quarta-feira, 29 de junho de 2011

Capítulo XIII - Pittinha


Pittinha oficialmente reassumiu a escola e assim Andréia teve mais tempo pro chamego comigo. Bem, não muito mais tempo porque ela se apaixonou por um dos seguranças da família e me largou.
Pittinha continuava seus negócios normalmente. Jogo do bicho, escola de samba, caça nível, puteiros, cassinos e bingos clandestinos.
Putaria, samba e jogatina. Esse era o negócio dele. Um grande império que foi construído custando o sangue de algumas pessoas. De muitas pessoas.
Essa é a história que vou contar pra vocês agora. A de Oswaldo Pitta Jr o Pittinha, além de contar a história da família Pitta.
Tudo começou lá atrás durante a 2° guerra mundial o espanhol Juan Pitta desceu em São Paulo com sua família. Passaram alguns anos na terra da garoa e se mudaram para o Rio de Janeiro se estabelecendo em Nova Iguaçu.
Juan abriu uma loja no centro da cidade do Rio .. Uma loja de tecidos. Seu filho mais velho Oswaldo Pitta trabalhava com ele. Família grande com cinco filhos.
Uma família que gostava de festas, unida. Juan e Idália Pitta eram pais conservadores que traziam seus filhos no rigor da honestidade. Não admitiam nenhum tipo de falhas deles, ensinaram que não havia maior valor no mundo que a retidão de caráter.
Mas também eram amorosos, sempre tratando os filhos com muito carinho e principalmente ao mais velho Oswaldo passaram a importância do trabalho e da família.
Como disse a família era festeira e não eram raras as vezes que a vila onde moravam parava para as grandes festividades dos Pitta. Muita dança flamenca e comida deliciosa feita por Idália e as meninas da família.
A loja de tecidos era humilde, mas ia muito bem e com o tempo foi crescendo dando pra sustentar bem a família. Com os anos além de Oswaldo outros irmãos seus também trabalharam na loja.
Oswaldo tinha uma vida como todo jovem de sua época, fora do trabalho procurava se divertir. Gostava de ir às matinés da Cinelândia e passear de moto com os amigos, além de paquerar as menininhas. O sangue espanhol fervia.   
Mas as coisas começaram a mudar quando o velho Juan ficou doente e assim Oswaldo assumiu o comando da família. As responsabilidades aumentaram e ele teve que deixar um pouco as farras de juventude de lado pra cuidar dos negócios.
E o que era pra ser momentâneo virou definitivo com a morte do patriarca no início dos anos sessenta.
A morte abalou a família já que Juan era o ponto de referência da mesma. Mas a vida seguiu e Oswaldo soube conduzir bem os Pitta. Seu estilo de trabalho não era tão familiar quanto do pai era mais prático e assim com profissionalismo fez a loja crescer muito e abriu filiais por todo o então estado da Guanabara e também pelo estado do Rio de Janeiro.
Nessa época Oswaldo conheceu Eunice, ela era funcionária da loja deles na “SAARA” e convidou a moça para sair. Fizeram um programinha tradicional de casal com cineminha depois jantar fora e cavalheiro como o pai havia ensinado Oswaldo deixou Eunice em casa e antes que ela saísse do carro aconteceu o primeiro beijo.
E daquele beijo surgiu namoro e do namoro noivado e casamento.
Uma grande cerimônia reunindo todos os Pittas e amigos, a família Pitta já era tradicional em Nova Iguaçu e muito admirada.
E Oswaldo era ambicioso, bem mais que o pai que só se contentava com aquela lojinha no centro do Rio. Oswaldo queria mais, muito mais..
E depois de dez lojas abertas dava pra dizer que a família estava rica. Ele e os irmãos tomavam conta da cadeia de lojas enquanto dona Idália vivia uma velhice feliz onde não lhe faltava nada. Os netos começavam a surgir e vovó Idália fazia a alegria da garotada com seus quitutes. 
E os pastéis e o bolo de chocolate da vovó eram maravilhosos, como todo quitute de avó. Tem sabor de infância.
Dona Idália teve uma boa velhice e morreu dormindo, dizem que é o sonho de muita gente morrer assim. O meu não, meu sonho de morte é com noventa anos de idade comendo uma menina de dezoito.
Frustração de Oswaldo foi que Idália não conheceu seus filhos. Eunice até já havia engravidado com a matriarca viva, mas perdeu no terceiro mês.
Alguns meses depois da morte de Idália o casal teve seu primeiro filho a que deram o nome de Renato.
Nessa época mesmo Oswaldo resolveu diversificar seus negócios. Deixou o comando das lojas com os irmãos e resolveu apostar em outro ramo, o jogo do bicho.
O jogo do bicho sempre foi ilegal no Brasil, contravenção penal, mas Oswaldo como eu contei era ambicioso e isso não lhe impediu de entrar no ramo. Começou como sócio de um turco chamado Arutin Hassan, conhecido no ramo como “o velho”. Arutin passava por problemas com seus pontos e assim ofereceu sociedade para Oswaldo que topou.
E Oswaldo tinha tino para negócios e fez os pontos crescerem. O velho morreu e assim Oswaldo assumiu todos os pontos. O dinheiro multiplicava em seu bolso. Os problemas também.
Porque Eunice não aceitava o novo estilo de vida do marido mesmo vendo as condições financeiras melhorarem cada vez mais. Construíram uma mansão em Nova Iguaçu, carro do ano, viagens pra Europa, mas nada adiantava as brigas do casal eram cada vez maiores. Eunice tinha medo que algo acontecesse ao marido.
A coisa melhorou um pouco quando nasceu o Pittinha, mas não por muito tempo.
Porque naquela altura do campeonato Oswaldo já era o dono de quase todos os pontos de bicho da Baixada Fluminense e uma guerra começou no estado pelos pontos. Muita gente morreu e claro tentaram tomar os pontos do Oswaldo.    
Mas Oswaldo reagiu com violência. Um banho de sangue foi feito por todo o Rio envolvendo bicheiros e policiais. Na época não existiam tantos traficantes e o jogo do bicho era algo muito lucrativo. Oswaldo não só conseguiu manter seus pontos como atacou de inimigos matando muitos deles.
No fim da guerra dos pontos Oswaldo tinha quintuplicado sua fortuna e aumentado em muito seu domínio se transformando no principal bicheiro da região Sudeste do Brasil.
Algum tempo depois nasceu Andréia, o terceiro filho do casal. As brigas não diminuíam e assim Eunice resolveu sair de casa abandonando Oswaldo e se aproveitando da recém aprovada lei do divórcio.
Entrou na justiça pedindo metade de tudo que o marido tinha e estranhamente morreu pouco depois em um acidente na ponte Rio Niterói.
Oswaldo nunca mais casou achou melhor manter o status de viúvo que se arriscar a perder parte do patrimônio, mas sempre teve seus casos, muitas amantes e assim criou os seus três filhos.
Oswaldo era apaixonado por escolas de samba e assim virou vice presidente da Soberana de Bangu, a maior vencedora do carnaval carioca. Era um homem bem relacionado nos meios artísticos e políticos e enquanto esteve na escola todas as celebridades desfilavam nela e chegou a ser recebido pelo presidente da República com um afetuoso abraço quando o mesmo via o desfile das escolas de samba de seu camarote.
Nessa época sua filha Andréia já adolescente se envolveu amorosamente com um motorista de ônibus perdendo o cabaço com ele. Oswaldo descobriu que o motorista vinte e cinco anos mais velho e casado estava comendo sua filha e não perdoou. O homem foi seqüestrado por seus capangas e nunca mais foi visto.
O caso teve grande repercussão, mas nunca nada foi provado contra Oswaldo que saiu ileso do caso. Ileso, mas nem tanto. No carnaval seguinte cismou de cruzar a Sapucaí a pé no intervalo entre um desfile e outro e recebeu vaias do público e gritos de assassino.
Mas por incrível que pareça mesmo com tudo isso Oswaldo Pitta era considerado um bicheiro a moda antiga. Não misturava o jogo do bicho com o narcotráfico. Tinha horror a drogas seu negócio era a jogatina e o samba.
