sexta-feira, 13 de setembro de 2013

A HORA DA MORTE




Nesse instante  (que escrevo) estou vendo o último capítulo da novela Renascer pelo canal Viva. Produzida em 1993 a novela é conhecida como uma das mais espetaculares já feitas mesmo com os meses que ocorreu nada durante sua exibição.

 O autor, Benedito Ruy Barbosa é conhecido pelos grandes começos de novela, esses meses que ocorre nada (chamados de barriga) e os fins apoteóticos que marcaram a tv brasileira. Renascer não foge disso com o último capítulo dedicado a morte de José Inocêncio, personagem de Antonio Fagundes. Cenas marcantes como o filho João Pedro (Marcos Palmeira) arrancando o facão colocado pelo pai em um pé de jequitibá e o perdão mútuo na hora da morte emocionam qualquer pessoa. Ainda mais uma como eu que se emociona e chora até com comercial de banco.

Essa cena me faz lembrar o fim da novela Pantanal do mesmo autor que tem a morte de José Leôncio, personagem de Cláudio Marzo, a emoção da família, o enterro no mar e o encontro de seu espírito com o do pai que se transformara no “Velho do rio”.

E tome choro. 

Sempre fui sensível com cenas emocionantes de filmes, novelas e de 2005 pra cá fiquei mais. Desde que minha mãe morreu e mal ou bem passei por cena parecida com essas. Não teve diálogo, pedido de perdão mútuo (graças a Deus nunca precisamos disso), não teve um “eu te amo” final (não em palavras), mas teve uma despedida.

Despedida que já contei aqui. Eu no hospital segurando a mão dela bastante inchada, ela me olhando com jeito assustado, arfado sem ar e enquanto eu ia embora a enfermeira a olhou e comunicou a outra que iria pedir sua transferência.      

Ali foi a despedida, horas depois ela morreu.

Cenas de morte me lembram essa, cenas entre pais e filhos com morte me lembram mais ainda, depois que tive filhos então..

E mesmo sendo relativamente novo, com 37 anos, e a princípio ter uma boa saúde penso sim nesse assunto, na morte, até com certa frequência.

Não sou hipocondríaco. Não sou do tipo que aparece uma doença nova e acha que está com ela, mas tenho um lado sombrio sim. Não acho que vou envelhecer, algumas vezes no passado até se valia a pena, mas com as chegadas de Bia e Gabriel pelo menos essa fase acabou, além do que sou cagão e só de passar por alguma situação que possa parecer que estou em risco me “pelo”. 

Mas tem algo sombrio sim, algo estranho.

Desde pequeno penso na minha morte, com quantos anos e como ela será. Já ouvi falar que o ser humano é o único que sofre porque é o único que sabe que morrerá um dia e quando pequeno, nos meus seis ou sete anos de idade, perdi o sono algumas vezes pensando nisso.

Parava pra pensar e a conclusão “Caramba, vou morrer um dia” assustava. Como será que é? Dói? Dá desespero? Vou sofrer antes disso? Um dia vou sofrer um acidente? Um câncer? Infarte?  É, pensava isso criança. Pra vocês verem..

Dormia no quarto da minha mãe, ela me percebia chorar baixinho e perguntava o que ocorria. Eu respondia e ela vinha pra minha cama, me dava beijos e dizia que eu era muito pequeno pra me preocupar e que de repente quando eu ficasse velho até teriam inventado alguma vacina contra a morte.

Cresci, não inventaram ainda nem vacina contra a AIDS e minha mãe não está mais aqui. O fato dela não estar mudou completamente a minha vida. Se alguém me perguntar se sou feliz vou responder que não sei. Tenho momentos felizes evidente, mas não sei dizer exatamente se sou feliz.

A morte dela me deixou um buraco, um vazio na alma que foi amenizado pela chegada dos filhos, mas não tampado. Depois que ela morreu errei em duas conclusões que tive. Uma que eu achei que a dor seria muito profunda por um bom tempo. Foi no começo, mas logo perdeu essa profundidade e deu pra dar belas gargalhadas e ter grandes momentos depois do falecimento. Tive esses tais momentos felizes que eu disse acima até de certa forma rápida, coisa que não imaginava.

Mas não esperava que o vazio ficasse tanto tempo. Achei que teria esse bom momento de luto, mas depois ficaria tudo bem. Nunca mais ficou totalmente bem. O sorriso sai, mas de forma mais difícil. Me tornei mais introspectivo, na minha e me isolei mais, por vontade própria.

Como eu disse, realmente não acho que vá envelhecer e mesmo esse envelhecer não sei identificar o quanto é. Verei meus netos? Não sei, a Bia nasceu e eu já tinha trinta e dois anos. Queria ver, mas se não der queria pelo menos ver os dois grandes.

Até porque sei que precisam de mim e mesmo sabendo que é inevitável queria que demorasse a que eles passem o que passei e passo.

Pelo menos eles terão um ao outro e tem uma família próxima. Quando ocorrer isso amenizará a dor.

Dor..Dor que como pai sinto, por exemplo, quando vejo foto do Champignon com a filha. A menina de sete anos ficou sem o pai, disseram a ela que ele sofreu um ataque cardíaco, mas um dia ela saberá a verdade. Como ficará a cabecinha dessa menina crescendo sem seu pai? Seu companheiro? Essas coisas dão aperto no coração porque logo penso na Bia que me tem hoje como companheiro.

Não tiro o direito do suicida, cada um sabe o tamanho de sua dor e o quanto pode suportar, ninguém deve carregar uma cruz maior do que pode. Mas também acho que por mais que doa não podemos devastar outras vidas. É egoísmo, covardia.

Sim, a vida pertence a cada um, até o momento que outras vidas dependem dela.  

Papo brabo né? Sombrio, mas a vida nem sempre são flores.


Nem sempre o final da novela é feliz, então que pelo menos o recheio dela não tenha barriga.

 

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