quinta-feira, 2 de junho de 2011

Capítulo II - A proposta


Pronto já era a grande notícia dos jornais, TVs, rádios e internet, a grande notícia do país o massacre no Trololó. Infelizmente não consegui focalizar bem a cara do Major Freitas ele saiu escuro no vídeo e não consegui provar que era ele. O Major foi acusado, jurou inocência e apresentou álibis evidente que álibis forjados e acabou escapando. Alguns policiais pés de chinelo foram a julgamento e daquele grupo todo de bandidos de farda só dois condenados.
Eu vivi alguns dias de herói ganhei tapinhas nas costas, dinheiro que é bom nada e logo a história e minha proeza caíram no esquecimento. Um grande escândalo surgiu em Brasília envolvendo o Ministro da Saúde e não se falou mais das vítimas do Trololó.
Mas nem todo mundo esqueceu...
Saí de casa em um fim de noite com garganta seca precisava tomar uma cachaça e não tinha em casa. Fui para um bar bebi e caminhando de volta para meu lar uma viatura se aproximou. De dentro dela gritaram “ô Gilberto!!” quando olhei era o Major Freitas. Apertei minha caminhada e ele gritou “Para aí filho da puta!!”. Comecei a correr o carro acelerou atrás de mim e ele deu uma porretada em minhas costas me levando ao chão.
Colocaram-me dentro da viatura ao lado do Major. Freitas deu um tapinha no meu rosto e disse que estava com saudade de mim e iríamos dar uma volta, “passear no bosque”. A viatura acelerou e eu notei que aquilo acabaria mal.
Tinham quatro policiais na viatura Freitas e mais três. Rodamos um pouco de carro com eles fazendo tortura psicológica comigo. Os policiais riam e falavam da noite no Trololó contando em detalhes o que fizeram com a população. Freitas ria e ironizando lamentava não ter saído tão bem nas filmagens, era chance dele ficar famoso.
Pararam em um matagal e me puxaram pra fora do carro..apanhei pra cacete. Davam-me socos, pontapés, coronhada, porretadas. Apanhei igual Judas em sábado de aleluia e temi pela minha vida.
Uma hora cansaram de me bater. Eu caído ensangüentado no chão e o Major se agachou e encostou uma arma na minha cabeça. Contou que queria brincar comigo e se eu queria brincar de roleta russa. Eu falei que roleta para mim só era legal em cassino. Freitas riu e disse que admirava meu senso de humor mesmo em um momento como aquele depois falou que tinha uma bala no revolver e ele daria um tiro na minha cabeça e no tiro saberíamos se a bala estava na agulha.
Mandou que eu fechasse os olhos e disse que contaria até três e atiraria pra ver no que dava. Fechei os olhos na contagem e comecei a pensar em minha família, meus pais, minha filha pensando que nunca mais os veria. Freitas contou um..dois..três e atirou.
Não..vocês não ficaram curiosos pra saber se a bala estava na agulha né? Evidente que ela não estava se estivesse como eu estaria agora escrevendo pra vocês? Chico Xavier já morreu não iria me psicografar e como eu estaria no galpão temendo pela minha vida se tivesse tomado uma bala na cabeça? Tá poderia ter sobrevivido, poucas chances, mas mesmo assim provavelmente estaria agora como um vegetal num leito do Souza Aguiar, não escrevendo um livro.    
Enfim, a bala não estava na agulha. Respirei aliviado e abri os olhos a tempo de tomar mais um soco do Major. Freitas disse que evidente que não iria me matar depois da minha matéria ele seria o principal suspeito de um assassinato meu, mas que se eu continuasse em seu caminho matariam minha filha então que eu pensasse bem antes de tentar ser herói.
Entendi perfeitamente o recado e falei para ele não se preocupar. Os policiais entraram no carro e eu gritei por eles. Freitas botou a cabeça pra fora e perguntou o que eu queria. Respondi perguntando se não iriam me levar de volta. Freitas respondeu que não e o carro partiu. Gritei de novo pelo Major e ele puto botou a cabeça pra fora perguntando “que é porra?”.
Perguntei se ele pelo menos não podia deixar o do ônibus já que eu estava duro. O carro deu marcha ré e o Major desceu enfurecido, deu um soco no meu estômago, um soco na minha cara e eu caí no chão. Comigo caído ele abriu a carteira tirou um dinheiro e jogou em cima de mim dizendo “folgado pra caralho”. Entrou no carro e ele partiu comigo gritando “obrigado”.