E fanático por samba e insatisfeito com a direção da Soberana de Bangu largou a agremiação e fundou a Acadêmicos da Guanabara que em apenas três anos já desfilava no grupo especial do Rio de Janeiro e foi campeã do carnaval no mesmo ano e com a saída de Oswaldo começava um incômodo jejum de títulos da Soberana.
Renato havia sido criado para tomar conta dos pontos de bicho, Pittinha já se interessava mais pela escola de samba e Andréia não queria saber de nada só desfrutar do dinheiro do pai. Renato casou e sua esposa Valéria tornou-se uma espécie de musa da agremiação tornando-se todos os anos a principal destaque do abre-alas da Acadêmicos.
Renato e Pittinha cada vez mais comandavam os negócios já que o pai começava enfrentar problemas de saúde. Um mandado de prisão foi expedido para ele que fugiu, sendo preso em São Paulo disfarçado com bigode e peruca preta enquanto frequentava o salão do automóvel.
Ele que foi o pioneiro naquilo que Pittinha e outros bicheiros fizeram anos depois de transformar cela em hotel de luxo. Não só fez isso como liberou dinheiro para reforma do presídio e dos carros da polícia.
Foi liberado para prisão domiciliar e morreu com um enfarte fulminante enquanto jogava cartas na casa de um amigo.
A morte causou uma comoção no mundo do samba. A Acadêmicos da Guanabara resolveu homenagear seu patrono e foi campeã do carnaval.
Com a morte de Oswaldo seus negócios foram descentralizados e isso atraiu a atenção de aventureiros entre eles Régis Pitta que vinha a ser sobrinho de Oswaldo e primo de Renato e Pittinha. Régis aproveitando que o jogo do bicho estava em queda na cidade resolveu que tomaria o poder na Baixada com máquinas de caça níquel instaladas em bares.
Parceiro..essas máquinas davam muito dinheiro, muito mais que o bicho e isso atraiu a cobiça de Renato que também investiu no negócio.
E como aprendemos no colégio dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Renato e Régis também não podiam e a solução então era a guerra.
Régis foi mais rápido. Renato e Valéria saíram pra jantar uma noite e depois de carro encaminharam-se pra sua residência em Ipanema. Passando em plena Lagoa Rodrigo de Freitas o carro foi metralhado.
Renato morreu na hora. Valéria ficou ferida, mas se recuperou e depois largou o mundo do bicho e do samba tornando-se evangélica.  
Pittinha aquela altura era o presidente da Acadêmicos da Guanabara. Havia se casado com Mônica e tido com ela um filho a quem deu o nome de Oswaldo Pitta Neto. Até então Pittinha não havia se envolvido com jogo do bicho ou caça níquel. Seu negócio era samba e putaria.
Já havia montado vários puteiros pela cidade entre eles a Terma Carioca`s, a mais bem freqüentada e com as melhores mulheres do Rio.
 Pittinha era um bom vivant, nunca quis saber de estudo e trabalho. Dizia ter alma de artista mesmo não sendo um. Era bem relacionado na alta sociedade tendo comido várias atrizes de novela e cheirado junto com muitos astros do rock nacional.
Na época do atentado que matou Renato Pittinha se separou de Mônica e o filho foi morar com ela. Mas ele não teve que chegar ao mesmo ponto que o pai matando. A separação foi amigável e o casal se dava bem.
Pittinha saiu de casa e comprou uma mansão paradisíaca na Barra da Tijuca no mesmo condomínio que moravam artistas e jogadores de futebol. A mansão que eu fui quando rolaram a suruba e o estupro daquela menina.
Só que agora a situação mudava de figura. Seu irmão foi assassinado e os negócios da família ficaram a deriva. Tudo que seu pai havia construído poderia parar na mão de Régis e isso ele não podia deixar acontecer.
Resolveu honrar a memória do pai, vingar a morte do irmão e transformar o Rio de Janeiro em um Iraque..era a guerra..
Algumas semanas depois duzentas máquinas de caça níqueis em bares foram quebradas juntando os dois lados. Dois anos depois mais quatrocentas e cinqüenta. Nenhum dos dois lados registrava queixas. O negócio era resolvido entre eles mesmo e à bala.
Muitas baixas ocorreram dos dois lados. Régis e Pittinha sofreram atentados.  Um mar de sangue corria pelo estado. A guerra deles era tanta que até pelo transporte alternativo na Baixada Fluminense os primos brigaram querendo o domínio.
E os tempos românticos de Oswaldo Pitta haviam passado os dois se envolveram com o tráfico de drogas trabalhando com facções diferentes. Aumentava assim o poderio financeiro e bélico.
Pittinha e Régis não podiam coexistir, não havia espaço para os dois no mundo. No começo era briga por poder, por dinheiro, mas a coisa já havia derramado pro lado pessoal há muito tempo.
E sendo problema pessoal logicamente que seria feito de tudo pra atingir não só fisicamente, mas moralmente. Não havia escrúpulos nem limites no “jogar baixo” nessa guerra.
E devido a isso veio a ação mais espetacular e também a mais aterrorizante.
Como acontecia todos os dias dois seguranças iam até o colégio de Pittinha Neto para pegá-lo e levar pra casa e naquele dia não foi diferente. O carro parou e o menino naquela altura com doze anos se despediu dos amigos e entrou.
O garoto entrou e o carro blindado andava tranquilamente no caminho de casa quando um helicóptero começou a sobrevoar o local. Naquele instante os seguranças não se ligaram e continuavam o passeio de forma tranqüila com o menino no banco de trás com fone nos ouvidos escutando música.
Nisso o helicóptero se aproximou abriu a porta e um homem apontou um lança míssil em direção ao carro. O motorista só teve tempo de dizer “puta que pariu!! Que porra é essa???”.
Teve tempo pra mais nada, o homem do helicóptero disparou e um projétil foi lançado em direção ao carro que explodiu.
Todos mortos inclusive o garoto.
Golpe forte em Pittinha que se desesperou com a morte do filho. Um grande ódio tomou conta dele e todo seu grupo. O enterro foi acompanhado de grande dor e comoção. Pittinha carregava a o caixão que guardava o corpo do filho com sangue nos olhos, queria vingança.
Vingança que Mônica também exigia. Depois do corpo enterrado ela socava o peito do ex marido dizendo que já que ele havia entrado naquela merda e o filho morrido por culpa deles que ele tivesse uma atitude de pai e matasse aquele filho da puta.
Pittinha jurou a ex mulher que vingaria o filho.
A guerra esfriou e durante algum tempo não aconteceu mais nada. A impressão que dava é que realmente Pittinha havia sentido o golpe. O Rio de Janeiro viveu tempos de paz pelo menos em relação a guerra de caça níqueis até que surgiu a informação que o pai de Régis havia falecido.
Uma irmã de Régis ligou para ele informando a morte com a hora e local do enterro. Régis não tinha mais muito contato com o pai, mas pai é pai então ficou chocado com a notícia e confirmou presença no velório.
Chegou à frente da capela e encontrou a irmã que lhe deu um abraço e contou que o pai estava lá dentro sendo velado. Régis ficou em dúvida se entrava por não gostar de ver corpos. Pois é o homem que matava tanto não gostava de ver pessoas mortas.
A irmã insistiu e contou que a capela estava vazia e que ele aproveitasse assim para despedir-se. Régis concordou e pediu para que os três capangas esperassem do lado de fora que ele iria ver o pai.
Régis entrou fazendo o sinal da cruz e devagar se aproximou do caixão, ao chegar perto tomou um susto e disse “o quê?”
Não era o pai que estava deitado no caixão, era Pittinha que tirou uma arma debaixo das flores e deu um tiro na testa de Régis que caiu morto no chão.
Nem deu tempo dos três capangas reagirem do lado de fora.
Dez homens surgiram do nada e metralharam os três que caíram fulminados.
Estava concluída a vingança, estava concluída a guerra.
Pittinha saiu do caixão olhou para o primo morto, encaminhou-se até a frente da capela, virou para dentro fazendo o sinal da cruz e saiu.
Do lado de fora deu um envelope pra irmã do Régis como havia prometido, uma bela quantia em dinheiro. Deu também para os homens que metralharam os capangas e foi embora.
O motorista abriu a porta de seu carro e ele entrou. Do lado de dentro estava Mônica que perguntou “e aí?”. Pittinha com expressão fria respondeu “feito”. O motorista deu partida no carro e eles foram embora.
