sexta-feira, 24 de junho de 2011

Capítulo X - Compondo um samba


Eu ganhava muito dinheiro..como nunca em minha vida. Ganhava com o Pardal fazendo sua biografia, na verdade nem era só biografia. Eu já estava na sua lista de empregados e acabava resolvendo com Lucinho as situações pra ele de fora do morro.
Porque Pardal era jovem, milionário, poderia ter o mundo a seus pés, mas se descesse do morro seria preso então eram raras as vezes que ele saía do Trololó.
E ganhava muito, mas muito dinheiro com o Senador. Tratava com a imprensa coisas que ele não tinha saco e de vez em quando precisavam do meu nome pra alguma coisa e eu ganhava uma “graninha” para “ajudá-los”. Graninha entre parênteses mesmo porque era uma grana muito boa.
E eu guardava tudo ficando com uma conta polpuda na poupança. Ganhava bem mensalmente e assim podia dar uma vida de princesa para minha filha. Sim ela já tinha graças à família da mãe. Mas eu poder tirar dinheiro do bolso e pagar sua escola, plano de saúde, dar presentes, levar pra passear me dava muito orgulho.
Minha filha era tudo pra mim, minha princesa era meu lado bom, puro. Se dependesse de mim seria a rainha do mundo.
E Juliana resolveu se mexer também voltando aos estudos. Começou faculdade de direito e veio correndo me contar. Fiquei com muito orgulho de minha ex e feliz que finalmente nos dávamos bem.
Fui a Itaperuna visitar meus pais e vi que a casinha deles caía aos pedaços. Na hora dei um dinheiro para uma reforma geral no imóvel e mais algum para que eles aproveitassem a aposentadoria. Meus velhinhos mereciam tudo de bom  
Tinha uma vida feliz como nunca havia sido mesmo com uma vida perigosa.
E deixando pra trás todos os meus valores.
O já naquela altura meu amigo Pittinha me convidou para uma festa na Acadêmicos da Guanabara para o lançamento do enredo para o carnaval seguinte. Como o carnavalesco afetado já havia me adiantado o enredo seria sobre a super importante cidade de Tremembé do Oeste. Mas não se iludam, o enredo era fraco só que o dinheiro era bom e a escola de samba e principalmente Pittinha eram poderosos se a escola desfilasse com “atirei o pau no gato” iria para as cabeças.
Fui com Lucinho e ficamos no camarote presidencial. Major Freitas estava lá e sorrindo perguntou se eu estava com saudades sua. Respondi que sim que a saudade era tão grande que eu pensava até em criar uma comunidade para ele no Orkut com o nome “Nós amamos o major Freitas”.
Ele riu e deu um tapinha no meu rosto com certa agressividade falando que eu era muito engraçado depois virou pro Lucinho e mandou que ele tomasse cuidado e não desse tanto mole nas ruas que a polícia estava de olho.
Foram conversar em um canto sobre negócios enquanto o carnavalesco pegou o microfone e começou a explanação sobre o enredo..
Ouvi e comecei a achar aquilo tudo muito interessante, meio “maionésico” também já que falava de oriente, ocidente, das águas santas de Tremembé que curavam espinhela caída, gonorréia e homem broxa. Mas enfim eu gostei, interessante demais.
Ouvia a tudo atentamente quando Freitas e Lucinho chegaram perto de mim perguntando no que eu tanto prestava atenção. Respondi que o carnavalesco estava apresentando o enredo e era bem interessante. Lucinho brincando falou que devíamos fazer um samba pra escola só que o Major Freitas levou a idéia a sério e disse que era uma boa porque aquilo dava um bom dinheiro.
Lucinho tomou um susto e perguntou como assim bom dinheiro. Pittinha se aproximou e contou que uma disputa era cara porque necessitava de cantores, músicos, gravação de cd para divulgação e principalmente torcida. Falou que todos os anos os compositores entupiam sua quadra de torcida e isso dava lucro para escola já que consumiam cerveja e com ela cheia a bilheteria transbordava.
Não entendi e perguntei como assim torcida e se as pessoas do local já não torciam naturalmente. Pittinha me chamou de tolo e falou que não, os compositores alugavam dezenas de ônibus, enchiam os torcedores de bebida, churrasco, pagavam seus ingressos para que na hora da apresentação eles cantassem o samba e segurassem alegorias.
Perguntei se um samba sem torcida ganhava na escola. Pittinha riu e falou que não ganhava nem na dele nem em nenhuma. Mas uma torcida sem samba poderia sim.     
