segunda-feira, 16 de setembro de 2013

AS ESCOLAS QUE A MÍDIA ESQUECEU




Escrevi essa coluna para o Ouro de Tolo faltando poucos dias para o carnaval 2012 e infelizmente continua atual. Como sei que o pessoal gosta de textos sobre samba trouxe pra cá.

Vamos ao texto abaixo:

As escolas que a mídia esqueceu 


Está chegando o carnaval. Em poucas semanas começa o maior espetáculo da Terra. As escolas estão a todo o vapor realizando seus ensaios de quadra, rua e os técnicos na Sapucaí.

Os barracões preparam suas mega alegorias, e as fantasias que muitas vezes custam mil reais começam a ser entregues. Todos os ingressos mesmo que caríssimos se esgotaram faz tempo e as emissoras de tv, sites, jornais e rádio dão grande destaque ao desfile das escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro.

Mas se engana quem pensa que as escolas de samba resumem-se apenas às treze escolas que desfilarão na Marquês de Sapucaí no domingo e segunda de carnaval. Elas formam a elite do carnaval carioca, mas tem muito mais carnaval e escolas por traz disso.

O carnaval do Rio de Janeiro comporta seis grupos de escolas de samba e quatro grupos de blocos de enredo. 

Os desfiles dessas agremiações acontecem na Marquês de Sapucaí onde desfilam o grupo especial patrocinado pela LIESA, Liga Independente das Escolas de Samba. Grupos A e B desfilam aos sábados e terças de carnaval patrocinados pela LESGA, Liga Independente das Escolas de samba dos Grupos de Acesso e os grupos C, D e E que desfilam na Intendente Magalhães aos domingos, segundas e terças e são patrocinados pela Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro.

Os Blocos têm sua Federação e desfilam entre a Intendente Magalhães e o bairro de Bonsucesso durante os quatro dias de folia. Ultimamente se utiliza o critério de rebaixar a bloco as quatro últimas colocadas do grupo E das escolas de samba e transformar em escola a campeã do especial de blocos.

A realidade dessas agremiações é bem diferente das 'super escolas de samba s/a'. Não tem o glamour do Grupo Especial, seu charme e principalmente suas condições de trabalho e dinheiro. Enquanto as escolas de samba do Grupo Especial têm a cidade do samba para fazer suas alegorias, as escolas e blocos menores têm que se virar a fim de realizar seu carnaval. 

Muitas delas se organizaram e montaram barracões numa área chamada de “Carandiru”, localizada perto da rodoviária no bairro de Santo Cristo. Um lugar complicado de fazer carnaval, sem muito espaço, muitas vezes sem condições mínimas de segurança e conforto, mas é o que elas têm. 

Ou tinham porque a prefeitura abriu processo de retomada - o local faz parte do projeto “Porto Maravilha”. A revitalização da área para as Olimpíadas. 

Como eu falei as condições são mais difíceis para construir o carnaval. A subvenção é bem menor que as escolas do grupo especial e existe uma dificuldade bem maior de arrumar desfilantes. Se em uma escola do grupo especial as pessoas brigam por fantasias de mil reais, em uma escola pequena há dificuldades pra dar fantasia. Sim, de arrumar componentes para desfilar de graça. 

Quem trabalha em escola pequena é porque gosta de carnaval e ama aquela agremiação. O trabalho é tão ou mais árduo que  em uma escola grande, mas a pessoa não recebe nada para fazer: apenas a satisfação e emoção do trabalho feito e ver sua amada escola desfilando. 

Ninguém tem um cargo específico, não há espaço para poses. O presidente da escola carrega sacos de gelo, o diretor de carnaval empurra carros alegóricos, o carnavalesco fica todo sujo ajeitando o carro na avenida (já que invariavelmente há danos no trajeto), o presidente da velha guarda usa sua Kombi pra transportar as crianças ao desfile, o diretor de harmonia leva o lanche pra comunidade...

E o desfile se não é um primor na parte plástica dá um show de emoção, garra, luta, amor, samba no pé. 

Os desfiles na Intendente Magalhães são um barato. Não existe aquela frieza da Sapucaí. Lá é uma mistura de carnaval competitivo com carnaval de rua. 