Aprendam uma coisa em bandido não se confia nunca. Nem morto.








terça-feira, 28 de junho de 2011

Capítulo XII - Viagem e bicheiros em cana


Até que o clima com o Pittinha não ficou ruim. O bicheiro era malandro e deu um jeito de amaciar nosso “pobre coração sofrido”. Lucinho virou diretor social da escola, major diretor financeiro e eu cultural. Era a única escola de samba que cargos como esses eram renumerados e essa graninha que entrou foi uma forma de esquecermos nosso prejuízo e tudo ficar bem.  
Eu cada vez mais estava dentro das organizações MAPE e ganhando a confiança do Senador. Virei uma espécie de braço esquerdo dele. O braço direito era Douglas Severiano. Seu amigo desde os tempos de luta estudantil, o homem que sabia todos os segredos do Senador e tratava diretamente dos negócios sujos. Precisava pegar a confiança dos dois principalmente de Douglas e isso consegui quando o levei para uma noitada no Acadêmicos da Guanabara e depois na Carioca`s.
Tendo a confiança de Douglas tinha a do Senador, tendo a dos dois o céu era o limite.
Juntei-me a Lucinho e assim viramos o elo entre Pardal e o asfalto. Recebíamos suas ordens e passávamos para seus homens na cidade. Fiquei o responsável pela propina dos policiais, políticos e juízes. E parceiro..a lista era extensa, nomes que vocês nem pode imaginar.
Dessa forma Pardal garantia a sua liberdade e que ninguém mexeria em sua favela.
Como vocês podem ver eu tinha negócios com os cinco bandidos mais perigosos e influentes da cidade. Não tinha mais volta eu já não era jornalista há tempos e na boa o que o jornalismo tinha me dado?
Deu dívidas, aluguel atrasado, corte de luz e prisão por atraso na pensão alimentícia. Isso que o jornalismo e ideais me deram. Eu vendi minha alma para o Diabo e acho que vendi por um ótimo preço.
Mas como eu disse antes Lucinho era inteligente, mais que Pardal e evidente que com o currículo criminoso que tinha com sua esperteza ele não se contentaria em ser assessor de traficante. Pra mim estava ótimo, mas Lucinho queria o mundo. Queria o poder e o dinheiro de Pardal.
Lucinho fazia os contatos com fornecedores de Pardal para que a droga chegasse até o traficante e assim acabou pegando alguns desses fornecedores pra ele. Não só fornecedores como também arrumou compradores. Traficava no asfalto, Barra da Tijuca, zona Sul, boates, condomínios e tinha negócios até com facções rivais de Pardal. Lucinho era o que podia ser chamado de “ensaboado”, se dava bem com todo mundo.
E numa dessas arrumou uma boa venda pra Europa. Renderia um dinheiro bom pra ele levar alguns quilos de cocaína para Paris, negócio arriscado que poderia dar alguns belos anos de cadeia, mas Lucinho não tinha medo de prisão e era fascinado por dinheiro.
Problema que ele sozinho não daria conta de levar a droga, precisava de um parceiro.
E o problema maior que o parceiro que ele escolheu fui eu.      
Relutei disse que não queria. Era perigoso demais e bem ou mal eu tinha ainda uma ficha limpa e uma filha pra criar. Não me empolgava a idéia e ser preso e mesmo o dinheiro sendo bom eu já tinha uma bela grana no banco ganhava bem. Era um risco que eu não precisava correr.
Mas o Lucinho era um filho da puta e com sua lábia me convenceu.
Falei para Pardal que viajaria a negócios pro Senador, pro Senador que faria negócios para Pardal e assim consegui desculpa sem os dois desconfiarem.
E lá fomos eu e Lucinho vestidos de padres pro aeroporto e a droga escondida. Lucinho passou pelo detector numa boa, mas comigo ele apitou.
Tenso, tirei o relógio, umas moedas e tentei passar de novo apitando. Lucinho notou que eu estava nervoso e voltou dizendo aos policiais que eu tinha parafusos no joelho devido a um acidente.
Assim deixaram que eu passasse e embarcamos.  
Vou contar um segredo pra vocês, eu morro de medo de avião. Seja aquele que parecia uma lotada que nos levou pra Colômbia seja viajando de primeira classe pra Europa. Sentei e olhava pela janela apavorado por só ver nuvens. Lucinho notou meu nervosismo e me passou um papelote de cocaína mandando que eu fosse ao banheiro cheirar e assim aliviar essa tensão.
Fui ao banheiro cheirei o pó na pia e voltei com o nariz cafungando, mas aliviado. Sentei e uma taça de champanhe já me esperava. Lucinho mandou que eu bebesse e bebi. Realmente o medo passou.
E Paris é bonita pra caralho!! Fiquei encantado com a cidade. Era outono na Europa então ela não estava nem tão quente nem fria. As folhas caindo no chão conduzindo com a época davam um charme a mais. Eu poderia viver naquela cidade.
Fizemos o negócio e ganhamos uma grana pretíssima. Voltamos para o hotel com o dinheiro e esparramamos na cama. Com aqueles euros todos jogados perguntei o que faríamos já que ainda tínhamos alguns dias na capital francesa. Lucinho com um sorriso no canto da boca falou “vamos aproveitar”.
E aproveitamos bem deixando Paris de pernas pro ar. Fomos às melhores baladas, festas, bebemos dos melhores champanhes nacionais, cheiramos pó de primeiríssima qualidade, alugamos limusine com motorista e capota aberta onde ficávamos em pé com bebida na mão gritando que éramos brasileiros e mandávamos naquela porra e claro.. comemos as melhores mulheres.
E mulher européia é outro nível parceiro, francesa é bom demais faz biquinho até na hora de gozar.
Na última noite em uma boate Lucinho resolveu tomar pico. Arrumou heroína foi ao banheiro e injetou na veia. Eu bebendo com as putas fazendo biquinho e tentando falar francês estranhei que Lucinho não voltava. Depois de um bom tempo me preocupei e fui ao banheiro atrás dele.
Encontrei Lucinho caído ao lado de uma privada babando e olhando pro nada. Pensei na hora “puta que pariu esse viado vai arrumar de morrer na França!!”. Chamei os seguranças e eles uma ambulância. Lucinho estava sofrendo uma overdose.  
Entramos no hospital e claro coisa de primeiro mundo. Lucinho foi muito bem cuidado e tudo não passou de um susto. Entrei no quarto e estava lá o malandro deitado na cama, ri e falei “escapou por pouco hein mané?.”
Lucinho perguntou se tinha algum médico ou segurança perto do quarto e respondi que não. Ele levantou da cama e disse “vamos embora”. Ainda tentei argumentar que ele não podia sair assim tinha que tomar alta. Lucinho não quis saber botou sua roupa e perguntou se eu ficaria ali ou o acompanharia.
Evidente que eu não ficaria. Fomos embora.
E acho que foi a última vez que Lucinho tomou pico de heroína.
Voltamos para o hotel, pegamos a grana, as nossas coisas, fechamos a conta e nos mandamos pro aeroporto. Uma viagem muito boa que quase acabou mal. Falei Pra Lucinho que tinha sido muito maneiro, mas era minha última viagem internacional pra vender pó. Ele riu e falou que nossa próxima era pra Holanda.
Ele era louco mesmo..
Voltei ao Brasil e fui até a mansão do Senador levar lembranças para Juliana e Rebeca. Agora eu já conseguia entrar na mansão só faltando entrar com tapete vermelho. Entreguei para as duas os presentes e pedi pra Juliana não contar ao pai que eu tinha ido a Paris.
Juliana agradeceu por ter me lembrado dela e perguntou por que seu pai não podia saber, respondi que era um bico que eu tinha feito e Juliana reforçou a preocupação que tinha comigo e “meus bicos”. Mas que tinha orgulho de mim e como eu tinha crescido como profissional e principalmente homem.
 Agradeci a preocupação e o orgulho. Fiz carinho no rosto de minha ex, nossas bocas ficaram próximas ela chegou a fechar os olhos. Mas recuperei a razão virei o rosto e disse para ela não se preocupar que eu sabia o que estava fazendo.
Mas pra ser sincero eu sabia não.