Major Freitas perguntou ao Pittinha quanto se gastava mais ou menos numa “brincadeira” dessas e o bicheiro respondeu que um samba campeão custava uns cinqüenta mil. Lucinho falou que era muita grana e estava fora. Pittinha respondeu que um samba campeão rendia mais de duzentos mil aos compositores. Falei para eles que desceria pra pegar a sinopse.
Sinopse é uma espécie de livreto que consta o enredo da escola e principalmente aquilo que o carnavalesco quer no samba.
Peguei voltei pro camarote e disse que iria disputar as eliminatórias de samba-enredo. Lucinho falou que eu era doido e desde quando eu sabia escrever samba e ainda mais samba-enredo. Eu folheando a sinopse respondi que era jornalista e que não devia ser tão difícil. Major Freitas falou que estava dentro que tinha uma graninha pra investir eu falei que também tinha.
Lucinho contou que dinheiro até poderia não ser problema, mas aonde arrumaríamos torcida para lotar aquela quadra. Respondi “Pardal”.
Major Freitas falou que não dava porque não podia misturar seu nome com ele. Disse que aquilo era mole só arrumar um codinome para ele, mas Pardal tinha dinheiro e era só botar ônibus no Trololó que a comunidade descia pras apresentações. Lucinho ficou em dúvida, mas eu convenci lembrando o lucro que aquilo podia dar. Investir cinqüenta para ganhar duzentos. Além de toda mídia que o carnaval tem teríamos uma música nossa tocando em todo país e assim convenci os dois pra entrar na aventura.
Depois da noite no samba fomos para a Termas Carioca`s. Não é local de banhos termais como na Roma antiga, mas um lugar de putarias termais mesmo de propriedade do Pittinha. Samba, putaria, jogo do bicho, caça níqueis, tudo isso na cidade era com o Pittinha ele era o responsável pelo entretenimento no Rio de Janeiro. O Walt Disney dos adultos, mas sem ratos, só gatas..podre essa..
Enfim, fomos a termas e sempre quando estávamos com Pittinha a “fodelança” comia solta. Muitas mulheres, bebida e pó a vida que pedi a Deus, com perdão de dizer o santo nome. Nós doidões com as mulheres falando que faríamos o samba mais foda do próximo carnaval e iríamos comemorar nossa vitória ali.
No dia seguinte eu e Lucinho fomos ao morro e falamos da idéia para Pardal que riu e perguntou desde quando éramos compositores. Respondi que desde aquele momento e estava com a sinopse nas mãos, tirado Xerox e uma era dele. Entreguei em sua mão.
Pardal riu e perguntou o que faria com aquilo que ele era bandido e não compositor. Lucinho falou que ninguém ali era compositor, mas já tinha se informado que não era necessário ser compositor para fazer um samba-enredo. Puxei pelo lado de sua vaidade e perguntei se ele não queria ter o nome eternizado com biografia? Teria como compositor também e seria uma forma dele homenagear seu pai que havia sido mestre de Bateria.
Pardal olhou a sinopse depois pra mim e falou “filho da puta, falar no meu pai é golpe baixo”. Perguntei se ele topava ou não e ele respondeu que sim e “iríamos ganhar aquela porra”.
Alguns dias depois marcamos um encontro pra fazer o samba lá no morro. Os moleques estavam embalando pó na boca quando chegamos e Pardal disse que teria que se ausentar para compor. A bandidagem não entendeu nada e ele falou que iria escrever um samba. Um dos moleques virou e disse que fazer samba era coisa de viado o negócio era funk. Pardal puto engatilhou a arma apontou na cabeça dele e perguntou “como é que é de menor?”.
O moleque sorriu amarelo e falou que estava brincando. Pardal guardou a arma e disse que achava que bom que fosse brincadeira mesmo porque ele seria um dos que teria que descer pra torcer.
E assim os quatro subiram da boca para a casa de Pardal. Ele, Lucinho, eu e Freitas. Freitas se lembrou da última vez que esteve naquele morro para pegar Pardal devido o ataque ao helicóptero. Pardal pediu pra nem lembrar porque ele teve que morrer em uma grana preta pra salvar o pescoço. Nisso Freitas lembrou que eu devia uma passagem de ônibus para ele.     
Ah como é gostoso lembrar o passado com os amigos...
Chegamos lá pegamos papel, caneta, abrimos a sinopse, lemos e ficamos os quatro lá com cara de bunda. Um olhando pro outro. Pardal perguntou então o que faríamos.