Trololó? Massacre? Que porra é essa? Eu queria que aqueles favelados se fudessem. Apanhei pra caralho fiquei com uma arma na cabeça, minha filha foi ameaçada. Vocês acham o que? Que eu voltei pra redação e embarquei de cabeça no caso da favela e numa investigação contra o Major pra revelar ao país todos seus podres? Porra nenhuma voltei e pedi pra nem mexer mais com esse assunto, que eu queria mudar pra sessão de horóscopo.
Parceiro, eu avisei no começo do livro que aqui não tinha heróis e eu sou cagão, cagão pra caralho me borro quando sou ameaçado. Quem não gostou foda-se aqueles favelados que procurassem o Capitão Nascimento eu já tinha problemas demais e queria tirar o meu da reta. O Major? Pra mim era um herói do estado do Rio de Janeiro.    
Na redação não entenderam meu estado precário todo arrebentado. Falei que tinha batido com o fusca e me zoaram dizendo que meu carro era tão velho que eu devia tomar anti-tetânica se tive contato com o ferro. O chefe me liberou e fui pro hospital ver como estava.
A porcaria daquele jornal não tinha plano de saúde e eu tive que ir para um hospital estadual esperar seis horas pra ser atendido. Aquela coisa desesperadora. Pessoas gritando que estão passando mal, crianças chorando, velhos com cara de que vão morrer a qualquer momento e eu todo fudido. Os atendentes nem aí com cara que tão se lixando pra população, médicos eu não sabia se tinha naquela porra.
Depois de seis horas esperando fui chamado. Passei pelo corredor e nele um monte de pacientes no chão porque não tinha macas suficiente. Uma mulher berrando puxando enfermeira dizendo que o pai estava morrendo e ela com ar blasé pedindo para ter calma que o socorro já chegava. Quando chegou o médico o velho já estava morto.
Entrei na sala do meu médico e ele perguntou o que aconteceu e onde doía, respondi e ele escreveu em um papel me entregando e mandando que eu fosse à farmácia do hospital pegar a medicação. Perguntei se era só isso, se ele não iria me examinar e o médico respondeu que não. Aquilo bastava.
Levantei e caminhando com dificuldade peguei os remédios. Se um dia eu tivesse algo sério queria que Deus me matasse logo porque se dependesse da saúde pública do Brasil eu tava fudido.
A situação não estava fácil pra mim. O jornal estava em dificuldades e eu não recebia há dois meses e tinha que pagar pensão a ex mulher e filha. Minha ex mulher chamava-se Juliana e nossa filha Rebeca tinha quatro anos, devia já cinco meses de pensão e todos os dias ela ligava para meu celular cobrando os atrasados. Mas tava foda mal dava pra sobreviver.
Minha geladeira vivia vazia eu tinha que vender o almoço pra comprar a janta, aluguel da quitinete atrasado e com ameaça de despejo, contas de água e luz atrasadas e ainda tinha que bancar meus vícios. Não podia ficar sem cigarro era três maços por dia pelo menos e de vez em quando um baseado que ninguém era de ferro. Comprava com o Lucinho, um chapa meu que falei de relance no começo da história como um dos que estavam no galpão.
Também gostava de uma “branquinha”. Precisava de uma dose de cachaça pro dia começar bem, cervejinha do bar perto da redação era de lei também. Adorava cachaça e cerveja algumas pessoas principalmente a Juliana falavam que eu era alcoólatra. Discordava delas eu bebia há pelo menos vinte anos todos os dias e nunca me viciei, se quisesse eu parava..com certeza.
Uma coisa eu digo pra vocês com toda seriedade, pensem bem com quem vão casar porque ex mulher é pra toda vida.
Também gostava de um rabo de saia mulher era comigo mesmo e quanto mais puta melhor. Acho que por isso não me dei bem com a Juliana ela era muito pudica. Odeio mulher que faz cara de nojo quando chupa. Mulher tem que chupar como se chupasse um picolé de uva no auge do verão..com aquela vontade.
E uma noite arrumei uma mulata maravilhosa no tal bar perto da redação. Rolava um pagode lá e eu modéstia a parte não sou feio e sou bom de papo. Papo vai, papo vem e convenci a gata a ir pro meu abatedouro. Falava pros amigos que aquele era o meu “Castelo de Greyskull”.
Chegando lá com ela começou aquele amasso..aquela pegada forte. Ela botou a mão nas minhas coisas eu apertando o corpo todo dela. Joguei a mulata na cama, tirei a calcinha dela e quando fui tomar aquele prato de sopa a luz acabou.
