quarta-feira, 29 de junho de 2011

Capítulo XIII - Pittinha


Pittinha oficialmente reassumiu a escola e assim Andréia teve mais tempo pro chamego comigo. Bem, não muito mais tempo porque ela se apaixonou por um dos seguranças da família e me largou.
Pittinha continuava seus negócios normalmente. Jogo do bicho, escola de samba, caça nível, puteiros, cassinos e bingos clandestinos.
Putaria, samba e jogatina. Esse era o negócio dele. Um grande império que foi construído custando o sangue de algumas pessoas. De muitas pessoas.
Essa é a história que vou contar pra vocês agora. A de Oswaldo Pitta Jr o Pittinha, além de contar a história da família Pitta.
Tudo começou lá atrás durante a 2° guerra mundial o espanhol Juan Pitta desceu em São Paulo com sua família. Passaram alguns anos na terra da garoa e se mudaram para o Rio de Janeiro se estabelecendo em Nova Iguaçu.
Juan abriu uma loja no centro da cidade do Rio .. Uma loja de tecidos. Seu filho mais velho Oswaldo Pitta trabalhava com ele. Família grande com cinco filhos.
Uma família que gostava de festas, unida. Juan e Idália Pitta eram pais conservadores que traziam seus filhos no rigor da honestidade. Não admitiam nenhum tipo de falhas deles, ensinaram que não havia maior valor no mundo que a retidão de caráter.
Mas também eram amorosos, sempre tratando os filhos com muito carinho e principalmente ao mais velho Oswaldo passaram a importância do trabalho e da família.
Como disse a família era festeira e não eram raras as vezes que a vila onde moravam parava para as grandes festividades dos Pitta. Muita dança flamenca e comida deliciosa feita por Idália e as meninas da família.
A loja de tecidos era humilde, mas ia muito bem e com o tempo foi crescendo dando pra sustentar bem a família. Com os anos além de Oswaldo outros irmãos seus também trabalharam na loja.
Oswaldo tinha uma vida como todo jovem de sua época, fora do trabalho procurava se divertir. Gostava de ir às matinés da Cinelândia e passear de moto com os amigos, além de paquerar as menininhas. O sangue espanhol fervia.   
Mas as coisas começaram a mudar quando o velho Juan ficou doente e assim Oswaldo assumiu o comando da família. As responsabilidades aumentaram e ele teve que deixar um pouco as farras de juventude de lado pra cuidar dos negócios.
E o que era pra ser momentâneo virou definitivo com a morte do patriarca no início dos anos sessenta.
A morte abalou a família já que Juan era o ponto de referência da mesma. Mas a vida seguiu e Oswaldo soube conduzir bem os Pitta. Seu estilo de trabalho não era tão familiar quanto do pai era mais prático e assim com profissionalismo fez a loja crescer muito e abriu filiais por todo o então estado da Guanabara e também pelo estado do Rio de Janeiro.
Nessa época Oswaldo conheceu Eunice, ela era funcionária da loja deles na “SAARA” e convidou a moça para sair. Fizeram um programinha tradicional de casal com cineminha depois jantar fora e cavalheiro como o pai havia ensinado Oswaldo deixou Eunice em casa e antes que ela saísse do carro aconteceu o primeiro beijo.
E daquele beijo surgiu namoro e do namoro noivado e casamento.
Uma grande cerimônia reunindo todos os Pittas e amigos, a família Pitta já era tradicional em Nova Iguaçu e muito admirada.
E Oswaldo era ambicioso, bem mais que o pai que só se contentava com aquela lojinha no centro do Rio. Oswaldo queria mais, muito mais..
E depois de dez lojas abertas dava pra dizer que a família estava rica. Ele e os irmãos tomavam conta da cadeia de lojas enquanto dona Idália vivia uma velhice feliz onde não lhe faltava nada. Os netos começavam a surgir e vovó Idália fazia a alegria da garotada com seus quitutes. 
E os pastéis e o bolo de chocolate da vovó eram maravilhosos, como todo quitute de avó. Tem sabor de infância.
Dona Idália teve uma boa velhice e morreu dormindo, dizem que é o sonho de muita gente morrer assim. O meu não, meu sonho de morte é com noventa anos de idade comendo uma menina de dezoito.
