quinta-feira, 19 de maio de 2011

Capítulo XXI - Valsa para uma menininha

Voltei para o Rio de janeiro sem ela, sem o seu amor. Continuei algum tempo ainda participando do chat, mas o ex noivo dela também começou a frequentar me dando um certo incômodo. Eles agora eram o casal perfeito da sala 2.

Continuei amigo da Bia normalmente, mas não era a mesma coisa. Era uma situação estranha você ser amigo assim um amigo como qualquer outro de uma pessoa com a qual você viveu tantos momentos. Meu amor amenizou, na verdade não posso dizer que havia passado porque como eu disse tinha guardado em um freezer, mas amenizou e consegui conviver numa boa com ela.
Só que como tudo na vida existem ciclos. Começamos sempre nos falando muito amigos aí com o tempo foi diminuindo, diminuindo. Até que acabou. Não entrei mais no chat e não tive mais contatos com a Bia.
 Essa última apancada havia doído mesmo sendo culpa minha. Eu tinha quase oitenta anos e começava a sentir o peso dessa idade nas costas. Como a cigana Regina havia dito eu não envelhecia, mas não seria imortal e apenas meu corpo por fora não envelheceria.
Por dentro todos os meus órgãos eram de um idoso. Parei de fazer vôo livre por causa da vista cansada. Tomei um tombo simples em casa e quebrei o braço. O médico espantado detectou artrose. Depois de um tempo fui também detectado com “Mal de Parkinson”. Pequenos tremores, meus movimentos tornaram-se um pouco mais lentos e depressão. Sentia-me deprimido, solitário. Muito do destino que escolhera pra minha vida viajando o mundo sem criar uma família. Naquele momento sentia falta.
Os meus médicos ficavam espantados de como um jovem com aparência de trinta anos poderia ter tantos problemas de velho. Eu sabia porque, mas não contava porque me achariam “doido”. Passei a viver uma vida de velho. Dormia pouco, acordava cedo e ia pra praça jogar dama com outras pessoas de idade. Na maior parte do tempo ficava sentado em um banco lá da praça olhando pro nada.
Um dia senti saudades e entrei na internet. Entrei na sala de bate papo e notei que a Bia não estava. Perguntei para uma moça amiga nossa e ela ficou constrangida pra dizer. Fiquei nervoso e pedi para que ela me contasse o que havia ocorrido e ela contou. Bia havia morrido de Leucemia.
Eu não contei para vocês, mas a Bia em nosso primeiro encontro disse que teve leucemia e que havia se curado. Três anos sem sintomas. Só que ele voltou e foi devastador. Já havia seis meses de sua morte. 
Aquela notícia era a pá de cal pra mim pra me enterrar de vez. Desliguei o computador muito mal, mas não conseguia chorar. Estava apenas cansado. Não aguentava mais aquela vida. Fui até a pedra da Gávea disposto a me matar.
Sozinho de noite cheguei na beira fechei os olhos abri os braços e falei “Deus já que você não gosta de mim me mande pro inferno”. Pulei e a altura era imensa, pra não sobrar nada de mim. Mas cheguei intacto embaixo só com uns arranhões.
Levantei me limpei e entendi nada. Será que eu estava do outro lado? A morte era indolor? Andei pela praia e parecia tudo igual. Será que eu vivia em outra dimensão? Encontrei um rapaz passando e perguntei se ele me via, o homem perguntou se eu era doido e respondi”desde que nasci ou morri, sei lá”. O homem reforçou que eu era maluco e estava me vendo sim tanto estava que iria me assaltar.
Levou todo meu dinheiro, minha identidade e meu celular. Sim eu era moderninho tinha celular. O dinheiro eu nem liguei tanto, mas me enfureci por ter que tirar outro RG falso. Vocês não sabem o trabalhão que eu tinha tirando RGs falsos para ter idades que conduzissem com meu rosto ou vocês acham que eu com rosto de trinta anos andaria com identidade falando que tinha mais de setenta?
Bem..naquele momento percebi que não estava morto. Imaginei que não seria assaltado depois de morto.
Deus não me queria morto naquele momento então eu continuei vivendo minha vida. Tinha uns contratempos como quando fui fazer xixi em casa e do nada apareceu o dr.Walkir pra dizer que estava de volta. Mas não durou muito esse problema. Chamei o padre Quevedo em casa e ele me livrou do fantasma chato.
Tinha azar quando almoçava fora de casa. Uma vez estava sentado comendo em um bar quando apareceu um senhor olhando pra mim. Ele olhava fixo e eu fiquei envergonhado. Do nada ele começou a gritar “eu te matei !! você não pode estar vivo!! É um fantasma que o capeta mandou tanto que não mudou o rosto”.
Pegou uma faca e partiu pra cima de mim. Nessa hora dei um salto, saí correndo e gritando “Put.. que par..o maluco do Luis Felipe!!”. Sim, aquele doido verdadeiro que eu dividi quarto na primeira vez que fui ao Rio.
Saí correndo por dentro do bar com ele atrás de mim dizendo que as vozes mandavam me matar de novo. Falei que devia ser linha cruzada e que era melhor ele mudar sua operadora. Ficou essa grande confusão até que chegou uma ambulância e os enfermeiros lhe colocaram uma camisa de força e levaram. Respirei aliviado, minha vida não aguentava mais tantas emoções.
Outro dia no mesmo bar eu comia e apareceu uma freira velhinha com outras pedindo doações para igreja, reconheci de cara. Era Luciana.
