domingo, 29 de janeiro de 2012

Capítulo VI - Começando a acontecer

Depois do baile os dois pombinhos ficaram abraçados na praia do Bananal, perto da Pedra da Onça para ver o Sol raiar.

Entre beijos conversavam sobre a noite que se conheceram. Noite que Lucas “roubou” a música de Mayara.

Lucas rindo contou que assim que viu a moça olhando pra ele da platéia se apaixonou, foi a primeira vista. Mayara rindo respondeu que com ela também foi assim, se apaixonou ao olhar pro palco.

Foi a vez de Lucas rir e não acreditar, afinal a moça no começo nem olhava pra ele e lhe deu muitos cortes. Mayara sorrindo nos braços do amado explicou que olhou pro palco gamou de cara e ficou louca com ele cantando e dando passinhos, mas tinha que se fazer de dificil, ele que tinha que investir.

Lucas sentiu ironia no comentário de Mayara. Levantou e olhando pra amada contou que dançava muito bem. Mayara gargalhou e Lucas começou a dançar na areia com ela rindo, gargalhando muito e aplaudindo.

Lucas sentou novamente, abraçaram-se e beijaram-se novamente. Depois Lucas com um jeito mais sério perguntou a sua amada como seria dali pra frente. 

Mayara contou que teriam que casar. Lucas olhou espantado e ela riu.

Mayara então completou que seria tudo como os dois quisessem, sem interferência de ninguém. Lucas se lembrou da diferença social dos dois e a moça perguntou que diferença e se Lucas a achava muito pobre pra ele.

Lucas riu e a menina lhe beijou.

O que importava era que os dois estavam apaixonados e nada iria interferir.    

E assim começou a relação deles e de Léo com Jussara, uma linda multata do morro do Dendê e passista da União da Ilha. Com apenas algumas semanas de namoro os dois já moravam juntos e Léo anunciou a gravidez da moça. 

Chegaria o primeiro herdeiro.

Lucas ainda não pensava nisso, apenas em namorar Mayara e enfrentar sua família. Mayara anunciou aos pais que estava namorando e eles quiseram conhecer o rapaz.

Marcaram o encontro em um restaurante chique.

Lucas chegou com Mayara enquanto os pais já esperavam. O pai de Mayara se espantou ao ver o rapaz e quando Lucas estendeu a mão ele apertou e perguntou “você não é o rapaz que trabalhava na obra de minha casa?”.

Lucas constrangido respondeu que sim e sentou-se. Estranhou aquele monte de talheres à mesa, de copos e o nome das comidas. O garçom chegou e perguntou o que os presentes queriam. Os pais de Mayara pediram pratos com nomes chiques, daqueles com nomes estrangeiros e impronunciáveis.

O garçom virou para Lucas e perguntou o que ele queria. O rapaz constrangido olhava o garçom sem saber o que responder e Mayara se antecipou pedindo filé com fritas, arroz, feijão e ovo.

O garçom fez cara feia, mas anotou o pedido. Ao olhar novamente para Lucas e o rapaz abriu um sorriso dizendo que queria o mesmo.

O garçom se afastou e Mayara deu uma piscada pro namorado que sorriu.     

O jantar foi em silêncio, aqueles silêncios ruidosos, contrangedores. No fim Lucas pediu licença e foi ao banheiro, era o momento que os pais de Mayara queriam.

O pai perguntou a filha que palhaçada era aquela enquanto a mão se abanava e falava que estava passando mal. Mayara cheia de personalidade respondeu que aquele era seu namorado e que eles respeitassem sua escolha.

O pai revidou que não toleraria aquela relação e que esperava que Mayara terminasse. A moça olhando nos olhos do pai respondeu que não terminaria e que se Lucas quisesse casava com ele e morava na favela.

A mãe botou a mão na cabeça como se fosse desmaiar e o pai engoliu em seco. Naquele momento Lucas voltou e com seu sorriso peculiar perguntou se algo ocorria.

Mayara rapidamente levantou e falou para Lucas que estava na hora deles irem e que ele não se preocupasse que o pai pagaria toda a conta.

Olhou para os pais mandando beijo enquanto Lucas acenou e foram embora deixando o casal na mesa de queixo caído.

Do lado de fora andavam em direção ao carro e Lucas comentou com a namorada que os pais não gostaram dele. Mayara retrucou que era só impressão, inclusive o pai comentou que queria ir ao próximo baile no Dendê vê-lo cantar.

Lucas riu e ao entrar no carro da namorada contou à ela que no fim de semana seria sua vez de conhecer a família dele no jantar de noivado de Jéssica. Mayara respondeu que seria um prazer, mas Lucas foi logo contando que o cardápio seria muito diferente do restaurante.