Enquanto eu estava fora uma situação ganhou os noticiários do país. Pittinha e outros banqueiros do jogo do bicho estavam sendo investigados por relação com o tráfico de drogas. É Pittinha também era sócio de Pardal.
 Dez banqueiros foram a uma audiência com a juíza Solange Fonseca. Juíza considerada durona. Mas parece que os banqueiros não levaram a sério essa sua fama.
Enquanto rolava a audiência com eles policiais perceberam que tinha seguranças dos banqueiros no local e um deles estava armado. Comunicaram à juíza que se enfureceu e nem quis saber de que bicheiro era o segurança dando ordem de prisão para todos.
Inclusive Pittinha.
E a bomba estourou na imprensa. Rapidamente todos os veículos de comunicação estavam na frente do Fórum para cobrir e eu com o jornalismo no sangue também fui para fazer reportagem pro jornal do Senador.
Na frente do Fórum todos puderam acompanhar os banqueiros e seguranças saindo algemados. Foram flashes de todos os cantos para cobrir o acontecido. Apesar do jogo do bicho ser considerado contravenção penal era raro ver aquela cena.
Pittinha passou por mim e baixinho pediu para que sua irmã Andréia Pitta tocasse a escola. Falou, passou por mim e com os outros foram enfiados em camburões sendo levados a presídios
Será que finalmente esse país tomava jeito?
Evidente que não...
Fui até a casa de Andréia. Mulher da minha idade mais ou menos, loiraça linda que me recebeu com sorriso nos lábios e vinho importado. Contei o que Pittinha havia pedido e ela falou que era melhor não, nunca havia nem pisado na escola e não tinha a mínima idéia de como geri-la. Disse a ela que não estaria sozinha nessa empreitada tinha várias pessoas lá com experiência que poderiam ajudar, mas que o Pittinha precisava de alguém da família pro comando.
Andréia sorriu, pegou minha mão e perguntou se eu iria ajudá-la. Respondi que no que ela precisasse. Preciso nem dizer onde esse papo acabou né?
Não preciso, mas vou falar pra poder tirar essa onda. Peguei a irmã do Pittinha bonito. Uma noite de sexo selvagem que ajudou a convencer a delícia da Andréia a assumir a agremiação.
Comecei um caso com Andréia enquanto vários habeas corpus eram tentados a favor dos bicheiros, todos negados. A juíza Solange era foda parceiro ganhou a opinião pública para ela ainda mais porque recebeu várias ameaças de morte. Ela negou alguns recursos, outros juízes no embalo de sua fama também.
E os bicheiros se fuderam.
Quer dizer..se fuderam até a página três né? Eles tinham grana e você já viu alguém com grana se fuder no Brasil?
Pittinha e seus parceiros pararam numa penitenciária cinco estrelas só faltando ter mordomos para atendê-los..bem.. mordomos não tinha, mas rapidamente alguns guardas entraram na folha salarial e facilitavam as coisas no presídio.
Malandro..eu fui visitar o Pittinha em sua estadia e era melhor que o lugar que eu morava. A cela, se é que pode chamar aquilo de cela parecia o quarto de um apart hotel, tinha uma cama bem confortável, TV de plasma, frigobar ar condicionado e banheiro anexo com chuveiro de água quente!!
Vocês já viram como é uma cela de preso comum? Tem nem comparação é até uma sacanagem, uma afronta a comparação. Os fudidos ficam em cubículos que mal daria quarenta pessoas com mais de oitenta!! Um calor filho da puta tendo que revezar na hora de dormir.
E olha que o Pittinha nem curso superior tinha. Aquela regalia era graças a sua grana e seu poder mesmo.
E ainda tinham coragem de chamar aquilo de cadeia.
Bem..fui falar com o homem e comuniquei que consegui convencer e Andréia assumiria a escola enquanto ele estivesse preso. O homem me agradeceu, pegou uísque que tinha em cima do frigobar e perguntou se eu queria uma dose. Eu sabia que a bebida era um perigo pra mim, mas eu nunca fui homem de fugir do perigo e aceitei.
Pegou charuto me deu um e acendeu pra nós dois. Depois calmamente perguntou se tudo que eu via ali me dava à impressão realmente que ele estava fora do jogo. Beberiquei um pouco e respondi que não.
Pittinha pegou um celular e ligou para um homem perguntando como estava a situação dos caça níqueis que chegavam naquela semana. Deu um sorriso falou que estava tudo ótimo e que o mantivesse informado desligando.
Nessa hora um agente penitenciário apareceu na porta e Pittinha nem se importou continuando com o celular na mão. Mandou o homem entrar e lhe serviu uma dose de uísque. O Agente bebeu, agradeceu e disse que o que o “Doutor Pittinha” precisasse era só falar que ele faria, retirando-se da cela.
Bem que eu precisava de uma estadia numa prisão daquela.
Pittinha contou que continuaria mandando na escola e nos negócios mesmo preso, mas precisava da Andréia para ter uma voz de comando para representá-lo. Pediu que eu lhe ajudasse a manter a ordem por lá e que eu seria muito bem recompensado por isso.
Eu adorava quando esses caras falavam essas palavras meigas pra mim.  
Falei que ele podia contar comigo e me mandei. A escola continuou normalmente e no sábado seguinte teve ensaio pra apresentar Andréia Pitta para a comunidade. Escrevi um texto para ela e a irmã do Pitta discursou com a força necessária pra mostrar que a escola não estava a deriva.
Depois rolou um rufar de bateria para Andréia e Pittinha e Rogério Guanabara subiu ao palco para cantar um samba de quadra já antigo na agremiação feito em homenagem ao velho Pitta, o pai de Andréia e Pittinha. Depois o cantor oficial da escola Charles Poesia deu o grito “nesse ensaio mesmo ausente o nosso papai está presente” e cantou o samba enredo da escola pro próximo carnaval.
Quadra cheia, animada, a escola ia assim rumo à vitória.
E eu rumo à cama da Andréia e foi assim muitas vezes enquanto ela comandou a agremiação. Parecia que seu comando duraria muito tempo, mas só parecia..
A juíza Solange era guerreira, corajosa, mas não era imortal. Uma tarde saindo do fórum ligou o carro e ele explodiu. A juíza virou churrasco.
O assassinato da juíza que prendeu os banqueiros causou uma grande comoção, alvoroço. A polícia se empenhou para descobrir culpados e evidente a desconfiança caiu em cima dos bicheiros e mais evidente ainda que eles negassem a autoria do crime. Acabou que a culpa caiu em cima do segurança que estava armado no Fórum e foi preso junto com os bicheiros.
O homem levou um excelente dinheiro para assumir tudo sozinho, recebeu ótimos advogados e alguns anos depois já estaria solto para desfrutar da grana que recebeu.
Como tudo que ocorre no Brasil a comoção durou pouco. Alguns dias depois teve jogo a da seleção pelas eliminatórias da Copa e ela perdeu tendo assim sua classificação ameaçada e no Brasil não existe nada mais sério que o futebol e uma ameaça da seleção canarinho não ir pra Copa era muito mais séria que morte de juiz.  
Se a seleção se classificou ou não vocês saberão depois.
Outro juiz foi colocado no caso dos bicheiros e ele deu o habeas Corpus que eles precisavam. Passaram nem dois meses na cadeia e já estavam livres para suas atividades. Apesar de que na verdade nunca estiveram presos.
Uma grande festa no Acadêmicos da Guanabara marcou a volta do Pittinha, quadra lotada com celebridades, turistas. O carnaval se aproximava e as escolas de samba se tornam o grande point da cidade.
Nesse dia convidei Juliana para ir ao ensaio, subi ao camarote e apresentei a Andréia. Fizeram amizade e enquanto conversavam eu pensava como não seria bacana comer as duas ao mesmo tempo.
Olhei para o lado e vi Pittinha e o juiz que lhe soltou brindando felizes e gargalhando.
Nesse país tudo acaba em samba.




segunda-feira, 27 de junho de 2011

Capítulo XI - Major Freitas


Os cinco eram bandidos cada um em sua especialidade. O do colarinho branco, o do tráfico de drogas, o do sexo e jogatina, o playboy e o sanguinário. Esse último com certeza era o major Freitas como vocês já puderam ver.
