segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O SEQUESTRO


*Conto da coluna "O buraco da fechadura" publicado no blog Ouro de Tolo em 5/1/2013


Vânia era uma moça inteligente, bonita e batalhadora. Jovem com vinte e dois anos de idade, no último ano de medicina na UFRJ e trabalhava na clínica do pai. Tinha sonho de ser pediatra, tratar e cuidar de crianças, assim como o sonho de ser mãe.
Era noiva de Vinicius há dois anos, de namoro cinco. Os dois eram coleguinhas de maternal e cresceram juntos, eram melhores amigos e com o tempo descobriram o amor. Vinicius foi seu único homem, era seu único amor e a moça sonhava com o dia do casório que se aproximava.
Era feliz, o que mais importava.
Wallace era um rapaz com vinte anos que não teve a mesma sorte que Vânia na vida. Não conheceu os pais sendo largado em um orfanato ainda bebê, fugiu com oito anos depois de ninguém querer adotá-lo e foi viver nas ruas.
Lá comeu o pão que o diabo amassou. Sofreu, foi humilhado, conheceu a miséria, a violência e acabou aprendendo a cartilha da maldade. Tornou-se bandido, assassino, com quatorze já estava ma FEBEM.
Fugiu um ano depois, foi recapturado, fugiu, assim foi sua vida até os dezoito anos quando foi liberado. Continuou na marginalidade trabalhando no tráfico de drogas de uma favela. Mas caiu no vício e graças a ele criou uma dívida na boca de fumo. Teria que pagar senão morreria.
Vidas muito diferentes que acabaram se cruzando.
Faltava uma semana para o casamento de Vânia, já era noite e ela decidiu fazer uma surpresa ao amado. Passou em uma loja comprando uma lingerie nova para esperar Vinicius em sua casa.
Tinha cópia da chave de casa do rapaz e entrou sem que ele estivesse lá. Tirou a roupa e ficou apenas com a lingerie. Deitou no sofá com uma garrafa de champanhe só esperando que o noivo chegasse.
Depois de um tempo ouviu uma chave mexendo na porta e ansiosa esperou Vinicius entrar. Quando ele abriu a porta quem teve a surpresa foi ela. Vinicius completamente bêbado entrou aos beijos com uma mulher.     
Vânia estarrecida viu a cena e perguntou o que significava aquilo. Vinicius não sabia o que explicar, não tinha que explicar e tentou a jogada clássica “não é isso que você está imaginando”. Vânia chorando colocou a roupa, deu um tapa na cara do noivo e foi embora.
Wallace teve o barraco invadido por traficantes que perguntaram pelo dinheiro devido. Wallace tentou argumentar que não tinha ainda, mas iria arrumar. Tomou um soco violento no rosto e teve arma apontada para ele exigindo a grana. Wallace chorando insistiu que não tinha e os traficantes deram até a manhã do dia seguinte para que arrumasse senão morreria.
Wallace foi para a rua desesperado por dinheiro.
Vânia foi pra rua desesperada com a traição.
Aí começava a história...
Vânia dirigia pela rua chorando quando seu celular tocou. Era o pai perguntando se ela poderia levar seu remédio, que esquecera de comprar. Vânia respondeu que tudo bem e logo estaria em casa. O pai perguntou se estava tudo bem com ela e a moça respondeu que sim, só estava gripada.
Wallace desceu a favela com uma arma na cintura e sabia que teriaque arrumar um bom dinheiro. Teria que praticar um assalto. Percorreu vários bairros da cidade sem achar alguém ou um estabelecimento para isso.
Vânia encontrou uma farmácia aberta e entrou.
Wallace andou, andou, encontrou uma farmácia aberta e viu ali a chance de pegar esse dinheiro.
Entrou na farmácia, a mesma farmácia de Vânia.
Vânia pediu o remédio, recebeu e deu uma volta pelo interior da farmácia procurando cosméticos. Já eram altas horas e a moça era a única cliente no local.
Wallace ao entrar viu a loja vazia e foi direto no atendente. Discretamente foi até o rapaz que estava no caixa, sacou o revólver e mandou que ele desse tudo que estava na registradora. O atendente muito nervoso abriu a registradora, recolheu o dinheiro entregando tudo na mão do bandido.
Wallace rapidamente contou o dinheiro e viu que não tinha nem metade do que ele precisava. Perdeu a cabeça e gritando exigiu que o rapaz lhe arrumasse mais dinheiro senão lhe mataria. O atendente chorando desesperado argumentava que aquele era todo o dinheiro e Wallace gritava “se vira pra não morrer!!”.
Naquele instante Wallace ouviu um barulho de vidro caindo no chão. Olhou para lado e viu Vânia paralisada com aquela cena. Ela tinha deixado um vidro de perfume cair no chão.           
Wallace e o atendente pro alguns segundos olharam Vânia que também não conseguia esboçar nenhuma reação. Depois daquele silêncio cortante Wallace coçou a cabeça e disse “tem jeito de riquinha, pode ser minha salvação”.
Deixou o atendente de lado pegando Vânia pelo braço que gritava por socorro.
Antes que o atendente esboçasse alguma reação Wallace deu um tiro no teto da farmácia e gritou que ele nem pensasse em fazer nada senão morreria. Apertou o braço da moça com mais força e os dois saíram.
Vânia chorava em desespero e Wallace tenso gritou perguntando qual era o carro dela. Vânia apontou e o homem mandou que ela abrisse as portas. Abriu, Vânia sentou ao volante e Wallace no carona com a arma apontada para sua barriga mandou que ela desse a partida que passeariam pela cidade.