Ela perguntou o que havia acontecido e eu em pensamento falei “puta que pariu, cortaram a luz”. Ela levantou foi à janela e disse que na rua estava tudo normal e nos outros apartamentos também e só na minha casa não tinha luz. Levantei sem graça, mas já me recompondo falei malandramente que aquilo foi programado quando entrei no apê. Na verdade eu queria algo romântico com ela, a luz de velas.
A mulata sorriu, colocou as mãos sob meus ombros e disse que era uma ótima idéia um climinha a luz de velas e perguntou onde estavam as velas. Eu sorri disse que não tinha e perguntei se ela podia me emprestar algum para eu ir ao bar ali próximo comprar.
Preciso nem dizer que ela ficou puta, me chamou de babaca botou a calcinha e foi embora. Bateu a porta comigo gritando se ela não podia pelo menos deixar o das velas. 
Tava foda pra dormir. Mesmo já no outono essa cidade é quente pra caralho, eu to cada vez mais convencido que o Rio se divide entre duas estações, o verão e o inferno. Estávamos entre o verão e o inferno, o semi inferno.
Deitei com a minha já famosa cueca vermelha e não conseguia dormir. O calor estava insuportável e eu nem pra ter um “gato” naquela porra, eu era um dos poucos cariocas a não ter “gato” de luz uma vergonha. Levantava toda hora pra tomar banho e o calor não passava. Fiquei puto botei a roupa e fui pro bar.
O dono do bar já ficava irritado quando me via porque sabia que eu não iria pagar. Disse pra ele que não conseguia dormir. Estava sem luz e implorei que ele segurasse essa que conseguiria uma matéria pro bar no caderno especial de domingo do jornal.
A vaidade..ah a vaidade..meu pecado favorito, na hora ele me mandou uma “gelada”.
Bebi a noite toda. Fiquei muito bêbado e quase de manhã o cara me expulsou do bar dizendo que queria dormir. Fui pra casa cambaleando e estava tão bêbado que nem sentia calor, mais nada, com de roupa e tudo deitei e apaguei.
Mais uma vez sonhei que estava metendo com a Beyoncé quando o celular tocou com “single lady”. Com muita dificuldade atendi e era meu chefe dando esporro perguntando onde eu estava. Olhei o relógio na parede e dei um pulo já era muito tarde. Nesse pulo senti uma puta dor de cabeça de ressaca.
Tomei um banho rápido e fui pro trabalho. Lá cheguei com uma cara péssima e meu chefe deu bronca dizendo que os donos do jornal já estavam de olho em mim e se eu continuasse com aquele comportamento iria pra rua. Ainda argumentei que não recebia há dois meses então não receber empregado e desempregado dava no mesmo, ele mandou que eu não discutisse e fosse trabalhar.
Sentei à frente do computador e mal conseguia olhar pra tela de tanta ressaca. Bebi um café forte e só desejava que o planeta acabasse naquele momento, um meteoro caísse na Terra, um tsunami me engolisse para eu me livrar daquele trabalho.
Mas nem precisei dessas coisas pra me livrar. Naquele momento entraram dois policiais na redação perguntando por mim, apresentei-me e perguntei se havia acontecido algo. Eles responderam que sim tinham um mandato de prisão contra mim por atraso de pensão alimentícia. Ri e eles continuaram com a mesma cara séria. Perguntei se aquilo era verdade e em vez de me responderem me algemaram. Enquanto eu era levado gritei pro chefe que teria que dar uma saidinha por motivos maiores.
Cheguei à delegacia e Juliana estava lá com um advogado. Perguntei como ela tinha coragem de fazer isso comigo. Tivemos uma relação de quinze anos com sete anos de casamento uma filha, dois anos de separados, mas eu pensava que havia respeito. Ela nem chegou a falar nada o advogado se meteu na frente e disse que era só eu pagar o que devia que tudo se resolvia. Perguntei como iria pagar se o jornal me devia e eu preso não conseguiria produzir pra receber o advogado respondeu que isso não era problema deles que eu devia ter pensado nisso antes.
Fiquei puto e falei “Porra Juliana eu trepava com você ou com esse almofadinha que nem sabe amarrar uma gravata direito? Fala alguma coisa cacete”. Juliana constrangida falou que precisava fazer aquilo senão eu não pagaria nunca. O advogado saiu com ela enquanto eu falava “se você que tem apenas trinta anos de idade trabalhasse seria mais fácil”.
É malandro..poucas coisas nesse país levam alguém pra cadeia. Se você roubar milhões da previdência social fica tudo numa boa, mas experimenta atrasar pensão alimentícia parceiro..eu atrasei e me fudi.
Os guardas me levaram pra cela e me trancafiaram com um monte de caras mal encarados. A cela muito cheia o calor insuportável, cheiro forte de maconha. Ainda gritei que tinha curso superior, mas adiantou porra nenhuma.