Lucinho disse que não tinha a mínima idéia, Freitas também não. Pardal olhou pra mim e perguntou se eu tinha alguma idéia. Respondi que não, a única coisa que eu sabia era que tinha que rimar “aí” com “Sapucaí”.
Nós fizemos tudo direito. Montamos a parceria, arrumamos dinheiro pra disputa, torcida..só esquecemos de arrumar gente pra compor o samba.
Ficamos lá os quatro sentados até que me lembrei de já ter ouvido falar em “escritório de samba”. Freitas perguntou o que era isso e respondi que no jornal uma vez um colega que cobria a parte de música contou que tinha grupos de compositores que faziam o que chamam de “samba de escritório”.
Como o mesmo grupo de compositores não podia assinar sambas em mais de uma escola do grupo especial do Rio de Janeiro arrumavam “compositores” que assinavam por eles. Os caras que assinam esse tipo de samba são chamados de “pombos”. O samba era feito e caso fosse vencedor no concurso depois a grana era rachada.
Pardal achou uma boa idéia então peguei o celular e liguei para esse colega que me passou o telefone de um compositor chamado Vandré Turco. Esse compositor com seu grupo no carnaval anterior ganhou sete sambas no grupo principal dos desfiles do Rio. Conversei com ele na frente dos “meus parceiros” contei o que tínhamos e que precisávamos de um samba. Todos os acordos foram costurados e o samba seria feito.
Algumas semanas depois fui com Lucinho na casa desse Vandré. Entramos e ele pegou o cavaco para cantar o que ele e seu grupo fizeram. O samba ficou lindo Lucinho logo se entusiasmou e disse que não tínhamos como perder. Vandré passou contatos de bons cantores e cavaquinistas para nosso palco. Nesse caso não seria uma parceria com o pessoal que fez. Pagamos dez mil e o samba era nosso.  
Contratamos o Rogério Guanabara, cantor promissor da agremiação para ser o intérprete do samba. Rogério depois terá um capítulo dedicado e ele. Passamos o samba pro cantor e marcamos estúdio pra gravação do cd.
E se tem uma coisa chata é gravação. Puta que pariu!! Eu, Lucinho e Freitas ficamos doze horas dentro de um estúdio com o Rogério, cavaquinista, um rapaz pra tocar violão, ritmistas pra fazer gravação dos instrumentos de bateria, mulheres pro coral feminino.  Pardal, que por motivos óbvios não foi ligava toda hora para saber como estava a gravação e reclamando da demora.
Mas ficou pronto. O produtor colocou pra tocar e ficou bom pra caralho, já tratávamos o samba como se nós tivéssemos feito e assim como foi bom foi caro. Já tínhamos gasto grana pra cacete e a disputa nem tinha começado.
E a disputa começou e foi passando, o samba se classificando. Era engraçado como o locutor nos anunciava “Freitas do repique, Betinho do tamborim, Lucinho do cavaco e Nicácio do pagode” sendo que nós quatro não tocávamos porra nenhuma no máximo punheta!! Pardal teve que lembrar que seu nome era Nicácio porque se assina “Pardal do Trololó” no fim da apresentação o BOPE nos esperaria de braços abertos no lado de baixo.
E subíamos orgulhosos no palco. Torcida imensa embaixo que fazia valer os dez ônibus que mandávamos todos os sábados pro Trololó pegar essa gente, os quilos de carne pra churrasco e caixas de cerveja. A galera cantando e balançando bandeiras e os fogos estourando do lado de fora. Uma disputa de samba-enredo pra quem nunca foi é um show de luzes, cores, pirotecnia e barulho. Às vezes dá até pra ouvir o samba. Mas esse detalhe não era tão importante.  
E nós subíamos ao palco como um time de futebol. Calça branca, sapatos brancos, camisa branca com detalhes azuis, azul e branco são as cores da escola. Nós, os cantores e os músicos tínhamos nosso uniforme. Aliás, todas as parcerias tinham e o branco predominava parecendo um congresso de Pais de Santo.
Por falar em Pai de Santo a reta final de disputa se aproximava e estávamos bem, mas tinha o samba de uma molecada que incomodava. Samba bom com refrães fáceis, torcida grande. Eu não acreditava que aqueles garotos tivessem feito, pra mim também era de escritório. Lucinho distribuía amendoim e pipoca na hora do samba deles para sua torcida e assim atrapalhar o canto, mas não adiantava muito.
Então faltando dois dias para a final  Freitas e eu fomos a um terreiro que o Major frequentava. Terreiro de Pai Cadinho lá em Campo Grande.  
