domingo, 29 de janeiro de 2012

Capítulo VI - Começando a acontecer

Depois do baile os dois pombinhos ficaram abraçados na praia do Bananal, perto da Pedra da Onça para ver o Sol raiar.

Entre beijos conversavam sobre a noite que se conheceram. Noite que Lucas “roubou” a música de Mayara.

Lucas rindo contou que assim que viu a moça olhando pra ele da platéia se apaixonou, foi a primeira vista. Mayara rindo respondeu que com ela também foi assim, se apaixonou ao olhar pro palco.

Foi a vez de Lucas rir e não acreditar, afinal a moça no começo nem olhava pra ele e lhe deu muitos cortes. Mayara sorrindo nos braços do amado explicou que olhou pro palco gamou de cara e ficou louca com ele cantando e dando passinhos, mas tinha que se fazer de dificil, ele que tinha que investir.

Lucas sentiu ironia no comentário de Mayara. Levantou e olhando pra amada contou que dançava muito bem. Mayara gargalhou e Lucas começou a dançar na areia com ela rindo, gargalhando muito e aplaudindo.

Lucas sentou novamente, abraçaram-se e beijaram-se novamente. Depois Lucas com um jeito mais sério perguntou a sua amada como seria dali pra frente. 

Mayara contou que teriam que casar. Lucas olhou espantado e ela riu.

Mayara então completou que seria tudo como os dois quisessem, sem interferência de ninguém. Lucas se lembrou da diferença social dos dois e a moça perguntou que diferença e se Lucas a achava muito pobre pra ele.

Lucas riu e a menina lhe beijou.

O que importava era que os dois estavam apaixonados e nada iria interferir.    

E assim começou a relação deles e de Léo com Jussara, uma linda multata do morro do Dendê e passista da União da Ilha. Com apenas algumas semanas de namoro os dois já moravam juntos e Léo anunciou a gravidez da moça. 

Chegaria o primeiro herdeiro.

Lucas ainda não pensava nisso, apenas em namorar Mayara e enfrentar sua família. Mayara anunciou aos pais que estava namorando e eles quiseram conhecer o rapaz.

Marcaram o encontro em um restaurante chique.

Lucas chegou com Mayara enquanto os pais já esperavam. O pai de Mayara se espantou ao ver o rapaz e quando Lucas estendeu a mão ele apertou e perguntou “você não é o rapaz que trabalhava na obra de minha casa?”.

Lucas constrangido respondeu que sim e sentou-se. Estranhou aquele monte de talheres à mesa, de copos e o nome das comidas. O garçom chegou e perguntou o que os presentes queriam. Os pais de Mayara pediram pratos com nomes chiques, daqueles com nomes estrangeiros e impronunciáveis.

O garçom virou para Lucas e perguntou o que ele queria. O rapaz constrangido olhava o garçom sem saber o que responder e Mayara se antecipou pedindo filé com fritas, arroz, feijão e ovo.

O garçom fez cara feia, mas anotou o pedido. Ao olhar novamente para Lucas e o rapaz abriu um sorriso dizendo que queria o mesmo.

O garçom se afastou e Mayara deu uma piscada pro namorado que sorriu.     

O jantar foi em silêncio, aqueles silêncios ruidosos, contrangedores. No fim Lucas pediu licença e foi ao banheiro, era o momento que os pais de Mayara queriam.

O pai perguntou a filha que palhaçada era aquela enquanto a mão se abanava e falava que estava passando mal. Mayara cheia de personalidade respondeu que aquele era seu namorado e que eles respeitassem sua escolha.

O pai revidou que não toleraria aquela relação e que esperava que Mayara terminasse. A moça olhando nos olhos do pai respondeu que não terminaria e que se Lucas quisesse casava com ele e morava na favela.

A mãe botou a mão na cabeça como se fosse desmaiar e o pai engoliu em seco. Naquele momento Lucas voltou e com seu sorriso peculiar perguntou se algo ocorria.

Mayara rapidamente levantou e falou para Lucas que estava na hora deles irem e que ele não se preocupasse que o pai pagaria toda a conta.

Olhou para os pais mandando beijo enquanto Lucas acenou e foram embora deixando o casal na mesa de queixo caído.

Do lado de fora andavam em direção ao carro e Lucas comentou com a namorada que os pais não gostaram dele. Mayara retrucou que era só impressão, inclusive o pai comentou que queria ir ao próximo baile no Dendê vê-lo cantar.

Lucas riu e ao entrar no carro da namorada contou à ela que no fim de semana seria sua vez de conhecer a família dele no jantar de noivado de Jéssica. Mayara respondeu que seria um prazer, mas Lucas foi logo contando que o cardápio seria muito diferente do restaurante.

Mayara olhou Lucas, sorriu e respondeu que ele estando no cardápio estava ótimo. Deu um beijo no namorado e partiu com o carro.

No dia seguinte Léo e Lucas entraram em estúdio para a gravação de sua faixa no cd de DJ Mustang. Além do dinheiro essa gravação fazia parte do prêmio do concurso que venceram.

Lucas e Léo entraram maravilhados no estúdio. Nunca haviam entrado em um e lá conheceram a mesa de som, o aquário onde os cantores gravam e toda a estrutura do local. DJ Mustang e o operador da mesa contaram aos dois como seria todo o esquema de gravação.

Eles gravariam “O sonho”, a música que venceu o concurso e o cd seria vendido nos bailes que contavam com a participação da caravana de Mustang.

Os dois entraram no aquário e Mustang no microfone do outro lado do vidro mandou que eles relaxassem e fizessem o de sempre.

Mas a dupla não estava acostumada com gravações, toda aquela parafernália que elas envolvem e se enervaram. Não conseguiam entrar na música e quando entravam erravam o tom, desafinavam, a voz estava presa.

Mustang mandava que eles se acalmassem e fixassem a mente em coisas boas, que gostassem para o trabalho andar. Nesse momento Mayara pediu licença e entrou na sala de operação do som.

No aquário Lucas viu a namorada e abriu um sorriso. Sorriso aberto também por Mustang ao lado de Mayara e falando no microfone com os rapazes que agora tinha certeza que eles renderiam.

E foi assim. Lucas entrou no clima e começou a cantar como sempre, isso ajudou Léo que acompanhou o amigo e os dois conseguiram gravar.

No fim Mustang aplaudiu, disse que estava perfeito e que Mayara não podia mais desgrudar de Lucas.

O fim de semana chegou e com ele o noivado de Jéssica. Lucas todo orgulhoso foi buscar a namorada e entrou na casa em que morava de mãos dadas com ela. 

Balão olhou como se estranhasse a cena e Jurema para cortar foi logo na moça dando boas vindas.

Jonas aproveitou e foi junto cumprimentar Mayara e ela respondeu que se lembrava dele de sua casa trabalhando. Jéssica se aproximou e se apresentou. 

Mayara deu beijo no seu rosto e deu parabéns pelo noivado, também a Rubens, seu noivo.

Assim Jurema, Balão, Lucas, Mayara, Jonas, Jéssica, Léo, Jussara, Rubens e seus pais sentaram à mesa para comer a deliciosa feijoada de Jurema. Do jeito que só ela sabia fazer.