Enquanto nós lamentávamos a derrota na disputa de samba-enredo Freitas enchia o Pai de Santo de balas e isso para ele era uma coisa muito natural nunca teve remorsos ou crises de consciência até porque ele nem deve ter consciência. Major Freitas era um fruto da sociedade.  
O bem e o mal, o amor e o ódio sempre foram mais próximos que se imagina, são irmãos andando de braços dados e isso pode ser falado também dos bons e os maus. Ser policial é sempre estar perto dessa fronteira. Contato permanente com o mau e não vamos negar que o lado ruim tem seu charme e suas atrações.
Eu que sou eu fui seduzido e fui para esse lado imagine quem arrisca a vida para enfrentar esse tipo de gente e ganha um salário de merda todo mês? Sai sem saber se vai voltar pra casa, se verá os filhos novamente. O policial se arrisca por quem nem lhe conhece e muitas vezes não lhe dá valor.
Alguns acabam ultrapassando essa fronteira entre o bem e o mal, não todos graças a Deus para cada policial corrupto existem pelo menos cem honestos.     
Mas esse capítulo é sobre o major Freitas e como vocês já viram esse atravessou a fronteira.
Roberto Cipriano Freitas, esse é o nome do major.
Nasceu em Salvador na Bahia e era o mais novo de dois irmãos, o outro se chamava Mariel. Seu pai faleceu de aneurisma quando ele tinha três anos de idade e um pouco depois a família se mudou para o rio de Janeiro, mais precisamente para o bairro de Bangu.
Lá estudou em colégios bons e fez diversas atividades esportivas como judô e natação. Também era um craque da bola e tinha em seu irmão Mariel uma referência. No fim de sua infância viu o irmão prestar concurso e entrar para a polícia civil do Rio de janeiro e sua mãe casar com um 3° sargento do Exército.
Freitas era forte devido as atividades que fazia e assim atraía a atenção das meninas do bairro e também era muito inteligente, um crânios nos estudos. Sempre com notas altas sendo orgulho da família com o futuro todo a sua disposição.
Primeiro pensou em ser nadador e ganhou assim muitas medalhas. Participou até de competições fora do estado muito incentivado principalmente por seu irmão. Mariel passava todos os ensinamentos que um irmãos mais velho faz e como a relação dos dois com o padrasto era fria também fazia as vezes o papel de pai.
Foi Mariel que levou Freitas para ter sua primeira vez. Uma noite o major então com quinze anos já havia se despedido da mãe para deitar quando o irmão bateu na porta. Freitas atendeu e Mariel mandou que ele trocasse de roupa que eles iriam sair. O menino nem pensou duas vezes, trocou de roupa e os dois saíram pela janela.
Mariel levou Freitas até a Vila Mimosa, reduto do sexo no Rio de Janeiro e entrando em uma das casas mandou que ele escolhesse a mulher que quisesse. Freitas ficou admirado com aquele mundo até então desconhecido e ao som de Altemar Dutra escolheu uma das prostitutas e foi com ela perder seu cabaço.
 E o major viciou-se em putaria não querendo mais saber de outra coisa. Todo o dinheiro que juntava gastava na Mimosa, até arrumou uma namoradinha por lá uma paraibana chamada Edileusa que lhe ensinou a sublime arte da putaria e como fazer o martelinho invertido que acabou tornando-se uma especialidade do major. Não vou contar como se pratica o martelinho invertido isso fica para a imaginação de vocês.
Freitas através do irmão conheceu o submundo e gostou. Isso vocês já viram um pouco nos capítulos que o homem foi citado. Entre os quinze e os dezoito anos aprontou muito, mas não deixava a mãe nem o padrasto perceberem apenas Mariel sabia. Continuava tirando notas altas na escola e praticando esportes. Mas suas noites eram em puteiros com mulheres.
Inventou para a mãe que havia arrumado um curso técnico para fazer a noite, mas seu curso era para se tornar cachaceiro profissional e cafetão juramentado.
Sim ele foi cafetão em sua adolescência. Aprendeu a manusear armas com o irmão policial e já usava uma. Apesar de moleque era durão conseguia se impor e daí ganhou o apelido de major. É major é apelido não era sua patente até porque Freitas era policial civil não militar, assim como seu irmão.
Seu irmão que ao contrário de Freitas não era de putarias e bebedeiras. Levava a profissão de policial a sério. Profissional sério, batalhador, corajoso e acima de tudo honesto nunca pegou propinas, nunca aceitou nem cafezinhos tudo o que fazia era dentro da lei. Um exemplo de policial como muitos que temos por aí.
E seguindo essa retidão de vida Mariel começou a namorar uma menina chamada Suely, com o namoro veio o noivado e um tempo depois o casamento. Freitas foi o padrinho do irmão em uma cerimônia simples, mas bonita.
Suely formara-se em direito e os dois alugaram uma casa perto da família de Mariel e estavam sempre todos reunidos para churrascos e cantorias. Mariel achava-se um excelente cantor e fazia dupla com o padrasto que tocava violão.
Enquanto Mariel criava sua família Freitas queria saber de outras famílias. Mulheres casadas de preferência. Teve caso com várias da região e o caso mais famoso foi com a mulher do dono de uma rede de postos de gasolina da região.
 Um dia o homem pegou Freitas com sua mulher em flagrante na cama e descarregou sua arma no major que corria só de cueca pela rua. Nenhuma bala lhe acertou, mas ele teve que ficar um tempo fora de circulação.
O episódio parece que fez Freitas acordar um pouco para a vida. Já com dezoito anos resolveu largar a putaria profissional e decidiu prestar concurso para a polícia civil sendo aprovado assim como seu irmão.
Os dois companheiros de vida assim tornavam-se companheiros de profissão. Prontos para arriscar a vida pelo cidadão fluminense.
Mas essa situação não durou muito tempo..
Mariel e Suely trabalhavam davam duro e não viviam em um mar de rosas e com isso não tinham casa própria nem carro fazendo com quem andassem de ônibus. Suely engravidou e isso fez com que uma felicidade imensa tomasse conta da família Cipriano de Freitas. Já sabiam que seria um menino e a decisão foi de dar o nome de João como o pai deles.
Tudo ia muito bem, mas como diria Paulinho da Viola..porém ah porém..
Como disse acima o casal andava de ônibus e estavam em um indo para uma consulta de pré natal de Suely. Estavam lá sentados conversando quando três homens entraram armados no veículo anunciando assalto.
Foi uma gritaria e os homens passavam de banco em banco levando todos os pertences dos passageiros. Mariel estava armado, mas achou mais prudente deixar a arma na cintura do que começar um conflito e se arriscar a acertar algum inocente.
Chegaram ao casal e um dos bandidos olhou fixamente para Mariel e disse que lhe conhecia de algum lugar. Pediu a carteira dele e lá viram que era policial. O homem então gritou que “esse policial filho da puta” me prendeu uma vez. Foi a senha.
Mariel botou a mão na cintura para sacar a arma, mas antes disso foi alvejado duas vezes no peito. Os bandidos mandaram o motorista parar e desceram com o homem lá agonizando nos braços da amada.
Suely entrou em desespero e gritou para que o motorista levasse o ônibus ao hospital mais próximo. Mariel olhou para a mulher e disse que a amava e pediu para que cuidasse bem do filho deles que onde ele estivesse iria olhar por João.
Falou e morreu.
O veículo ainda parou no hospital Suely desceu com ele que foi levado para dentro da emergência, mas já era tarde. Morreu no ônibus, morreu porque era policial. Policial honesto, de bem que entraria para as estatísticas.
Aquilo provocou uma grande revolta entre os policiais do Rio de Janeiro ainda mais que Mariel era muito querido. Muitos policiais foram ao enterro e enquanto o caixão descia gritavam por justiça. A mãe de Mariel chorava descontroladamente, Suely teve que ser medicada e Freitas olhava o irmão morto no caixão com olhar de raiva. Pela primeira vez Freitas sentia ódio na vida o ódio que ele carregaria pro toda sua existência.
Aquele menino farreador e beberrão morrera junto com o irmão. Nascia ali o sanguinário major Freitas.
Depois do enterro alguns policiais cercaram o rapaz e juraram vingar a morte de seu irmão que ele ficasse despreocupado. Freitas respondeu que não seriam assim ele queria participar junto da caçada aos bandidos e ninguém poderia impedi-lo.
