sexta-feira, 13 de maio de 2011

Capítulo XIV - Tempos de chumbo

Mais uma vez tinha que recomeçar minha vida. Separado, desempregado, sem ter onde morar pelo menos havia me livrado do fantasma do Dr. Walkir. Tinha uma boa conta no banco relativo ao dinheiro que minha irmã mandava todo mês, então finanças não seriam problema. Mas tinha que reconstruir minha vida não poderia ficar parado.
Decidi por um tempo não trabalhar. Resolvi começar uma outra universidade e passei em direito pra UFRJ. Em 1962 comecei a fazer direito e os anos dourados haviam passado. Agora era uma época de grande turbulência política.
Os anos seguintes foram bem complicados não queriam deixar o presidente João Goulart governar. O regime parlamentarista no Brasil foi instituído com Tancredo Neves sendo nomeado 1° Ministro. Em 1963 um plebiscito foi feito no país e a maioria da população optou pelo presidencialismo e Jango voltou a comandar sozinho.

No dia 13 de março de 1964 o presidente faz um comício em frente a Central do Brasil no Rio de janeiro perante trezentas mil pessoas. Jango decreta a nacionalização das refinarias privadas de petróleo e desapropriação, segundo ele para a reforma agrária, de propriedades às margens de ferrovias, rodovias e zonas de irrigação de açudes públicos. Desencadeou-se uma crise no país, com a economia já desordenada e o panorama político confuso. A oposição militar veio à tona para impedir que tais reformas se consolidassem, impondo o que consideravam manutenção da legalidade da restauração da ordem.

Eu não queria saber muito de política já bastava tudo que tinha visto e vivido de política na vida. Em casa e com pessoas que me envolvi depois. Mas gostava de ouvir o discurso daqueles estudantes cheios de esperanças no pátio da universidade, especialmente os discursos de uma menina.

 Ela era baixinha, loirinha, jeito frágil, voz rouca. Mas firme, muito firme e parecia que ganhava altura, chegava a dois metros quando discursava. Seu nome era Raquel e ela com microfone na mão se agigantava falando das mazelas do país, da luta por cidanania, reforma agrária, de um país melhor e igual para todos porque só assim teríamos um futuro melhor para nossos filhos e netos.

Achava bacana o discurso. Eram coisas sérias e importantes ditas, mas reparava mais na Raquel e uma tarde me enchi de coragem e cheguei perto dela elogiando e falando que concordava com tudo que ela dizia. Raquel sorriu e falou que eu não tinha convencido perguntando qual parte eu havia gostando mais. Gaguejei, me enrolei e sorri dizendo que não lembrava, mas realmente tinha gostado de tudo. Ela riu e falou “valeu a tentativa” e disse para eu passar no prédio da UNE para conversarmos melhor, deu o endereço e se despediu.

Carreguei aquele papel como um troféu. Iria sim na UNE falar com ela, convidar para um choppinho, um cinema e quem sabe uns amassos em casa. Ela tinha algo que me fascinava, talvez sua personalidade, seu jeito guerreiro, queria conhecer aquela mulher melhor achava que algo de bom me esperava.

Eu era alienado na época só queria saber de beber, me divertir e se desse tempo estudar não me importando com mais nada. Foi assim que no dia 1° de abril de 1964 eu todo animado fui ao Flamengo para encontrá-la no prédio da UNE.

Entrei e não entendi muito a movimentação que havia no prédio, as pessoas estavam assustadas um grande corre corre. Encontrei a Raquel e perguntei o que havia acontecido. Raquel perguntou em que mundo eu vivia, que os militares haviam dado um golpe de Estado no país, tomado o poder e o presidente João Goulart fugido. No alto da minha inocência perguntei e daí e ela respondeu perguntando se eu era doido, aí mandei a clássica “desde que eu nasci”.  

Nisso sentimos um forte cheiro de queimado e alguém gritou que o prédio estava pegando fogo. Logo o fogo se alastrou peguei Raquel pela mão e tentando respirar e fugir dos escombros que caíam sobre nós começamos uma tentativa desesperada pra sair do prédio.

Um pedaço de madeira caiu em cima da perna de Raquel que caiu no chão. Perguntei se ela estava bem e mandei que se levantasse senão morreríamos. Raquel disse que estava doendo muito e que não conseguiria e que eu saísse. Falei que nunca faria isso, peguei a moça nos braços e aos trancos e barrancos consegui sair do prédio, me senti como herói, mais até que na guerra.

Do lado de fora estudante revoltados falavam que era coisa dos militares e o incêncio fora de propósito. Perguntei para Raquel o que acontecia eu não estava entendendo nada, Raquel contou que a situação estava mais séria do que nunca e era bom não andarmos juntos que seria prejudicial a mim, que era melhor que nos afastássemos. Ela foi amparada por dois rapazes e saiu com eles continuei sem entender nada, os três deram alguns passos ela pediu para pararem se virou e agradeceu por eu ter salvo sua vida. 

Não vi mais a Raquel, ela se afastou da Universidade, não só ela como outros. Dizem que foi lutar contra a revolução. Eu segui minha vida com saudades dela, mas tinha que seguir.

