segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O SEQUESTRO


*Conto da coluna "O buraco da fechadura" publicado no blog Ouro de Tolo em 5/1/2013


Vânia era uma moça inteligente, bonita e batalhadora. Jovem com vinte e dois anos de idade, no último ano de medicina na UFRJ e trabalhava na clínica do pai. Tinha sonho de ser pediatra, tratar e cuidar de crianças, assim como o sonho de ser mãe.
Era noiva de Vinicius há dois anos, de namoro cinco. Os dois eram coleguinhas de maternal e cresceram juntos, eram melhores amigos e com o tempo descobriram o amor. Vinicius foi seu único homem, era seu único amor e a moça sonhava com o dia do casório que se aproximava.
Era feliz, o que mais importava.
Wallace era um rapaz com vinte anos que não teve a mesma sorte que Vânia na vida. Não conheceu os pais sendo largado em um orfanato ainda bebê, fugiu com oito anos depois de ninguém querer adotá-lo e foi viver nas ruas.
Lá comeu o pão que o diabo amassou. Sofreu, foi humilhado, conheceu a miséria, a violência e acabou aprendendo a cartilha da maldade. Tornou-se bandido, assassino, com quatorze já estava ma FEBEM.
Fugiu um ano depois, foi recapturado, fugiu, assim foi sua vida até os dezoito anos quando foi liberado. Continuou na marginalidade trabalhando no tráfico de drogas de uma favela. Mas caiu no vício e graças a ele criou uma dívida na boca de fumo. Teria que pagar senão morreria.
Vidas muito diferentes que acabaram se cruzando.
Faltava uma semana para o casamento de Vânia, já era noite e ela decidiu fazer uma surpresa ao amado. Passou em uma loja comprando uma lingerie nova para esperar Vinicius em sua casa.
Tinha cópia da chave de casa do rapaz e entrou sem que ele estivesse lá. Tirou a roupa e ficou apenas com a lingerie. Deitou no sofá com uma garrafa de champanhe só esperando que o noivo chegasse.
Depois de um tempo ouviu uma chave mexendo na porta e ansiosa esperou Vinicius entrar. Quando ele abriu a porta quem teve a surpresa foi ela. Vinicius completamente bêbado entrou aos beijos com uma mulher.     
Vânia estarrecida viu a cena e perguntou o que significava aquilo. Vinicius não sabia o que explicar, não tinha que explicar e tentou a jogada clássica “não é isso que você está imaginando”. Vânia chorando colocou a roupa, deu um tapa na cara do noivo e foi embora.
Wallace teve o barraco invadido por traficantes que perguntaram pelo dinheiro devido. Wallace tentou argumentar que não tinha ainda, mas iria arrumar. Tomou um soco violento no rosto e teve arma apontada para ele exigindo a grana. Wallace chorando insistiu que não tinha e os traficantes deram até a manhã do dia seguinte para que arrumasse senão morreria.
Wallace foi para a rua desesperado por dinheiro.
Vânia foi pra rua desesperada com a traição.
Aí começava a história...
Vânia dirigia pela rua chorando quando seu celular tocou. Era o pai perguntando se ela poderia levar seu remédio, que esquecera de comprar. Vânia respondeu que tudo bem e logo estaria em casa. O pai perguntou se estava tudo bem com ela e a moça respondeu que sim, só estava gripada.
Wallace desceu a favela com uma arma na cintura e sabia que teriaque arrumar um bom dinheiro. Teria que praticar um assalto. Percorreu vários bairros da cidade sem achar alguém ou um estabelecimento para isso.
Vânia encontrou uma farmácia aberta e entrou.
Wallace andou, andou, encontrou uma farmácia aberta e viu ali a chance de pegar esse dinheiro.
Entrou na farmácia, a mesma farmácia de Vânia.
Vânia pediu o remédio, recebeu e deu uma volta pelo interior da farmácia procurando cosméticos. Já eram altas horas e a moça era a única cliente no local.
Wallace ao entrar viu a loja vazia e foi direto no atendente. Discretamente foi até o rapaz que estava no caixa, sacou o revólver e mandou que ele desse tudo que estava na registradora. O atendente muito nervoso abriu a registradora, recolheu o dinheiro entregando tudo na mão do bandido.
Wallace rapidamente contou o dinheiro e viu que não tinha nem metade do que ele precisava. Perdeu a cabeça e gritando exigiu que o rapaz lhe arrumasse mais dinheiro senão lhe mataria. O atendente chorando desesperado argumentava que aquele era todo o dinheiro e Wallace gritava “se vira pra não morrer!!”.
Naquele instante Wallace ouviu um barulho de vidro caindo no chão. Olhou para lado e viu Vânia paralisada com aquela cena. Ela tinha deixado um vidro de perfume cair no chão.           
Wallace e o atendente pro alguns segundos olharam Vânia que também não conseguia esboçar nenhuma reação. Depois daquele silêncio cortante Wallace coçou a cabeça e disse “tem jeito de riquinha, pode ser minha salvação”.
Deixou o atendente de lado pegando Vânia pelo braço que gritava por socorro.
Antes que o atendente esboçasse alguma reação Wallace deu um tiro no teto da farmácia e gritou que ele nem pensasse em fazer nada senão morreria. Apertou o braço da moça com mais força e os dois saíram.
Vânia chorava em desespero e Wallace tenso gritou perguntando qual era o carro dela. Vânia apontou e o homem mandou que ela abrisse as portas. Abriu, Vânia sentou ao volante e Wallace no carona com a arma apontada para sua barriga mandou que ela desse a partida que passeariam pela cidade.