Vânia muito nervosa, chorando e rezando a Deus por sua vida dirigiu pelo Rio de Janeiro com Wallace não menos nervoso dando ordens. Viu um banco eletrônico e mandou que ela parasse.
Desceram e do lado da moça Wallace mandou que ela “raspasse o cofre”. Vânia tirou tudo o que tinha na conta e entregou na mão do bandido. Irônico Wallace falou que eles começaram bem e voltaram pro carro.
Foram a mais três bancos eletrônicos e todo o dinheiro da conta foi tirado na mesma situação. Voltaram ao carro e Vânia dirigia contando que não tinha mais dinheiro em conta nenhuma pedindo para ser liberada. Wallace respondeu que ainda iria decidir o que faria com ela e que quem mandava ali era ele, ela só obedecia.
O telefone tocou e Wallace mandou que Vânia atendesse sem mostrar nervosismo. Ela atendeu e era o pai. Contou que estava tudo bem, encontrara amigas na rua e por isso se atrasara, mas que em instantes estaria em casa, desligando.
De forma irônica Wallace cumprimentou a moça e disse que ela poderia ser atriz. Vânia só chorava e não conseguia ver nenhuma graça naquela situação.
Percorreram mais ainda pela cidade acabando por ser afastaremdos lugares mais movimentados. Entraram em um local escuro, esmo apenas com matagal em volta e Wallace mandou que ela parasse.
Vânia perguntou porque ali e o homem gritou que ela não discutisse suas ordens e parasse.
Ela parou e Wallace mandou que descesse.
Os dois desceram, andaram por dentro do matagal e Wallace mandou que Vânia parasse e virasse pra ele. A menina virou, olhou e ele ordenou “tira a roupa”.
Vânia chorando implorava que ele não fizesse isso, mas Wallace engatilhou o revólver e gritou que tirasse senão ela morreria. Vânia chorando muito acatou a ordem e começou a desabotoar a blusa. Na hora de tirar, apenas com sutiã por baixo Wallace pediu que esperasse.
Chegou próximo da moça e notou uma correntinha em seu pescoço. Pegou na imagem e disse “é Nossa Senhora” Vânia confirmou e Wallace, devoto da santa, tomado pela força da mãe de Cristo mandou que Vânia se vestisse.
Os dois voltaram ao carro. Wallace abriu o porta malas e pediu que Vânia entrasse que ele assumiria de lá. Sem dizer nada ela entrou, o bandido fechou o bagageiro e saiu com o carro.  Entrou na favela, amarrou Vânia em seu barraco e foi até a boca com o dinheiro.
Entregou a grana pro chefe do tráfico que contou e viu que o dinheiro conferia, era o da dívida. Wallace perguntou se ele estava liberado e o traficante respondeu “quase” dando um soco em seu rosto. Todos os traficantes bateram e chutaram Wallace que foi barbaramente agredido.
Voltou ao barraco todo machucado, sangrando e Vânia se assustou perguntando o que acontecera. Wallace respondeu que fora pagara dívida que causou aquele sequestro. Vânia se ofereceu pra ajudar, fazer curativos nele jurando que não iria aproveitar pra fugir.
Wallace aceitou dizendo que não tinha nada a perder e soltou Vânia. Ela arrumou esparadrapo, gaze e metiolate fazendo curativos no bandido. Ele perguntou porque a moça o ajudava depois de tudo que ele fez e Vânia respondeu que era da sua profissão, ajudar os outros.
Wallace chorou o que provocou espanto na mulher. Ele no meio do choro contou que não queria ser daquela forma, não queria ser bandido, queria ser um homem de bem, mas só conhecera a dor e a maldade na vida e precisava urgentemente daquele dinheiro para ficar vivo, não lhe faria mal.
Vânia lembrou o que bandido iria lhe estuprar e Wallace pediu desculpas argumentando não saber o que deu nele e Nossa Senhora impediu que aquilo ocorresse. Vânia falou que ele devia gostar mesmo da santa e o homem respondeu que foi a única mãe que conheceu.
Vânia suspirou e comentou que antes de ocorrer o encontro deles a noite dela também não estava nada boa. Pegara seu noivo com outra mulher. Wallace lamentou o ocorrido e disse que aquilo devia ser uma barra, Vânia respondeu que sim, mas nada comparado ao que aconteceu depois.
Wallace novamente pediu desculpas, entrou no quarto e voltou com uma sacola. Tirou dinheiro de dentro dele e entregou a Vânia dizendo “pega”.
Ela perguntou o que era aquilo e Wallace respondeu que não precisara de todo o dinheiro pra pagar a dívida então devolvia o que sobrou.
Vânia agradeceu e Wallace contou que ela estava liberada. Iria levá-la até o lado debaixo do morro porque ali era muito perigoso para uma riquinha como ela descer sozinha.
Desceram de carro e já no asfalto Wallace saiu do carro. Debruçado na janela do motorista pediu novamente desculpas a Vânia e aconselhou que ela não voltasse com o noivo que ele não merecia.
Naquele instante apareceu um carro da polícia, um dos policiais tinha um retrato falado na mão do assaltante que roubou uma farmácia e levara uma refém e reconheceu Wallace.
Apontou a arma e gritou “parado aí” Wallace se assustou e saiu correndo tomando um tiro mortal pelas costas e caindo na rua.
Vânia saiu do carro correndo para perto do corpo, populares também correram pra ver e quando ela chegou perto viu o homem caído e o sangue saindo de seu corpo. Fez uma oração e saiu do local passando pelos populares.
Entrou no carro e ligou para o pai dizendo que estava levando seu remédio partindo então para longe daquele inferno.
E assim Wallace e Vânia se afastavam novamente.
Cada um com sua história e seu mundo.