Fiz três amigos de fé na UFRJ. Marquinhus, Bruno e Fernando, andávamos sempre juntos bebíamos nos botecos de perto da Universidade e virávamos a noite nos inferninhos da praça Mauá e na Vila Mimosa. Nosso negócio era mulher e cachaça.

Outra coisa que gostávamos muito era de frequentar o boteco do seu João em Vila Isabel, um bar do tipo “pé sujo” onde sempre rolava uma roda de samba com belas mulatas. Seu João era um senhor de idade na altura de seus sessenta anos, homem boníssismo, boa praça e botafoguense fanático que sempre brincava comigo falando que seu Botafogo tinha um esquadrão e meu Flamengo estava por baixo. Fazia a melhor feijoada da cidade que atraía sambistas, roqueiros, estudantes, militares, a zona norte e a zona sul do Rio se encontravam em seu bar.

Um dia curioso pedi a receita de sua feijoada, ele me passou e nunca consegui fazer igual. Mas se vocês quiserem arriscar segue aí a receita da feijoada do seu João. 

Feijoada do seu João

Ingredientes
500 g de feijão preto
250 g de carne-seca salgada
250 g de lombo de porco salgado
250 g de costeleta de porco salgada
250 g de lingüiça calabresa
1 paio
150 g de toucinho
suco de 2 laranjas
2 colheres (sopa) de óleo 
2cebolas raladas                                                                                                                                     
2 tabletes de Caldo de Carne esfarelados
Modo de Preparo
De véspera, coloque o feijão e as carnes salgadas de molho, separadamente, trocando a água das carnes algumas vezes. No dia seguinte, cozinhe o feijão em três litros de água. Lave novamente as carnes e cozinhe em outra panela. Quando o feijão estiver quase cozido, junte as carnes, a linguiça e o paio, picados.

Acrescente o suco das laranjas e retire a espuma que se formar na superfície, com uma escumadeira. Se necessário, adicione mais água. Em uma panela, aqueça o óleo e doure a cebola. Acrescente o caldo e um pouco de caldo de feijão e deixe refogar bem. Junte à feijoada, misture bem e deixe no fogo por cerca de 20 minutos. Sirva.
Dica do Seu João

Sirva a feijoada com couve manteiga refogada, farofa de bacon e linguiça e um arroz branco, para beber e ser a típica feijoada, sirva uma caipirinha no final, ou substitua a caipirinha por uma limonada.
Para decorar a mesa coloque alguns pedaços de laranja cortados na mesa, além de decorar os convidados podem se servir durante a refeição.

Bom apetite!!!

Os anos 60 eram a pura efervescência pelo mundo inteiro. Um grupo chamado Beatles formado por quatro garotos de Liverpool na Inglaterra eram a grande febre musical e todos queriam imitar. Pelo país começava um movimento chamado Jovem Guarda capitaneado por um rapaz chamado Roberto Carlos e claro eu não poderia ficar de fora disso.

Reuni meus amigos no boteco do seu João e comentei com eles qual era a melhor forma de ganhar mulheres. Os três responderam dinheiro e eu falei que tinha uma forma melhor e que poderíamos ficar famosos. Perguntaram o que e respondi “montar uma banda de rock”.

Os três começaram a rir de mim. Fernando perguntou como iríamos montar uma banda de rock se não sabíamos tocar nada, Marquinhos disse que só sabia tocar cavaco e achava que isso não adiantaria em uma banda de rock e Bruno com seu jeito “boca suja” de ser contou que só sabia ir para o banheiro em um ato solitário tocar..melhor não dizer, podem ter crianças lendo. 

Reclamei, falei que eles não podiam desistir antes da hora e que tudo que quiséssemos poderíamos alcançar, ganhar o mundo e ser um novo Beatles. Eles riram do meu otimismo, mas decidiram topar.

Começamos a ensaiar na garagem do Bruno e a família dele reclamava muito. Com razão éramos péssimos. Fernando era o vocal e baixo, eu e Marquinhos nas guitarras e Bruno na bateria, uma formação parecida com a dos Beatles. Pegávamos umas músicas dos Beatles e da Jovem Guarda para ensaiar, íamos bem o problema era só acertarmos o ritmo, enfim faltava tudo.

Aos poucos por incrível que pareça melhoramos. Isso depois de seis meses ensaiando, a família de Bruno que reclamava começou a parar pra assistir, depois até a vizinhança foi, viramos os ídolos da rua, os novos Beatles. Bruno morava no bairro de Ramos, zona Norte do Rio de Janeiro então viramos os “Beatles da “Professor Lacê”, era a rua que Bruno morava.    

Um dia descobri que aconteceria um festival de música que passaria ao vivo na TV Record em São Paulo. Corri para contar aos meus amigos e falando que tínhamos que participar. Os três gargalharam e falaram que era loucura minha e eu realmente era doido. Depois de falar o “doido desde que nasci” de sempre falei que tínhamos que confiar em nós mesmos, nós estávamos cada vez melhores e devíamos tentar.

Junto com Marquinhos compusemos uma música pro festival, pegamos os outros dois e ensaiamos exaustivamente. Dia e noite, depois que vimos que ficou legal fomos a um estúdio, gravamos e mandamos a fita pra TV Record cheios de esperança.

