segunda-feira, 30 de setembro de 2013

UMA ILHA CERCADA DE SAMBAS



 

Como os amigos que acompanham o meu blog e o Ouro de Tolo já sabem eu concorri esse ano na Portela, mas também sou compositor da União da Ilha do Governador.

A União da Ilha nunca venceu um carnaval no grupo especial do Rio de Janeiro, mas mesmo assim é uma agremiação que tem seu lugar na história do carnaval brasileiro. É considerada a escola mais simpática do carnaval, a segunda escola de todo folião e se o Império Serrano é considerado a escola com os sambas mais bonitos, a União da Ilha é a que tem os sambas mais alegres e populares.

A agremiação insulana teve sua época de ouro com seus sambas entre 1977 e 1991 - ainda que tenha grandes sambas fora dessa época como “Lendas e Festas das Yabas” de 1974, Confins de Vila Monte de 1975, “Fatumbi, a Ilha de todos os Santos” de 1998 e “A União faz a força com muita energia” de 2001, mas é da fase que eu falei que vem sua grande história.

Desse período da história vem sambas como o antológico “Domingo” de 1977, seu único samba vencedor do prêmio 'Estandarte de Ouro' de melhor samba do carnaval. O bairro Ilha do Governador só tem esse e mais um prêmio 'Estandarte' em samba: o outro pra meu orgulho é o samba do Boi da Ilha Orun Aye de 2001, do qual sou co autor. 

Os demais sambas da União da Ilha destes "anos dourados" são “O que será” de 1979, “Bom bonito e barato” de 1980, “1910, deu burro na cabeça” de 1981, “Assombrações” de 1986, “Extra! Extra! Deu Ilha na cabeça” de 1987 e “De bar em bar Didi um poeta” de 1991.

Além dos citados, há três sambas que eu não coloquei nessa relação acima porque esses três e “Aquarela brasileira” (Império Serrano de 1964), “Festa para um rei negro” e “Peguei um Ita no Norte” (Salgueiro em 1971 e 1993) e “Das maravilhas do mar fez se o esplendor de uma noite” (Portela em 1981) são sambas que
saíram do carnaval e viraram história da música popular brasileira.

Quem nunca ouviu “como será o amanhã/responda quem puder/o que irá me acontecer/o meu destino será como Deus quiser”? Ou então “Diga espelho meu/se há na avenida alguém mais feliz que eu”? Ou mesmo “eu vou tomar um porre de felicidade/vou sacudir eu vou zoar toda cidade”? 

Esses três são sambas da União da Ilha do Governador: “O amanhã” (1978), com autoria de João Sergio, “É hoje” (1982, reeditado em 2008) com autoria de Didi e Mestrinho e finalmente “Festa Profana” (1989), com autoria de Bujão, J.Brito e Franco.

Didi e Franco são considerados os melhores compositores da história da Ilha do Governador. Os dois têm em comum serem pessoas com alto nível de instrução. Didi formou-se em direito e Franco em medicina e há boas histórias que contarei agora.

Conta a lenda que num dia qualquer de 1977 Didi esperava seu parceiro Aurinho da Ilha, outro grande compositor, em um bar para fazer samba pro concurso de samba da escola. Aurinho se atrasou e Didi com uma caneta pegou um guardanapo e escreveu a letra de um samba. Não gostou muito, achou a letra pequena com apenas dezesseis linhas e deixou de lado. 

Nisso chegou o mestre de bateria da União da Ilha e compositor do Boi da Ilha - então bloco, chamado Boi da Freguesia - João Sergio e perguntou que letra era aquela. Didi deixou que ele lesse e enquanto João lia falou que fez letra para o enredo da Ilha de 1978, mas não tinha gostado, pois a achara pequena. João Sergio gostou e perguntou se podia pegar para ele e fazer melodia. Didi deixou. 