 

UMA ILHA CERCADA DE SAMBAS



 

Como os amigos que acompanham o meu blog e o Ouro de Tolo já sabem eu concorri esse ano na Portela, mas também sou compositor da União da Ilha do Governador.

A União da Ilha nunca venceu um carnaval no grupo especial do Rio de Janeiro, mas mesmo assim é uma agremiação que tem seu lugar na história do carnaval brasileiro. É considerada a escola mais simpática do carnaval, a segunda escola de todo folião e se o Império Serrano é considerado a escola com os sambas mais bonitos, a União da Ilha é a que tem os sambas mais alegres e populares.

A agremiação insulana teve sua época de ouro com seus sambas entre 1977 e 1991 - ainda que tenha grandes sambas fora dessa época como “Lendas e Festas das Yabas” de 1974, Confins de Vila Monte de 1975, “Fatumbi, a Ilha de todos os Santos” de 1998 e “A União faz a força com muita energia” de 2001, mas é da fase que eu falei que vem sua grande história.

Desse período da história vem sambas como o antológico “Domingo” de 1977, seu único samba vencedor do prêmio 'Estandarte de Ouro' de melhor samba do carnaval. O bairro Ilha do Governador só tem esse e mais um prêmio 'Estandarte' em samba: o outro pra meu orgulho é o samba do Boi da Ilha Orun Aye de 2001, do qual sou co autor. 

Os demais sambas da União da Ilha destes "anos dourados" são “O que será” de 1979, “Bom bonito e barato” de 1980, “1910, deu burro na cabeça” de 1981, “Assombrações” de 1986, “Extra! Extra! Deu Ilha na cabeça” de 1987 e “De bar em bar Didi um poeta” de 1991.

Além dos citados, há três sambas que eu não coloquei nessa relação acima porque esses três e “Aquarela brasileira” (Império Serrano de 1964), “Festa para um rei negro” e “Peguei um Ita no Norte” (Salgueiro em 1971 e 1993) e “Das maravilhas do mar fez se o esplendor de uma noite” (Portela em 1981) são sambas que
saíram do carnaval e viraram história da música popular brasileira.

Quem nunca ouviu “como será o amanhã/responda quem puder/o que irá me acontecer/o meu destino será como Deus quiser”? Ou então “Diga espelho meu/se há na avenida alguém mais feliz que eu”? Ou mesmo “eu vou tomar um porre de felicidade/vou sacudir eu vou zoar toda cidade”? 

Esses três são sambas da União da Ilha do Governador: “O amanhã” (1978), com autoria de João Sergio, “É hoje” (1982, reeditado em 2008) com autoria de Didi e Mestrinho e finalmente “Festa Profana” (1989), com autoria de Bujão, J.Brito e Franco.

Didi e Franco são considerados os melhores compositores da história da Ilha do Governador. Os dois têm em comum serem pessoas com alto nível de instrução. Didi formou-se em direito e Franco em medicina e há boas histórias que contarei agora.

Conta a lenda que num dia qualquer de 1977 Didi esperava seu parceiro Aurinho da Ilha, outro grande compositor, em um bar para fazer samba pro concurso de samba da escola. Aurinho se atrasou e Didi com uma caneta pegou um guardanapo e escreveu a letra de um samba. Não gostou muito, achou a letra pequena com apenas dezesseis linhas e deixou de lado. 

Nisso chegou o mestre de bateria da União da Ilha e compositor do Boi da Ilha - então bloco, chamado Boi da Freguesia - João Sergio e perguntou que letra era aquela. Didi deixou que ele lesse e enquanto João lia falou que fez letra para o enredo da Ilha de 1978, mas não tinha gostado, pois a achara pequena. João Sergio gostou e perguntou se podia pegar para ele e fazer melodia. Didi deixou. 

João Sérgio fez a melodia e junto com Miguel Junior, que vinha a ser segundo cantor da agremiação, foi até Didi e mostrou o samba com melodia. Didi ouviu e falou que estava “bonitinho”. João perguntou se ele não queria mesmo o samba e ele respondeu que não, que João poderia usá-lo.

João Sergio então pediu licença da bateria e concorreu, chegando a final com seu samba defendido pelo Miguel. Didi e Aurinho também chegaram com o samba defendido pelo imortal Aroldo Melodia e o terceiro finalista foi outro compositor histórico da escola, Robertinho Devagar. João venceu a disputa e o samba era “O amanhã”, regravado por estrelas da MPB como Simone e outros. Até hoje rende muito dinheiro ao mestre de bateria que acreditou naquela letra. 