Balão não parava de olhar Mayara o que contrangia todos na mesa. De repente ele riu e falou que imaginava que a moça nunca comera feijoada na vida, nem estado em uma favela.

Mayara respondeu que sempre comia feijoada na União da Ilha, frequentou também a da Portela e trabalhou um tempo em uma ONG na favela da Rocinha.

Balão sorriu e de forma irônica comentou que era bacana a menina se preocupar com causas sociais. Mayara sorriu e continuou comendo e Balão perguntou que já que ela frequentava a União da Ilha se já tinha ouvido falar nele.

Mayara respondeu que não e Balão contou que era o melhor compositor da história da União da Ilha, autor de sambas memoráveis e cantarolou Mayara restringiu a responder que era bacana.

Antes que Balão começasse a falar de suas parcerias mirabolantes e que venceria o concurso desse ano Jurema perguntou ao filho como foi a gravação da música.

Lucas começou a responder que foi boa e foi interrompido pelo pai que entre uma garfada e outra disse que funk não era música, era ruído. Tinha letras horríveis, só falavam em sacanagem e ninguém sabe cantar direito.

Disse e apontou para Lucas falando “inclusive esse aí que não sei o que você viu nele”.

Antes que Lucas tentasse falar algo Mayara se antecipou e respondeu que o namorado tinha muito talento. Balão riu e antes de tomar um gole de cerveja respondeu “é.. muito talentoso, igual o irmão que tá na cadeia”.

Apesar de Balão tentar estragar o clima o jantar de noivado correu muito bem e Mayara adorou a família de Lucas e Rubens. Jurema também gostou muito de Mayara e no fim da festa já mostrava fotos de criança de Lucas para a nora enquanto Balão bebia.

No fim da festa Lucas levou a namorada até o carro. Ofereceu-se para levá-la em casa e Mayara respondeu que não precisava já que ele teria que voltar de ônibus. Deram um beijo e se despediram com a moça partindo.

Assim que Mayara partiu Lucas percebeu uma gritaria dentro de casa. Eram seus pais discutindo. Entrou correndo.

Entrou e viu o pai batendo na mãe. Nesse momento correu e se meteu entre os dois empurrando o pai dizendo que ele nunca mais tocaria em sua mãe e que ele era um verme imundo.

Balão riu e perguntou se o filho iria brigar com ele. Lucas respondeu que se fosse preciso iria sim. Olhou para trás e viu a mãe sangrando no rosto. Pegou em seu braço e disse que aquela história não ficaria assim.

Jurema chorando respondeu que bastava de tantos anos de humilhação e pediu ao filho que a levasse na delegacia para prestar queixa. Balão percebeu a confusão que se metera e falou que aquilo não era necessário.

Novamente Jurema pediu que Lucas a levasse e ele concordou levando.

Foram até a delegacia e prestaram queixa. Na volta pra casa Balão pediu perdão, mas Jurema respondeu que viveu toda sua vida apenas lhe perdoando e não podia mais e que ele fosse embora. Nesse instante Jéssica e Jonas apareceram com uma mala na sala, era do pai que Lucas por celular pediu que os irmãos fizessem. 

Balão espantado com toda aquela reação pegou a mala e respondeu que não tinha para onde ir. Jurema contou que ele tinha irmão ali na favela, o Brito e poderia ir pra casa dele, mas lá não ficaria mais.

Balão com a mala na mão olhou para a mulher com cara de cachorro que caiu da mudança e foi embora.

Assim que ele saiu Jurema caiu em um choro compulsivo sendo abraçada pelos filhos. Lucas disse que a mãe precisava descansar e a levou para o quarto.

Deitou com a mãe na cama e a abraçou como ela fazia com ele quando era pequeno e tinha medo de dormir. Aos poucos o choro da mãe foi diminuindo até que ela adormeceu. Lucas então lhe deu um beijo na testa e saiu do quarto.

Do lado de fora com lágrimas nos olhos pediu a Deus que olhasse por sua mãe e por seu pai.

Apesar de tudo Lucas amava seu pai.

Nesse ritmo a vida continuou e Lucas e Léo começavam a se destacar na caravana. O cd vendia bem e eles conseguiam ganhar um dinheirinho. O espaço deles era cada vez maior e “O sonho” fazia grande sucesso nos bailes.

Lucas aproveitava pra compor e compôs mais uma música dessa vez uma mais romântica, estilo de seus ídolos Claudinho e Buchecha e mostrou a Mustang.

Mustang ouviu e gostou muito da música, ela tinha jeito de “hit” e Lucas contou que queria gravar. Mustang respondeu que não gravaria agora, mas Lucas retrucou que nem que pagasse ele queria gravar e mandar pra programas de funk das rádios.

Mustang riu e contou que não era tão fácil assim tocar em rádio, muitas vezes tinha que pagar “jabá”. Jabá é o nome dado para propina que algumas vezes artista ou empresário tem que dar para que uma música toque.

Lucas não se deu por vencido e disse que queria tentar. Mustang elogiou a determinação do rapaz e respondeu que tudo bem, ele ajudaria a pagar o estúdio.

Assim Lucas e Léo entraram novamente em estúdio, dessa vez para gravar “Momentos”.

MOMENTOS

Nossa vida é uma grande mentira
Somos os reis da hipocrisia
Eu e você, você e eu
É namoro ou amizade
Verdade ou falsidade
Confesso que eu não sei explicar
Mas vou tentar

A gente vai, a gente vem
Vamos definir logo meu bem 

Não quero viver só de momentos
Qual de nós vai resistir mais tempo
A esse amor que nos abalou
Como vou explicar pro meu coração
Essa nossa louca relação
Eu quero mais
Não é pedir demais       

Suba no palco minha estrela
Faremos só o que nos der na telha
Vem fazer amor minha princesa
Rio, Nova York e Japão
Vamos incendiar com a nossa paixão
Essa canção dedico a você

A gente vai, a gente vem
Vamos definir logo meu bem

Não quero viver só de momentos
Qual de nós vai resistir mais tempo
A esse amor que nos abalou
Como vou explicar pro meu coração
Essa nossa louca relação
Eu quero mais
Não é pedir demais       


Uma música mais elaborada que “O sonho”, mais melodiosa, com mais jeito de sucesso.

Lucas e Léo tinham meia hora em cada caravana pra cantar, escolhiam “O sonho” e quatro funks famosos para apresentar, mas com a gravação de “Momentos” tiraram uma das famosas e incluíram a canção.

A música se tornou um grande sucesso nos bailes e fez de Lucas e Léo os N°1 da caravana de Mustang.

O casamento de Jéssica chegou e o Dendê todo comentava aquele que era o grande evento do mês. Igreja cheia, muitos comes e bebes graças a família de Rubens que tinha um pouco de condição.

Apesar de evangélicos resolveram também casar na igreja católica para agradar Jurema.

Jéssica experimentava o vestido linda de morrer enquanto Jurema ajudava e Lucas e Mayara assistiam.

Mayara comentou baixinho com o namorado pelo pai deles e Lucas respondeu que estava preocupado com isso. Ela então perguntou se não era bom ele ir atrás do pai para que ela levasse a filha ao altar.