E ninguém lhe impediu mesmo uma grande caçada começava ali. Reviraram favelas atrás dos bandidos. Arrombavam portas de barracos sem pena e davam tapas na cara dos moradores para saber alguma informação. Até que conseguiram achar o primeiro.      
Freitas chegou com um grupo de policiais ao local que ele estava quando o mesmo já havia apanhado muito de outro grupo que estava lá. Quando lhe viram no local o grupo que batia no bandido o cumprimentou e perguntou se ele queria ter a honra de matar. Freitas respondeu que fazia questão.
O homem no chão ensangüentado implorava por perdão dizendo que era pai de família com quatro crianças pra sustentar e que sem ele os filhos não teriam ninguém. Freitas engatilhou a arma e falou que o bandido não pensou nisso enquanto matava seu irmão e que sua cunhada estava grávida. O homem chorou pedindo piedade quando Freitas descarregou a arma nele.
Sem sentir um pingo de piedade, remorso, nada. Começava ali suas histórias sanguinárias.
Que se seguiram com os outros dois bandidos. O mesmo desfecho. Freitas havia vingado a morte do irmão.
E matar acabou se tornando uma arte para ele, um esporte como era a natação e o judô. Logo sua fama de “limpador da área” ganhou fama e ele e outros policiais começaram a ser contratados por comerciantes da área para esse tipo de serviços.   Receberam a lista dos bandidinhos da região que importunavam os comerciantes e eliminaram um por um ganhando um belo dinheiro.
Alguns anos depois ganhou fama quando aconteceu um seqüestro em residência na Ilha do Governador. A divisão anti seqüestro foi mandada pra lá e como ele estava na época servindo na 37° DP que fiava no bairro os membros da delegacia também foram.    
Um dia inteiro de negociações. Helicópteros sobrevoavam o local, imprensa toda lá. Uma barricada com carros da polícia e o chefe da DAS tentando negociar com os bandidos que mantinham a família refém.
A mulher do chefe do bando foi levada até o local e junto com o chefe da DAS aproximou-se da casa para tentar convencê-lo a se entregar. Tomaram uma rajada de balas perto dos pés. Pelo jeito o bandido não gostava muito da esposa.
Já caindo a noite chegaram a um acordo e a polícia decidiu que deixaria os bandidos saíram com o chefe da casa. Três bandidos caíram de carro com o homem dirigindo em direção a ponte do Galeão que une o bairro ao resto da cidade. A polícia deu um tempo e foi atrás.
Na época só havia uma ponte para sair da Ilha ainda não existia a ponte nova então o chefe da DAS foi esperto mandando que fechassem a ponte, uma barricada de viaturas foi formada com o carro com os seqüestradores ficando entre essa barricada e a polícia que estava chegando.
Um grande engarrafamento foi formado e com a chegada da polícia tiroteio. Podem estar se perguntando..e o Freitas nessa história? Pois bem coube a ele a “honra” de acertar a cabeça do líder dos seqüestradores com esse agarrado ao seqüestrado, uma mira precisa onde conseguiu alvejar o bandido sem acertar o refém.
Com o bandido caído morto no chão o refém conseguiu se soltar e correr. Foi a chance que os policiais precisavam para se aproximar dos outros dois bandidos e os encher de tiros.          
Freitas com isso cresceu vertiginosamente na corporação. Ganhou respeito entre os seus e entrou para a lista dos “homens de ouro da polícia”. Aqueles mais durões que cumpriam com seu dever nem que para isso matassem.
Mas como eu disse era tênue a linha entre o bem e o mal, a fronteira entre o mocinho e o bandido e aos poucos Freitas atravessou a fronteira. Entrou para o esquadrão da morte um grupo clandestino formado por policiais, militares, juristas, comerciantes, políticos que tinha por objetivo limpar o Rio de Janeiro da bandidagem. O objetivo não era prender era matar.
E eles mataram muito, muitos..nem todos bandidos
E começaram a ganhar dinheiro também, rapidamente Freitas começou suas ligações com o narcotráfico e selecionava quem prendia e matava. Virou um policial temido por bandidos e por seus colegas. Um homem que não tinha medo, que matava por prazer.
Mas ele não largava o submundo..não casou porque continuava amando a putaria. Era viciado em sexo e para isso não importava se era mulher ou travesti.
É parceiro o policial valentão que gostava de matar curtia travestis.
E numa dessas passeando de carro pelo centro da cidade viu próximo do Campo de Santana um travesti loiro, alto com bastante silicone. Corpo de mulher mesmo. Parou e perguntou quanto era o programa, preço combinado mandou entrar.
Seu nome era Rafael, mas atendia por Suellen e por ironia do destino ele se apaixonou pelo “traveco”.
Arrumou um quarto e sala na Glória pra Suellen morar e lhe visitava todas as noites às vezes dormindo com ela. Não dá pra falar exatamente o que faziam entre quatro paredes, quem pegava quem, mas como dizem o ativo também é gay. Freitas tratava tudo com muita discrição.
Mas essas coisas acabam vazando e chegou ao ouvido dos colegas o caso de Freitas com um homem. No começo ninguém falava nada perto dele, mas aos poucos ele ficou sabendo das piadinhas só que na cara mesmo ninguém tinha coragem de fazer.
Até que ele chegou um dia pra trabalhar e viu um DVD em sua mesa com um bilhete escrito “Ao Roberto Freitas com carinho”. O Homem achou estranho, mas guardou e levou pra casa. Quando chegou colocou na TV e viu que era o vídeo de um travesti comendo um cara.
No dia seguinte Freitas reuniu os colegas e perguntou quem havia feito a brincadeira do DVD. Os homens falaram que não sabiam de nada, mas mal continham o riso. Nisso Freitas pegou uma granada tirou o pino e colocou um dedo tampando a mesma pra desespero dos policiais.
Freitas com a granada na mão perguntou novamente quem tinha feito a brincadeira. Os colegas pediam pro Freitas parar com aquilo que todos iriam morrer. Mais uma vez ele pediu que quem fez a brincadeira se acusasse. Um policial então se entregou dizendo que foi ele pedindo desculpas.
Freitas então tirou o dedo e todos se jogaram no chão aterrorizados e achando que fossem morrer quando o homem gargalhou e disse que a granada era de brinquedo a brincadeira do DVD era sem graça e que não se repetisse. Saiu rindo com os colegas comentando que ele era louco.
Era louco mesmo. Algumas horas o carro com o policial que se entregou foi encontrado metralhado com ele morto dentro com mais de cem tiros.
Freitas então foi encontrar Suellen. Transaram como sempre e o major pediu que ela ficasse na cama que ele tinha uma surpresa pro seu amor. O travesti ficou deitado ansioso perguntando o que era quando ele saiu e voltou com as mãos nas costas.
Suellen olhou seu amado ali em pé na sua frente com as mãos escondidas e falou “vai amor me conta o que é. Estou morrendo de curiosidade”. Morreu sim..não de curiosidade, mas baleado mesmo. Era um revolver, Freitas apontou e atirou na cabeça de Suellen matando o travesti. Depois vestiu sua roupa e saiu da quitinete.
Major Freitas só amava a ele mesmo..a ele e a morte.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Capítulo X - Compondo um samba


Eu ganhava muito dinheiro..como nunca em minha vida. Ganhava com o Pardal fazendo sua biografia, na verdade nem era só biografia. Eu já estava na sua lista de empregados e acabava resolvendo com Lucinho as situações pra ele de fora do morro.
Porque Pardal era jovem, milionário, poderia ter o mundo a seus pés, mas se descesse do morro seria preso então eram raras as vezes que ele saía do Trololó.
E ganhava muito, mas muito dinheiro com o Senador. Tratava com a imprensa coisas que ele não tinha saco e de vez em quando precisavam do meu nome pra alguma coisa e eu ganhava uma “graninha” para “ajudá-los”. Graninha entre parênteses mesmo porque era uma grana muito boa.
E eu guardava tudo ficando com uma conta polpuda na poupança. Ganhava bem mensalmente e assim podia dar uma vida de princesa para minha filha. Sim ela já tinha graças à família da mãe. Mas eu poder tirar dinheiro do bolso e pagar sua escola, plano de saúde, dar presentes, levar pra passear me dava muito orgulho.