Franco, falecido em 2007, era considerado um compositor polêmico. Ele mesmo defendia seus sambas e subia ao palco cantando lentamente na primeira passada sem bateria e marcando a passada batendo com seu tamanco no piso do palco - o que provocava um grande barulho.

Tinha seus rivais como Carlinhos Fuzil, Marquinhos do Banjo e Mauricio 100 que eram compositores do bairro da Freguesia e tinham uma torcida apaixonada chamada “turma do copo”; e Djalma Falcão e Bicudo que representavam a galera da Ribeira. Outro rival de peso era Marcio André, considerado uma 'águia' por seus adversários. Franco quando se apresentava provocava uma mistura de aplausos e vaias e seus desafetos levavam para a quadra uma faixa escrita “Pra ser franco não gostei”.

Na disputa do ano 2000 o samba dele era o favorito, ao lado do lindo samba de Djalma Falcão. Djalma foi até um centro espírita tentar “amarrar” o samba de Franco e o pai de Santo pediu uma letra do samba rival. Djalma entregou e o pai de Santo comeu dizendo que 'o samba estava amarrado'. Alguns dias depois Franco venceu a disputa e Djalma irritado falou “o fdp do pai de Santo comeu a letra errada”...

E na quadra Franco comemorava a vitória e uma faixa amarrada abandonada na quadra dizia “Pra ser Franco continuo não gostando”.

Difícil falar de todos os mestres da União da Ilha do Governador. Didi, Aurinho da Ilha, Aroldo Melodia, Leôncio, Edinho Capeta, Waldir da Vala, João Sergio, Mestrinho, Robertinho Devagar, Dito, Franco, Marcio André, Bujão, J.Brito, Djalma Falcão, Bicudo, Marquinhos do Banjo, Carlinhos Fuzil, Mauricio 100, Almir da Ilha, Gugu das Candongas, Ito Melodia...

São muitas estrelas que fizeram e fazem a história não somente da União da Ilha como das escolas Boi da Ilha e Acadêmicos do Dendê  dos blocos Tribo Cacuia, Unidos de Tubiacanga, Unidos da Colônia, Unidos da Ribeira e os extintos como o Brasinha... Todas agremiações tradicionais e celeiros desses craques. Agremiações culturais com muita história que provocam orgulho no insulano, e, por que não, no carioca.

E eu nisso tudo? Sou um aprendiz... Já tenho história em algumas dessas agremiações, mas ainda tenho muito a aprender, bem como muito a oferecer. Com muito orgulho fiz e  faço parte da ala de compositores da União da Ilha do Governador, ganhei um concurso na escola, 2012, e milito no samba insulano.

Alguns desses que citei acima não estão mais entre nós fisicamente, mas já são imortais, seres míticos de nossa escola. Quando piso na quadra ou no palco eu sinto a presença deles. Homens que com seu talento e paixão colocaram tijolo por tijolo, cimento, areia e construíram uma grande história não só de carnaval, mas de amor.

Amor por um pavilhão e quando apresentamos um samba na escola ou colocamos a roupa pra um desfile nos sentimos orgulhosos por lembrarmos esses homens que fizeram essa ilha ser cercada por samba e talento. 

Salve a União da Ilha do Governador e seus poetas

 

sábado, 28 de setembro de 2013

ERA DA VIOLÊNCIA 2: CAP 2 - ANTES DO COMEÇO




Alguns anos antes..

Em uma casa abandonada ouve-se um pinga pinga de dar nos nervos. Poderia ser um objeto de tortura, mas não é de propósito. Telha quebrada, infiltração, enfim, coisas de uma casa velha e abandonada.

Dois caras estão sentados e conversando. Chamam-se Scarface e Galalite. Não são muito inteligentes, mas são “casca grossa”. Mais pra frente falo melhor sobre eles.

Eles, sentados, conversavam trivialidades. O assunto era futebol e a má fase do Botafogo. Galalite metia o pau em Gagau, o camisa 7 do clube, maior revelação do futebol brasileiro que não marcava gols há dez jogos e havia o papo que a noite lhe atrapalhava.

“É um cretino filho da puta, se eu pegar na noite cubro de porrada” vociferou Scarface.

“Porra, não fala merda, o técnico ta fudendo ele, bota o maluco isolado lá na ponta esquerda quando ele na verdade tem que buscar jogo” rebateu Galalite.

“Esse cara ta na noite, vai por mim, amigo meu viu no baile funk outro dia com umas cachorras e logo depois de uma derrota pro Vasco” afirmou Scarface.

“Porra, mas o que ele faz na folga é problema dele” defendeu Galalite.

“Caralho!! Vai tomar no cu!! Ir pra baile depois de perder pênalti? Depois de perder pra merda do Vasco?? Vai tomar no cu!! Se eu ver na noite encho de tiros!!”. Completou Scarface.

E os dois ficaram lá discutindo o Botafogo e se Gagau era o culpado ou não da má fase do clube até que Galalite olhou o relógio e disse “já deu, acorda esse filho da puta”.

Scarface pegou um balde de água e jogou na cara de uma terceira pessoa que estava naquela casa. Um homem todo arrebentado, machucado que estava desmaiado e amarrado em uma cadeira.

O cara acordou no susto e Galalite pegou em seus cabelos levantando a cabeça. Gritava “Acabou o recreio!! Fala logo onde ta a grana!!”.