Lucas respondeu que era uma boa idéia. Levantou, disse a irmã e a mãe que iria ver sua roupa e saiu.

Foi na casa de seu tio Brito. Esse já estava arrumado para o casamento e disse que não tinha notícias de Balão. Lucas preocupado começou a percorrer a favela atrás do pai e que a irmã não entrasse sozinha na igreja.

Foi logo procurando pelos bares do morro e não achava o pai. Procurou em todos e nada até que os soldados do tráfico rindo contaram a Lucas que o pai dele estava caído perto do valão de tanto beber.

Lucas foi correndo ao valão e lá encontrou o pai literalmente na sarjeta. Pegou pelo braço e disse a Balão que Jéssica casaria naquela noite e ele tinha que estar presente.

Balão não conseguia falar coisa com coisa e foi levado por Lucas até a casa de Léo.

Léo abriu e perguntou o que ocorria. Lucas respondeu que precisava de ajuda para despertar o pai. Enquanto Lucas se enfiava com Balão embaixo do chuveiro com água gelada para tentar despertá-lo Jussara preparava café forte.

Lucas forçou o pai a tomar o café e Balão melhorava aos poucos. Balão perguntou por que o filho fazia tanta questão que ele fosse ao casamento já que lhe odiava.

Lucas respondeu que não odiava o pai, ele que odiava o mundo.

O rapaz foi até em casa e com ajuda de Jonas sem ninguém perceber pegou o terno que alugara pro pai e levou até a casa de Léo.

Na casa do parceiro Lucas ajudou o pai a se vestir. Balão ainda se recuperava da bebedeira e já sentia os efeitos da ressaca com dor de cabeça.

Na entrada da igreja Jéssica vestida de noiva ao lado de Jurema e Mayara perguntava pelo pai. Olhava com lágrimas nos olhos pra mãe perguntando se o pai teria coragem de não conduzi-la ao altar e nem Lucas chegara ainda para poder fazer caso precisasse.

Mayara puxou Jéssica e olhando nos seus olhos pediu que a cunhada se acalmasse que Lucas e Balão já chegariam.

E eles chegaram correndo. Lucas pediu desculpas pelo atraso, mas contou que era culpa dele porque não conseguia dar jeito na gravata e o pai teve que ajudar.

Balão com olhar humilde deu o braço para a filha que com um largo sorriso segurou.

A cerimônia foi linda, a festa também dando tudo certo. Jurema e Balão até dançaram na hora da valsa e por algumas horas aquela família foi uma família feliz.

No fim de tudo Balão antes de ir embora pegou no rosto de Lucas e disse “obrigado”. Lucas deu um beijo no rosto do pai e pediu que ele fizesse as pazes com o mundo.

Balão deu um pequeno sorriso e foi embora sozinho sem dizer mais nenhuma palavra.

Na semana seguinte Lucas e Léo estavam no trabalho. Era uma grande obra, construção do novo hospital da Ilha do Governador.

Apesar do sucesso na caravana e nos bailes do Dendê o dinheiro ainda era pouco e eles precisavam continuar trabalhando como pedreiros.

Lucas tinha um radinho de pilha e ele sempre deixava encostado em algum lugar ligado enquanto trabalhava. Trabalhava e ouvia funk.

Enquanto ele passava cimento em tijolos ouviu o locutor do programa falar que fariam ali um lançamento, uma dupla nova de MCs e pela primeira vez a música deles tocaria numa rádio e tinha certeza que era a primeira de muitas, pois, a dupla tinha talento.

Lucas continuava trabalhando e seu coração quase parou quando ouviu o locutor dizer “Com vocês Lucas e Léo cantando momentos”.

A introdução da música começou e Lucas parou de trabalhar. Colocou as mãos no rosto chorando e começou a gritar “Meu Deus!! Meu Deus !!”. Os amigos da obra sem entender nada se aproximaram pra ver o que ocorria. Entre eles Léo.

Lucas puxou Léo que percebeu que era a música deles tocando na rádio. Os dois chorando se abraçaram sob aplausos dos colegas e cantavam a música junto com a rádio.

Era o início do sonho.








Capítulo V - Conhecendo o amor

Apesar de dar autógrafos no morro, tirar fotos com meninas que pediam ávidamente os tratando como estrelas Lucas e Léo continuaram os mesmos e com a mesma rotina.

Acordavam cedo na segunda junto com o raiar do Sol e desciam o morro para trabalhar. Construíam, trabalhavam duro carregando tijolos, sacos de cimento, pregando, serrando só com um espaço de meia hora pra almoçar e logo voltavam ao batente.

Em casa na hora do jantar Balão debochava do filho perguntando do dinheiro do prêmio. Lucas respondia que gastou pagando dívidas. O pai ria e ironizava que sabia muito bem como essas dívidas eram pagas, com bebida e mulheres.

Jurema colocava o prato cheio do filho na mesa e pedia que não ligasse pro pai, pois, era um menino ajuizado e tinha muito orgulho dele.

Jéssica começou a namorar Rubens. Um menino do morro, trabalhador. Rubens trabalhava em uma mercaria com o pai e era evangélico. Jéssica acabou se convertendo para acompanhar o namorado.

E Léo e Lucas viraram atração nos bailes de sexta sempre tendo uma horinha por baile pra se apresentar. Eles cantavam músicas de outros MCs e “o sonho” que era o momento que o baile explodia.

Recebiam um cachê modesto por isso e mais um aos sábados e domingos quando acompanhavam a caravana de DJ Mustang e se apresentavam por bailes do Rio de Janeiro.

Léo sempre foi mulherengo e aproveitava esses shows para “pegar as gatinhas”. Era comum que o rapaz saísse com uma diferente a cada show. Lucas era mais centrado e se preocupava mais com seu desenvolvimento artístico, já pensava em novas músicas para criar.

Léo começou um caso com a Mc Lidy, a mais famosa do grupo de Mustang e que tinha mais espaço para se apresentar. Lidy era a celebridade da caravana com músicas tocando em programas dedicados ao funk.

Quando os meninos terminavam suas apresentações iam pra coxia babar com a apresentação de Lidy.

Em uma dessas apresentações, feita em Niterói. Lucas cantava e notou uma menina na platéia que olhava pra ele.

A menina tinha um jeito de novinha, era mesmo tinha sua idade vinte anos. Branca, cabelos negros, bonita. Tinha jeito de bem nascida, estudante universitária e não parava de olhar pra Lucas que chegou a se intimidar com aquele olhar.

Léo notou e cochicou no ouvido do amigo que ela “era gostosa”. Lucas se encheu de coragem e disse que iria improvisar e que o amigo lhe acompanhasse.

Anunciou ao público que cantaria uma antiga do Mc Marcinho e pediu que a platéia cantasse junto.

Olhando para a menina emendou que era para uma pessoa especial que estava na platéia e começou..

“Hoje eu vim para poder falar
Para poder contar o que passou
Falar das coisas que ficou guardado
E que deixei de lado aquele amor
Meu coração, pois, já te entreguei
Pois quando te beijei me apaixonei
Só hoje que o tempo já passou
Que eu pude perceber que eu errei...