Mayara olhou Lucas, sorriu e respondeu que ele estando no cardápio estava ótimo. Deu um beijo no namorado e partiu com o carro.

No dia seguinte Léo e Lucas entraram em estúdio para a gravação de sua faixa no cd de DJ Mustang. Além do dinheiro essa gravação fazia parte do prêmio do concurso que venceram.

Lucas e Léo entraram maravilhados no estúdio. Nunca haviam entrado em um e lá conheceram a mesa de som, o aquário onde os cantores gravam e toda a estrutura do local. DJ Mustang e o operador da mesa contaram aos dois como seria todo o esquema de gravação.

Eles gravariam “O sonho”, a música que venceu o concurso e o cd seria vendido nos bailes que contavam com a participação da caravana de Mustang.

Os dois entraram no aquário e Mustang no microfone do outro lado do vidro mandou que eles relaxassem e fizessem o de sempre.

Mas a dupla não estava acostumada com gravações, toda aquela parafernália que elas envolvem e se enervaram. Não conseguiam entrar na música e quando entravam erravam o tom, desafinavam, a voz estava presa.

Mustang mandava que eles se acalmassem e fixassem a mente em coisas boas, que gostassem para o trabalho andar. Nesse momento Mayara pediu licença e entrou na sala de operação do som.

No aquário Lucas viu a namorada e abriu um sorriso. Sorriso aberto também por Mustang ao lado de Mayara e falando no microfone com os rapazes que agora tinha certeza que eles renderiam.

E foi assim. Lucas entrou no clima e começou a cantar como sempre, isso ajudou Léo que acompanhou o amigo e os dois conseguiram gravar.

No fim Mustang aplaudiu, disse que estava perfeito e que Mayara não podia mais desgrudar de Lucas.

O fim de semana chegou e com ele o noivado de Jéssica. Lucas todo orgulhoso foi buscar a namorada e entrou na casa em que morava de mãos dadas com ela. 

Balão olhou como se estranhasse a cena e Jurema para cortar foi logo na moça dando boas vindas.

Jonas aproveitou e foi junto cumprimentar Mayara e ela respondeu que se lembrava dele de sua casa trabalhando. Jéssica se aproximou e se apresentou. 

Mayara deu beijo no seu rosto e deu parabéns pelo noivado, também a Rubens, seu noivo.

Assim Jurema, Balão, Lucas, Mayara, Jonas, Jéssica, Léo, Jussara, Rubens e seus pais sentaram à mesa para comer a deliciosa feijoada de Jurema. Do jeito que só ela sabia fazer.

Balão não parava de olhar Mayara o que contrangia todos na mesa. De repente ele riu e falou que imaginava que a moça nunca comera feijoada na vida, nem estado em uma favela.

Mayara respondeu que sempre comia feijoada na União da Ilha, frequentou também a da Portela e trabalhou um tempo em uma ONG na favela da Rocinha.

Balão sorriu e de forma irônica comentou que era bacana a menina se preocupar com causas sociais. Mayara sorriu e continuou comendo e Balão perguntou que já que ela frequentava a União da Ilha se já tinha ouvido falar nele.

Mayara respondeu que não e Balão contou que era o melhor compositor da história da União da Ilha, autor de sambas memoráveis e cantarolou Mayara restringiu a responder que era bacana.

Antes que Balão começasse a falar de suas parcerias mirabolantes e que venceria o concurso desse ano Jurema perguntou ao filho como foi a gravação da música.

Lucas começou a responder que foi boa e foi interrompido pelo pai que entre uma garfada e outra disse que funk não era música, era ruído. Tinha letras horríveis, só falavam em sacanagem e ninguém sabe cantar direito.

Disse e apontou para Lucas falando “inclusive esse aí que não sei o que você viu nele”.

Antes que Lucas tentasse falar algo Mayara se antecipou e respondeu que o namorado tinha muito talento. Balão riu e antes de tomar um gole de cerveja respondeu “é.. muito talentoso, igual o irmão que tá na cadeia”.

Apesar de Balão tentar estragar o clima o jantar de noivado correu muito bem e Mayara adorou a família de Lucas e Rubens. Jurema também gostou muito de Mayara e no fim da festa já mostrava fotos de criança de Lucas para a nora enquanto Balão bebia.

No fim da festa Lucas levou a namorada até o carro. Ofereceu-se para levá-la em casa e Mayara respondeu que não precisava já que ele teria que voltar de ônibus. Deram um beijo e se despediram com a moça partindo.

Assim que Mayara partiu Lucas percebeu uma gritaria dentro de casa. Eram seus pais discutindo. Entrou correndo.