O homem jurava não saber onde estava e Scarface pegou um saco colocando na cabeça do torturado e o asfixiando. O homem desesperado se debatia e Scarface tirou o saco repetindo a pergunta e batendo na cara do torturado “Cadê o dinheiro filho da puta??”.

O homem jurava não saber e Galalite puto comentou com Scarface “Porra, ainda tenho que fazer compras hoje, daqui a pouco minha mulher liga enchendo”.

Scarface respondeu “vamos botar no pau de arara logo”.

Scarface virou pro torturado e gritou “Vai pro pau de arara filho da puta!! Agora você vai contar!!”. Penduraram o torturado no pau de arara, tiraram a calça dele e novamente perguntaram pelo dinheiro. O homem chorando respondeu que não sabia.

Galalite pegou uma vassoura e entregou pra Scarface dizendo “enfia nesse filho da puta”. O homem desesperado gritou pedindo que não fizesse isso, que era “sujeito homem” e Scarface enfiou. Um grito de dor foi dado enquanto o bandido enfiava o cabo no ânus do torturado sem piedade.

Até que o telefone de Galalite tocou.

O homem pediu que Scarface parasse e atendeu o celular. Era a esposa perguntando pelas compras.

Galalite saiu de perto dos dois e baixinho respondeu que já iria ao mercado e estava terminando um serviço. A mulher irritada perguntou que serviço era aquele e o homem respondeu que ajudava um amigo a terminar um banheiro de sua casa e entraria uma graninha por isso.

A mulher pediu que incluísse alguns itens na lista e Galalite perguntou a Scarface se ele tinha uma caneta. O bandido entregou e Galalite pediu que a esposa passasse.

A mulher pediu que comprasse tomate, cebola, alho e maionese. Galalite perguntou se era maionese normal ou light e a esposa respondeu light. Depois mandou que o marido esperasse, pois a filha queria falar com ele.

A menina, que devia ter uns cinco anos, pegou no telefone e perguntou se o pai não iria pra casa contar história antes dela dormir. Galalite respondeu que já iria e a menina pediu que comprasse revistas em quadrinho com o pai respondendo que compraria. 

No fim a menina disse “te amo”, Galalite respondeu “também te amo meu anjinho” e desligou.

Voltou para onde os homens estavam e falou com Scarface “Ih, desmaiou de novo”. Scarface pegou outro balde e jogou água no torturado. Gritou perguntando pelo dinheiro e o homem novamente disse não saber.

De novo Scarface enfiou o cabo e o homem gritou em desespero. O celular de Galalite tocou e Scarface reclamou “Porra!! De novo?”.

Galalite atendeu e disse ao comparsa “Pera que é o chefe”. Ouviu atentamente o que o interlocutor dizia e desligou dizendo para Scarface que tinham uma nova missão.

Scarface perguntou o que fariam com o homem no pau de arara. Galalite olhou pro torturado que expelia sangue pela boca e perguntou “você não sabe mesmo onde ta o dinheiro né filho da puta?”. O homem jurou que não e Galalite virou pra Scarface falando “É, ele não sabe mesmo, vamos assar o porco”.

Jogaram gasolina no torturado e tacaram fogo. Saíam calmamente da casa enquanto o homem desesperado gritava em chamas.

Entraram no táxi de Scarface ainda ouvindo o homem gritar e o taxista perguntou qual era a missão. Galalite respondeu que era em um baile funk e Scarface puto perguntou “Porra!! Baile Funk?? Você não sabe que eu odeio funk e sou crente?”.

Deu a partida e saiu com Galalite rindo e comentando “Sim, você é tão crente quando o Gagau”.

O baile era no pé do morro do Trololó. Sim, aquele. Os homens desceram e foram para a porta do clube com Galalite comentando que tinham que resolver logo o problema, pois ainda tinha que fazer compras e contar historinha pra filha.

Entraram no lugar bastante cheio com aquela música nas alturas e Scarface reclamava “Puta que pariu!! Eu, um homem tenente a Deus tendo que ouvir essa música de Satanás!! Isso é provação né Senhor??”. Galalite comentou para resolverem logo aquela situação e chegou no balcão pedindo uma cerveja. Bebeu e perguntou ao barman se ele conhecia algum cara chamado “Sem Alma”.

Mostrou a foto e o homem disse que era o DJ. Apontou a cabine e Galalite agradeceu. Tomou a cerveja de uma vez só e catucou Scarface apontando o DJ.

Caminharam até a cabine espremidos pelas pessoas que curtiam o baile e chegaram na cabine. Abriram a porta e o DJ reclamou que não podiam entrar daquela forma. Scarface perguntou se ele era o “Sem alma” e o homem respondeu que sim e perguntou “qual foi?”.

Scarface e Galalite sacaram as armas e descarregaram em cima do DJ que morreu na hora.

Um grande silêncio tomou conta do baile. Galalite e Scarface saíram da cabine e pediram licença. Um corredor foi aberto e Galalite comemorou “Olha só parece Moisés abrindo o mar morto”. Scarface retrucou “Idiota, é mar vermelho. Não lê a Bíblia não sabe das coisas”.

Começaram a andar pelo corredor e Scarface emendou “E não é Moisés, é Noé!!”.

Andaram cheios de pose pela multidão amedrontada e quando chegaram na porta Galalite gritou “Podem voltar o baile!!”. Parou pra pensar e emendou “Ah é, matamos o DJ..Ah foda-se, qualquer um pode ser DJ. Assume alguém aí”.