Apenas trinta e seis músicas seriam escolhidas para apresentação ao vivo e nossa ansiedade era grande. Até que recebi uma ligação, atendi e era da produção da Record. Eu só conseguia balbuciar “sim..sim..sim”. Bruno estava na minha casa e ficou ansioso com o telefonema, quando desliguei gritei “passamos, vamos para o festival!!!”.

Eu e Bruno nos abraçávamos e gritávamos emocionados. Fomos correndo atrás dos outros, os quatro comemoraram muito era a grande chance de nossas vidas. Fomos festejar no bar do seu João com feijoada e caipirinha fazendo planos de ganhar aquele festival e mostrar nossa música pro Brasil.

O dia de nossa apresentação se aproximava e nossa ansiedade também, em vez da garagem começamos a ensaiar em um estúdio alugado com um produtor nos ajudando. Bruno pegou suas economias e comprou uma guitarra pro Marquinhos que emocionado agradeceu lhe abraçando. Nós quatro havíamos nos transformado em uma família de verdade e eu ensaiava e pensava se Aloemi me assistiria. Torcia que sim para que ela assistisse, lembrasse do seu amor por mim e quem sabe assim voltaríamos a nos ver.  

Chegamos ao local do festival e nas coxias já ficamos nervosos vendo tantas estrelas circularem, Elza Soares, Roberto Carlos, Gilberto Gil, Caetano Velloso, Geraldo Vandré, Chico Buarque, Jair Rodrigues, Edu Lobo, Elis Regina, Paulinho da Viola..e nós, tremendo como vara verdes.

Pelo sorteio nos apresentaríamos depois de Jair Rodrigues que cantaria uma música do Geraldo Vandré e Théo de Barros. No meio de tantos astros da música Bruno ia e voltava toda hora do banheiro de nervoso, nosso papo estava hilário.  

Fernando : Bicho, vocês estão vendo? Só tem artista consagrado aqui.

Doido: Fiquem calmos por favor. Calmos, calmos porra!!!

Fernando: Você pede calma, mas ta nervosão bicho.

Doido: Eu to calmo, calmíssimo, todos aqui são iguais a gente, sem exceção.

Marquinhos: Não Doido, não são iguais a gente, o Chico Buarque por exemplo não é igual a gente. Ele é bonitão, é boa praça, é ótimo compositor, cantor, se eu fosse mulher dava pra ele.

Fernando: Héin?

Marquinhos: Se eu fosse mulher porra, não sou.

Doido: Tá bom, ta bom, tirando o Chico todo mundo é igual.

Marquinhos: Tem a Elis também que...

Doido: Cala a boca !!

Bruno: Ai.. vou ao banheiro de novo..

Estávamos assim para fazer nosso show, nesse clima de paz e tranqüilidade.

De repente Jair Rodrigues foi chamado, nós éramos o seguinte a nos aproximar então fomos até a beira da coxia assistir. O “cachorrão” como era chamado começou com suas brincadeiras de sempre e abriu o vozeirão, quando abriu a voz mandou isso aqui...

“Prepare o seu coração prás coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar
Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo, a morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar, eu vivo prá consertar
Na boiada já fui boi, mas um dia me montei
Não por um motivo meu, ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse, porém por necessidade
Do dono de uma boiada cujo vaqueiro morreu “