Igual a você eu sei que não tem
De 0 a 10 te dou nota 100
E até hoje eu lembro de ti
E ainda sonho que um dia vc vem...”.

O público foi ao delírio e logo depois a apresentação se encerrou. Lucas desceu apressado pro meio do público, mas a menina não estava mais lá. Revirou o baile todo, foi até a portaria e descreveu a menina pro porteiro na esperança que ele tivesse visto algo e nada.

Voltava desolado pra dentro do baile quando ouviu Lidy anunciar ao microfone que tinha uma convidada naquela noite.

Lucas olhou pro palco e viu a garota que procurava. Lidy anunciou “Com vocês minha amiga, a talentosa Mayara !!” sob aplausos do público.

Lucas pelo menos já descobrira o nome, Mayara. A menina pegou o microfone, agradeceu o carinho e disse que tinha se preparado pra cantar uma música pra eles, ensaiado apenas essa, mas que acabaram de cantar. Pediu desculpas pela repetição, mas era a única que poderia cantar.

Falou e começou a cantar a mesma música do Mc Marcinho. Lucas maravilhado ouvia Mayara cantar. Ela nitidamente tinha estudo musical, vocal ao contrário de Lucas e cantou com mais suavidade, beleza.

Léo chegou perto do amigo e ironizando falou “te humilhou”, Lucas respondeu “humilhou nada, salvou minha vida” e saiu em direção a coxia com Léo atrás.

Lidy e Mayara saíam do palco e Lucas foi se apresentar. Estendeu mão a Mayara e quando foi dizer quem era Mayara apertou rapidamente sua mão e respondeu que sabia quem ele era, era o rapaz que roubou sua música.

Virou-se pra Lidy e disse que precisava ir embora agradecendo pela “canja” e partindo sem Lucas conseguir falar mais nada.

Lucas ficou lá paralizado sem conseguir agir e Léo ria brincando com o amigo que ele “tinha perdido”. No mesmo instante Lucas puxou Lidy e pediu informações sobre aquela menina.

Lidy respondeu que era uma amiga dela estudante de medicina da UFRJ, de família boa e não era pro bico dele. Lucas não tomou conhecimento da advertência e pediu alguma informação que pudesse lhe aproximar dela.

Lidy pensou bem e respondeu que ela fazia aula de canto todas as terças e quintas em um curso de técnica vocal no centro da cidade. Lucas pediu endereço do curso e falou que se matricularia lá.

 Terça-feira conforme o prometido Lucas estava no curso. Perguntou quanto era matrícula e mensalidade tomando um susto. Rapidamente pensou em seu orçamento e viu que com alguns apertos dava para pagar se matriculando.

Entrou na sala de aula procurando por Mayara e não encontrou, deixando o rapaz preocupado e pensando se teria se matriculado no curso certo, não estaria gastando dinheiro à toa.  No ambiente encontrou apenas um monte de jovens brancos, bem nutridos de classe média. Lucas, único negro ficou um pouco constrangido, mas se apresentou quando o professor pediu.

Respondeu que se chamava Lucas, morava no morro do Dendê e era Mc, o professor não entendeu muito que queria dizer Mc e Lucas respondeu “funkeiro”.

Algumas risadas foram dadas, mas Lucas não se abalou. Já se acostumara com risos, deboches e que as pessoas não confiassem nele e rapidamente arrumou motivo pra sorrir.

Mayara entrou na sala de aula.    
            
A menina entrou demonstrando cansaço como se tivesse corrido pra chegar e ao fechar a porta pediu desculpas ao professor. Virou-se e viu Lucas tomando um susto.

Ela não conseguia tirar os olhos dele enquanto o professor respondia que não tinha problemas e pedia que os alunos formassem um círculo a sua volta.

Fizeram o círculo e fizeram exercícios vocais com Lucas e Mayara não parando de se olhar.

No fim da aula se encaminhavam pra rua quando Lucas correu atrás de Mayara e chamou por seu nome.

Ela olhou pra trás e Lucas conseguiu se aproximar dando seu sorriso característico. O rapaz perguntou se ela se lembrava dele do baile em Niterói no último fim de semana e Mayara respondeu que sim. 

Lucas pediu desculpas por ter cantado a música que ela havia reservado e Mayara respondeu que tudo bem, essas coisas aconteciam e que ela teria que ir embora, pois, já estava tarde.

Enquanto ela andava Lucas foi atrás e perguntou onde ela morava e a menina respondeu que na Ilha. Ele aproveitou e disse que era uma grande coincidência já que também era da Ilha e perguntou pelo bairro. Mayara respondeu Jardim Guanabara.

O rapaz então disse que para não deixá-la ir embora sozinha se quisesse poderia pegar o ônibus com ela e lhe deixar em casa e depois ele pegava um para sua casa. Nesse momento Mayara pegou uma chave e apontou para um carro destravando a porta.

Lucas constrangido abaixou a cabeça e falou “não sabia que você tinha carro, desculpa”. Mayara sorriu. O primeiro sorriso dela desde que Lucas lhe viu pela primeira vez e o rapaz se despediu começando a andar pro ponto de ônibus.

Mayara observou o rapaz se afastar um pouco e gritou perguntando se ele queria uma carona e assim não deixá-la ir embora sozinha. Lucas sorriu e foi em direção ao carro.

Conversaram no carro e souberam um pouco da vida um do outro. Mayara parou em uma das entradas do Dendê e os dois ouviram som de tiroteio e viram carros da polícia na frente.

A menina perguntou se ele ficaria lá mesmo e Lucas respondeu que não teria como subir. Mayara perguntou o que fazer e ele pediu que a levasse até o bairro Bancários que dormiria numa obra que está fazendo.   

Ela chegou à frente da obra e perguntou se era ali mesmo que ele queria ficar. Lucas respondeu que sim e deu um beijo no rosto da menina agradecendo a carona. Desceu e antes de ir embora Mayara disse “até quinta”.

Lucas sozinho naquela obra inacabada colocou a cabeça em cima de um saco de cimento que fez de travesseiro e sorriu sonhando acordado com Mayara.

Na quinta Lucas já estava cedo no curso e abriu um sorriso quando viu Mayara chegar. A menina dessa vez não chegou atrasada e também sorriu ao ver o funkeiro. Fizeram a aula e no fim Lucas perguntou se ela estava com fome.

Mayara respondeu que sim e ele então falou que tinha um convite pra lhe fazer.
Alguns minutos depois estavam sentados em banquinhos ao lado de uma carrocinha que vendia cachorro quente e hambúrguer.

Comiam um típico “podrão” que vem a ser sanduíche com muitas coisas dentro, ninguém sabe de onde vieram e Mayara parecia se divertir toda lambuzada com sanduíche do tipo que nunca comera.

Mayara contava seus planos, sonhos. Música pra ela era apenas hobby, ela queria ser médica e salvar vidas. Contava sobre sua vida, viagens para Europa, Estados Unidos, baladas que gostava e festas que frequentava.

Lucas percebia que o mundo de Mayara era completamente diferente do seu, mas não parava de tirar os olhos dela, prestar atenção no que falava e não escondia sua fascinação pela moça.