Ele perguntou qual era o problema e Freitas contou. O Homem disse que isso era fácil de resolver e pediu prospectos dos sambas adversários na final. Prospecto é uma folha que tem a letra do samba. Freitas entregou e o homem amassou, colocou na boca e engoliu pra nosso espanto.
Gargalhando depois deu uma fumada no seu cachimbo e disse para não nos preocuparmos mais que os samba inimigos estavam “amarrados” e ganharíamos a disputa.
Fomos confiantes para aquela final. Gastamos muito para que tudo desse certo e vencêssemos. Evidente que também jogamos sujo Lucinho descobriu de onde saía os ônibus com a torcida deles e subornou os motoristas para que fossem pro lugar errado.
Nos apresentamos primeiro e demos um show o Rogério Guanabara era um grande compositor e parece que botou o coração na garganta naquela noite. Descemos do palco felizes e certos que venceríamos ainda mais com Lucinho tendo subornado os motoristas e acreditávamos que teria ninguém para torcer pros adversários.
E realmente tinha ninguém. Uma apresentação pífia que quase nos fez abrir champanhes.
Só que não tinha acabado. Havia um terceiro samba na final, muito ruim pro sinal e que eu nem sabia como tinha chegado lá. Falavam que esse estava lá  porque era samba da “comunidade”. Samba feito por pessoas que moram próximas da quadra, sempre freqüentam e Pittinha teria levado até aquela noite pra agradar seu povo.
Mas o samba tinha muita torcida, demais, não parava de ir gente pro meio da quadra torcer. Espantados olhávamos aquilo e perguntávamos de onde tinha surgido tanta gente. Quando fui ver era a quadra quase toda torcendo por eles. O cantor do samba começou a gritar por sua comunidade para que apoiassem e o público levantou as bandeiras. Lucinho pôs a mão na cara e falou “fudeu”.
Perguntei por que ele achava isso e ele mandou reparar na cor das bandeiras. Olhei e eram vermelhas. Não entendi o porquê das bandeiras vermelhas se as cores da agremiação eram azul e branco. Freitas mandou que eu parasse de ser ingênuo e tentasse lembrar o que significava o vermelho.
E eu lembrei..vermelho é a cor de uma famosa facção criminal do Rio de janeiro. Da facção que comandava a área que ficava a Acadêmicos da Guanabara e o Pittinha era um cara esperto. Ele nunca ficaria mal com os “homens”. A gente tinha se fudido.
Pittinha pegou o microfone e discursou que era uma escolha muito difícil que eram obras lindas que se apresentaram lá difícil de escolher e todo aquele blá blá blá que só enervava. No fim ele falou que deu empate e a diretoria havia se decidido por uma fusão de sambas. A primeira parte e o refrão do meio de um, a segunda parte e refrão de baixo de outro.   
O cantor oficial da casa começou o samba e o começo da fusão era do samba da comunidade. Os caras começaram a comemorar e pular feito doidos. Dava pra ouvir do lado de fora as rajadas vindas do morro em festa, mas ainda faltava o restante do samba e com certeza seria nosso.
É, mas não foi. Cantaram a segunda e o refrão principal do samba que desviamos torcida. Os dois sambas foram os campeões e nós perdemos sozinhos. Major Freitas olhou furioso pro Pittinha que fez cara de “não tive culpa” e saímos da quadra putos pra caralho, mas nem meter uma bala no Pittinha podíamos se rolasse isso os capangas metiam trezentas na gente de volta.  
Do lado de fora os três encostados no carro pensávamos como aquilo tinha ocorrido. Freitas então lembrou e gritou “Pai de Santo filho da puta!!”. Olhamos pra ele que concluiu “Comeu os sambas dos caras e eles ganharam, só não comeu o nosso e perdemos. Era pra ter comido o nosso porra !!!
Entrou no carro e saiu em disparada alguém tinha que pagar o pato. Perdemos o samba e o Pai de Santo ganhou um tiro no meio dos olhos. Não previu nossa derrota nem sua morte. Pai de Santo fraquinho...
Enquanto isso Lucinho e eu fomos beber e contamos a notícia pro Pardal por celular que falou que nunca mais queria saber ”dessa merda” de samba. Desliguei e fiz um brinde com Lucinho pela nossa luta e decidimos também que nossa carreira de compositores estava encerrada.
Aquele meio de samba-enredo era muito podre, ser bandido era mais honesto...





Nenhum comentário:

Postar um comentário