Escondi-me atrás do cardápio, mas nada adiantou. Ela chegou à mesa pedindo uma doação, me viu e gritou assustada “Doido!!”. Respondi que não, eu era o filho dele e perguntei quem ela era. Ela se apresentou como irmã Luciana e pediu uma doação. Dei um dinheiro e ela agradeceu falando que Jesus sempre se lembraria desse momento. É eu só imaginando que Jesus lembraria de muitos momentos meus com ela.
Aproveitei que ela foi para outras mesas paguei a conta e fui saindo de fininho do bar até ouvir um “espera”.
Olhei e era Luciana que se virou pra mim e falou “seu put..gostoso será que você é tão bom de fod..quanto o filh..da put..do arrombad..do seu pai?”.
Com sorriso amarelo respondi que não e saí andando. Ela veio atrás de mim falando pra esperar. O desespero tomou conta de mim e saí correndo com ela atrás gritando “espera seu viad..!! Tem medo de mulher?”.
A cena era patética eu correndo de uma freira velhinha que gritava que queria fud... comigo. Passando na frente de um motel notei que tinha um anão com uma cadeira apontando jogo do bicho. Era aquele anão safado, mais velho, mas eu não esquecia aquele rosto.
Voltei para a frente do motel e Luciana me alcançou. Olhou para a fachada e disse “sugestivo..Vamos?”. Apontei para o anão que escrevia em um papel na cadeira e falei “Sim vamos, mas se eu fosse você iria com aquele anão, tomou três mulheres minhas.”   
Luciana puxou o anão e disse “vamos injustiçado verticalmente, quero saber se é verdade que todo anão tem caralh..grande”. E assim levou o anão pra dentro do motel que gritava desesperado por socorro e antes de sumir de minha vista com ela soltou um “Doido filh..da put..”!!!.
Na rua comecei a pular de alegria e pegar na minha região íntima com mão cheia apontando pra entrada do hotel e gritando “anão desgraçado!! Se fud..!!!” era a minha vingança contra aquele maldito salva vidas de aquário depois de tantos anos. As pessoas passavam na rua e entendiam nada perbeci que me olhavam e parei de pular e fazer gestos. Fui embora andando feliz e desejando boa tarde para todos.
Pelo sim, pelo não decidi não voltar mais naquele bar.
Prosseguia minha vida solitária. Comprei um cachorro dei o nome de Pimpão e ele passou a ser o meu maior companheiro indo para todos os lados comigo.
 Assistia futebol com ele passeava, tomávamos banho juntos, sem pederastia por favor e ele dormia na minha cama. Continuando sem pederastias. Pimpão era um poodle cinza muito invocado nunca que deixaria fazer aquelas afetações que fazem normalmente com os cachorros dessa raça. Era machão e meu companheiro.
Um dia brincando com Pimpão na Lagoa joguei um graveto para ele pegar. Pimpão inteligente como era saiu correndo e eu fiquei muito orgulhoso do meu cachorro. Fiquei lá olhando sorrindo de orgulho esperando sua volta, esperando, esperando. Até de noite esperando e ele não voltou. Fui abandonado por meu cachorro.
Nem cachorro eu conseguia manter perto de mim, que situação.
Cada vez mais me sentia sozinho. Cheguei a comprar plantas, mas esqueci de regar e morreram. Nada dava certo na minha vida até que tocaram a campainha de meu apartamento.
Mandei que esperasse que eu iria atender. Estranhei que não haviam avisado da portaria que teria visita pensei então que devia ser alguém do prédio. Olhei no visor e vi nada. Achei que fosse trote e deixei de lado.
Sentei no sofá para ler o jornal e novamente tocaram a campainha. Olhei no visor e nada. Furioso abri a porta e mandei que parassem de brincadeira, quando ia fechar a porta novamente ouvi um choro.
Tinha uma criança enrolada em uma mantinha dentro de um berço. Peguei e coloquei em cima do sofá. Depois saí pelo corredor procurando quem havia deixado lá e fui até a portaria. Perguntei ao porteiro se tinha entrado alguém lá com recém nascido e ele respondeu que não.
Subi para meu apartamento e a criança chorava muito. Peguei no colo para tentar acalmar e ela estava molhada. Mas eu tinha nada ali para crianças. Peguei o telefone e liguei para uma farmácia próxima pedindo alguns produtos. Eles chegaram e troquei a fralda da criança, era uma menina.
Nem preciso contar o desastre que fui trocando a fralda, nunca havia trocado uma na vida, mas consegui. Troquei e ela continuou chorando pensei que poderia ser fome. Peguei a pequena mamadeira que tinha comprado enchi de leite que tinha na geladeira e dei. Ela estava com muita fome mesmo porque mamou tudo. Depois como já tinha visto em televisão coloquei no meu ombro dei uns tapinhas nas costas e ela arrotou.
Coloquei a menina em minha cama para dormir e botei um lençol no chão para mim. Vi em seu bracinho uma fita e nela escrito um nome, estava escrito Aninha. Olhei para ela que dormia e fiz um carinho no seu cabelo ralo falando “Aninha, bonito nome”, dei um beijo na sua testa e deitei no chão para dormir.
Acho que consegui dormir aproximadamente trinta e sete segundos porque ela acordou chorando e foi assim a noite toda. Aninha acordava, chorava e eu não sabia o que fazer. Dava leite, trocava fralda, apertava sua barriga para ver se era cólica e nada. Desesperado andando de um lado para o outro no colo lembrei que minha mãe sempre falava que música acalmava crianças.
Não sabia que música cantar, cantava várias e nada. Até que lembrei de uma música que eu gostava muito e cantei para ela.
Valsa Para Uma Menininha