Mayara novamente lhe deixou em casa e na despedida Lucas lhe convidou para na noite seguinte cantar no baile do Dendê com ela. A moça ficou em dúvida, mas falou que iria ver e qualquer coisa lhe avisava. Deu um beijo no rosto do rapaz que desceu do carro feliz.

Na noite seguinte Lucas estava impaciente no baile, nada de Mayara chegar. 

Toda hora ia até a portaria e conversava com o porteiro descrevendo a moça e perguntando se ela chegara com o homem respondendo que não.

Teve um momento que não tinha mais jeito, teriam que subir ao palco. Léo mandou que o parceiro deixasse a “patricinha” pra lá e subissem para o show. Lucas triste abaixou a cabeça e concordou.

Fizeram o show com Lucas olhando fixamente pra porta na esperança que Mayara chegasse, mas nada. Terça ela chegou à sala de aula dando um beijo na cabeça de Lucas que estava sentado e não retribuiu ficando com olhar brabo e quieto.  

Mayara perguntou se ocorrera algo e Lucas respondeu que ficou feito um bobo lhe esperando no baile. Mayara sorriu e disse que em nenhum momento falou que iria só que veria se dava e qualquer coisa lhe avisaria.

Lucas olhou pra menina e começou a rir pedindo desculpas. Os dois gargalharam juntos.

O tempo foi passando e a amizade aumentando. Léo e Jonas provocavam Lucas perguntando quando ele iria se declarar. O rapaz respondia que faltava coragem.

Contou a Mariano na cadeia sobre seu amor e a falta de coragem de se abir e o irmão mandou que fosse em frente, sempre era melhor a certeza que a dúvida.

Lucas e Léo começaram a trabalhar na feitura de uma parede numa casa no Jardim Guanabara e Lucas comentava com o amigo que arrumara coragem e se declararia a Mayara. Léo sorriu e deu um abraço no amigo respondendo que era assim que devia agir.

Continuavam passando cimento entre os tijolos quando Léo percebeu umas pessoas na piscina da casa e perguntou a Lucas se uma das meninas não era Mayara.

Lucas olhou e viu que a menina de biquini que brincava na água com um rapaz era mesmo Mayara. Enquanto Mayara jogava água nele o rapaz tentava lhe agarrar até que em determinado momento ela se jogou em cima dele e os dois se beijaram.

Léo soltou um “merda” e Lucas abaixou a cabeça com olhos marejados continuando o trabalho. Léo botou a mão no ombro do amigo e pediu que ele não se abalasse, o mundo dos dois era completamente diferente e seria melhor assim.

Lucas disfarçando a tristeza e o choro concordou com o amigo e continuou o trabalho.

Algum tempo depois o pai de Mayara pediu a empregada que levasse água para os pedreiros. A empregada estava ocupada fazendo o almoço e Mayara se ofereceu para levar.

Pegou a jarra de água, dois copos e levou até o local tomando um susto quando viu Lucas.

Sorrindo tentou lhe dar um abraço e Lucas desviou. Surpresa a menina disse que não sabia que os dois estavam trabalhando em sua casa e Lucas respondeu que era o dia das surpresas mesmo.

Léo bebeu um copo de água e falou que a casa dela era muito bonita. Mayara agradeceu e Lucas emendou que a piscina era muito bonita também e já tinha lhe visto lá com amigos.

Mayara respondeu que o dia estava quente e pedia uma piscina mesmo. Lucas então falou que não sabia que ela namorava e desejou felicidades.

Mayara sem entender o jeito do rapaz contou que não namorava, Lucas com jeito sério disse que ela não precisava esconder, tinha lhe visto beijar na piscina.

Mayara respondeu que era apenas um ficante, nada demais e o funkeiro emendou que já percebera que as coisas pra ela eram nada demais. A Moça perguntou o que estava acontecendo e Lucas respondeu que nada demais e que ela desse licença e voltasse para a piscina que precisavam trabalhar.

Mayara ainda tentou falar mais alguma coisa, mas Lucas lhe ignorou voltando pro serviço. A moça chateada deixou o local com a jarra e os copos.

Na semana seguinte Lucas foi ao curso de música apenas pra trancar matrícula e se despedir. Dentro da sala agradeceu aos colegas, ao professor, mas precisava sair do curso porque o orçamento apertou e seu trabalho aumentara.

O professor lamentou, os alunos aplaudiram e Lucas acenou a todos antes de sair da sala. Mayara não conseguiu esboçar reação, apenas olhava. 

Lucas não voltou a trabalhar na casa de Mayara colocando Jonas em seu lugar. Mayara preocupada perguntou aos rapazes o que ocorria com Lucas e Léo respondeu que só ele poderia lhe contar.

A moça nervosa perguntou então onde poderia encontrá-lo naquele momento. Léo respondeu que não sabia, mas Jonas contou que quando o irmão estava triste costumava ir até a “Pedra da Onça” ver o mar. 

Mayara agradeceu, pegou o carro e foi até o bairro do Bananal na Ilha do Governador onde fica o monumento.

Ela não demorou e encontrar Lucas sentado na areia observando o mar e os barcos de pesca. Mayara sem dizer nada se sentou a seu lado e ficou com ele observando a Baía de Guanabara.

Lucas perguntou a Mayara se ela sabia por que aquele lugar se chamava Pedra da Onça e porque daquele monumento de onça na mais alta das pedras e Mayara respondeu que não.

Ele então explicou que dizia uma lenda que uma índia da tribo ali localizada ia todos os dias, no fim da tarde, até a praia com seu gato maracajá que criava desde filhote e lá ficava mergulhando da pedra durante horas. Um dia, porém, a jovem índia mergulhou e não mais voltou, ficando o gato a esperá-la, olhando para o mar até não mais agüentar e morrer de fome apesar da tentativa dos índios em retirá-lo do local.

Mayara comentou que a história era triste Lucas emendou que essa lenda não era confirmada pelos historiadores, mas inspirou um grupo de moradores na década de 1920 a erguer o monumento em homenagem à fidelidade do animal. 

O artista plástico Guttman Bicho projetou e esculpiu o maracajá.  Em 1965 a estátua original, já bem castigada pelo tempo, foi substituída por outra que lá está até hoje.

Ela perguntou como ele sabia de todas essas coisas e Lucas respondeu que frequentava o local desde criança. Era fascinado pela Pedra da Onça e era seu refúgio quando não tinha o que comer, o pai batia na mãe ou não podia subir o morro devido a tiroteios.

Mayara encostou a cabeça no ombro do rapaz que tomou coragem e contou que era completamente apaixonado por ela desde a primeira vez que lhe viu, que assim que lhe viu no baile dedicou a música do Mc Marcinho pra ela e tudo que fez desde então foi para ficar ao seu lado, inclusive se matricular no curso.

Mayara tentou falar alguma coisa e Lucas contou que ela não precisava dizer nada. Ele nunca pediu nada a ela, só tinha a dar, a entregar.

O amor que ele sentia já lhe satisfazia, amava pelos dois.

