sexta-feira, 6 de maio de 2011

Capítulo X - Encontros e despedidas

Assim me despedia de Aloemi deixando meu coração com ela. Eu estava arruinado, devastado, me sentia um ser pela metade, mas como não tinha coragem de me matar tinha que continuar vivendo.
E continuei. Não com a mesma alegria de antes, mas continuei. Devolvi nossa casa e voltei a morar com Gustavo e Rodrigo, as farras continuavam e mesmo de vez em quando participando, afinal eu era homem tinha minhas vontades, não era a mesma coisa.
Não tive mais notícias de Aloemi, também nunca mais lhe procurei. Não fui mais à zona, vivia de casa para o trabalho e do trabalho pra casa. Sandra às vezes ia a minha casa e reclamava que eu não aparecia mais, mas não tinha clima, eu iria à zona e fatalmente lembraria de Aloemi.
Minha relação com meu pai também continuava a mesma, totalmente afastados um do outro. O foda, pedindo perdão pela expressão, é que mesmo com tudo que ocorreu, todas as humilhações eu o amava demais. Poxa era meu pai, ele e a Sandra eram os últimos que restavam de minha família, queria me aproximar dele, ser seu amigo.
Um dia estava trabalhando na prefeitura e o telefone tocou. A secretária chamou e como sempre meu coração disparou achando que fosse Aloemi. Corri para atender, mas não era, era do hospital.
Do outro lado me informavam que meu pai havia sofrido um derrame cerebral, estava em uma situação muito grave e queria ver os filhos. Desesperei-me e contei pro Gustavo que precisava sair, meu pai estava com problemas. Corri para a zona sem nem me importar se me lembraria de Aloemi ou não. A casa estava fechada, bati com força na porta até que dona Áurea atendeu perguntando se eu estava tirando o pai da forca.
Contei que era quase isso e precisava falar com a Sandra, dona Áurea respondeu que ela estava ocupada atendendo um cliente especial. Respondi que era muito importante porque tinha a ver com nosso pai. Ela entrou e alguns minutos depois Sandra veio à porta perguntar o que ocorria, respondi que nosso pai havia sofrido um derrame, estava mal e chamava por nós.
Corremos para o hospital. Chegamos lá encontramos com o médico que o atendia e ele disse para esperarmos, entrou no quarto, voltou e disse que ele queria falar primeiro com a Sandra.
Sentei na recepção muito nervoso e meio que me sentindo culpado. Meu pai havia se tornado uma pessoa solitária, casou com a Marcela, tive um caso com ela e ela foi embora. Depois morou junto com a Fabíola, mas ela o largou por um deputado federal e ele passara os últimos anos de sua vida morando sozinho naquele casarão com a empregada.
Pensei se realmente eu não tinha culpa, lembrei da morte da minha mãe, com os corpos dela e do padre no chão e ele gritando que a culpa era minha e que a vida dele tinha se desgraçado desde que nasci. Será que eu tinha feito tanto mal a ele assim?
Sandra saiu chorando do quarto, me abraçou e disse que nosso pai estava muito mal e ela não sabia se ele resistiria. Pediu que eu entrasse que ele queria falar comigo. Relutei um pouco dizendo que ele nunca havia gostado de mim. Ela disse que eu entrasse porque ele estava muito ansioso por falar comigo.
Entrei todo sem jeito. Encontrei meu pai naquela cama frágil, magro, totalmente desprotegido. Ele me viu e pediu para que chegasse perto, cheguei e pedi para que ele não fizesse esforços e ficasse quieto, mas ele disse que precisava falar, precisava pedir desculpas.
Insisti para que ele não falasse nada. Meu pai não ouviu meus apelos e pediu desculpas pela forma que sempre me tratou que não tinha sido bom comigo, era rude, agressivo, frio, mas era a forma dele ser. Seu sonho era ser artista e morar no Rio de janeiro, mas seu pai não havia deixado, impôs que teria que ser um político como todo clã dos Varela e obrigou que se casasse com minha mãe.