Ouvimos a isso estupefactos. Quando começou a parte acelerada da música e ele cantou “Boiadeiro muito tempo, laço firme e braço forte” um clima de “fudeu” tomou conta da gente. Fernando falava que queria a mãe dele, Marquinhos de olhos arregalados perguntava “que porra era aquela?”, Bruno foi mais uma vez ao banheiro e eu paralisado ouvia aquela apresentação magistral. Nunca havia visto coisa parecida estava vendo a história da música sendo feita na minha frente. A apresentação visceral do Jair acabou aos gritos de “já ganhou”.
Ele saiu sob aplausos e anunciaram o nome de nossa banda “Os 4 fabulosos”. Estávamos paralisados e não entramos, o locutor chamou novamente e continuamos parados. Chico Buarque chegou perto de nós e desejou boa sorte, Marquinhos segurou em sua mão e antes que pedisse o Chico em casamento o puxei para o palco.
Entramos sob o silêncio da platéia, ajeitamos nosso equipamento virei para meus parceiros e falei que nós éramos bons e não estávamos ali a toa, faríamos uma grande apresentação. De repente ganhamos a dose de auto confiança que precisávamos, demos as mãos gritamos e nos posicionamos para nossa apresentação.
E começamos a nossa apresentação e posso dizer tranquilamente que foi a pior apresentação de um artista já feita na televisão brasileira. Nada deu certo, Fernando desafinava como uma taquara rachada, as guitarras estavam desconcentradas, Bruno errava tudo lá atrás e deixava peças da bateria cair. Começamos a ser vaiados no começo timidamente.
No começo foram tímidas, mas foram aumentando, aumentado virando uma coisa pavorosa. As pessoas em protesto cantavam “A banda” do Chico Buarque e “Disparada” que acabara de ser cantada. Com as vaias a apresentação conseguiu piorar até que não conseguíamos mais tocar.
Marquinhos em um acesso de fúria pegou a guitarra e a destruiu toda batendo no chão. Bruno chegou perto dele com os olhos arregalados e Marquinhos perguntou qual era o problema, Bruno respondeu “Minha guitarra seu filh.. da put..!!!”. Marquinhos havia esquecido que a guitarra era emprestada. Bruno pegou Marquinhos pelo pescoço e uma grande confusão começou no palco parecendo luta de tele cach. Fomos expulsos do palco e assim se encerrava a carreira dos “4 fabulosos”.
Pegamos o avião pro Rio de Janeiro mal nos falamos. Os três pegaram um taxi e perguntaram se não iria com eles. Respondi que não, iria pra praia porque precisava de um ar fresco. Eles foram e eu fiquei no aeroporto pra pegar outro taxi.
Estava esperando o taxi quando um homem se aproximou chamando meu nome virei e ele perguntou “tá me reconhecendo não? Demorei pra reconhecer até que vi que era o Pedro Paulo, amigo dos tempos da UFRJ que havia abandonado o curso. Lhe abracei e perguntei se estava tudo bem com ele, ele respondeu que sim. O taxi chegou e como iríamos para o mesmo lado rachamos a corrida.
Conversamos bastante. Eu falando mais que ele contando das minhas histórias desde a universidade, que havia largado os estudos pra me dedicar a música, mas não tinha dado certo. Perguntei se ele tinha visto nossa apresentação na noite anterior na tv e ele respondeu que não. Pedro Paulo sempre foi um sujeito mais quieto, mas naquele dia estava mais quieto que o normal. Deixei meu amigo e fui para a praia passear.
Passei um pouco na praia pra tentar me recuperar da frustração de nossa apresentação, tomei um côco gelado em um bar em frente a praia e fui para casa dormir um pouco, estava muito cansado.
Dormia profundamente em meu apartamento quando ouvi baterem forte na minha porta. Atendi e tinha dois homens pedindo para que eu os acompanhasse. Perguntei porque e quem eles eram. Responderam que eram policiais do DOPS e reforçaram que acompanhasse. Tentei argumentar que não havia feito nada, mas não adiantou tive quer ir.
Cheguei no prédio e me levaram para uma sala um pouco escura. Um homem entrou era o delegado. Perguntou se eu era amigo do homem com o qual tinha dividido um taxi e respondi que sim, era meu amigo Pedro Paulo dos tempos de faculdade, anos que não o via e rachamos a corrida. O delegado contou que o meu amigo era um terrorista muito perigoso e pediu mais informações sobre ele. Eu disse que não tinha muitas informações só que o conhecia dos tempos de faculdade.
O delegado me deu um tapa e mandou que eu falasse a verdade, reforcei que não sabia de nada. Foram doze horas assim, de perguntas, ameaças e tapas, até que o delegado decidiu me liberar e que eu andasse na linha porque estavam de olho em mim.
Saí do DOPS assustado. Eu era alienado, doido, mas burro não era. Sabia que algo muito sério ocorria no Brasil pessoas estavam desaparecendo e morrendo enquanto eu sonhava ser astro do rock. Saí do prédio andei um pouco pelas ruas e vi cartaz com o rosto de Pedro Paulo escrito procurado por terrorismo, ao lado vi outro cartaz e estava o rosto de Raquel. Anos que eu não tinha notícias suas e fui ter logo assim.
Tentei esquecer o episódio, mas não era fácil. Algumas vezes notei que estava sendo seguido e quando falava ao telefone ouvia ruídos estranhos, minha linha havia sido grampeada. Fui liberado no DOPS àquela noite porque os policiais achavam que eu poderiam levá-los a Pedro Paulo.
