segunda-feira, 23 de setembro de 2013

EU, ELA E OS SMURFS




Vinha prometendo há tempos para Bia levá-la ao cinema, mesmo ela não sabendo ao certo o que era um. A única referência que ela tinha de um cinema era o clip Thriller do Michael Jackson que eu cansei de dizer aqui que ela adora e tem um trecho que o Michael estava com a namorada vendo filme e comendo pipoca.

Quero passar para a Bia as mesmas coisas que recebi quando criança. Então quando soube que tinha um circo na Ilha aproveitei que era seu aniversário e levei. A experiência não foi tão boa assim, confesso, mas pouco por culpa dela.

Os circos de hoje são bem diferentes. Não tem animais e mesmo achando bonitos os números com eles concordo, lugar de animal não é em jaula e o circo era pequeno. Não era aquele picadeiro enorme que eu me acostumara e vemos em filmes.

Era um circo pequeno. Com cadeiras em frente a um palco onde o dono do circo, um palhaço, acho que esqueceu que era um show para crianças e resolveu fazer um stand up. Poucos números e muito falatório.

Resultado. As crianças mais velhas até se divertiram. Mas a minha Bia, uma espoleta de quatro anos, aturou um pouco e da metade pro fim já pedia para ir embora e ficava andando pelo pequeno circo me dando trabalho.    

Passando por essa experiência me perguntava. Valia a pena levar ao cinema?

Passei os meses dizendo para ela que levaria e fazendo propaganda de como era legal. A Bia tem um bom poder de concentração quando algo lhe interessa. Vê vários vídeos no meu computador e cansou de ver o filme da Alice em sua tv já que a mãe gravara. Mas cinema era um desafio.

Desafio que aumentava quando lembrava que não era um desafio barato e se ela quisesse sair com cinco minutos eu tomaria um baita prejuízo.

Vi na internet a estreia do filme Os Smurfs 2. Um filme que era mistura de filme e desenho, colorido. Pensei e cheguei a conclusão que era a chance.

Perguntei se ela queria ir, Bia topou e falei que levaria no dia seguinte.

Depois que disse que levaria aquilo virou certeza, porque procuro cumprir tudo que digo a ela. Quero que ela confie na minha palavra desde pequenina.

Chegamos antes das 14 horas, ainda faltavam quinze minutos para começar a sessão e aí se iniciava a minha preocupação. Bia não sabe ficar parada. Começou a andar pelo local perguntando se iria demorar e pediu para ir aos brinquedos em vez do cinema. Olhei sério para ela e falei “Você prometeu se comportar”. Geralmente isso basta, quando não basta toma tapa no bumbum.

Sim “modernosos”, ela topa tapa no bumbum. Não conheço ninguém que virou delinquente porque tomou tapas, muito pelo contrário e eu tomei muitos e nem por isso deixei de amar minha mãe.

Finamente a entrada foi liberada. Comprei pipoca, refrigerante, prometera uma farra lá dentro e perguntei se ela queria ir ao banheiro, respondeu que não.

Entramos na sala e a Bia se impressionou como eu esperava. Disse que nunca tinha visto uma televisão tão grande. Sentamos na cadeira e ela se amarrou naquela cadeira acolchoada pulando várias vezes em cima. Enquanto eu ajeitava os comes e bebes ela pediu pra mudar de lugar. 

Tinha umas oito pessoas no cinema, mas adulto chato que sou falei que era lugar marcado e não podíamos. Insistiu a beça até que mudamos. Ao sentarmos nos lugares novos ela virou pra mim e pediu “Vamos mudar de novo?”.

Assim foram umas cinco vezes até que dei um basta e falei “É aqui e come sua pipoca!”. Alguns segundos depois ela reclamou “Ta demorando”. Acalmei dizendo que já iria começar e pensei no meu prejuízo iminente.

Começaram os trailers. Ela riu e eu me senti esperançoso, quem sabe ela não fica meia hora pelo menos? O filme começou e eu vi que minha aposta tinha sido boa. Ela adorou aquele monte de seres azuis pequenininhos e quando percebi estava gargalhando.

Fiquei feliz lembrando de minha infância e como eu gargalhava com filmes infantis enquanto minha avó roncava ao lado.

O tempo foi passando e a Bia se comportava muito bem prestando atenção no filme. Eu também prestava atenção e até que ele era interessante. Depois da metade do filme ela se levantou e sentou na cadeira em frente a minha como uma adulta que foi ao cinema.

Na reta final do filme me pediu para ir ao banheiro. Lembrei que perguntara antes se ela queria ir e Bia me respondeu “Mas deu vontade agora”.

Entrei com ela no banheiro masculino mandando que ela entrasse com os olhos fechados (Nem precisava, tinha ninguém). Fiquei na porta e ela gritou “Acabei”. Abri a porta e voltamos à sala.

O filme chegava próximo do fim e eu já me sentia vitorioso quando novamente ela pediu para ir ao banheiro. Respondi que o filme já estava acabando e se saíssemos não viríamos o fim. A pobrezinha ficou em pé apertando a calcinha e fiquei com pena. Mas perderia o fim? Como fazer?

Peguei o copo vazio de refrigerante e disse “vai ao cantinho e faz dentro”. Ela se espantou e perguntou se podia, respondi “Não, só agora”. Ela foi e voltou com sorriso de quem fez arte.

O filme acabou. Como prêmio pelo ótimo comportamento levei nos brinquedos, lanchamos e fomos para casa com ela cantando a música do filme e dizendo que adorou a smurfete. Quando reparei estava dormindo em meu ombro.

Sabem qual nome dei àquela tarde? Cumplicidade. É assim que se cria companheirismo. Assim que se cria amor.


Outro dia ela me cobrou quando levaria ao cinema de novo. Acho que a cultura ganhou uma nova seguidora. Que bom.

 

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