Minha filha era tudo pra mim, minha princesa era meu lado bom, puro. Se dependesse de mim seria a rainha do mundo.
E Juliana resolveu se mexer também voltando aos estudos. Começou faculdade de direito e veio correndo me contar. Fiquei com muito orgulho de minha ex e feliz que finalmente nos dávamos bem.
Fui a Itaperuna visitar meus pais e vi que a casinha deles caía aos pedaços. Na hora dei um dinheiro para uma reforma geral no imóvel e mais algum para que eles aproveitassem a aposentadoria. Meus velhinhos mereciam tudo de bom  
Tinha uma vida feliz como nunca havia sido mesmo com uma vida perigosa.
E deixando pra trás todos os meus valores.
O já naquela altura meu amigo Pittinha me convidou para uma festa na Acadêmicos da Guanabara para o lançamento do enredo para o carnaval seguinte. Como o carnavalesco afetado já havia me adiantado o enredo seria sobre a super importante cidade de Tremembé do Oeste. Mas não se iludam, o enredo era fraco só que o dinheiro era bom e a escola de samba e principalmente Pittinha eram poderosos se a escola desfilasse com “atirei o pau no gato” iria para as cabeças.
Fui com Lucinho e ficamos no camarote presidencial. Major Freitas estava lá e sorrindo perguntou se eu estava com saudades sua. Respondi que sim que a saudade era tão grande que eu pensava até em criar uma comunidade para ele no Orkut com o nome “Nós amamos o major Freitas”.
Ele riu e deu um tapinha no meu rosto com certa agressividade falando que eu era muito engraçado depois virou pro Lucinho e mandou que ele tomasse cuidado e não desse tanto mole nas ruas que a polícia estava de olho.
Foram conversar em um canto sobre negócios enquanto o carnavalesco pegou o microfone e começou a explanação sobre o enredo..
Ouvi e comecei a achar aquilo tudo muito interessante, meio “maionésico” também já que falava de oriente, ocidente, das águas santas de Tremembé que curavam espinhela caída, gonorréia e homem broxa. Mas enfim eu gostei, interessante demais.
Ouvia a tudo atentamente quando Freitas e Lucinho chegaram perto de mim perguntando no que eu tanto prestava atenção. Respondi que o carnavalesco estava apresentando o enredo e era bem interessante. Lucinho brincando falou que devíamos fazer um samba pra escola só que o Major Freitas levou a idéia a sério e disse que era uma boa porque aquilo dava um bom dinheiro.
Lucinho tomou um susto e perguntou como assim bom dinheiro. Pittinha se aproximou e contou que uma disputa era cara porque necessitava de cantores, músicos, gravação de cd para divulgação e principalmente torcida. Falou que todos os anos os compositores entupiam sua quadra de torcida e isso dava lucro para escola já que consumiam cerveja e com ela cheia a bilheteria transbordava.
Não entendi e perguntei como assim torcida e se as pessoas do local já não torciam naturalmente. Pittinha me chamou de tolo e falou que não, os compositores alugavam dezenas de ônibus, enchiam os torcedores de bebida, churrasco, pagavam seus ingressos para que na hora da apresentação eles cantassem o samba e segurassem alegorias.
Perguntei se um samba sem torcida ganhava na escola. Pittinha riu e falou que não ganhava nem na dele nem em nenhuma. Mas uma torcida sem samba poderia sim.     
Major Freitas perguntou ao Pittinha quanto se gastava mais ou menos numa “brincadeira” dessas e o bicheiro respondeu que um samba campeão custava uns cinqüenta mil. Lucinho falou que era muita grana e estava fora. Pittinha respondeu que um samba campeão rendia mais de duzentos mil aos compositores. Falei para eles que desceria pra pegar a sinopse.
Sinopse é uma espécie de livreto que consta o enredo da escola e principalmente aquilo que o carnavalesco quer no samba.
Peguei voltei pro camarote e disse que iria disputar as eliminatórias de samba-enredo. Lucinho falou que eu era doido e desde quando eu sabia escrever samba e ainda mais samba-enredo. Eu folheando a sinopse respondi que era jornalista e que não devia ser tão difícil. Major Freitas falou que estava dentro que tinha uma graninha pra investir eu falei que também tinha.
Lucinho contou que dinheiro até poderia não ser problema, mas aonde arrumaríamos torcida para lotar aquela quadra. Respondi “Pardal”.
Major Freitas falou que não dava porque não podia misturar seu nome com ele. Disse que aquilo era mole só arrumar um codinome para ele, mas Pardal tinha dinheiro e era só botar ônibus no Trololó que a comunidade descia pras apresentações. Lucinho ficou em dúvida, mas eu convenci lembrando o lucro que aquilo podia dar. Investir cinqüenta para ganhar duzentos. Além de toda mídia que o carnaval tem teríamos uma música nossa tocando em todo país e assim convenci os dois pra entrar na aventura.
Depois da noite no samba fomos para a Termas Carioca`s. Não é local de banhos termais como na Roma antiga, mas um lugar de putarias termais mesmo de propriedade do Pittinha. Samba, putaria, jogo do bicho, caça níqueis, tudo isso na cidade era com o Pittinha ele era o responsável pelo entretenimento no Rio de Janeiro. O Walt Disney dos adultos, mas sem ratos, só gatas..podre essa..
Enfim, fomos a termas e sempre quando estávamos com Pittinha a “fodelança” comia solta. Muitas mulheres, bebida e pó a vida que pedi a Deus, com perdão de dizer o santo nome. Nós doidões com as mulheres falando que faríamos o samba mais foda do próximo carnaval e iríamos comemorar nossa vitória ali.
No dia seguinte eu e Lucinho fomos ao morro e falamos da idéia para Pardal que riu e perguntou desde quando éramos compositores. Respondi que desde aquele momento e estava com a sinopse nas mãos, tirado Xerox e uma era dele. Entreguei em sua mão.
Pardal riu e perguntou o que faria com aquilo que ele era bandido e não compositor. Lucinho falou que ninguém ali era compositor, mas já tinha se informado que não era necessário ser compositor para fazer um samba-enredo. Puxei pelo lado de sua vaidade e perguntei se ele não queria ter o nome eternizado com biografia? Teria como compositor também e seria uma forma dele homenagear seu pai que havia sido mestre de Bateria.
Pardal olhou a sinopse depois pra mim e falou “filho da puta, falar no meu pai é golpe baixo”. Perguntei se ele topava ou não e ele respondeu que sim e “iríamos ganhar aquela porra”.
Alguns dias depois marcamos um encontro pra fazer o samba lá no morro. Os moleques estavam embalando pó na boca quando chegamos e Pardal disse que teria que se ausentar para compor. A bandidagem não entendeu nada e ele falou que iria escrever um samba. Um dos moleques virou e disse que fazer samba era coisa de viado o negócio era funk. Pardal puto engatilhou a arma apontou na cabeça dele e perguntou “como é que é de menor?”.
O moleque sorriu amarelo e falou que estava brincando. Pardal guardou a arma e disse que achava que bom que fosse brincadeira mesmo porque ele seria um dos que teria que descer pra torcer.
E assim os quatro subiram da boca para a casa de Pardal. Ele, Lucinho, eu e Freitas. Freitas se lembrou da última vez que esteve naquele morro para pegar Pardal devido o ataque ao helicóptero. Pardal pediu pra nem lembrar porque ele teve que morrer em uma grana preta pra salvar o pescoço. Nisso Freitas lembrou que eu devia uma passagem de ônibus para ele.     
Ah como é gostoso lembrar o passado com os amigos...
Chegamos lá pegamos papel, caneta, abrimos a sinopse, lemos e ficamos os quatro lá com cara de bunda. Um olhando pro outro. Pardal perguntou então o que faríamos.
Lucinho disse que não tinha a mínima idéia, Freitas também não. Pardal olhou pra mim e perguntou se eu tinha alguma idéia. Respondi que não, a única coisa que eu sabia era que tinha que rimar “aí” com “Sapucaí”.
Nós fizemos tudo direito. Montamos a parceria, arrumamos dinheiro pra disputa, torcida..só esquecemos de arrumar gente pra compor o samba.
Ficamos lá os quatro sentados até que me lembrei de já ter ouvido falar em “escritório de samba”. Freitas perguntou o que era isso e respondi que no jornal uma vez um colega que cobria a parte de música contou que tinha grupos de compositores que faziam o que chamam de “samba de escritório”.