Uma noite iria sair peguei meu carro liguei e parti. Nisso sinto algo de ferro e gelado encostar na minha cabeça, era um revólver. O homem com o revólver pede pra eu não olhar pra trás e continuar dirigindo. Reconheço a voz, era de Pedro Paulo. Perguntei o que ele queria e ele respondeu que precisava de minha ajuda, só confiava em mim e eu teria que ajudar. Obedeci.
Pedro Paulo me levou até uma favela e na favela a um barraco que parecia abandonado. Entramos e vi um homem caído baleado no ombro, perdia muito sangue. Reconheci era João Batista outro ex estudante da UFRJ. Pedro me disse que precisava de ajuda para levá-lo até um hospital, respondi que era muito arriscado e a polícia podia nos pegar. Nisso Raquel apareceu.
Raquel continuava linda, com um rosto um pouco mais sofrido, mas linda. Cumprimentou-me e perguntou se eu estava bem, respondi que sim e perguntei como ela estava. Ela respondeu que bem na medida do possível e que as coisas não estavam fáceis. Implorou para que eu ajudasse senão Batista morreria. Concordei.
Os três se abaixaram no carro enquanto levava para o hospital. Raquel e Pedro Paulo armados, eu suando frio ainda mais quando passava perto de um carro da polícia. Os dois permaneceram escondidos no carro quando entrei com Batista para atendimento. Ele apresentou uma identidade falsa e argumentou que havia sido uma bala perdida. Eu cada vez suava mais frio, a enfermeira perguntou se eu estava bem e respondi que sim. Mas sentia que minha pressão havia abaixado.
Saí do hospital, Batista ficou. Os dois agradeceram e disseram que ficariam rondando o hospital e assim que Batista melhorasse o tirariam do hospital. Entrei no carro, liguei e Raquel se debruçou na janela me desejando boa sorte. Agradeci e desejei pra ela também, iria precisar mais que eu.
Voltei pra casa com muito medo, confuso com tudo que estava acontecendo e sem saber como agir. Já sentia falta de Marquinhos, Bruno, Fernando e dos “4 fabulosos”, era feliz e não sabia mesmo a  banda sendo péssima. Em um momento começaram a bater muito forte na porta, olhei para o visor e eram os policiais de novo. Me desesperei sabia que não podia abrir a porta porque naquele momento eu estava mais encrencado ainda. Eles continuavam esmurrando a porta falando que iriam derrubá-la.
Nãpo me fiz de rogado, morava no 2° andar, olhei pela janela vi que dava e pulei. Na queda machuquei minha perna, mas saí correndo enquanto ouvia que eles haviam arrombado a porta e mandavam que eu aparecesse. Mancando corria e sabia que daquela forma não conseguiria ir muito longe. Começava a morar em um pesadelo.
Nesse momento um carro entrou na rua na toda e freou bruscamente do meu lado, quando olhei eram Pedro Paulo e Raquel. Perguntei como eles tinham arrumado aquele carro e Raquel me respondeu que ele havia sido desapropriado para a  causa libertária, resumindo foi roubado. Pensei porque não haviam roubado pra levar Batista ao hospital, teriam me poupado problemas.
Mandaram que eu entrasse no carro e entrei, saíram em disparada. Raquel virou para trás e perguntou se eu sabia atirar. Eu gelado com pressão baixíssima, taquicardia e ofegante respondi que não, ela deu uma arma na minha mão e disse que eu iria aprender porque agora também era um foragido. Fiquei assustado olhando praquela arma e Pedro Paulo rindo falou “bem vindo a clandestinidade”.   
E assim entrei para a clandestinidade. Resgatamos João Batista e fomos para um apartamento na Ilha do Governador que servia como “aparelho”. Aparelho era o nome do esconderijo dos militantes de esquerda.
Minha vida sofreu uma reviravolta de 180 graus. Eu que meses antes só queria saber de rock, fazer sucesso agora vivia como bandido. Era considerado terrorista e uma pessoa que trazia riscos à segurança nacional.
Nossa vida era marcada pela coragem e pelo medo. Tínhamos coragem de atacar a ditadura militar distribuindo folhetos, pixando muros, assaltando bancos para assim financiarmos nossa luta e o medo pairava em pensar que poderíamos ser pegos, se estávamos sendo seguidos, quem estava batendo em nossa porta. Dormia com arma debaixo do travesseiro. Sim, tinha aprendido a atirar. Era a necessidade.
Aproximava-me de Raquel, mas com muito respeito. Sim eu queria aquela mulher para mim, mas não havia clima para romance.
Um dia saímos para encontrar um homem em um bar. Meus companheiros queriam identidades falsas novas porque as que usavam já estavam marcadas e eu precisava de uma também.  O homem chegou e disse que tinha sido indicado pelo companheiro Jeremias para que fizesse as identidades. Seu nome era Pablo,  um peruano que vivia na Bolívia e contou que pudesse confiar que receberíamos em poucos dias nossas novas identidades.
Alguns dias depois encontramos com Pablo de novo e todos receberam suas identidades. Fiquei ansioso pela minha já que pela primeira vez eu teria um nome “decente”. Pablo entrou ansioso fui olhar e estava escrito “maluco”. Olhei para o homem e perguntei como assim? Chamava-me Doido e teria condinome Maluco? Pablo disse que foi sugestão do companheiro Jeremias. Com ódio olhei aquela identidade e falei “Jeremias maconheiro sem vergonha”.