Frustração de Oswaldo foi que Idália não conheceu seus filhos. Eunice até já havia engravidado com a matriarca viva, mas perdeu no terceiro mês.
Alguns meses depois da morte de Idália o casal teve seu primeiro filho a que deram o nome de Renato.
Nessa época mesmo Oswaldo resolveu diversificar seus negócios. Deixou o comando das lojas com os irmãos e resolveu apostar em outro ramo, o jogo do bicho.
O jogo do bicho sempre foi ilegal no Brasil, contravenção penal, mas Oswaldo como eu contei era ambicioso e isso não lhe impediu de entrar no ramo. Começou como sócio de um turco chamado Arutin Hassan, conhecido no ramo como “o velho”. Arutin passava por problemas com seus pontos e assim ofereceu sociedade para Oswaldo que topou.
E Oswaldo tinha tino para negócios e fez os pontos crescerem. O velho morreu e assim Oswaldo assumiu todos os pontos. O dinheiro multiplicava em seu bolso. Os problemas também.
Porque Eunice não aceitava o novo estilo de vida do marido mesmo vendo as condições financeiras melhorarem cada vez mais. Construíram uma mansão em Nova Iguaçu, carro do ano, viagens pra Europa, mas nada adiantava as brigas do casal eram cada vez maiores. Eunice tinha medo que algo acontecesse ao marido.
A coisa melhorou um pouco quando nasceu o Pittinha, mas não por muito tempo.
Porque naquela altura do campeonato Oswaldo já era o dono de quase todos os pontos de bicho da Baixada Fluminense e uma guerra começou no estado pelos pontos. Muita gente morreu e claro tentaram tomar os pontos do Oswaldo.    
Mas Oswaldo reagiu com violência. Um banho de sangue foi feito por todo o Rio envolvendo bicheiros e policiais. Na época não existiam tantos traficantes e o jogo do bicho era algo muito lucrativo. Oswaldo não só conseguiu manter seus pontos como atacou de inimigos matando muitos deles.
No fim da guerra dos pontos Oswaldo tinha quintuplicado sua fortuna e aumentado em muito seu domínio se transformando no principal bicheiro da região Sudeste do Brasil.
Algum tempo depois nasceu Andréia, o terceiro filho do casal. As brigas não diminuíam e assim Eunice resolveu sair de casa abandonando Oswaldo e se aproveitando da recém aprovada lei do divórcio.
Entrou na justiça pedindo metade de tudo que o marido tinha e estranhamente morreu pouco depois em um acidente na ponte Rio Niterói.
Oswaldo nunca mais casou achou melhor manter o status de viúvo que se arriscar a perder parte do patrimônio, mas sempre teve seus casos, muitas amantes e assim criou os seus três filhos.
Oswaldo era apaixonado por escolas de samba e assim virou vice presidente da Soberana de Bangu, a maior vencedora do carnaval carioca. Era um homem bem relacionado nos meios artísticos e políticos e enquanto esteve na escola todas as celebridades desfilavam nela e chegou a ser recebido pelo presidente da República com um afetuoso abraço quando o mesmo via o desfile das escolas de samba de seu camarote.
Nessa época sua filha Andréia já adolescente se envolveu amorosamente com um motorista de ônibus perdendo o cabaço com ele. Oswaldo descobriu que o motorista vinte e cinco anos mais velho e casado estava comendo sua filha e não perdoou. O homem foi seqüestrado por seus capangas e nunca mais foi visto.
O caso teve grande repercussão, mas nunca nada foi provado contra Oswaldo que saiu ileso do caso. Ileso, mas nem tanto. No carnaval seguinte cismou de cruzar a Sapucaí a pé no intervalo entre um desfile e outro e recebeu vaias do público e gritos de assassino.
Mas por incrível que pareça mesmo com tudo isso Oswaldo Pitta era considerado um bicheiro a moda antiga. Não misturava o jogo do bicho com o narcotráfico. Tinha horror a drogas seu negócio era a jogatina e o samba.
E fanático por samba e insatisfeito com a direção da Soberana de Bangu largou a agremiação e fundou a Acadêmicos da Guanabara que em apenas três anos já desfilava no grupo especial do Rio de Janeiro e foi campeã do carnaval no mesmo ano e com a saída de Oswaldo começava um incômodo jejum de títulos da Soberana.
