segunda-feira, 6 de junho de 2011

Capítulo III - Gilberto Martins


Estava em uma situação complicada e tinha que dar uma resposta, mas por enquanto não darei essa resposta vou falar de mim, apresentar-me um pouco mais e farei isso depois com os outros cinco personagens principais do livro.
Como vocês já sabem me chamo Gilberto Martins e vivi 34 anos até chegar nessa situação do galpão. Nasci e cresci na Tijuca, perto do morro do Trololó sou filho único e até que tive uma infância feliz.
Minha mãe chama-se Maria e meu pai José, mas eu de Jesus não tenho nada. Não nasci em uma manjedoura e sim na maternidade da Praça XV que se localiza no centro do Rio de Janeiro. 
Minha mãe era empregada doméstica na casa do então deputado federal Getulio Peçanha e meu pai motorista da família. Sempre fomos muito bem tratados pelos Peçanha e eu era amigo das crianças da família. Tinha permissão de freqüentar as dependências da casa e brincar com o Juninho e a Juliana, filhos do deputado.
Sim, Juliana é a mesma que veio se tornar minha esposa muitos anos depois. Éramos como três irmãos e os Peçanha me tratavam como filho, estudava no mesmo colégio que eles.
Era um colégio bom localizado em Ipanema coisa pra gente com grana mesmo e eu sabia que era um menino pobre eu não era um “Peçanha” então as chances não apareceriam muito na minha vida eu tinha que agarrar as que surgissem com todas as forças. Por isso metia a cara nos estudos, é o que se chama normalmente de CDF, sentava na primeira fileira e prestava atenção em tudo.
Em casa estudava. Virava noites estudando para não só tirar as notas dez, mas para aprender. Aproveitei o máximo aquele colégio suguei o máximo de cultura e isso me ajudou ao longo da vida.
Não curtia matemática nunca fui bem. Pra aprender “Teorema de Pitágoras” e “Teorema de Thales” foi uma enorme dificuldade. Também não me dava bem em química e física nunca entendi a tabela periódica, mas me esforçava e conseguia aprender alguma coisa e passava de ano, nunca repeti.
Mas eu era muito bom em geografia, história e principalmente português sempre me empenhei e tirei grandes notas. Minha especialidade mesmo era redação eu simplesmente “viajava”, usava muito forte minha imaginação e não eram poucas as vezes que elas eram lidas pelos professores na frente da sala. Era querido pelos meus professores, respeitado pelos meus colegas.
 Não podia desperdiçar o dinheiro do deputado.
Aliás, eu nunca entendi o porquê do deputado me tratar tão bem financiar meus estudos, ser uma pessoa quase carinhosa comigo. Pedir que Getulio Peçanha fosse carinhoso era pedir demais. Mas me tratava muito bem, comigo e com Juliana ele não tinha a rispidez que tinha com os outros e nisso incluía a esposa dona Mariana Peçanha e Juninho.
Eu me dava melhor com a Juliana. Éramos como unha e carne mesmo ela sendo mais nova que eu, Juninho era um ano mais velho. No começo eu agia mais como um irmão mais velho dela um protetor e com o tempo passando a diferença de idade já não fazia tanto feito e então viramos amigos mesmo.
Também me dava muito bem com Juninho, mas Juninho era diferente. Era um menino sensível ligado as artes adorava escrever poesias e sempre me mostrava. Batia muito de frente com o pai que não gostava de sua postura dizendo que era coisa de veado. Mas Juninho não abaixava a cabeça e as discussões eram grandes.
Não sei se devia contar o que vou falar abaixo pode queimar meu filme, mas que se dane já passou mesmo e eu me garanto.
Éramos adolescentes e ele me chamou ao quarto porque queria mostrar uma poesia que tinha feito. Sentei em sua cama e ele sentado ao meu lado leu em voz alta. A poesia era muito bonita falava de morte e no fim aplaudi elogiando e que ele devia botar pra fora mesmo sua veia de poeta. Fazer uma publicação. Juninho disse que queria “botar pra fora” outra coisa.