E foram embora.

Dirigiam enquanto foram cortados por um carro da polícia e mandados parar. Frearam bruscamente e botaram as mãos na cabeça enquanto Scarface disse “fudeu”. Dois policiais com armas mandaram que os dois descessem e encostassem com as mãos no carro.

Galalite tentou dizer que só ia a um mercado 24 horas fazer compras pra esposa quando mandaram que calasse a boca. Foram revistados e encontraram as armas na cintura dos dois. Um dos policiais disse “Aí chefe, estão armados”.

Nisso uma terceira voz foi ouvida com o homem dizendo “idiotas, nem pra se livrarem das armas”.

Galalite e Scarface se viraram e deram de cara com Rui de Santo Cristo.

Rui de Santo Cristo é outro dos personagens principais desse livro. Também falarei melhor dele mais tarde.

Rui se aproximou e deu tapa na cara dos dois. Os bandidos pediram desculpas e Rui emendou “seus imbecis, como é que vocês queimam o cara na frente de todo mundo no baile?”  

Galalite e Scarface tentaram argumentar e Rui continuou “Isso pode dar uma merda do caralho, vocês podem ser reconhecidos. E se não fosse eu agora parando vocês? Se fossem policiais que tem nada com a história? Olhem a merda agora!!”.   

Galalite tentou falar e tomou outro tapa na cara “Deixei você falar?? Eu mandei você falar filho da puta??”. Galalite ainda tentava falar e tomava tapa na cara com Rui dizendo “cala a boca” diversas vezes, sem parar gritando, dando tapa e apontando o dedo até que o negão parasse.

Depois continuou “Vocês fizeram um trabalho de merda, sabem disso né? De merda.” Fez carinho no rosto dos dois e falou “a sorte é que eu gosto de vocês, senão  passava os dois agora”.

Scarface perguntou o que ocorreria. Rui respondeu que naquele momento eles iriam pra casa ficar com suas famílias e dormir, como se nada tivesse acontecido e ele iria consertar a cagada.

Rui mandou que entrassem no táxi e completou “Vão pra casa meus filhos e lembrem-se que vocês me devem uma”.

Scarface e Galalite entraram no carro e partiram com Rui de Santo Cristo olhando o carro se afastar e dizendo “filhos da puta”.

Scarface deixou Galalite em um supermercado e o homem desceu agradecendo a carona. Entrou no mercado e fez as compras que a mulher pediu. Olhava a lista calmamente e pegava os produtos como se nada ocorrera naquela noite.

Com o carrinho cheio entrou na fila e esperou sua vez. A vez chegou e enquanto tirava os produtos do carrinho a caixa olhou
assustada para ele.

Galalite olhou a camisa e viu que estava bem manchada de sangue. O bandido sorriu e disse “Fique tranqüila, é catchup”.

Chegou em casa ouvindo reclamações da esposa. Colocou a camisa na máquina de lavar e deu um beijo na mulher subindo para ver a filha.

A menina deitada na cama ficou feliz vendo o pai entrar no quarto. Deu um abraço em Galalite perguntando se ele comprara as revistas. O homem mostrou e ela sorrindo agradeceu pedindo que ele contasse uma história para ela dormir.

Galalite sentou-se o lado da filha e pegou um livrinho na cabeceira. A menina perguntou “Como foi no trabalho papai?”. Galalite respondeu “Foi tudo bem meu anjinho. Tudo muito bem”.

E leu a história pra filha dormir.


ERA DA VIOLÊNCIA 2 (CAPÍTULO ANTERIOR) 



LINK RELACIONADO (LIVRO ANTERIOR)


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

CARLINHOS FUZIL



*Coluna publicada no blog Ouro de Tolo em 22/9/2013


Sábado passado estava na União da Ilha assistindo mais uma apresentação de seu concurso de samba-enredo. É um programa ótimo pra quem curte samba e melhor ainda para um compositor que não está no concurso porque relaxamos vendo, sem o stress que uma disputa provoca e por ser do meio vemos as entrelinhas.

Entrelinhas são aquilo que o frequentador que vai apenas para beber sua cerveja e o compositor que está envolvido no concurso não conseguem ver. É poder ser neutro, observador e entender o que se passa.

Só não fui uma vez esse ano e um personagem é o que mais me chama atenção, é um compositor e o nome dele está no título do texto.

Vocês que me acompanham nesses quase dois anos e meio de colunas já leram esse nome várias vezes. Carlinhos Fuzil foi meu parceiro de samba e fomos campeões juntos na União da Ilha em 2012. Nos separamos e o Fuzil mostrou nesses dois últimos anos que não estamos juntos a força que tem.

Carlinhos Fuzil tem esse apelido, mas é do bem. Fuzil vem de fuzileiro, Carlinhos Fuzileiro era seu apelido nos tempos de quartel e virou Fuzil através de seu grande amigo Quinho, sim esse mesmo do Salgueiro. Os dois são amigos de infância, assim como meu pai.

Fuzil e Quinho são crias do Boi da Ilha do Governador. Escola que também é minha origem, que também já falei muitas vezes aqui e hoje se encontra no grupo C do carnaval carioca desfilando na Intendente Magalhães. Não só nós três somos crias do Boi da Ilha, os dois ainda mais antigos, do bloco Boi da Freguesia. Alguns dos maiores nomes do carnaval de nosso bairro surgiram no Boi como Marquinhus do Banjo, Mauricio 100, Bujão, J.Brito, o mestre sala Raphael, João Sergio que foi mestre de bateria do Boi e compositor da União.

