.
Os pilotos fizeram uma reunião para decidir o que fazer. Eu e Edu fomos a favor que não voássemos naquele dia, mas fomos voto vencido e teria prova. Perguntei pro Edu o que faríamos, se iríamos voar também e ele respondeu que claro que sim que não deixaríamos aquele título cair em outras mão. Falei para meu amigo que estava com medo e ele respondeu que aquele era um bom sinal. Quem não tem medo é que faz as maiores besteiras.
Fomos voar e no céu as condições eram péssimas quase não enxergava nada e o vento atrapalhava muito. Vários voadores foram desistindo e descendo em árvores e rios. Pelo rádio falei para Edu que era bom que fizéssemos o mesmo porque estava muito arriscado. Ele me respondeu que não que o americano estava muito próximo e se ele desistisse tudo bem desceria também porque teria o título garantido. O americano não desceu, nem ele, nem eu.
Em um certo momento não via mais Edu na minha frente e achei aquilo estranho um mau sinal. No rádio chamei por ele e ele não me respondia. Comecei a ficar nervoso, o nervoso passou para pavor. Olhava para baixo pra ver se tinha acontecido algo.  Dei um grito de desespero quando vi uma asa delta caída perto de rochas. Era a asa do Edu, ele tinha se chocado com as rochas.
Fiz um pouso de emergência em cima de árvores e corri em direção a asa. Lá encontrei Edu caído e consciente.
Perguntei como ele estava e gemendo meu amigo perguntou por que eu tinha descido era a chance de eu ser campeão do mundo, respondi que não queria saber de campeonato e sim como ele estava. Edu respondeu que sentia nada da cintura pra baixo e muitas dores na cabeça e no tórax. Vi que a situação estava muito feia, mas mandei que ele mantivesse a calma e que conversássemos enquanto o socorro não chegava.
Eu não era bobo sabia que o choque e a queda tinham sido violentas demais e dificilmente Edu sobreviveria. Ele era menos bobo ainda e também sabia disso, mas fingíamos que a morte não estava presente naquele momento. Conversamos muito sobre os bons momentos dos seis amigos juntos se divertindo na praia, nas danceterias, em luaus. Ele com voz quase inaudível lembrou da gente na sala de castigo da faculdade e dizia “bendito castigo que fez seis pessoas virarem irmãs”. Eu estava emocionado, mas segurava as lágrimas.
Rindo lembrou da primeira vez que voei quando só faltava eu fazer xixi nas calças de medo. Ri e agradeci por ele ter me ensinado a voar e tocar o céu com minhas mãos. Ele me olhou e disse que tinha muito orgulho de mim, seu melhor aluno. Nesse momento nós não conseguimos segurar o choro e ele tentando disfarçar falou que precisava falar.
Perguntei o que ele queria Edu me respondeu que sabia que dessa vez tinha se quebrado feio e não iria sobreviver. Falei que não que o socorro já estava chegando ele pediu que eu não o interrompesse enquanto ele ainda tinha forças pra falar. Edu reforçou que sabia que iria morrer e pediu para que eu escrevesse uma carta pra Soninha em seu nome e entregasse pra ela dizendo que a amava muito desde a primeira vez que viu na sala de castigo e amava o filho deles, João Guilherme e que mesmo ainda não estando nesse mundo amava a filhinha que estava pro vir. Que sempre estaria com eles de coração e alma, protegendo e cuidando de sua família.
Chorando respondi que tudo bem eu faria a carta e entregaria a Soninha. Edu agradeceu e com muita dificuldade virou a cabeça pra mim e disse que me amava. Respondi que o amava também e fiz carinho na sua cabeça até que ele morresse.
O socorro chegou só uma hora depois e me encontrou com a cabeça de meu amigo morto no colo. Levantei e caminhei enquanto eles em vão tentavam ressuscitar Edu. No hotel no Japão preparei a carta que ele pediu e voltei para o Brasil.   
Não foi enterrado. Tudo foi conforme ele pediu no Japão. Soninha, Gaby, familiares e amigos foram em uma lancha pro meio da Baía da Guanabara, vários windsurfistas acompanhavam fazendo uma última homenagem e eu saltei da Pedra da Gávea. Todos embaixo cantavam a música “menino do Rio” que Edu rindo falava que era dele quando abri um saco e joguei lá do céu suas cinzas nas águas da Guanabara. Enquanto jogava falei “eu peço pra Deus protegeste”, um dos versos da música.
No chão entreguei a carta pra Soninha e disse que foi um pedido dele. Dei um abraço e um beijo em minha amiga virei depois para Gaby e disse que passaria um fim de semana fora.
Fui sozinho para Saquarema. Passei o fim de semana surfando e principalmente voando. No céu eu pensava em como às vezes Deus era rigoroso comigo. Entre as nuvens pensava em todas as perdas que tive na vida nas pessoas que morreram em meus braços, no tanto que apanhei e sofri na vida.
Como sempre nesses momentos pensei em Aloemi e como queria ela por perto pra me proteger desses males que a vida teimava em me oferecer. A dor sempre teimava em me tirar pra dançar e como escreveu Diego na poesia eu não sabia dizer não.
Voltei de Saquarema, passei em casa e depois fui à casa de Gaby. Ela me atendeu e perguntou se eu estava bem porque estava muito preocupada comigo. Nisso beijei sua boca. Um grande beijo de amor, entramos e fizemos amor a noite toda com toda aquela vontade reprimida de tantos anos.
Amanheceu e ela estava dormindo. Peguei uma folha, uma caneta, escrevi e deixei em sua mesa de cabeceira com uma rosa em cima. Na folha estava escrito “eu amo você”.
Saí de sua casa, entrei no meu carro e ajeitei minha mala que estava no banco de trás. Liguei o carro e parti para nunca mais ver a Gabriela e ir embora do Rio de Janeiro.
O Havaí não era ali.

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