O rapaz então levantou e Mayara perguntou aonde iria. Lucas contou que pra casa se arrumar, pois, era dia de baile no Dendê.

Lucas foi embora deixando Mayara sozinha na praia e foi pra casa. Chegando lá Jonas lhe esperava perguntando se estava bem e o irmão respondeu que sim, só precisava de um banho.

Lucas tomou banho, dessa vez sem cantoria, sem sonhos. Tomou seu banho quieto e assim se arrumou e jantou pra estranheza da família. 

Foi para o baile com Léo já esperando na porta. Lucas contou que conseguiu desabafar e falar de seu amor a Mayara. O parceiro com a mão no seu ombro disse que ele fez bem e que entrassem porque em instantes se apresentariam.

Os dois foram pra coxia e de lá esperaram pra ser anunciados. Subiram ao palco pra delírio do público e cantaram algumas músicas.

Lucas foi profissional, cantou com o mesmo empenho de sempre, mas não estava feliz. Pensava em Mayara e lembrava-se dos dois no curso, em seu carro ou comendo o “podrão”. O amor gritava em seu peito e poderia fazer nada.

Antes que Lucas começasse a música seguinte Léo pediu que ele esperasse, pois, tinha uma surpresa. Lucas ficou sem entender e Léo anunciou no microfone “Agora com vocês uma convidada muito especial nossa pra cantar com a gente, para o aplauso de todos a grande e talentosa amiga Mayara !!”.

Lucas tomou um susto e virou para o lado. Viu seu amor entrar no palco linda, receber o microfone da mão de Léo, dar um beijo em seu rosto e começar a cantar a música do Mc Marcinho.

Lucas continuava abobalhado quando Léo lhe deu um cutucão e mandou que cantasse junto.

Lucas e Mayara cantaram aqueles versos um olhando pro outro. Cantavam para eles como se não tivesse mais ninguém ali.

No fim Mayara chegou perto de Lucas, pegou em seu rosto e lhe deu um beijo apaixonado sob aplausos de todos.     

De zero a dez, um beijo nota cem.



sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Capítulo IV - Virando Mc

Lucas nem pôde dormir muito. De manhã sua mãe lhe cutucou na cama pedindo ajuda. O rapaz dormia apenas de cueca devido o calor forte que fazia no Rio de Janeiro e com a cabeça enterrada no travesseiro perguntou qual era o problema.

Jurema respondeu que a casa estava sem luz e se ele poderia ver a fiação.  

Lucas além de pedreiro era pau pra toda obra e consertava tudo em casa.

O rapaz que trabalhava duro durante a semana e só tinha o fim de semana para descansar estava lá enfurnado na caixa de luz da casa tentando achar o problema quando Léo passou e ele pediu ajuda.

Léo perguntou qual era o problema e Lucas respondeu. O amigo riu que com aquele emaranhado de fios tinha que dar problema mesmo e pegou umas peças na caixa de ferramentas de Lucas para ajudar.

Mexiam na caixa de luz e conversavam. Léo perguntou se Lucas sabia do concurso de MCs que teria na comunidade. Lucas parou o que fazia respondeu que não sabia de nada e pediu detalhes.   

Léo contou que não sabia de muitos detalhes e que eles seriam passados durante o próximo baile. Lucas respondeu que era isso.

Léo perguntou se o amigo achara o problema na caixa e Lucas respondeu que não, mas eles entrariam no concurso.

Léo riu e perguntou se o amigo estava maluco. Lucas disse que nunca esteve tão são e que tinha achado o problema da luz.

Emendou um fio, passou isolante e pediu pro amigo ligar a força. Léo ligou e a luz voltou pra casa com Jurema gritando feliz de dentro. Lucas então virou pro amigo e disse que eles fariam uma dupla de funk, ganhariam o concurso e fariam sucesso.

Léo soltou um “puta que pariu, você realmente está falando sério”. Lucas riu e respondeu que sim, mas que depois pensariam nisso, pois, estava na hora do futebol.

Uma noite Lucas voltava pra casa cansado do trabalho quando viu uma grande aglomeração no pé do morro com o BOPE e imprensa presentes. Aproximou-se e um oficial do BOPE lhe parou dizendo que ninguém subiria.

O morro foi invadido por uma facção rival e o tiroteio estava intenso, ninguém podia descer, nem subir. O tiroteio aumentou e as pessoas correram pra se proteger das balas. Lucas já acostumado com aquela rotina atrás de uma viatura pegou o celular e ligou pra Inácio perguntando se podia dormir na obra com o homem dando permissão.

Voltou pra obra cansado sem tomar banho, deitou no chão e fez a mochila de travesseiro. Exausto tentava descansar, mas o corpo sentia tanto o esforço do dia que não conseguia relaxar.

Virou para um lado, para o outro e nada. Abriu a mochila, pegou lápis e caderno e começou a escrever. Sua primeira música, a que disputariam o concurso.

Abriu um sorriso por gostar daqueles versos que colocava no papel e continuou escrevendo.

Nem dormiu naquela noite. Antes de amanhecer voltou para a comunidade e viu que a situação estava mais tranquila, subiu o morro e foi direto na casa de Léo.

Bateu muito na porta, socou a coitada até que Léo com cara de sono perguntou o que o amigo queria.

Lucas foi entrando e sentando no sofá, queria mostrar a Léo o que tinha feito. A música não estava pronta ainda, mas Lucas cantou com empolgação o que fez. Léo bocejando e com os olhos quase fechando respondeu que estava muito bom e perguntou se podia voltar pra cama.

O amigo permitiu, mas disse que ele só tinha vinte minutos pra dormir antes que se arrumasse pra trabalhar. Saiu da casa de Léo e tomou banho em sua casa dessa vez cantando o que fizera. Trocou de roupa e saiu pro batente sem dormir um minuto.

Na sexta durante o baile correu atrás do responsável pelo mesmo e perguntou sobre as regras do concurso. O homem respondeu que teriam que ser músicas inéditas e o vencedor receberia um prêmio de dez mil reais e participaria dos shows organizados pelo Dj Mustang, além de ter a música gravada em seu cd.

Descobriu que o concurso seria em três semanas e teria que se apressar pra concluir a música. Naquela noite Lucas nem curtiu o baile direito, ficou olhando o palco com MCs se apresentando e sonhava ser o próximo, fazer parte do grupo de Dj Mustang.

Lucas ficou obcecado com o concurso e quem se deu mal nessa história foi Léo que não aguentava mais o amigo falando nele e mostrando o que tinha feito pra canção.

Fora do trabalho Léo tentava fugir de Lucas de todas as formas. Uma vez dormindo ouviu o amigo bater na porta e ficou quieto fingindo que não estava, mas Lucas pulou a janela e foi até sua cama com o papel na mão dizendo que tinha certeza que ele estava e queria mostrar a música pronta.

Cantou e Léo disse que estava muito legal, mas não sabia se queria participar do concurso, achava que não tinha talento pra música. Lucas mandou que ele parasse de besteira e perguntou se o amigo queria ser pedreiro pra sempre, ter uma vida miserável onde nem sabia se podia dormir em casa devido a tiroteios.