Didi, o maior dos compositores do bairro fez quatro sambas para o então bloco e considerava esses sambas os melhores que fez.

Fuzil começou garoto no bloco e disse que perdeu sete finais de samba na agremiação até conseguir ganhar a primeira. Mas ali, perdendo, ralando que conheceu a malandragem e se tornou um deles. Ganhou seis sambas no Boi e é hoje um de seus maiores vencedores.

Além de ser grande compositor sempre foi perspicaz. Viu talento no seu cunhado, ainda garoto e levou para o samba. Esse garoto cresceu e se tornou um dos grandes, chama-se Mauricio 100. Também na mesma época puxou outro garoto para seu lado, Marquinhus do Banjo. Marquinhus que em 1981 com apenas 10 para 11 anos fazia parte do time de intérpretes de um samba concorrente na Ilha.

Montaram um trio invencível no Boi da Ilha, nunca perderam samba juntos na escola e foi assim, com a cara e a coragem que foram pra União da Ilha.

Assim, só os três, na base do talento e no apoio de amigos que formavam um grupo chamado “A turma do copo” que derrubaram os grandes da União da Ilha e ganharam em 1992 com o enredo “Sou mais minha Ilha”.

Carlinhos Fuzil não abandonou o Boi. Boiadeiro apaixonado de acompanhar nas arquibancadas seus desfiles e que sempre diz que um compositor da Ilha para ser famoso tem que ganhar no Boi, não adianta ganhar na Ilha, tem que ganhar no Boi.

Ganhou na Ilha em 1996, 2002, 2006 e 2007. Muito malandro quando nós víamos uma disputa na escola equilibrada dizíamos “O Fuzil vai ganhar”. Nunca deu ponto sem nó, sempre foi inteligente não batendo de frente em causa perdida. Perdia sambas, alguns memoráveis como de 1999 e assista a festa do campeão sorrindo. Dizia “Você reclama do vencedor, depois ele tira 40 na avenida e quem fica com cara de otário é você”.

Também falava que quando perdia um samba ia pra praia mergulhar e chorar, Ali é lugar de você soltar a mágoa da derrota, não na escola na frente dos outros.

Um professor. 

Professor que me orientou, elogiou e deu broncas desde o meu princípio. No meu primeiro ano como compositor, na primeira final que fiz ele que tentou acalmar minha mãe que queria quebrar o Boi todo e enfiar o troféu num lugar nada agradável dos diretores da escola dizendo a ela que eu só estava começando e tinha futuro.

Ele que me dava broncas dizendo que samba tem que investir e botar cantores bons. Ele que deu “bolo” na minha mão quando perdi no carnaval de 2000 no Boi dizendo que eu sendo da casa não podia perder em torcida pra parceria de fora. No ano seguinte quando venci sorriu e falou “Não disse que era pra investir?” E no seguinte, em 2002, numa reunião de compositores da União da Ilha, ele como presidente da ala disse a todos “Se eu fosse vocês não colocava samba no Boi, tem uma pedrada lá”. Era o meu samba.

Ele disse isso e sorriu pra mim.

Sempre sincero. Dizendo se meu samba era bom ou passado bem mesmo que eu não gostasse da resposta. Nunca perguntei a ele o que achava, mas me posicionava perto dele pra obrigá-lo a passar por mim e me contar o que achara. Dessa forma fomos ficando amigos e viramos parceiros.

Primeiro em um concurso do Boi da Ilha em 2010. Depois num audacioso telefonema que eu dei graças ao Cadinho que insistiu que eu ligasse pra ele convidando para fazer samba na União. Pensei “Vou ligar nada, o cara é cinco vezes campeão na União da Ilha, claro que já tem parceria”.

Liguei, ele não tinha e topou.

Carlinhos Fuzil nos deu o que faltava para um concurso na União da Ilha. Credibilidade. Com ele passamos a sermos vistos como grandes, postulantes a vitória.

Na primeira apresentação para o carnaval de 2011 ele disse “estamos na final”. Incrédulo, perguntei como ele sabia, se alguém falara algo. Ele me respondeu “Ninguém me falou nada, conheço isso aqui, estamos na final”.

Realmente chegamos. Perdemos a final e ficamos os dois sentados em cadeiras no palco calmamente esperando acabar o quebra pau entre os que venceram, perderam e os seguranças. Tinha aprendido com meu mestre que escola de samba não é lugar de choro.

Mestre. Sim, ele é meu mestre. Como parceiro continuou me orientando e dando broncas. Duras quando era preciso, sorrindo quando necessárias. Temos personalidades bem diferentes e fortes. Ele é o velho malandro de samba, eu um garoto às vezes pavio curto, que faz bobagens por vaidade, por ser idiota e fico irritado quando levo broncas. Algumas vezes eu estava certo, na maioria ele. 

Um garoto que muitas vezes quer tudo pra ontem, fica ansioso, se desespera e não entendia e se enervava quando ele sorria e dizia “calma garoto, no fim dá certo”. E dava.