Os caras olhavam para mim de um jeito estranho e eu gritei que ninguém ousasse tentar encostar na minha bunda. Que eu era jornalista e se alguém tentasse me comer eu iria me vingar do lado de fora, mas se me tratassem de boa assim que eu saísse faria uma matéria sobre superlotação nos presídios. Um negão que parecia ser o líder deles me ofereceu um baseado e perguntou se eu queria dar um tapinha. Agradeci e puxei.
Fiquei dois dias naquela merda até que chegaram com uma novidade eu estava solto. Pensei “que bom Juliana viu a besteira que fez e retirou a queixa”, mas não o delegado disse que alguém pagou tudo o que eu devia pra ela. Entendi nada como poderiam ter feito isso? Só podia ser da redação, de repente a galera fez uma vaquinha. Agradeci e saí da delegacia. 
Fui direto pra redação e fizeram uma grande festa quando me viram. Agradeci a festa e por eles terem pago os atrasados com Juliana. Um colega disse que não pagaram nada, estranhei e me perguntei se meus pais em Itaperuna teriam feito isso. Mas como? Tadinhos não tinham tanto dinheiro assim. Fui trabalhar intrigado com a situação.
Cheguei em casa e tinha luz..mas eu não tinha pago a luz, como podia? Tirei a roupa e dormi estava morto de cansaço. De novo comecei a sonhar com a Beyoncé, mas dessa vez não tocou a música tocaram a campainha. Sonolento botei a roupa e atendi a porta, era o Lucinho.
Dei um abraço nele e perguntei o que o levava na minha casa aquela hora. Lucinho me respondeu que tinha uma pessoa querendo falar comigo e que eu fosse com ele. Ainda brinquei e falei “olha lá, pra onde você tá me levando”. Lucinho riu e disse pra eu não me preocupar que era coisa boa.
Entrei no carro do Lucinho, coisa fina carro importado. Ele me levou ao morro do Trololó. Subíamos o morro naquele carro e os soldados do Pardal em vez de apontarem os fuzis pra gente e pedir pra nos identificarmos mandava que passássemos e davam salves pro Lucinho. O garoto era muito bem relacionado em todas as camadas sociais.
Chegamos ao alto do morro e Lucinho parou em frente de uma mansão paradisíaca que tinha vista maravilhosa pra todo Rio de Janeiro. Um soldado do tráfico fortemente armado abriu a porta da mansão e mandou que entrássemos que “o homem” nos esperava. 
Entramos e a mansão era foda mesmo. Piscina, churrasqueira, cascata!!! E parecia tudo banhado a ouro. Entramos numa sala com TV de plasma, ar condicionado central sofás luxuosíssimos e parecendo ainda tudo banhado a ouro. Nisso aparece Pardal apenas de roupão e um grande sorriso.
Ele tinha dado um tempo fora da cidade depois da merda de derrubar o helicóptero. Voltou acertou-se com Major Freitas e ficou tudo tranqüilo pra ele de novo. Mandou que sentássemos e perguntou se estava tudo bem comigo. Perguntei se ele não se lembrava de mim que na infância soltávamos pipa juntos. Pardal disse que não, eram anos de pó no cérebro e a memória dele não ajudava, mas que não tinha me chamado ali pra soltar pipa.  
Pardal agradeceu a reportagem que eu fiz sobre o morro e que soube que tive problema devido aquela reportagem. Que soube também que eu estava fudido financeiramente e por isso mandou que pagassem a pensão atrasada, a luz, água, aluguel e até a conta do bar. Eu estava zerado em dívidas.
Agradeci e perguntei por que ele tinha feito isso. Sério Pardal respondeu que tinha se apaixonado por mim e queria me comer. Ficou aquele silêncio constrangedor até que ele gargalhou mandando que eu me acalmasse que ele estava brincando. Lucinho começou a gargalhar e eu também. Constrangido e aliviado.
Pardal então disse que se achava um cara importante praquela cidade e queria que seu nome se perpetuasse. Então queria me contratar para fazer sua biografia, queria seu nome e suas histórias em um livro e como eu escrevia bem queria que eu fizesse e que não aceitava não como resposta e que eu me lembrasse que naquele momento eu era devedor do tráfico.
Ele ficou me olhando sério e comecei a gargalhar dizendo que aquela também era boa e eu quase tinha acreditado. Pardal continuou sério e Lucinho também. Falei então “é, parece que essa foi séria”. Pardal balançou a cabeça afirmadamente.
É..eu tava fudido

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