Léo abaixou a cabeça e respondeu que não. Lucas então pegou o celular do amigo que estava em cima da mesinha de cabeceira e mandou que ele gravasse a música. Léo colocou o celular pra gravar e Lucas cantou. 

Gravou e aprendeu a música. Lucas e Léo ensaiavam o tempo todo. No trabalho, em casa, no jogo de futebol, durante ensaios do Acadêmicos do Dendê, no baile..paravam todos para ouvir e pediam opiniões.

Rapidamente a música ficou conhecida na favela e até os soldados do tráfico cantavam. A força era grande pela vitória deles, mas não seria fácil. Rapazes de toda cidade participariam do concurso em busca desse sonho de ser artista e melhorar de vida.

Lucas e Léo aproveitavam pra ensaiar passos também. Lucas creditava muito do sucesso de Claudinho e Buchecha aos passos que davam nas músicas e achava que poderia ser um diferencial.

Além de trabalharem dez horas por dia debaixo de Sol passavam pelo menos mais quatro horas de segunda a segunda ensaiando a música e os passos.

Mas tinham intervalo pra diversão como aniversário de Jéssica.

Com sua habilidade como pedreiro e ajuda de Léo Lucas construiu uma laje em casa e nessa laje resolveram fazer um churrasco em homenagem a Jéssica por seu aniversário.  Cada um da vizinhança ajudou em alguma coisa e Jonas ficou na churrasqueira.

O samba rolava solto naquela tarde de Sol no Rio de Janeiro. Carne, lingüiça, asinha, cerveja e refrigerante pros convidados. Lucas sentia orgulho de ter organizado tudo pra sua irmã caçula, os dois tinham um grande caso de amor, imenso carinho. Como presente Lucas deu a irmã uma bolsa de marca. 

Endividou-se, parcelou bastante, mas valia a pena por ver a irmã feliz.

Até Balão estava comportado, bebia, mas pelo menos mantinha a dignidade.

Tudo corria bem, Lucas e Léo apresentaram aos convidados o funk que concorreriam no concurso do baile quando se ouviu um estampido.

Chegaram a pensar que fosse de fogos, mas Lucas se preocupou por ser um estampido seco. Ele estava certo na preocupação. Logo vários estampidos surgiram e perceberam que era um tiroteio, alguém tentava tomar o morro.

Todos correram pra se proteger. Lucas e Léo se esconderam juntos atrás de uma parede, mas Lucas percebeu que Jéssica ainda estava na laje. Gritou pela irmã, ela olhou e nesse momento um tiro lhe atingiu a barriga.

Lucas deu um grito desesperado e com coragem foi atrás da irmã com tiros passando por todos os lados. Pegou a irmã nos braços e pediu ajuda a alguém que tivesse carro. Um vizinho se prontificou e Lucas gritava com Jéssica para que ela não fechasse os olhos.

Colocou a irmã no carro e desceu o morro a toda velocidade passando por bandidos fortemente armados. Levou até o hospital Paulino Werneck na Ilha do Governador e estava cheio. Rodou a cidade toda atrás de atendimento em hospitais públicos e não conseguiu.

Desesperado vendo Jéssica perder sangue e ficar branca entrou em um hospital particular pedindo atendimento urgente porque a irmã estava morrendo.

Sentou-se na recepção rezando pela irmã e se perguntando como pagaria aquele hospital. Ligou para a mãe e contou que ela estava internada em um bom hospital e que se tranquilizasse que tudo daria certo.

Rapidamente a família toda chegou ao hospital e na recepção rezava por boas notícias até que o médico apareceu e perguntou pela família de Jéssica da Silva Violi.

Lucas tomou a frente e disse que era seu irmão. O médico respondeu que a bala pegou apenas de raspão e a menina ficaria boa.

A família comemorou e lágrimas tomaram conta do rosto de Lucas aliviado. Balão exclamou que agora só faltava eles descobrirem como pagariam aquele hospital e nesse momento Lucas caiu em si. 

Ele era pobre, a família também e não teriam como pagar. Léo perguntou ao amigo o que ele faria e Lucas perguntou como estava a situação do morro. Léo respondeu que tinha se acalmado e Pachola colocado os invasores pra correr.

Lucas então só disse que voltava em instantes e deixou a família no hospital sem responder sua mãe que perguntou aonde ele iria.

Lucas pegou o ônibus em direção ao morro. Encostou a cabeça no vidro da janela e lamentou por sua vida. Aquela pobreza que passava aonde não tinha como dar uma condição melhor para sua família. Pensou que sua irmã quase morreu em seus braços e que aquilo não era vida.

Pediu a Deus uma luz, algo que fizesse sua vida e de sua família melhorar sem precisar roubar e acabar na cadeia como Mariano.

Subiu o morro e perguntou aos soldados por Pachola. Os meninos peguntaram o que ele queria com o chefe e Lucas respondeu que era coisa pessoal. Os meninos ressabiados deram a informação.

Lucas foi até o encontro de Pachola que já sabia o que ocorreu com Jéssica e perguntou se ela estava bem, Lucas respondeu que sim, mas que precisava de sua ajuda.

Pachola sorriu e afirmou que tinha certeza que esse dia chegaria e perguntou quanto era. Lucas respondeu que não sabia ainda, não recebera a conta do hospital e Pachola mandou que o rapaz relaxasse que arrumaria o dinheiro, mas seria um empréstimo, ele teria que pagar.

Lucas concordou e voltou ao hospital.

Jéssica reagiu bem e em poucos dias estava em casa. A conta no hospital deu cinco mil reais e Lucas pegou o dinheiro com o tráfico. Léo perguntou como o rapaz arrumou o dinheiro e Lucas disse que não interessava, mas ele tinha uma semana pra devolver. Justamente o dia do concurso no baile.

Lucas passou a semana preocupado sem nem ensaiar direito. Ele tinha que arrumar cinco mil reais e entregar pra Pachola senão algo grave aconteceria. 

Tentou empréstimos, mas seu salário não dava condições pra pegar esse valor, também não conhecia ninguém que pudesse emprestar e nem tinha nada em casa que pudesse vender pra cobrir.

Tentava se abrir com alguém, mas não conseguia. Foi até o presídio visitar o irmão, mas não teve coragem de falar sobre o problema só contando do concurso no baile. Mas nem isso lhe animava. Mariano perguntava o porquê daquele desânimo e Lucas respondia que não era desânimo, mas preocupação com a proximidade do dia.

Mariano pegou no rosto do irmão e mandou que ele não desanimasse, pois, tudo daria certo e ele teria um futuro bem diferente do seu.

Bem diferente..mal Mariano sabia que Lucas já pensara que a única alternativa era cometer um assalto.

Arrumou um revólver com Pachola que mandou que ele se apressasse porque tinha até as onze da noite do dia seguinte pra devolver o dinheiro ou morria.

Lucas entendeu o recado e respondeu que o traficante não ficasse preocupado porque arrumaria o dinheiro. Pachola riu e respondeu que não estava preocupado, ele que tinha que ficar.

Lucas pegou um ônibus pra lugar incerto. Já era madrugada e ele pensou em assaltar o ônibus, mas ficou com pena do cobrador e imaginou que ali não tinha a quantia que precisava. O ônibus passou por uma loja de conveniência e ele viu ali a chance puxando a corda do veículo pra descer.