Dessa forma vencemos o concurso de 2012. Antes da final ele e eu demos entrevista para a rádio Arquibancada representando duas gerações da União da Ilha. Deu orgulho fazer essa entrevista junto a ele.  

Mas sou um cara que comete muitos erros e cometi com ele um grave. Um dos piores que já cometi na vida.

Faltando um dia para inscrição dos sambas ano passado um de nossos parceiros saiu do grupo, o Roger Linhares. Ele se reuniu com algumas pessoas do alto escalão que não queriam que ele viesse com o Fuzil e ali mesmo nessa reunião montaram uma parceria nova pra ele.

Ficaram vagas em aberto e o Roger ligou pro Cadinho que ligou pra mim chamando para essas vagas. Não nos deu tempo para pensar, tínhamos que decidir ali. Ficar com o Fuzil, com essas pessoas do alto escalão não querendo e “sem proteção” no concurso ou ir com o Roger.

Conhecia e tinha grande amizade com o Fuzil fazia dois anos, com o Roger dez. Isso, além do fato daquele momento a parceria estar sem grana me fizeram topar.

Poderia jogar culpa na pressão feita para topar. Ainda entrei em contato com a Bia, minha ex de São Paulo e grande amiga perguntando o que fazer, fiquei muito confuso tendo que decidir entre dois amigos, o meu futuro no samba e tudo em tão poucas horas.

Mas não sou moleque, não vou fazer isso. Tinha idade suficiente, era homem suficiente para tomar decisões independente de pressão. Fui fraco, covarde com um amigo, com um cara que praticamente era meu pai.  

Ele evidente que ficou magoado vendo seus parceiros lhe deixarem e deixarem sozinho. Com razão nunca mais falou comigo.

Perdi o mestre, o conselheiro, o grande amigo e o pai. Mas teve um lado muito bom porque a vida sempre ensina. Nossa parceria nova foi um redundante fracasso. O que poderia ser proteção pra gente acabou se voltando contra e o Fuzil mostrando o grande compositor e sambista que é montou uma nova parceria e fez sucesso.

Fez um grande samba e uma grande disputa ano passado não vencendo por circunstâncias, mas era o samba preferido de muita gente e é lembrado até hoje.        

E esse ano concorre com um samba lindo. Um samba que causa um frenesi na quadra que eu não via há muito tempo e confesso, um dos motivos que tem me levado aos ensaios é ver essa simbiose samba e quadra. Tem sido muito bonito. 

Não sei se vai vencer, tem outros sambas muito bons ali como do próprio Marquinhus, do Walkir, Myngau..Mas todo mundo reconhece que eles estão na frente hoje e a adesão de segmentos que vem recebendo.

Voltando ao começo da coluna eu estava na Ilha semana passada observando. Observando a quadra toda cantando seu samba com bandeiras, uma festa linda e no alto de um camarote quase como um anônimo o velho fuzileiro com bandeira na mão, olhos fechados se esgoelando cantando seu samba e me emocionei. Imaginei o que passava por sua cabeça naquele instante vendo a quadra toda. Os segmentos, a comunidade cantando seu samba. 

Sorrindo olhei para ele e falei baixinho “Que fdp, esse cara é foda mesmo”.

Desculpe Migão, mas não tinha outra palavra pra retratá-lo.

E no fim lá estavam Fuzil e dona Rosa, sua esposa braba e que defende sempre o marido recolhendo e juntando as bandeiras pra guardar. Depois ele sentou e abriu uma cerveja pra acompanhar o ensaio. A cerveja devia estar saborosa, com sabor de sucesso.

Sucesso completamente merecido e que para um coração cheio de culpas como o meu faz um bem enorme. Boa sorte mestre e espero que um dia possa perdoar esse seu aluno que gosta de você, mas às vezes é muito infantil.

 “Ser criança, não é brinquedo não”. 

  

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

SOBE O SOM: ERA UMA VEZ O CINEMA




Continuando a série “Sobe o som” hoje vou a um tema que mexe demais com a gente: Cinema.

Todo mundo já foi a um cinema, tem um filme que lhe marca de forma especial e muito da emoção que passamos em frente a telona tem a ver com a trilha sonora. Se nós lembramos com carinho de um filme logo sua música vem à mente.

Cinema e música. Casamento perfeito que mostro aqui a partir de agora. Então vamos lá.

Sobe o som “Era uma vez o cinema”!!!


Superman – John Williams

ET – John Williams 


Cinema Paradiso – Ennio Morricone


Era uma vez no Oeste – Ennio Morricone


O poderoso chefão –  Nino Rota


Táxi driver – Bernard Herrmann


Em algum lugar do passado – Rachmaninov / John Barry


Love Story – Francis Lai


Laços de ternura – Michael Gore 


Ghost – The Righteous Brothers


Forrest Gump – Alan Silvestri


Luzes da ribalta – Charlie Chaplin


E o Vento Levou – Victor Fleming


Mágico de Oz – Judy Garland


Casablanca – Max Steiner


Titanic – James Horner 


Butch Cassidy & Sundance Kid - BJ Thomas 


Hair -  The fifth dimension 


Bem..aí estão algumas músicas que fizeram história no cinema. Todas elas são consagradas e inesquecíveis, mesmo assim sei que faltaram muitas. Semana que vem tem uma homenagem tardia ao Rock in Rio.



Enquanto isso segue a homenagem. Aos mestres com carinho.



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