Renato havia sido criado para tomar conta dos pontos de bicho, Pittinha já se interessava mais pela escola de samba e Andréia não queria saber de nada só desfrutar do dinheiro do pai. Renato casou e sua esposa Valéria tornou-se uma espécie de musa da agremiação tornando-se todos os anos a principal destaque do abre-alas da Acadêmicos.
Renato e Pittinha cada vez mais comandavam os negócios já que o pai começava enfrentar problemas de saúde. Um mandado de prisão foi expedido para ele que fugiu, sendo preso em São Paulo disfarçado com bigode e peruca preta enquanto frequentava o salão do automóvel.
Ele que foi o pioneiro naquilo que Pittinha e outros bicheiros fizeram anos depois de transformar cela em hotel de luxo. Não só fez isso como liberou dinheiro para reforma do presídio e dos carros da polícia.
Foi liberado para prisão domiciliar e morreu com um enfarte fulminante enquanto jogava cartas na casa de um amigo.
A morte causou uma comoção no mundo do samba. A Acadêmicos da Guanabara resolveu homenagear seu patrono e foi campeã do carnaval.
Com a morte de Oswaldo seus negócios foram descentralizados e isso atraiu a atenção de aventureiros entre eles Régis Pitta que vinha a ser sobrinho de Oswaldo e primo de Renato e Pittinha. Régis aproveitando que o jogo do bicho estava em queda na cidade resolveu que tomaria o poder na Baixada com máquinas de caça níquel instaladas em bares.
Parceiro..essas máquinas davam muito dinheiro, muito mais que o bicho e isso atraiu a cobiça de Renato que também investiu no negócio.
E como aprendemos no colégio dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Renato e Régis também não podiam e a solução então era a guerra.
Régis foi mais rápido. Renato e Valéria saíram pra jantar uma noite e depois de carro encaminharam-se pra sua residência em Ipanema. Passando em plena Lagoa Rodrigo de Freitas o carro foi metralhado.
Renato morreu na hora. Valéria ficou ferida, mas se recuperou e depois largou o mundo do bicho e do samba tornando-se evangélica.  
Pittinha aquela altura era o presidente da Acadêmicos da Guanabara. Havia se casado com Mônica e tido com ela um filho a quem deu o nome de Oswaldo Pitta Neto. Até então Pittinha não havia se envolvido com jogo do bicho ou caça níquel. Seu negócio era samba e putaria.
Já havia montado vários puteiros pela cidade entre eles a Terma Carioca`s, a mais bem freqüentada e com as melhores mulheres do Rio.
 Pittinha era um bom vivant, nunca quis saber de estudo e trabalho. Dizia ter alma de artista mesmo não sendo um. Era bem relacionado na alta sociedade tendo comido várias atrizes de novela e cheirado junto com muitos astros do rock nacional.
Na época do atentado que matou Renato Pittinha se separou de Mônica e o filho foi morar com ela. Mas ele não teve que chegar ao mesmo ponto que o pai matando. A separação foi amigável e o casal se dava bem.
Pittinha saiu de casa e comprou uma mansão paradisíaca na Barra da Tijuca no mesmo condomínio que moravam artistas e jogadores de futebol. A mansão que eu fui quando rolaram a suruba e o estupro daquela menina.
Só que agora a situação mudava de figura. Seu irmão foi assassinado e os negócios da família ficaram a deriva. Tudo que seu pai havia construído poderia parar na mão de Régis e isso ele não podia deixar acontecer.
Resolveu honrar a memória do pai, vingar a morte do irmão e transformar o Rio de Janeiro em um Iraque..era a guerra..
Algumas semanas depois duzentas máquinas de caça níqueis em bares foram quebradas juntando os dois lados. Dois anos depois mais quatrocentas e cinqüenta. Nenhum dos dois lados registrava queixas. O negócio era resolvido entre eles mesmo e à bala.
Muitas baixas ocorreram dos dois lados. Régis e Pittinha sofreram atentados.  Um mar de sangue corria pelo estado. A guerra deles era tanta que até pelo transporte alternativo na Baixada Fluminense os primos brigaram querendo o domínio.