Desceu e ficou na frente da loja tentando arrumar coragem, respirou fundo e entrou.

Do lado de dentro enquanto tímido fingia olhar os produtos reparou que a loja não tinha câmera. Pegou então um saco de biscoitos e se encaminhou até o atendente, um senhor de idade já.

Entregou o biscoito pro senhor que perguntou se ele queria mais alguma coisa e Lucas respondeu que sim, todo o dinheiro do caixa.

O homem se assustou e nesse momento Lucas apontou a arma pedindo a grana. 

O homem muito nervoso abriu o caixa e pediu que Lucas não atirasse porque tinha família pra criar. Lucas mandou que ele se acalmasse porque só queria o dinheiro.

O Homem entregou e Lucas contou rapidamente. Quando chegou a cinco mil reais disse que só queria aquilo e ele poderia guardar o resto novamente no caixa.        

O homem ficou sem entender nada e Lucas pediu desculpas dizendo que não era ladrão, mas precisava daquele dinheiro.

Saiu correndo da loja e pegou o primeiro ônibus que passou.  

No dia seguinte entregou o dinheiro pra Pachola que contou e disse que estava tudo certo. Lucas virou as costas pra ir embora e o traficante falou que o “moleque era bom” e podia se unir a ele pra tomar conta do morro. Lucas pediu desculpas e recusou respondendo que essa era a última vez que faziam algum tipo de transação.

Correu pra casa com Léo já na porta arrumado perguntando onde ele se metera porque tinham que ir pro baile. Lucas pediu que o amigo se acalmasse e fosse logo pro local que ele tomaria um banho rápido e sairia.

Lucas chegou dentro do baile e Léo desesperado gritou que ele demorou demais e que mais cinco minutos terminaria o prazo de inscrição. Lucas deu vinte reais ao organizador como pagamento pela inscrição e dez cópias da letra da música, depois puxou Léo pra um canto para que respirassem e se acalmassem.

O concurso começou e rapazes de todo o Rio de Janeiro se apresentavam no palco do Acadêmicos do Dendê mostrando suas músicas, alguns muito aplaudidos. A ansiedade tomava conta de Lucas e Léo. Léo falava que ainda era tempo de desistirem e Lucas respondeu que não só não desistiriam, mas venceriam o concurso.

Como foram os últimos a se inscrever foram também os últimos a se apresentar. A expectativa aumentava na quadra até que Dj Mustang que fazia a locução chamou por Lucas e Léo.

Os dois subiram tensos no palco enquanto o público na quadra vibrava. Os rapazes olhavam a comissão julgadora sentada de frente ao palco e ficaram mais nervosos ainda. Mustang percebendo o nervosismo da dupla pediu que se acalmassem porque nem conseguiriam cantar daquela forma.

Entregou microfones das mãos dos dois e perguntou seus nomes. Eles responderam de forma quase inaudível o que provocou risos da platéia. Mustang brincou que daquela forma ficaria difícil e perguntou o nome da música. Lucas respondeu que se chamava “o sonho”.

Mustang então anunciou a dupla “Com vocês diretamente aqui do morro do Dendê Lucas e Léo com o sonho !!!”.

Ao som do remix de um DJ Lucas tentou começar a música e a voz não saía, o microfone estava falhando. Lucas mostrou a Mustang enquanto o público todo ria e o homem pediu que o microfone fosse trocado.

Entregou novo microfone a Lucas e baixinho falou em seu ouvido que se acalmasse e mostrasse seu valor. Depois no microfone anunciou novamente a dulpa e que começasse.   

Mustang mexeu com os brios de Lucas, os brios de um garoto que sempre teve que usar desse brio e valentia pra sobreviver num mundo cão. Um garoto que desde cedo aprendeu que tinha que matar um leão por dia.

Com a voz de Mustang ecoando na cabeça e mandando que mostrasse seu valor Lucas soltou a voz dando um show acompanhado de Léo que fazia a segunda voz.

O público que antes ria começou a dançar e pular com a dupla. Lucas e Léo dominaram todo o público presente na quadra e com o microfone na mão Lucas começava a realizar seu sonho, aquele que tinha quando cantava embaixo do chuveiro com xampu na mão. O sonho.

No fim foram aplaudidos de forma entusiasmada por tudo o público que gritava “é campeão”. O resultado ainda demorou meia hora com Lucas e Léo muito apreensivos, mas todos que estavam presentes naquela noite histórica no baile funk já sabiam o resultado.

Na hora Mustang anunciou o terceiro lugar, o segundo e fez suspense com o primeiro dizendo que foi uma escolha unânime. O público gritava os nomes de Lucas e Léo e Lucas não se aguentava em pé de tanto nervosismo. Seus olhos marejavam e ele pedia a Deus aquela chance.

Até que Mustang gritou “E em primeiro lugar Lucas e Léo !!!”.

Os meninos se ajoelharam chorando enquanto uma multidão subiu ao palco para pegar a dupla nos braços. No alto Lucas e Léo se abraçavam enquanto Mustang olhava a eles e sorria sabendo que tinha o futuro em suas mãos.

Uma grande noite praqueles rapazes batalhadores.

No fim, já quase amanhecendo Lucas e Léo comemoravam na laje da família de Lucas com os amigos e o dinheiro na mão. Jonas perguntou o que eles fariam com os dez mil e Léo respondeu que compraria roupas  novas e um computador.

Jonas então perguntou ao irmão o que ele faria com o dinheiro. Lucas olhava perdido as estrelas e só atendeu quando o irmão chamou de novo. Olhou pra dentro de casa e viu sua mãe orgulhosa na janela os vendo conversar, voltou a olhar o irmão e disse que iria fazer nada, já estava fazendo.

Despediu-se e disse que tinha que resolver algo importante e mais tarde voltava.

Ninguém entendeu nada.

Lucas pegou um ônibus e voltou a loja de conveniência. Entrou e encontrou o senhor de idade. O homem se desesperou e perguntou se era outro assalto.  Já abria o caixa quando Lucas mandou que se acalmasse.

Mexeu no bolso e de lá tirou um envelope de dinheiro. Disse ao homem que tinha cinco mil reais lá e pediu desculpas pelos transtornos da noite anterior, mas o emprestimo estava pago.

O homem pegou o envelope e sem entender nada ficou olhando Lucas que disse “Deus lhe abençoe” e saiu da loja.

Ao sair da loja caminhou um pouco e jogou os braços para o alto dando um grito de felicidade.


O SONHO                  


Eu sou trabalhador
Moro em comunidade
Lá eu tenho minha vida
E fiz amigos de verdade
Trabalho Sol a Sol
Vou ao baile e futebol

Minha arma é minha voz        
Deus é por mim, por todos nós
Quero com meu suor
Orgulhar o meu país
O meu sonho é ser alguém
O meu sonho é ser feliz

Eu sou do Dendê
Ilha do Governador
Não quero violência
Consciência dou valor

Eu sou do Dendê
Ilha do Governador
Quero viver a minha vida
Com ela plena de amor