domingo, 8 de maio de 2011

Capítulo XI - A partida

Guardei segredo, não contei para ninguém o que meu pai havia me confidenciado em seu leito de morte. Era um segredo de décadas da família. Nunca nenhum dos filhos ou morador da cidade soube então em memória de todos que participaram da situação fiquei quieto.
O testamento foi aberto e nele meu pai deixava tudo o que tinha casas, carros, dinheiro para nós, Sandra e eu. Sandra falou que estávamos ricos e perguntou o que faríamos com tudo aquilo.
Respondi que o dinheiro dividiríamos, a casa no lago podíamos vender já que nunca íamos e quando fui tive sérios problemas (a história com Marcela). Mas ainda tinha o casarão, Sandra perguntou o que faríamos com ele, se não era melhor vender.
Parei pra pensar, não queria vender o casarão fui criado ali e tive excelentes momentos. Ao mesmo tempo ele era muito grande pra gente. Sandra perguntou então o que fazer, pensei, pensei e tive uma idéia louca que só poderia ter partido de mim. Disse que iríamos ganhar dinheiro, muito dinheiro com aquele casarão.
Ela logicamente ficou curiosa e perguntou como. Lembrei-me dos livros que eu lia, revistas e sempre fui fascinado por história, culturas e a França especialmente me fascinava. Falei pra Sandra que em Paris no século anterior foi criado um lugar chamado Moulin Rouge. Era o lugar da boemia parisiense, onde havia shows, bebida, alegria, cortesãs e tinha esse nome porque havia no terraço um moinho vermelho, era uma mistura de clube noturno, salão de danças e bordel. Um cabaré como todos aqueles que me fascinaram no Rio de Janeiro.   
Ela respondeu que tudo bem. Era uma história muito bonita e que o Moulin Rouge devia ser um lugar ótimo. Mas o que essa história tinha a ver com nosso momento. Falei para ela que transformaríamos o casarão num cabaré, o Moulin Rouge brasileiro.
Sandra riu e disse que cada vez mais eu fazia jus ao meu nome e que aquela idéia era louca. Primeiro porque uma casa dessas não tinha espaço em Tremembé que já tinha zona. Argumentei que uma casa daquelas não era um prostíbulo apenas, era um local de entretenimento e que Tremembé crescia cada vez mais e um local como aquele atrairia turismo pra cidade.
Ela respondeu que mesmo assim, era uma afronta a memória de nossos pais transformar o casarão em uma casa de festas, bebedeiras e boemia. Falei que não era fazer da casa um lugar assim que afrontaria. Éramos boas pessoas, íntegras, honestas e isso que importava, ainda ironizei perguntando desde quando ela havia se tornado uma pessoa pudica e que daqui a pouco estaria igual aquelas beatas papa hóstia da igreja.                                                                                      
Falar isso provocou Sandra. Ela respondeu que tudo bem eu estava certo em considerar que não era uma afronta, mas que um lugar desses nunca daria certo em Tremembé. Eu disse que sim, ela que não e ficamos nessa de sim e não por algum tempo até que propus uma aposta.        
Sandra perguntou qual aposta eu queria, eu disse que se a minha idéia desse errado eu doaria para ela tudo que nosso pai nos deixou, minha parte toda. Minha irmã disse que eu era doido e respondi com a clássica “desde que nasci”. Sandra respondeu que não faria isso não abriria mão de sua parte se perdesse. Falei que não queria que ela abrisse mão, que se eu estivesse certo apenas ela virasse para mim e falasse desculpe Doido você estava certo.
Falei ainda que para que ela não se preocupasse eu usaria minha parte para fazer a reforma do casarão e deixar como o Moulin Rouge de Paris. Sandra pensou e disse que tudo bem, eu era doido e ela mais ainda por topar.
Contei para Gustavo e Rodrigo e eles se entusiasmaram com a idéia. A reforma começou e foi a todo vapor, na cidade não se falava em outra coisa, as beatas horrorizadas falavam que eu era o anti Cristo de Tremembé, que as maiores loucuras, confusões e situações bizarras da cidade sempre partiam de mim. A Juventude e as pessoas mais liberais se entusiasmaram. Todos ansiosos pela inauguração.
O nosso Moulin Rouge ficou pronto igualzinho ao parisiense. Fiquei do lado de fora olhando e admirando quando Sandra chegou do meu lado olhou, botou a mão no meu ombro e reconheceu “é, ta bonito” ri e disse que ela perderia a aposta.     
Chegou o dia da inauguração e as beatas foram para frente protestar. Saí da casa e elas estavam na frente gritando palavras de ordem contra a casa e contra mim. Calmamente me virei, abaixei a calça e mostrei a bunda para elas. As beatas ficaram horrorizadas e me xingavam de tudo quanto era nome enquanto os policiais as afastavam da casa. O delegado gritava e falava para que elas circulassem, se aproximou de mim e perguntou se já estava aberto. Abri a porta e disse “bem vindo delegado”. 