Vânia muito nervosa, chorando e rezando a Deus por sua vida dirigiu pelo Rio de Janeiro com Wallace não menos nervoso dando ordens. Viu um banco eletrônico e mandou que ela parasse.
Desceram e do lado da moça Wallace mandou que ela “raspasse o cofre”. Vânia tirou tudo o que tinha na conta e entregou na mão do bandido. Irônico Wallace falou que eles começaram bem e voltaram pro carro.
Foram a mais três bancos eletrônicos e todo o dinheiro da conta foi tirado na mesma situação. Voltaram ao carro e Vânia dirigia contando que não tinha mais dinheiro em conta nenhuma pedindo para ser liberada. Wallace respondeu que ainda iria decidir o que faria com ela e que quem mandava ali era ele, ela só obedecia.
O telefone tocou e Wallace mandou que Vânia atendesse sem mostrar nervosismo. Ela atendeu e era o pai. Contou que estava tudo bem, encontrara amigas na rua e por isso se atrasara, mas que em instantes estaria em casa, desligando.
De forma irônica Wallace cumprimentou a moça e disse que ela poderia ser atriz. Vânia só chorava e não conseguia ver nenhuma graça naquela situação.
Percorreram mais ainda pela cidade acabando por ser afastaremdos lugares mais movimentados. Entraram em um local escuro, esmo apenas com matagal em volta e Wallace mandou que ela parasse.
Vânia perguntou porque ali e o homem gritou que ela não discutisse suas ordens e parasse.
Ela parou e Wallace mandou que descesse.
Os dois desceram, andaram por dentro do matagal e Wallace mandou que Vânia parasse e virasse pra ele. A menina virou, olhou e ele ordenou “tira a roupa”.
Vânia chorando implorava que ele não fizesse isso, mas Wallace engatilhou o revólver e gritou que tirasse senão ela morreria. Vânia chorando muito acatou a ordem e começou a desabotoar a blusa. Na hora de tirar, apenas com sutiã por baixo Wallace pediu que esperasse.
Chegou próximo da moça e notou uma correntinha em seu pescoço. Pegou na imagem e disse “é Nossa Senhora” Vânia confirmou e Wallace, devoto da santa, tomado pela força da mãe de Cristo mandou que Vânia se vestisse.
Os dois voltaram ao carro. Wallace abriu o porta malas e pediu que Vânia entrasse que ele assumiria de lá. Sem dizer nada ela entrou, o bandido fechou o bagageiro e saiu com o carro.  Entrou na favela, amarrou Vânia em seu barraco e foi até a boca com o dinheiro.
Entregou a grana pro chefe do tráfico que contou e viu que o dinheiro conferia, era o da dívida. Wallace perguntou se ele estava liberado e o traficante respondeu “quase” dando um soco em seu rosto. Todos os traficantes bateram e chutaram Wallace que foi barbaramente agredido.
Voltou ao barraco todo machucado, sangrando e Vânia se assustou perguntando o que acontecera. Wallace respondeu que fora pagara dívida que causou aquele sequestro. Vânia se ofereceu pra ajudar, fazer curativos nele jurando que não iria aproveitar pra fugir.
Wallace aceitou dizendo que não tinha nada a perder e soltou Vânia. Ela arrumou esparadrapo, gaze e metiolate fazendo curativos no bandido. Ele perguntou porque a moça o ajudava depois de tudo que ele fez e Vânia respondeu que era da sua profissão, ajudar os outros.
Wallace chorou o que provocou espanto na mulher. Ele no meio do choro contou que não queria ser daquela forma, não queria ser bandido, queria ser um homem de bem, mas só conhecera a dor e a maldade na vida e precisava urgentemente daquele dinheiro para ficar vivo, não lhe faria mal.
Vânia lembrou o que bandido iria lhe estuprar e Wallace pediu desculpas argumentando não saber o que deu nele e Nossa Senhora impediu que aquilo ocorresse. Vânia falou que ele devia gostar mesmo da santa e o homem respondeu que foi a única mãe que conheceu.
Vânia suspirou e comentou que antes de ocorrer o encontro deles a noite dela também não estava nada boa. Pegara seu noivo com outra mulher. Wallace lamentou o ocorrido e disse que aquilo devia ser uma barra, Vânia respondeu que sim, mas nada comparado ao que aconteceu depois.
Wallace novamente pediu desculpas, entrou no quarto e voltou com uma sacola. Tirou dinheiro de dentro dele e entregou a Vânia dizendo “pega”.
Ela perguntou o que era aquilo e Wallace respondeu que não precisara de todo o dinheiro pra pagar a dívida então devolvia o que sobrou.
Vânia agradeceu e Wallace contou que ela estava liberada. Iria levá-la até o lado debaixo do morro porque ali era muito perigoso para uma riquinha como ela descer sozinha.
Desceram de carro e já no asfalto Wallace saiu do carro. Debruçado na janela do motorista pediu novamente desculpas a Vânia e aconselhou que ela não voltasse com o noivo que ele não merecia.
Naquele instante apareceu um carro da polícia, um dos policiais tinha um retrato falado na mão do assaltante que roubou uma farmácia e levara uma refém e reconheceu Wallace.
Apontou a arma e gritou “parado aí” Wallace se assustou e saiu correndo tomando um tiro mortal pelas costas e caindo na rua.
Vânia saiu do carro correndo para perto do corpo, populares também correram pra ver e quando ela chegou perto viu o homem caído e o sangue saindo de seu corpo. Fez uma oração e saiu do local passando pelos populares.
Entrou no carro e ligou para o pai dizendo que estava levando seu remédio partindo então para longe daquele inferno.
E assim Wallace e Vânia se afastavam novamente.
Cada um com sua história e seu mundo.

 

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