Composição : Toquinho / Vinícius de Moraes

Menininha do meu coração
Eu só quero você a três palmos do chão.
Menininha não cresça mais não,
Fique pequenininha na minha canção.

Senhorinha levada, batendo palminha,
Fingindo assustada do bicho-papão.

Menininha, que graça é você,
Uma coisinha assim, começando a viver.
Fique assim, meu amor, sem crescer,
Porque o mundo é ruim, é ruim, e você
Vai sofrer de repente uma desilusão
Porque o mundo somente é seu bicho-papão.

Fique assim, fique assim, sempre assim
E se lembre de mim pelas coisas que eu dei.
E também não se esqueça de mim

Quando você souber, enfim,
De tudo que eu amei.

E ela dormiu como um anjinho.

Não podia ficar com aquela menina. Eu era um ancião já com pé na cova cheio de doenças como ficaria com aquela menina? Eu não conseguia nem tomar conta de mim direito. Na manhã seguinte fui com ela na secretaria de proteção a infância entregá-la para adoção.

Anunciei meu propósito e sentei lá esperando até que vi duas cenas que me chocaram. Em uma mulher grávida chegou e disse que já queria entregar a criança antes de nascer porque tinha dado cinco e daria o sexto. Considerava-se cachorra de rua e estava nem aí para as crianças.

Depois chegou uma outra com uma menina de olhar triste vestida com roupa de colégio. Queria de qualquer forma entregar para adoção, mas como a menina já tinha certa idade aconselharam a não fazer isso porque ela não conseguiria um lar. A mãe saiu furiosa com a filha de lá puxando a menina pelo braço e dizendo que ela era um estorvo, mas se livaria uma hora ou outra. A menina saiu com aquele olhar triste do local e olhando pra mim.  