Vemos as escolas passando ao nosso lado em pé na calçada ou em arquibancadas de madeira. Bate-bolas passam batendo suas bexigas por trás das arquibancadas, as pessoas colocam cadeiras de praia na frente de suas casas com churrasco e isopor com bebidas para ver as escolas passarem. Várias barracas em torno da avenida vendem churrasquinhos, salsichões, sopa de ervilha enquanto suas
TVs passam o desfile das escolas do especial. 

Desfile realizado perto dali, mas às vezes tão longe. 

Com muita honra posso dizer que sou oriundo de escolas pequenas. Apesar de ser da União da Ilha o primeiro samba que compus, tudo que eu aprendi foi no Boi da Ilha, escola que hoje desfila no grupo C e tenho raízes também no Acadêmicos do Dendê, hoje no grupo D. 

Já disse em uma coluna que venci esse ano na União da Ilha e no Dendê e fiquei mais nervoso na hora do anúncio do resultado na segunda escola, apesar da vitória na primeira ser um sonho. 

Não só eu, mas muita gente começou nessas escolas. Elas são verdadeiramente escolas de samba e dão espaço para quem quer aprender. Se você pensa em começar em alguma escola de samba aconselho que comece por uma pequena. 

Têm escolas pequenas que desfilam na Intendente Magalhães que já revelaram muito mais sambistas que super escolas do especial. E essas escolas que estão hoje fora do grupo especial não ensinam ou ensinaram apenas pessoas a se tornarem sambistas. 

Elas ensinaram o samba. O inventaram e lhe reinventaram. 

Só ver na Intendente escolas como Unidos da Ponte, hoje no grupo C a escola esteve por anos no Especial e tem um Estandarte de Ouro de melhor samba do grupo especial, o samba “E eles verão a Deus” (83). 

Nos grupos de baixo encontramos Unidos de Lucas do antológico
“Sublime Pergaminho”, Em Cima da Hora que tem em seu cast “Os Sertões”, considerado por muitos o melhor samba de todos os tempos e outras escolas que passaram ou ficaram um bom tempo no grupo especial como Unidos de Villa Rica, Unidos do Cabuçu, Leão de Nova Iguaçu, Vizinha Faladeira (oriunda dos anos trinta) e muitas outras. 

Chegando um pouco mais acima, no grupo B encontramos a Caprichosos de Pilares, uma das escolas mais queridas do carnaval carioca por sua simpatia e irreverência. Quem nunca ouviu “tem bumbum de fora pra xuxú/qualquer dia é todo mundo nu”. 

No grupo A temos as campeãs do grupo especial Unidos do Viradouro e Estácio de Sá. 

E ele...


... Ele que não é um qualquer, representa a fidalguia e a aristocracia do carnaval. O menino de quarenta e sete é um os maiores vencedores do carnaval carioca, um dos que inventaram o que é hoje o desfile das escolas de samba e dono do maior acervo de samba de enredo do nosso carnaval. 

Como eles mesmos dizem, são patente e só demente que não vê. 

Falo do Império Serrano. 

Grupo especial sem o Império Serrano não é a mesma coisa, simplesmente porque ele deixa de ser especial. Eu vejo o Império, assim como vejo a Portela como uma força da natureza, um Orixá e a impressão que dá quando vejo o especial sem o Império é que falta alguma coisa. 

Império Serrano de Dona Ivone Lara, Beto sem braço, Aluizio Machado, Arlindo Cruz, Roberto Ribeiro, do trem de luxo que parte, que enfeita nossos corações de confete e serpentina, que se embalou pra me embalar, que cantou que Carmem Miranda estava aí, que a sereia morava no mar e brincava na areia. 

O Império Serrano do Pelé do samba de enredo, de Silas de Oliveira que cantou que Brasília tinha seu destaque na arte, na beleza e arquitetura e num lamento pediu liberdade Senhor. 

Agora..fala sério, com tudo isso que eu escrevi. Como são essas escolas, suas batalhas, seu acervo musical e histórico, importância pra cultura de nosso país você ainda pensar que carnaval do Rio se resume a Marquês de Sapucaí eu sinto muito. 


Porque enquanto existir emoção existirá carnaval e emoção nem sempre vem do luxo, mas vem sempre do coração.

  

Nenhum comentário:

Postar um comentário