Passou a mão no meu cabelo, puxou minha cabeça e me beijou a boca. Meu primeiro beijo e logo com um homem!! Senti nojo e o empurrei. Juninho disse que era gay mesmo como o pai pensava, tinha desejo por homens e sentia atração por mim.
Como eu disse acima nunca havia beijado ninguém e esse foi meu primeiro beijo então também nunca havia transado. Juninho aproximou-se novamente sentou ao meu lado e colocou a mão na minha perna falando que tinha uma forte atração e sonhava comigo. Aquela mão na perna me excitou.
Juninho notou que eu fiquei excitado. Peguei sua mão tirei da minha perna e botei no meu pênis já ereto. Ele acariciou sentiu o volume abriu o zíper e caiu de boca.
É parceiro, comi o filho do patrão ali mesmo. Foi minha primeira experiência sexual e se o deputado descobrisse isso eu ia parar num CIEP. Foi a única vez que rolou meu negócio era e sempre foi mulher mesmo.
Ficou um clima meio estranho entre a gente depois disso. Parece que aconteceu uma trava e nunca mais tocamos no assunto. Minha paixão era a Juliana mesmo. Cada vez ficávamos mais próximos e quando eu tinha dezessete anos e ela treze começamos a namorar. No começo era mãozinha dada só, beijinho na boca sem língua. Se dessa forma o deputado já não gostava imagina se eu fizesse com ela o que fiz com o irmão.
Mas os meses passaram e não dava mais pra ficar só nessa né? Aos poucos a coisa esquentava. Começaram os beijos de língua, a mão no peito já levantava a blusa dela pra chupar os peitinhos. Mas tudo com muita discrição Juliana continuava virgem.
Getulio e Mariana discutiam muito. As acusações eram que o deputado tinha casos extra conjugais. Não eram raros os momentos em que do meu quartinho ouvia os gritos dela.
 Uma noite eu estava no jardim e eles discutiram forte. Mariana jogou um copo de uísque no rosto do deputado pegou a chave do carro e saiu enfurecida. Mariana já estava bêbada e Juninho preocupado saiu atrás da mãe. Mariana entrou no carro e Juninho no carona dizendo que não deixaria a mãe ir sozinha.
Eu e Juliana fomos atrás tentando evitar que eles fossem, mas em vão. Juliana entrou na casa gritando com o pai pedindo para que ele fizesse algo que a mãe estava bêbada e ele sentou no sofá com um copo de uísque impassível nem respondendo a filha. O carro saiu em disparada com os dois.
Eu e Juliana ficamos ainda algumas horas no jardim preocupados esperando que voltassem. Ela com a cabeça em meu ombro e eu fazendo cafuné para que se acalmasse. Em determinado momento o deputado mandou que entrássemos porque estava tarde.     
Todos foram deitar e eu a sonhar. Sonhava que a Sharon Stone..é ainda não tinha Beyoncé..dava aquela cruzada de pernas para mim quando bateram em minha porta desesperadamente. Atendi preocupado e Juliana me abraçou chorando que a mãe e o irmão haviam sofrido um acidente e ela não sabia como estavam.
Fui pra sala e encontrei meu pai e Getulio. O deputado mandou que esperássemos que eles iriam ao hospital ver o que ocorria. Ofereci-me para ir junto, mas o deputado disse que era melhor eu ficar era necessário um homem em casa. Saíram e eu fiquei consolando e tentando acalmar Juliana enquanto minha mãe rezava.
Algumas horas depois voltaram com semblante arrasado. Juliana gritava perguntando o que ocorrera. O deputado contou que eles tinham sofrido um grave acidente e que Mariana estava morta.
Juliana desesperou-se e gritava pela mãe. Eu segurei tentando acalmá-la, minha mãe chorava também enquanto Getulio explicava que pelo menos ela não sofreu sendo morte instantânea. Perguntei então por Juninho e o deputado disse que estava vivo, mas a situação não era boa. Juliana gritava que a culpa era do pai que havia brigado com a mãe e não tentou impedir sua ida. Getulio nada respondia.
O enterro aconteceu de forma rápida e sem muito alarde. Getulio quis discrição e ainda tinha o fato de Juninho estar na UTI. Juliana não se conformava e não parava de chorar. O deputado aparentava frieza.