E se por fora estava bonito por dentro estava mais ainda. Tudo reformado com material da melhor qualidade, móveis vindos do exterior. A casa lotou, contratamos belas meninas para servirem, estavam vestidas como cortesãs do século XIX. Colocamos um show de can can e os homens enlouqueciam. Um ambiente de muita alegria, farra, bebedeira tudo como eu amava no Rio de Janeiro.  Mas a minha alegria não estava completa pensava no que Aloemi pensaria vendo tudo aquilo, se ela teria orgulho de mim. 
O tempo foi passando e o sucesso da casa aumentando cada vez mais. Não só os homens da cidade freqüentavam mulheres também ficavam curiosas iam, gostavam e pessoas de outras cidades também apareciam para conhecer. Tentando esquecer Aloemi me engracei com uma das meninas da casa, se chamava Alice. Rostinho de anjo, mas um demônio na cama. Até que me divertia, não conseguia esquecer Aloemi, muitas vezes sentava na porta da casa pensando nela, onde ela estaria, fazendo o que, se lembrava de mim. Mas logo Alice vinha e me chamava pro quarto fazer “besteirinha”.
O dinheiro entrava fácil na casa. Uma vez estava no balcão contando o dinheiro e era muito farto, já tinha recuperado tudo o que gastara na reforma. Sandra se aproximou de mim, deu um beijo no meu rosto e falou “desculpe Doido, você estava certo”, ri e mandou que ela repetisse mais alto que não tinha ouvido, ela sorriu e repetiu, falei que ainda não tinha ouvido. Ela gargalhou e  me deu um tapa carinhoso, na medida do possível as coisas iam bem.    
Uma noite Gustavo foi embora mais cedo porque estava com dor de cabeça, Rodrigo disse que iria depois e ficou bebendo conosco, foi uma noite de grande bebedeira. No fim Rodrigo muito bêbado disse que iria pra casa, falei que ele ficasse por lá mesmo que era melhor pelo estado que se encontrava. Ele respondeu que não que ainda tinha uma cachacinha o esperando em casa. 
Despedi-me do meu amigo e não sabia por qual motivo estava mais sentimental que o normal. Abri a porta pra ele, dei um abraço, um beijo em seu rosto e disse que o amava e que era como um irmão pra mim. Rodrigo riu e perguntou se eu estava lhe estranhando que ele era macho, eu ri e me despedi dele. Fechei a porta com certo aperto no coração, Alice notou e falou pra irmos pro quarto que lá eu melhoraria.   
Estávamos lá no chamego quando Sandra bateu na porta nervosa. Perguntei o que havia acontecido e ela contou para irmos à rua que Rodrigo havia se acidentado. Botei minha roupa correndo e fui com ela. Cheguei ao local e lá encontrei uma pequena multidão e Gustavo chorando ao lado de Rodrigo caído no chão, perguntei o que havia ocorrido. Gustavo me respondeu que Rodrigo teve um ataque epilético enquanto ia pra casa, caiu e bateu forte com a cabeça no meio fio. Respondi então que não podíamos ficar parados, tínhamos que levá-lo para um hospital. Gustavo gritou que não dava mais, que ele estava morto.
Olhei para meu amigo caído no chão e reparei que ele realmente estava morto havia uma grande poça de sangue no chão. Levantei com os olhos arregalados como se tivesse em transe, Sandra perguntou se eu estava bem, Alice tentou me abraçar e me desvencilhei. Sandra ainda falou “calma Doido”. Eu não ouvia ninguém, não queria ouvir ninguém e saí correndo. Sandra ainda gritou meu nome, mas não parei.
Corri, corri muito, pela cidade inteira, corria e chorava. Muitas lembranças vieram na minha cabeça. O jogo de botão com meu avô, a família reunida na mesa comendo macarrão, Rodrigo engatado na cabra, Ericka me visitando em casa enquanto estive doente, eu correndo com Tadeu no quartel dos outros soldados porque não teríamos folga, as farras e bebedeiras com Gustavo e Rodrigo e principalmente lembrava de Aloemi cantando “nervos de aço” para mim na casa de dona Áurea.
Cansei de correr e fui para o lugar que sempre ia nesses momentos, a beira do rio. Sentei cansado, não só cansado de correr, mas cansado de tanto sofrimento, tanta tristeza, cansado de ver pessoas que amava partirem. Cansado de enterrar pessoas importantes na minha vida. Pensava em Aloemi, clamava por ela, com ela ao meu lado seria tudo mais fácil.