Entrou e viu o pai batendo na mãe. Nesse momento correu e se meteu entre os dois empurrando o pai dizendo que ele nunca mais tocaria em sua mãe e que ele era um verme imundo.

Balão riu e perguntou se o filho iria brigar com ele. Lucas respondeu que se fosse preciso iria sim. Olhou para trás e viu a mãe sangrando no rosto. Pegou em seu braço e disse que aquela história não ficaria assim.

Jurema chorando respondeu que bastava de tantos anos de humilhação e pediu ao filho que a levasse na delegacia para prestar queixa. Balão percebeu a confusão que se metera e falou que aquilo não era necessário.

Novamente Jurema pediu que Lucas a levasse e ele concordou levando.

Foram até a delegacia e prestaram queixa. Na volta pra casa Balão pediu perdão, mas Jurema respondeu que viveu toda sua vida apenas lhe perdoando e não podia mais e que ele fosse embora. Nesse instante Jéssica e Jonas apareceram com uma mala na sala, era do pai que Lucas por celular pediu que os irmãos fizessem. 

Balão espantado com toda aquela reação pegou a mala e respondeu que não tinha para onde ir. Jurema contou que ele tinha irmão ali na favela, o Brito e poderia ir pra casa dele, mas lá não ficaria mais.

Balão com a mala na mão olhou para a mulher com cara de cachorro que caiu da mudança e foi embora.

Assim que ele saiu Jurema caiu em um choro compulsivo sendo abraçada pelos filhos. Lucas disse que a mãe precisava descansar e a levou para o quarto.

Deitou com a mãe na cama e a abraçou como ela fazia com ele quando era pequeno e tinha medo de dormir. Aos poucos o choro da mãe foi diminuindo até que ela adormeceu. Lucas então lhe deu um beijo na testa e saiu do quarto.

Do lado de fora com lágrimas nos olhos pediu a Deus que olhasse por sua mãe e por seu pai.

Apesar de tudo Lucas amava seu pai.

Nesse ritmo a vida continuou e Lucas e Léo começavam a se destacar na caravana. O cd vendia bem e eles conseguiam ganhar um dinheirinho. O espaço deles era cada vez maior e “O sonho” fazia grande sucesso nos bailes.

Lucas aproveitava pra compor e compôs mais uma música dessa vez uma mais romântica, estilo de seus ídolos Claudinho e Buchecha e mostrou a Mustang.

Mustang ouviu e gostou muito da música, ela tinha jeito de “hit” e Lucas contou que queria gravar. Mustang respondeu que não gravaria agora, mas Lucas retrucou que nem que pagasse ele queria gravar e mandar pra programas de funk das rádios.

Mustang riu e contou que não era tão fácil assim tocar em rádio, muitas vezes tinha que pagar “jabá”. Jabá é o nome dado para propina que algumas vezes artista ou empresário tem que dar para que uma música toque.

Lucas não se deu por vencido e disse que queria tentar. Mustang elogiou a determinação do rapaz e respondeu que tudo bem, ele ajudaria a pagar o estúdio.

Assim Lucas e Léo entraram novamente em estúdio, dessa vez para gravar “Momentos”.

MOMENTOS

Nossa vida é uma grande mentira
Somos os reis da hipocrisia
Eu e você, você e eu
É namoro ou amizade
Verdade ou falsidade
Confesso que eu não sei explicar
Mas vou tentar

A gente vai, a gente vem
Vamos definir logo meu bem 

Não quero viver só de momentos
Qual de nós vai resistir mais tempo
A esse amor que nos abalou
Como vou explicar pro meu coração
Essa nossa louca relação
Eu quero mais
Não é pedir demais       

Suba no palco minha estrela
Faremos só o que nos der na telha
Vem fazer amor minha princesa
Rio, Nova York e Japão
Vamos incendiar com a nossa paixão
Essa canção dedico a você

A gente vai, a gente vem
Vamos definir logo meu bem

Não quero viver só de momentos
Qual de nós vai resistir mais tempo
A esse amor que nos abalou
Como vou explicar pro meu coração
Essa nossa louca relação
Eu quero mais
Não é pedir demais       


Uma música mais elaborada que “O sonho”, mais melodiosa, com mais jeito de sucesso.

Lucas e Léo tinham meia hora em cada caravana pra cantar, escolhiam “O sonho” e quatro funks famosos para apresentar, mas com a gravação de “Momentos” tiraram uma das famosas e incluíram a canção.

A música se tornou um grande sucesso nos bailes e fez de Lucas e Léo os N°1 da caravana de Mustang.