E a saga do Juninho no hospital não foi fácil. Foram nada mais nada menos que seis meses em coma até que um dia acordou, mas acordou tetraplégico sem sentir nada do pescoço para baixo. Mais um bom tempo de hospital fisioterapia até voltar pra casa.   
A mansão foi transformada em um mini hospital com uma enfermeira contratada para tomar conta 24 horas de Juninho. Loira, jovem, muito gostosa seu nome era Flávia. Eu continuava meu namoro com Juliana, mas ela por ser virgem não permitia muita coisa. Boquete mesmo só fez com dois anos de namoro!! Eu estava com meus hormônios em ebulição.
Fui me aproximando aos poucos da loiraça. Fiz amizade com a qual Juliana bobamente nada desconfiou. Comecei a dar uns pegas nela até que fomos pra cama numa noite que fui ver como Juninho estava e ele dormia candidamente. Todos na casa dormiam então aproveitei pra pegar a Flávia de quatro ali mesmo com ela encostada na proteção da cama de Juninho.
Uma noite fui ao quarto ver se Flávia estava disposta a dar mais uma. Ela dormia profundamente no sofá do quarto então devagarzinho fui fechando a porta para não incomodá-los. Até que em um fiapo de voz ouvi “Beto”. Olhei e era Juninho me chamando.
Aproximei-me dele e perguntei como ele estava. Juninho respondeu que na medida do possível onde só tinha restado uma cabeça estava bem. Eu ri e ele falou que precisava da minha ajuda, perguntei ajuda pra que e ele respondeu “pra morrer”.
Continuei rindo e falei que a piada era boa, mas ele precisava descansar. Juninho disse que não era uma piada era sério. Ele não tinha mais vida estava renegado a passar o resto de sua existência em cima de uma cama e isso não era justo. Eu precisava ajudá-lo a morrer, desligar os aparelhos.
Falei que não podia ajudá-lo aquilo era um assassinato e eu poderia me dar mal além de ir contra as leis de Deus, é naquele tempo eu ainda acreditava em Deus. Juninho implorou e pediu em nome de nossa amizade que desligasse para ele se libertar. Respondi sério que não e desejei boa noite saindo do quarto. Ao fechar a porta ouvi o barulho baixinho dele chorando.    
Deitei na cama e me virei e revirei nela por horas. Não conseguia tirar Juninho de minha mente e o sofrimento que passava. Depois de muito tentar dormir e não conseguir levantei e voltei ao seu quarto.
Flávia dormia e Juninho também. Aproximei de sua cama e vi que ele dormia bem, parecia tranqüilo. Abaixei perto de seu rosto e beijei sua boca. Levantei e desliguei seu aparelho respiratório.
Desliguei e olhei para a máquina que media as batidas de seu coração. Olhei até que os batimentos virassem apenas uma linha. Juninho estava morto e seu rosto ainda passava a tranqüilidade de quanto entrei no quarto. Falei “vai em paz moleque”, religuei o aparelho e saí do quarto.
Juninho foi enterrado no dia seguinte num túmulo ao lado da mãe. Não havia choros como na morte de Mariana até porque a morte do garoto não era tão inesperada. Só ficava a dor de um menino cheio de vida sofrer tanto e ter sua existência extirpada daquela forma. Um grande poeta que só eu conheci que o mundo perdia naquele momento.
Acho que ter matado o Juninho foi o único grande ato de generosidade que cometi na vida. Coisa estranha um ato de generosidade vir de um assassinato, mas eu vejo assim. O garoto sofria e não tinha mais perspectiva de vida apenas fiz o que ele pediu e ajudei. Nunca me arrependi do que fiz apenas acho que naquele momento virei adulto, o problema que o Gilberto Martins garoto e adolescente era muito melhor que o adulto.
Algum tempo depois meus pais se aposentaram e como prêmio ganharam uma boa bolada em dinheiro do deputado. Compraram uma casinha em Itaperuna e se mandaram pra lá.
 Eu não podia mais viver naquela boa vida da mansão. Já estudava jornalismo e estagiava no “Correio carioca” então aluguei um quarto numa casa de família. Quando terminei a faculdade e fui efetivado no jornal ganhando mais aluguei uma quitinete, a mesma que moro hoje.