Estávamos dentro da luta armada. Fazíamos parte da ALN, Ação Libertadora Nacional liderados por Carlos Marighella. Como citei acima éramos adeptos do roubo de bancos e expropriações de carros pagadores. Em um assalto a banco desses algo deu errado. Estávamos saindo do banco e um homem colocou a mão por dentro do terno, João Batista gritou que ele ia atirar e Pedro Paulo não pensou duas vezes dando três tiros no homem.
O homem caiu já morto. Corri até ele abri seu paletó e vi que não tinha arma nenhuma, na verdade ele segurava uma foto com uma mulher e crianças devia ser sua esposa e seus filhos. Olhei assustado para Pedro Paulo e sem nenhum peso na consciência ele disse que em guerra era assim e mandou que fossemos logo embora antes que a polícia chegasse.
Muito incomodado com aquela situação continuei na organização, mas meus companheiros queriam mais. Um grande ato. Perguntei o que seria e Pedro Paulo contou que sequestraríamos o embaixador chinês. Argumentei que aquilo era loucura seria nosso suicídio, mas Raquel e Batista se entusiasmaram. Raquel falou que poderíamos em troca da vida do embaixador pedir dinheiro e libertação de companheiros que estavam na cadeia. Eu achava que aquilo estava ficando muito perigoso.  
Começamos a seguir todos os rastros do embaixador e como era seu dia a dia. Monitoramos por uma semana, mapeamos locais de fuga, planejamos toda a estratégia. Meus companheiros estavam eufóricos e diziam que não tinha como dar errado. Eu estava com muito medo e perguntava de tudo aquilo valia a pena realmente.
Chegou o dia do sequestro. Ficamos o dia todo na frente da embaixada escondidos em um fusca esperando que o chinês saísse e ele saiu. Entrou no carro oficial, o carro partiu e partimos atrás seguindo. Duas ruas depois fechamos o carro. Pedro Paulo ficou no volante enquanto eu, Raquel e João Batista saímos com armas na mão mandando que o motorista saísse do carro e que não iríamos machucá-lo porque ele era um trabalhador como nós.  
O motorista saiu, eu abri a porta de trás coloquei um capuz no embaixador, carreguei para nosso carro e saímos na toda. A primeira parte do plano tinha dado certo.
Faltava o restante. Levamos o embaixador para nosso aparelho na Ilha do Governador e trancamos em um quarto. Raquel ficou no quarto para tomar conta dele, faríamos um revezamento. Na sala eu, Pedro Paulo e João Batista definimos o que iríamos pedir em troca. Nós queríamos 200 mil dólares mais a libertação de vinte companheiros, fizemos a lista e ligamos para a imprensa. A imprensa toda divulgou o fato e deu a lista de exigências incluindo o nome dos companheiros. Estava tudo correndo bem.  
Mas eu não conseguia viver em paz, sentado na sala de madrugada sem dormir olhava a foto enfeitiçada e nela me via bem acabado para minha idade. Era toda tensão que vivia, Raquel passou pela sala e perguntou se estava bem, respondi que sim só estava com medo.
Ela sentou ao meu lado e aquela pessoa frágil com jeito forte pela primeira vez reconheceu que também tinha medo. Pôs a cabeça no meu ombro e ficamos assim alguns minutos até que ela perguntou o que eu iria fazer no prédio da UNE no dia do incêndio, respondi que ela tinha me dado o endereço então passei lá para chamá-la pro cinema. Raquel sorriu como há muito tempo não via e lamentou que tudo tivesse ocorrido porque teria adorado ir ao cinema comigo.
Nos beijamos e fizemos amor ali mesmo, a primeira vez que fizemos amor. No meio de toda aquela tensão foi um momento doce, bonito, com certeza o meu melhor momento em muito tempo. Ela era linda nua como eu imaginava. Queria que aquela noite se perpetuasse.
Mas ela não se perpetuou. O dia amanheceu e eu estava no quarto com o embaixador era a minha vez de tomar conta. Com uma arma apontada para ele fiquei sentado em uma cadeira de frente à cama em que ele estava amarrado e com venda nos olhos. Ficamos em silêncio durante muito tempo até que ele pediu para ir ao banheiro. Respondi que o levaria e elogiei o seu português. O homem disse que falava bem português porque havia nascido no Brasil, nós tínhamos pego a pessoa errada.
Levantei da cadeira assustado e corri para a sala para contar aos meus companheiros. Mas nem precisava antes de chegar na sala Pedro Paulo já estava gritando irritado. Olhei a televisão e nela falavam que por engano um dono de pastelaria tinha sido levado no lugar do embaixador chinês. O verdadeiro embaixador em uma entrevista coletiva pedia rigor da polícia para investigar o crime.
A verdade toda era que o embaixador adorava os pastéis daquele homem e ele sempre levava os pastéis na embaixada, naquele dia o embaixador ficou com pena do homem estar sem carro e emprestou o carro oficial para que ele voltasse a pastelaria. O pasteleiro entrou no banco de trás e como achávamos chinês tudo igual confundimos.
João Batista perguntava o que fazer. Pedro Paulo falou que tínhamos que nos livrar do pasteleiro dei a sugestão de o levarmos a um lugar a esmo, sem muita quantidade de gente e o soltássemos, Raquel concordou que era a melhor solução.
Assim pegamos o fusca e fomos com João Batista no volante, Pedro Paulo ao lado e eu, Raquel e o pasteleito com mãos amarradas e olhos vendados atrás. Paramos em uma estrada da Barra da Tijuca, perguntei se ali seria o lugar de soltarmos o pasteleiro e Pedro Paulo respondeu que sim. Nisso ele se virou pra trás, deu um tiro na cabeça do pasteleiro e mandou que eu jogasse o corpo pro lado de fora.