O casamento de Jéssica chegou e o Dendê todo comentava aquele que era o grande evento do mês. Igreja cheia, muitos comes e bebes graças a família de Rubens que tinha um pouco de condição.

Apesar de evangélicos resolveram também casar na igreja católica para agradar Jurema.

Jéssica experimentava o vestido linda de morrer enquanto Jurema ajudava e Lucas e Mayara assistiam.

Mayara comentou baixinho com o namorado pelo pai deles e Lucas respondeu que estava preocupado com isso. Ela então perguntou se não era bom ele ir atrás do pai para que ela levasse a filha ao altar.

Lucas respondeu que era uma boa idéia. Levantou, disse a irmã e a mãe que iria ver sua roupa e saiu.

Foi na casa de seu tio Brito. Esse já estava arrumado para o casamento e disse que não tinha notícias de Balão. Lucas preocupado começou a percorrer a favela atrás do pai e que a irmã não entrasse sozinha na igreja.

Foi logo procurando pelos bares do morro e não achava o pai. Procurou em todos e nada até que os soldados do tráfico rindo contaram a Lucas que o pai dele estava caído perto do valão de tanto beber.

Lucas foi correndo ao valão e lá encontrou o pai literalmente na sarjeta. Pegou pelo braço e disse a Balão que Jéssica casaria naquela noite e ele tinha que estar presente.

Balão não conseguia falar coisa com coisa e foi levado por Lucas até a casa de Léo.

Léo abriu e perguntou o que ocorria. Lucas respondeu que precisava de ajuda para despertar o pai. Enquanto Lucas se enfiava com Balão embaixo do chuveiro com água gelada para tentar despertá-lo Jussara preparava café forte.

Lucas forçou o pai a tomar o café e Balão melhorava aos poucos. Balão perguntou por que o filho fazia tanta questão que ele fosse ao casamento já que lhe odiava.

Lucas respondeu que não odiava o pai, ele que odiava o mundo.

O rapaz foi até em casa e com ajuda de Jonas sem ninguém perceber pegou o terno que alugara pro pai e levou até a casa de Léo.

Na casa do parceiro Lucas ajudou o pai a se vestir. Balão ainda se recuperava da bebedeira e já sentia os efeitos da ressaca com dor de cabeça.

Na entrada da igreja Jéssica vestida de noiva ao lado de Jurema e Mayara perguntava pelo pai. Olhava com lágrimas nos olhos pra mãe perguntando se o pai teria coragem de não conduzi-la ao altar e nem Lucas chegara ainda para poder fazer caso precisasse.

Mayara puxou Jéssica e olhando nos seus olhos pediu que a cunhada se acalmasse que Lucas e Balão já chegariam.

E eles chegaram correndo. Lucas pediu desculpas pelo atraso, mas contou que era culpa dele porque não conseguia dar jeito na gravata e o pai teve que ajudar.

Balão com olhar humilde deu o braço para a filha que com um largo sorriso segurou.

A cerimônia foi linda, a festa também dando tudo certo. Jurema e Balão até dançaram na hora da valsa e por algumas horas aquela família foi uma família feliz.

No fim de tudo Balão antes de ir embora pegou no rosto de Lucas e disse “obrigado”. Lucas deu um beijo no rosto do pai e pediu que ele fizesse as pazes com o mundo.

Balão deu um pequeno sorriso e foi embora sozinho sem dizer mais nenhuma palavra.

Na semana seguinte Lucas e Léo estavam no trabalho. Era uma grande obra, construção do novo hospital da Ilha do Governador.

Apesar do sucesso na caravana e nos bailes do Dendê o dinheiro ainda era pouco e eles precisavam continuar trabalhando como pedreiros.

Lucas tinha um radinho de pilha e ele sempre deixava encostado em algum lugar ligado enquanto trabalhava. Trabalhava e ouvia funk.

Enquanto ele passava cimento em tijolos ouviu o locutor do programa falar que fariam ali um lançamento, uma dupla nova de MCs e pela primeira vez a música deles tocaria numa rádio e tinha certeza que era a primeira de muitas, pois, a dupla tinha talento.

Lucas continuava trabalhando e seu coração quase parou quando ouviu o locutor dizer “Com vocês Lucas e Léo cantando momentos”.

A introdução da música começou e Lucas parou de trabalhar. Colocou as mãos no rosto chorando e começou a gritar “Meu Deus!! Meu Deus !!”. Os amigos da obra sem entender nada se aproximaram pra ver o que ocorria. Entre eles Léo.

Lucas puxou Léo que percebeu que era a música deles tocando na rádio. Os dois chorando se abraçaram sob aplausos dos colegas e cantavam a música junto com a rádio.

Era o início do sonho.








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