Como o mesmo grupo de compositores não podia assinar sambas em mais de uma escola do grupo especial do Rio de Janeiro arrumavam “compositores” que assinavam por eles. Os caras que assinam esse tipo de samba são chamados de “pombos”. O samba era feito e caso fosse vencedor no concurso depois a grana era rachada.
Pardal achou uma boa idéia então peguei o celular e liguei para esse colega que me passou o telefone de um compositor chamado Vandré Turco. Esse compositor com seu grupo no carnaval anterior ganhou sete sambas no grupo principal dos desfiles do Rio. Conversei com ele na frente dos “meus parceiros” contei o que tínhamos e que precisávamos de um samba. Todos os acordos foram costurados e o samba seria feito.
Algumas semanas depois fui com Lucinho na casa desse Vandré. Entramos e ele pegou o cavaco para cantar o que ele e seu grupo fizeram. O samba ficou lindo Lucinho logo se entusiasmou e disse que não tínhamos como perder. Vandré passou contatos de bons cantores e cavaquinistas para nosso palco. Nesse caso não seria uma parceria com o pessoal que fez. Pagamos dez mil e o samba era nosso.  
Contratamos o Rogério Guanabara, cantor promissor da agremiação para ser o intérprete do samba. Rogério depois terá um capítulo dedicado e ele. Passamos o samba pro cantor e marcamos estúdio pra gravação do cd.
E se tem uma coisa chata é gravação. Puta que pariu!! Eu, Lucinho e Freitas ficamos doze horas dentro de um estúdio com o Rogério, cavaquinista, um rapaz pra tocar violão, ritmistas pra fazer gravação dos instrumentos de bateria, mulheres pro coral feminino.  Pardal, que por motivos óbvios não foi ligava toda hora para saber como estava a gravação e reclamando da demora.
Mas ficou pronto. O produtor colocou pra tocar e ficou bom pra caralho, já tratávamos o samba como se nós tivéssemos feito e assim como foi bom foi caro. Já tínhamos gasto grana pra cacete e a disputa nem tinha começado.
E a disputa começou e foi passando, o samba se classificando. Era engraçado como o locutor nos anunciava “Freitas do repique, Betinho do tamborim, Lucinho do cavaco e Nicácio do pagode” sendo que nós quatro não tocávamos porra nenhuma no máximo punheta!! Pardal teve que lembrar que seu nome era Nicácio porque se assina “Pardal do Trololó” no fim da apresentação o BOPE nos esperaria de braços abertos no lado de baixo.
E subíamos orgulhosos no palco. Torcida imensa embaixo que fazia valer os dez ônibus que mandávamos todos os sábados pro Trololó pegar essa gente, os quilos de carne pra churrasco e caixas de cerveja. A galera cantando e balançando bandeiras e os fogos estourando do lado de fora. Uma disputa de samba-enredo pra quem nunca foi é um show de luzes, cores, pirotecnia e barulho. Às vezes dá até pra ouvir o samba. Mas esse detalhe não era tão importante.  
E nós subíamos ao palco como um time de futebol. Calça branca, sapatos brancos, camisa branca com detalhes azuis, azul e branco são as cores da escola. Nós, os cantores e os músicos tínhamos nosso uniforme. Aliás, todas as parcerias tinham e o branco predominava parecendo um congresso de Pais de Santo.
Por falar em Pai de Santo a reta final de disputa se aproximava e estávamos bem, mas tinha o samba de uma molecada que incomodava. Samba bom com refrães fáceis, torcida grande. Eu não acreditava que aqueles garotos tivessem feito, pra mim também era de escritório. Lucinho distribuía amendoim e pipoca na hora do samba deles para sua torcida e assim atrapalhar o canto, mas não adiantava muito.
Então faltando dois dias para a final  Freitas e eu fomos a um terreiro que o Major frequentava. Terreiro de Pai Cadinho lá em Campo Grande.  
Ele perguntou qual era o problema e Freitas contou. O Homem disse que isso era fácil de resolver e pediu prospectos dos sambas adversários na final. Prospecto é uma folha que tem a letra do samba. Freitas entregou e o homem amassou, colocou na boca e engoliu pra nosso espanto.
Gargalhando depois deu uma fumada no seu cachimbo e disse para não nos preocuparmos mais que os samba inimigos estavam “amarrados” e ganharíamos a disputa.
Fomos confiantes para aquela final. Gastamos muito para que tudo desse certo e vencêssemos. Evidente que também jogamos sujo Lucinho descobriu de onde saía os ônibus com a torcida deles e subornou os motoristas para que fossem pro lugar errado.
Nos apresentamos primeiro e demos um show o Rogério Guanabara era um grande compositor e parece que botou o coração na garganta naquela noite. Descemos do palco felizes e certos que venceríamos ainda mais com Lucinho tendo subornado os motoristas e acreditávamos que teria ninguém para torcer pros adversários.
E realmente tinha ninguém. Uma apresentação pífia que quase nos fez abrir champanhes.
Só que não tinha acabado. Havia um terceiro samba na final, muito ruim pro sinal e que eu nem sabia como tinha chegado lá. Falavam que esse estava lá  porque era samba da “comunidade”. Samba feito por pessoas que moram próximas da quadra, sempre freqüentam e Pittinha teria levado até aquela noite pra agradar seu povo.
Mas o samba tinha muita torcida, demais, não parava de ir gente pro meio da quadra torcer. Espantados olhávamos aquilo e perguntávamos de onde tinha surgido tanta gente. Quando fui ver era a quadra quase toda torcendo por eles. O cantor do samba começou a gritar por sua comunidade para que apoiassem e o público levantou as bandeiras. Lucinho pôs a mão na cara e falou “fudeu”.
Perguntei por que ele achava isso e ele mandou reparar na cor das bandeiras. Olhei e eram vermelhas. Não entendi o porquê das bandeiras vermelhas se as cores da agremiação eram azul e branco. Freitas mandou que eu parasse de ser ingênuo e tentasse lembrar o que significava o vermelho.
E eu lembrei..vermelho é a cor de uma famosa facção criminal do Rio de janeiro. Da facção que comandava a área que ficava a Acadêmicos da Guanabara e o Pittinha era um cara esperto. Ele nunca ficaria mal com os “homens”. A gente tinha se fudido.
Pittinha pegou o microfone e discursou que era uma escolha muito difícil que eram obras lindas que se apresentaram lá difícil de escolher e todo aquele blá blá blá que só enervava. No fim ele falou que deu empate e a diretoria havia se decidido por uma fusão de sambas. A primeira parte e o refrão do meio de um, a segunda parte e refrão de baixo de outro.   
O cantor oficial da casa começou o samba e o começo da fusão era do samba da comunidade. Os caras começaram a comemorar e pular feito doidos. Dava pra ouvir do lado de fora as rajadas vindas do morro em festa, mas ainda faltava o restante do samba e com certeza seria nosso.
É, mas não foi. Cantaram a segunda e o refrão principal do samba que desviamos torcida. Os dois sambas foram os campeões e nós perdemos sozinhos. Major Freitas olhou furioso pro Pittinha que fez cara de “não tive culpa” e saímos da quadra putos pra caralho, mas nem meter uma bala no Pittinha podíamos se rolasse isso os capangas metiam trezentas na gente de volta.  
Do lado de fora os três encostados no carro pensávamos como aquilo tinha ocorrido. Freitas então lembrou e gritou “Pai de Santo filho da puta!!”. Olhamos pra ele que concluiu “Comeu os sambas dos caras e eles ganharam, só não comeu o nosso e perdemos. Era pra ter comido o nosso porra !!!
Entrou no carro e saiu em disparada alguém tinha que pagar o pato. Perdemos o samba e o Pai de Santo ganhou um tiro no meio dos olhos. Não previu nossa derrota nem sua morte. Pai de Santo fraquinho...
Enquanto isso Lucinho e eu fomos beber e contamos a notícia pro Pardal por celular que falou que nunca mais queria saber ”dessa merda” de samba. Desliguei e fiz um brinde com Lucinho pela nossa luta e decidimos também que nossa carreira de compositores estava encerrada.
Aquele meio de samba-enredo era muito podre, ser bandido era mais honesto...