Raquel começou a chorar e eu olhava espantado pra Pedro Paulo. Ele mandou novamente que eu jogasse o corpo fora, abri a porta coloquei o pobre homem no acostamento e partimos.
Um silêncio ensurdecedor tomava conta do carro, silêncio só interrompido as vezes pelo choro da Raquel. Não aguentei mais ficar quieto e perguntei se matar pessoas inocentes também fazia parte da “guerra. Pedro Paulo se irritou e mandou que eu não discutisse ordem, perguntei que libertadores da pátria éramos nós que matávamos pessoas inocentes, o homem não tinha visto nenhum de nós ficou o tempo todo com os olhos vendados e não era ameaça. Pedro Paulo virou para trás e mandou que eu calasse a boca, me calei.
Mais um tempo em silêncio e quando já estávamos na Zona Sul mandei que parassem o carro. João Batista ignorou e continuou dirigindo. Mais uma vez mandei que parasse o carro, ele não fez e Pedro Paulo novamente mandou que eu calasse a boca. Peguei minha arma na cintura encostei na cabeça do Batista e gritei “para a porra desse carro agora senão vou estourar sua cabeça!!” ele finalmente entendeu meu recado e parou.
Pedro Paulo perguntou o que eu queria com aquela atitude e respondi que eu estava fora, não participava de mais nada com eles. Pedro Paulo mandou que eu descesse do carro então e respondi que a intenção era essa mesma. Desci e comecei a andar quando ouvi a voz de Raquel gritando para que eu esperasse. Parei e enquanto o carro saía em disparada ela veio correndo ao meu encontro e disse que iria comigo, não concordava com aqueles métodos.
Andamos um pouco e demos de cara com um carro da polícia. Passamos apressadamente quando um dos policiais olhando um cartaz dentro do carro gritou “terroristas”. Saímos correndo com eles atrás atirando. Era carnaval no Rio de Janeiro e conseguimos nos misturar à Banda de Ipanema que fazia naquele momento seu desfile. Assustados nos misturamos aos foliões que cantavam e brincavam. Os policiais ainda nos procuraram um pouco no meio da banda e desistiram.
A situação estava complicada e agora eu e Raquel estávamos por contra própria. Alugamos um aparelho em Bonsucesso enquanto tentávamos nos reforçar, mas nem tempo para isso tivemos. Um dia bateram na porta, eu atrás da mesma com um revólver perguntei quem era, era o Batista.
Perguntei o que tinha acontecido, ele respondeu que Pedro Paulo havia “caído”, era a expressão usada para quando alguém era preso ou morto. Pedro Paulo comandou uma ação em um banco justamente em dia de pagamentos dos oficiais. Tomou um tiro e foi preso e segundo informações obtidas havia entregado a todos para os policiais.
O cerco estava se fechando. Raquel nervosa perguntou o que faríamos, João Batista respondeu que a solução era fugir da cidade que ali uma hora ou outra seríamos presos. Perguntei para onde ir e ele respondeu Araguaia.
Muitos de nossos companheiros já haviam migrado pro sertão da Bahia e pro Araguaia. O Araguaia fica na região amazônica brasileira ao longo do rio Araguaia. As organizações de esquerda planejavam uma revolução socialista e achavam que a melhor maneira dela ocorrer era começando pelo campo como aconteceu com as bens sucedidas revoluções cubanas e chinesas.
A idéia era que os guerrilheiros se misturassem na cidade. Passaríamos por cidadãos pacatos e apolíticos, ganharíamos a confiança e o respeito dos locais e com o tempo começaríamos a guerrilha, primeiro pelo campo e depois indo para as áreas urbanas e foi assim que Batista, eu e Raquel fizemos.
Os guerrilheiros não poderiam ficar juntos era preciso que se infiltrassem nas cidades interioranas e se afastassem. Com isso Batista foi morar afastado de nós e virou barbeiro. Eu e Raquel começamos uma relação e eu abri uma mercearia e ela começou a dar aulas. Usei o codinome Rogério e ela Michele. Passávamos tranquilamente como duas pessoas do Rio de Janeiro que se mudaram para o interior para vencer na vida.
Aos poucos conquistamos a confiança da população local. Raquel dava aulas no colégio da cidade e as crianças lhe adoravam. Eu com a mercearia conheci muita gente boa também, acabei fazendo parte da associação de moradores. Relutei porque não queria nenhum envolvimento político, mas infelizmente a política já estava nas minhas veias e entrei e até foi bom porque era uma situação muito mais amena onde discutíamos apenas melhorias para a cidade.
Minha relação com a Raquel ia muito bem também. Finalmente nesses anos todos tínhamos paz, vivíamos nosso caso de amor na plenitude até porque não sabíamos como seriam os dias seguintes. Não éramos comerciante e professora de verdade, éramos guerrilheiros procurados pela polícia convivíamos com a morte, sabíamos que a qualquer momento poderíamos morrer então tentávamos aproveitar.
Um dia recebemos a visita de João Batista. Ele preocupado contou que soldados do exército foram vistos pelas cercanias e que precisávamos fazer algo. Raquel sugeriu que atravessássemos a fronteira porque mais dia menos dia chegariam até nós.