E os tempos românticos de Oswaldo Pitta haviam passado os dois se envolveram com o tráfico de drogas trabalhando com facções diferentes. Aumentava assim o poderio financeiro e bélico.
Pittinha e Régis não podiam coexistir, não havia espaço para os dois no mundo. No começo era briga por poder, por dinheiro, mas a coisa já havia derramado pro lado pessoal há muito tempo.
E sendo problema pessoal logicamente que seria feito de tudo pra atingir não só fisicamente, mas moralmente. Não havia escrúpulos nem limites no “jogar baixo” nessa guerra.
E devido a isso veio a ação mais espetacular e também a mais aterrorizante.
Como acontecia todos os dias dois seguranças iam até o colégio de Pittinha Neto para pegá-lo e levar pra casa e naquele dia não foi diferente. O carro parou e o menino naquela altura com doze anos se despediu dos amigos e entrou.
O garoto entrou e o carro blindado andava tranquilamente no caminho de casa quando um helicóptero começou a sobrevoar o local. Naquele instante os seguranças não se ligaram e continuavam o passeio de forma tranqüila com o menino no banco de trás com fone nos ouvidos escutando música.
Nisso o helicóptero se aproximou abriu a porta e um homem apontou um lança míssil em direção ao carro. O motorista só teve tempo de dizer “puta que pariu!! Que porra é essa???”.
Teve tempo pra mais nada, o homem do helicóptero disparou e um projétil foi lançado em direção ao carro que explodiu.
Todos mortos inclusive o garoto.
Golpe forte em Pittinha que se desesperou com a morte do filho. Um grande ódio tomou conta dele e todo seu grupo. O enterro foi acompanhado de grande dor e comoção. Pittinha carregava a o caixão que guardava o corpo do filho com sangue nos olhos, queria vingança.
Vingança que Mônica também exigia. Depois do corpo enterrado ela socava o peito do ex marido dizendo que já que ele havia entrado naquela merda e o filho morrido por culpa deles que ele tivesse uma atitude de pai e matasse aquele filho da puta.
Pittinha jurou a ex mulher que vingaria o filho.
A guerra esfriou e durante algum tempo não aconteceu mais nada. A impressão que dava é que realmente Pittinha havia sentido o golpe. O Rio de Janeiro viveu tempos de paz pelo menos em relação a guerra de caça níqueis até que surgiu a informação que o pai de Régis havia falecido.
Uma irmã de Régis ligou para ele informando a morte com a hora e local do enterro. Régis não tinha mais muito contato com o pai, mas pai é pai então ficou chocado com a notícia e confirmou presença no velório.
Chegou à frente da capela e encontrou a irmã que lhe deu um abraço e contou que o pai estava lá dentro sendo velado. Régis ficou em dúvida se entrava por não gostar de ver corpos. Pois é o homem que matava tanto não gostava de ver pessoas mortas.
A irmã insistiu e contou que a capela estava vazia e que ele aproveitasse assim para despedir-se. Régis concordou e pediu para que os três capangas esperassem do lado de fora que ele iria ver o pai.
Régis entrou fazendo o sinal da cruz e devagar se aproximou do caixão, ao chegar perto tomou um susto e disse “o quê?”
Não era o pai que estava deitado no caixão, era Pittinha que tirou uma arma debaixo das flores e deu um tiro na testa de Régis que caiu morto no chão.
Nem deu tempo dos três capangas reagirem do lado de fora.
Dez homens surgiram do nada e metralharam os três que caíram fulminados.
Estava concluída a vingança, estava concluída a guerra.
Pittinha saiu do caixão olhou para o primo morto, encaminhou-se até a frente da capela, virou para dentro fazendo o sinal da cruz e saiu.
Do lado de fora deu um envelope pra irmã do Régis como havia prometido, uma bela quantia em dinheiro. Deu também para os homens que metralharam os capangas e foi embora.
O motorista abriu a porta de seu carro e ele entrou. Do lado de dentro estava Mônica que perguntou “e aí?”. Pittinha com expressão fria respondeu “feito”. O motorista deu partida no carro e eles foram embora.
Aprendam uma coisa em bandido não se confia nunca. Nem morto.








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