João Sérgio fez a melodia e junto com Miguel Junior, que vinha a ser segundo cantor da agremiação, foi até Didi e mostrou o samba com melodia. Didi ouviu e falou que estava “bonitinho”. João perguntou se ele não queria mesmo o samba e ele respondeu que não, que João poderia usá-lo.

João Sergio então pediu licença da bateria e concorreu, chegando a final com seu samba defendido pelo Miguel. Didi e Aurinho também chegaram com o samba defendido pelo imortal Aroldo Melodia e o terceiro finalista foi outro compositor histórico da escola, Robertinho Devagar. João venceu a disputa e o samba era “O amanhã”, regravado por estrelas da MPB como Simone e outros. Até hoje rende muito dinheiro ao mestre de bateria que acreditou naquela letra. 

Franco, falecido em 2007, era considerado um compositor polêmico. Ele mesmo defendia seus sambas e subia ao palco cantando lentamente na primeira passada sem bateria e marcando a passada batendo com seu tamanco no piso do palco - o que provocava um grande barulho.

Tinha seus rivais como Carlinhos Fuzil, Marquinhos do Banjo e Mauricio 100 que eram compositores do bairro da Freguesia e tinham uma torcida apaixonada chamada “turma do copo”; e Djalma Falcão e Bicudo que representavam a galera da Ribeira. Outro rival de peso era Marcio André, considerado uma 'águia' por seus adversários. Franco quando se apresentava provocava uma mistura de aplausos e vaias e seus desafetos levavam para a quadra uma faixa escrita “Pra ser franco não gostei”.

Na disputa do ano 2000 o samba dele era o favorito, ao lado do lindo samba de Djalma Falcão. Djalma foi até um centro espírita tentar “amarrar” o samba de Franco e o pai de Santo pediu uma letra do samba rival. Djalma entregou e o pai de Santo comeu dizendo que 'o samba estava amarrado'. Alguns dias depois Franco venceu a disputa e Djalma irritado falou “o fdp do pai de Santo comeu a letra errada”...

E na quadra Franco comemorava a vitória e uma faixa amarrada abandonada na quadra dizia “Pra ser Franco continuo não gostando”.

Difícil falar de todos os mestres da União da Ilha do Governador. Didi, Aurinho da Ilha, Aroldo Melodia, Leôncio, Edinho Capeta, Waldir da Vala, João Sergio, Mestrinho, Robertinho Devagar, Dito, Franco, Marcio André, Bujão, J.Brito, Djalma Falcão, Bicudo, Marquinhos do Banjo, Carlinhos Fuzil, Mauricio 100, Almir da Ilha, Gugu das Candongas, Ito Melodia...

São muitas estrelas que fizeram e fazem a história não somente da União da Ilha como das escolas Boi da Ilha e Acadêmicos do Dendê  dos blocos Tribo Cacuia, Unidos de Tubiacanga, Unidos da Colônia, Unidos da Ribeira e os extintos como o Brasinha... Todas agremiações tradicionais e celeiros desses craques. Agremiações culturais com muita história que provocam orgulho no insulano, e, por que não, no carioca.

E eu nisso tudo? Sou um aprendiz... Já tenho história em algumas dessas agremiações, mas ainda tenho muito a aprender, bem como muito a oferecer. Com muito orgulho fiz e  faço parte da ala de compositores da União da Ilha do Governador, ganhei um concurso na escola, 2012, e milito no samba insulano.

Alguns desses que citei acima não estão mais entre nós fisicamente, mas já são imortais, seres míticos de nossa escola. Quando piso na quadra ou no palco eu sinto a presença deles. Homens que com seu talento e paixão colocaram tijolo por tijolo, cimento, areia e construíram uma grande história não só de carnaval, mas de amor.

Amor por um pavilhão e quando apresentamos um samba na escola ou colocamos a roupa pra um desfile nos sentimos orgulhosos por lembrarmos esses homens que fizeram essa ilha ser cercada por samba e talento. 

Salve a União da Ilha do Governador e seus poetas

 

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