Ouvia a tudo atentamente. Meu pai contou que por isso teve uma vida muito infeliz e me via como ele era na juventude, um menino doce, cheio de sonhos, vigoroso e acima de tudo livre e isso o incomodava, lhe deixava com inveja. Mas que me amava, amava muito, como se fosse um filho de verdade.
Não entendi e argumentei que não entendia nada, como assim filho de verdade. Meu pai tossiu e com a voz fraca contou que o casamento dele com minha mãe nunca foi de amor, foram negócios tratados pelos seus pais, Tadeu e Sandra nasceram e minha mãe teve um caso extraconjugal que meu pai descobriu e quis se separar, mas meu avô Ventania, minha Avó Ema e o pai dele não aceitaram falando que ninguém da família se separava e seria péssimo para os planos políticos. Meu pai que era um homem comandado pelo pai dele aceitou e mesmo com minha mãe engravidando desse homem me assumiu.
Eu ouvia a tudo espantado, sem acreditar, abismado. Meu pai continuou e disse que meus avós descobriram os planos de minha mãe fugir com o tal rapaz, mas impediram que isso ocorresse. Minha mãe havia marcado de fugir com o rapaz de trem da mesma forma que Marcela lhe abandonou. Mas minha mãe não apareceu e o rapaz foi embora sozinho.
Os dois continuaram no casamento infeliz. Minha avó Ema morreu o que fez meu avô Ventania receber um baque e transformar seu modo de ser, seu pai morreu e o rapaz que era meu pai biológico desgostou-se com a vida, entrou para um seminário e virou padre.
Ouvi aquilo e gelei..meu pai biológico padre, olhei pro meu pai e perguntei se meu pai era o ..ele nem me deixou terminar a pergunta e respondeu “Sim, era o padre Pinheiro”, levantei zonzo com tantas informações, meu pai disse que ele havia voltado a cidade alguns anos depois como padre e parecia que tudo havia acabado. Mas ele viu que não com aqueles suicídios e o amor deles era muito forte e tinha durado.
Sentei novamente e disse para meu pai que agora entendia porque não gostava de mim, mas que eu não tinha culpa. Meu pai olhou pra mim e disse que me amava muito e tinha muito orgulho de mim.
Pela primeira vez meu pai disse que tinha orgulho de mim, comecei a chorar e notei que ele chorava também, nunca havia visto meu pai chorando. Ele me pediu um abraço, abaixei na cama e o abracei muito forte, os dois abraçados e chorando. Chorava e não pensava mais em nada, não ouvia nada e por isso não percebi que ele havia parado de chorar. Perguntei se ele estava bem, levantei e vi..meu pai..o homem que me criou havia morrido nos meus braços.
Levantei, enxuguei minhas lágrimas, olhei para ele ali inerte na cama com olhos fechados, jeito sereno como se tivesse tirado uma tonelada dos ombros antes de morrer e disse “obrigado”. Saí do quarto, Sandra me olhou e percebeu nos meus olhos o que havia acontecido. Me abraçou e chorou no meu ombro. Eu a consolava e olhava pro teto como se quisesse enxergar a minha família que estava quase toda no céu.
Muita gente no enterro como uma figura importante como ele merece e eu mais uma vez no cemitério enterrando quem eu amava.
No fim do enterro enquanto todos saíam Sandra perguntou se eu não iria junto, respondi que não. Fiquei sozinho no cemitério com algumas rosas na mão, deixei uma no túmulo de meu pai, outro no de minha mãe, do Tadeu e vô Ventania.
 Dias de encontros e despedidas. Me despedia do grande e poderoso ex prefeito de Tremembé Idovaldo Varela, me encontrava e finalmente conhecia o meu pai Idovaldo Varela, um homem que me amava e tinha orgulho de mim.
Andei algumas quadras no cemitério beijei a última rosa e coloquei em cima do túmulo do padre Pinheiro. Fiz o sinal da cruz e saí                                                                                          
    








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