Juliana prestou vestibular para Publicidade e passou, mas largou a faculdade no meio. Ela e o pai tiveram a relação deteriorada já que Juliana lhe culpava pela morte da mãe e do irmão. O Deputado virou Senador, evangélico, pastor e com o tempo fundou sua igreja a ”Igreja da Cruz de Cristo”.   
 O rompimento em definitivo veio quando Juliana e eu ficamos noivos. Seu pai quando eu morava na casa me adorava, me via como filho. Mas casar? Nem pensar porque eu apesar de ser tratado como um filho não era, eu era um cara pobre sem eira nem beira muito menos berço. Eu era o filho do motorista e da empregada e isso mudaria nunca.
Os dois romperam relações. Juliana saiu de casa e nunca mais se falaram. Ela foi morar comigo na quitinete, arrumou um emprego de secretária e conseguimos alugar um apartamento melhor de dois quartos na Ilha do Governador.
Casamos numa cerimônia discreta com poucos convidados. Alguns anos de ralação e de nós dois tentando crescer na vida e ela engravidou. Sem me consultar largou o emprego dizendo que queria ser mãe em tempo integral e nasceu a Rebeca.    
A vida começou a ficar apertada com apenas eu botando dinheiro na casa. Eu que sempre gostei de uma bebidinha aumentei meu consumo alcoólico o que aumentava as brigas em casa. Muitas vezes mal tínhamos dinheiro para compras de comida ou para pagar as contas e eu falava pra Juliana ser menos orgulhosa e pedir ajuda ao pai, o que ela não aceitava.
As brigas aumentaram ainda mais. Eu bebia na rua e chegava cada vez mais tarde em casa e bêbado. Comecei a sair com umas vadias, ir à puteiros ou pegar algumas que davam mole apenas pelo prazer de dar a buceta. Não tinha mais tesão em Juliana, eram quinze anos juntos eu queria outras mulheres.
Uma noite estava jogando sinuca com companheiros da redação e uma mulher em meu colo. Eu completamente bêbado beijava a mulher enfiando toda minha língua em sua boca como se fosse estuprar sua garganta. Apertava aqueles seios volumosos e abaixava suas alças as vezes apertando seu seio nu e mostrando pra galera me achando o máximo perguntando se aquilo não era uma cadela de verdade. Eles riam e eu falava que aquilo que era mulher não aquela jararaca que tinha em casa.
Numa dessas falei e beijei a mulher quando ouvi “então eu sou jararaca seu filho da puta?” quando eu olhei era Juliana na minha frente. Só consegui falar “puta que pariu”. A mulher no meu colo perguntou quem era “essa” e respondi “minha mulher”. A vadia pulou do meu colo e disse que tava fora de homem casado e se mandou. Vadia..até parece que não dava pra homens casados, ela queria homem casado sim, mas de preferência com a mulher longe.
Juliana olhou pra mim com cara de decepcionada e eu não conseguia pensar em nada pra falar. Depois de um tempo dos dois em silêncio falei “Juliana..Juliana..” e vomitei nos pés dela. Minha mulher ficou furiosa e foi embora.
Voltei pra casa e minha mala já esperava na sala. Bati na porta do quarto e ela não me atendeu. Ouvia Rebeca chorando sabia que elas estavam lá, mas não me atendeu. Peguei minha mala e fui dormir na redação do jornal. No dia seguinte aluguei de volta minha quitinete.
Tentei voltar em vão. Paramos na justiça em um divórcio litigioso que me fudi. Fiquei na merda ainda tendo que pagar pensão e algumas vezes não pagar como no caso que vocês já viram que fui preso.

Sem minha presença por perto fez as pazes com o pai, mas isso não fez que ela tivesse piedade de mim queria meu dinheiro de todas as formas. O juiz também não alterou o valor mesmo ela tendo pai rico e morando com ele. Juliana espertamente também não casou mais e nem arrumou emprego só podia ser pelo prazer de me fuder.
Eu que já tinha fudido à família toda estava na hora de ser fudido.
Bem, esse sou eu, Gilberto Martins e o prazer é todo seu.











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