Mas o dia chegou sim e foi naquele mesmo. Mal Raquel acabou de falar e ouvimos gritos de que estávamos cercados. Batista olhou  viu o exército do lado de fora e disse que o fim da linha havia chegado. Raquel colocou balas em sua arma e disse que sim, mas tombaríamos lutando e assim um tiroteio se iniciou.
Um grande tiroteio que durou um bom tempo, até que Batista saiu da casa para tentar cotinuar em outro ponto e foi atingido caindo morto no chão. Um pouco depois também fui atingido e caí. Raquel ficou sem munição e os soldados invadiram a casa.  
Eu caído no chão sem poder fazer nada um soldado aponta a arma pra mim para me executar, mas o comandante diz para não fazer isso que seríamos úteis no Rio de janeiro.   
Antes de desmaiar ainda deu tempo de verem pegar Raquel pelos braços e alisarem seu rosto e seus seios. Deitaram minha companheira no chão rasgaram suas roupas e lhe estupraram.
Eram uns dez homens e um por um ia em cima dela beijavam seu corpo e a violentavam. Soltei um “desgraçados” e desmaiei. 
Acordei em um hospital. Um home fardado e um médico me observavam e conversavam, o médico disse que eu estava bem para ele, então o homem mandou que soldados entrassem e poderiam me levar. Levantaram-me enquanto eu perguntava por Raquel, algemaram e me levavaram.
Fui levado para uma prisão escura, molhada, ratos passeavam pela cela. Eu estava frágil, morto por dentro, preocupado com Raquel. Sentado num canto da cela olhava a foto e via que minha imagem nela estava cada vez pior. Parecia de um morto vivo.
Foram na cela e me buscaram para interrogatório. O delegado pediu nomes, mas recusei a dar. Fui torturado de todas as formas que vocês possam imaginar. Sofri afogamento, quase desmaiava quando me puxavam novamente e gritavam perguntando nomes. Eu respondia que não tinha nomes e me afogavam de novo.
Não recebi apenas afogamentos. Colocaram-me em pau de arara nu e ficava horas nele apanhando, as dores eram imensas. Colocavam-me em cadeiras amarrado e me davam choques, cada vez que eu não respondia o que queriam me davam uma violenta descarga elétrica. Outras vezes pegavam fios com eletricidade e colocavam em minha língua. Sofri muito, apanhei demais, mas não falava nada. Uma coisa que tinha aprendido com minha família era não ser delator, nem que para isso fosse preciso morrer.
Mas a pior tortura não era essa, era quando voltava para a cela.
De lá escutava os gritos de Raquel, era um revezamento do horror. Ouvia seus gritos e eu só conseguia chorar de tristeza e de raiva. Um dia os gritos pararam e isso me apavorou ainda mais, o que teria acontecido com Raquel?
E fui torturado durante muito tempo e mesmo sem entregar ninguém não me mataram. Fui a julgamento e condenado a vinte anos de prisão sendo levado para a penitenciária Cândido Mendes, na Ilha Grande.
O presídio ficava em um lugar paradisíaco que não tinha como aproveitarmos. O presídio era famoso, pessoas importantes já haviam passado por lá como Orígenes Lessa e Graciliano Ramos.
Uma das curiosidades do local era a mistura de presos políticos com presos comuns, fiz amizade com um homem chamado por Biduda. Sujeito negro com ar de malandro parecia gente boa, mas na verdade era um assassino bem cruel e traficante de drogas.
Ele gostou de mim e disse que iria me proteger na cadeia, em troca ensinei a ler e escrever. Fiz amizade com vários presos e era chamado de professor. Alfabetizei vários e aproveitava para passar a doutrina revolucionária, pensamentos socialistas. Anos depois mais precisamente em 1979 da união desses dois lados tão distintos, da troca de informações e conhecimentos surgiu a “falange vermelha” que com o tempo virou “comando vermelho” e se transformou no maior grupo criminoso do Rio de Janeiro.    
Um dia o guarda me chamou e disse que eu estava livre. Não entendi e perguntei porque. Ele me respondeu que o embaixador turco havia sido sequestrado e fizeram uma lista de vinte e cinco presos que deviam ser libertados e eu estava no meio. Perguntei se ele tinha certeza se era eu mesmo e ele respondeu ironizando se eu conhecia alguém mais chamado Doido. É, era eu mesmo.    
Saí da cadeia com meus pertences na mão e os presos batendo com copos nos ferros da cadeia gritando “vai com Deus professor”. Entrei em um carro e fui levado para o aeroporto do Galeão.
Encontrei outros companheiros, nos abraçamos. Vi um que era mais próximo de nós e perguntei sobre Raquel, ele me respondeu que ela não tinha aguentado, tinha morrido nas dependências do DOPS.
Eu já esperava essa notícia, mas não tinha como não ficar triste e sentir uma grande dor no coração. Lamentei muito por ela, por aquela menina com ar frágil, voz rouca, mas uma guerreira, mulher valente. Lembrei de quando a conheci na UFRJ, na UNE e depois em tudo que vivemos. Enquanto todos os companheiros chegavam e se cumprimentavam rezei um pai Nosso por ela baixinho e pedi que Deus a acolhesse bem.
Eu só pensava em tudo que tinha vivido. Eu que só queria ser um astro do rock, cantar em um festival com amigos agora era forçado a ir embora do país. Todos se reuniram para uma foto e enquanto a foto era tirada erguemos nossos punhos e gritamos “viva o Brasil”. Depois entramos no avião cantando o hino da Independência.  
Eu finalmente saía de dentro do inferno, mas nunca mais o inferno sairia de dentro de mim

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