Enquanto sofria na beira do rio notei que tinha uma pessoa dentro dele..aquela hora..achei estranho. Prestei mais atenção e vi que ela se afogava, corri e mergulhei no rio, era uma mulher e a puxei pra beirada. Fiz respiração boca a boca, massagem e ela cuspiu a água que lhe sufocava. Vestia roupas de cigana, devia ter mais ou menos 45 anos. Era bonita, ao mesmo tempo bonita e jeito de misteriosa.
Perguntei se ela estava bem e respondeu que sim, que eu tinha salvado sua vida e se apresentou dizendo que seu nome era Regina. Tentei me apresentar e antes que falasse meu nome ela contou que sabia que eu me chamava Doido.
Perguntei como ela sabia, mas a cigana não respondeu disse que era muito grata por mim e queria fazer algo para retribuir. Perguntou se eu tinha alguma foto comigo, respondi que por coincidência tinha sim, abri minha carteira e retirei uma foto minha com Aloemi.  
A foto estava molhada, mas como por milagre secou-se na mão da cigana. Ela me devolveu e disse que eu tinha um rosto lindo, de menino doce e carente. Agradeci e falei que nem era tão menino assim, já tinha passado por muitas na vida e mostrei pra ela que até fios de cabelo branco já tinha.
A cigana Regina acariciou meu cabelo e disse que esses seriam os únicos fios de cabelo branco que teria na vida, que eu tinha um rosto muito bonito para envelhecer e eu não iria envelhecer. Não entendi e ainda perguntei como não, se eu iria morrer antes, ela respondeu que não, eu simplesmente não envelheceria, morreria com o aspecto que tinha naquele momento e quem envelheceria no meu lugar seria a foto. Ela seria o retrato da vida e  tudo que eu passasse de alegrias e tristezas ficariam marcadas naquele retrato.
Ajeitei-me para colocar a foto de volta na carteira e colocá-la de volta no bolso agradecendo os elogios e que havia adorado aquela história de retrato envelhecer no meu lugar, mas que achava bom ela ir ao médico porque ela poderia estar com problemas na cabeça. Quando levantei meu rosto ela não estava mais lá, a cigana Regina havia simplesmente desaparecido. Ri e pensei que não bastava eu ser doido, tinha que passar por situações loucas.
  Na manhã seguinte apareci no cemitério para mais um enterro agora do meu amigo Rodrigo, meu irmão de fé. Sandra quando me viu me abraçou e perguntou se eu estava bem, respondi que sim na medida do possível. Gustavo me abraçou também e falou que estava na hora. Pegamos nas alças do caixão e mais uma vez eu comandava um cortejo, já estava tão experiente com funerais que pensei em oferecer meus serviços de carregador de caixões para as pessoas, tentar assim ganhar um dinheiro.
Na frente do cemitério parei Gustavo e Sandra e contei que precisava conversar com eles, perguntaram o que era. Respondi que passei a noite toda pensando e havia decidido ir embora de Tremembé e morar no Rio de Janeiro. Gustavo ainda tentou argumentar que não era uma boa que eu estava de cabeça quente e ali era o meu lar. Falei que não, que ali só me trazia lembranças tristes e eu precisava de novos ares havia um mundo gigantesco do lado de fora de Tremembé que eu precisava conhecer.
Sandra beijou meu rosto e falou que eu estava certo, eu sempre fui diferente de todos naquela cidade, era um ser livre, mesma expressão usada por meu pai, uma pessoa do mundo e não podia ficar preso em Tremembé, que me apoiaria e mandaria sempre dinheiro da minha participação no Moulin Rouge.
Cheguei em casa, arrumei minhas coisas, desci a casa e muitas pessoas me esperavam. Gustavo, Sandra, Alice, dona Áurea, o delegado, vereadores, até o padre e as beatas estavam. Alice beijou a minha boca e me desejou boa sorte, sorri, fiz um carinho em seu rosto, abracei Gustavo, beijei minha irmã, abri a porta, me virei e agradeci a tudo que todos fizeram por mim e que nunca os esqueceria. Fechei a porta e parti.
Cheguei à ferrovia e perguntei quando saía o trem seguinte pro Rio de Janeiro. Comprei a passagem e fiquei sentado no banco esperando que ele chegasse, no fundo tinha esperanças que Aloemi aparecesse. Ela não apareceu, entrei no trem e sentei em minha poltrona.
O trem partiu deixando Tremembé do Oeste para trás, minha terra natal onde tive tantas alegrias, tristezas, fatos marcantes na minha vida. Começaria vida nova no Rio de Janeiro esperando que lá encontrasse menos sofrimento, era o novo pra mim, o que me esperava na cidade maravilhosa? Estava “doido” para saber.
O trem passou por Barra da Serra. Deu pra ver ao longe a casa de Aloemi ela viajava comigo em pensamento. Ajeitei-me para dormir, mas antes de fechar os olhos peguei a foto do meu bolso. Lembrei da cigana Regina e sorri, guardei a foto e fechei os olhos para dormir e sonhar com dias melhores.






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