Olhei para Aninha no meu colo nesse momento. Ela dormia candidamente, falei “dou meu jeito “ e fui embora com ela. Já havia feito tantas loucuras na vida essa pelo menos era por uma boa causa.

E assim ganhei uma filha. Não foi nada fácil no começo eu todo enrolado tentando cuidar dela, não conseguia de jeito nenhum fazer uma boa troca de fraldas até que um dia eu consegui e saí pulando de alegria. Aninha olhou pra mim e riu, a primeira risada de sua vida.

E eu fui me apaixonando por ela. Aquela menininha que apareceu do nada na frente do meu apartamento se tornou o amor da minha vida. Sentia-me revigorado em pelo menos quarenta anos, forte de novo e sem sentir mais nenhum sintoma de doença. Voltei aos médicos e eles se espantaram eu estava curado tanto da artrose quanto do Mal de Parkinson e achavam isso extraordinário porque eram doenças incuráveis. Sentia-me como se tivesse mergulhado na piscina de Cocoon, mas a piscina a minha verdadeira fonte da juventude se chamava Aninha.

E ela foi crescendo. Chorei de emoção quando nasceu o primeiro dentinho ou quando ela segurou sozinha a mamadeira. Depois sapeca engatinhava pela casa e eu ficava rindo sentado no sofá vendo. Eu não tinha dúvidas aquela menina engatinhando e rindo era a mulher da minha vida !! Eu que tive tantas mulheres maravilhosas na vida. Um amor forte de cinquenta anos por uma.. minha vida foi direcionada pelas mulheres. Tinha achado minha alma gêmea

Eu era um apaixonado por mulheres, sempre convivi mais com elas. Sempre tive as mulheres como minha fortaleza. Desde minha mãe nos primórdios passando por todas as mulheres fantásticas que eu conheci na vida até chegar em Aninha. O meu sopro de vida, a menininha do meu coração.

Ela começou a andar e nem preciso dizer o quanto fiquei “babão” quando ocorreu. Fez um ano de idade e reuni as pessoas do prédio que morava para uma festa. Curioso que todos falavam que ela era a minha cara, mas eu não escondi de ninguém a verdade. As pessoas riam e falavam que eu era doido mesmo eu repetia a minha frase habitual e as pessoas mandavam que eu fizesse exame de DNA porque ela era minha filha. Eu gargalhava e falava “quem dera”.

Um dia ela estava brincando em seu cercadinho quando peguei o retrato pra ver como estavam as coisas e eu estava lá. Velhinho, mas com uma ótima aparência, corado, parecia que tinha renascido. De repente percebi algo na foto que me assustou joguei a foto no chão e levantei incrédulo.

Peguei a foto novamente e sentei abismado olhando para ela. Estava tudo normal. Aloemi, eu, senão fosse um fato novo. Aninha estava no nosso colo.

Fiquei paralisado olhando a foto. Como podia isso? Como Aninha foi parar na foto? Nessa hora ouvi um “papai”. Olhei e era ela falando em pé no cercadinho e sorrindo para mim. Sua primeira palavra. Peguei Aninha no colo e abracei chorando.

Fiquei intrigado com a foto e por mais loucura que pudesse ser fiz exame de DNA. Desde meu namoro com Bia eu não transava então não tinha como ela ser minha filha. Como também não tinha como eu perder uma namoradinha pra Ets, ser perseguido pelo fantasma do meu sogro e não envelhecer com uma foto envelhecendo no meu lugar. Além de sobreviver a um pulo da pedra da Gávea. Minha vida era uma loucura tão grande que me permitia fazer o exame.

Fui pegar o resultado com Aninha e com ela no meu colo abri o envelope e mais uma loucura ocorria na minha vida. Ela realmente era minha filha. Com lágrimas nos olhos dei um beijo em sua cabeça e ela falou acariciando meu rosto “não chola papai”.

Meu pai sempre repetia para nós que homem não chorava, mas eu não consegui seguir essa sua regra. Sempre fui muito chorão, emotivo, chorava até com comercial de banco e chorando fui à praia com Aninha logo depois que saímos do exame e a via brincando na areia. Chorava e sorria. Minha vida tinha sentido estava aí o motivo de ter passado por tanto, sofrido tanto, ter sobrevivido a tentativa de suicídio. No fim veio a recompensa eu era pai de uma menina maravilhosa, encantadora, sentia-me o homem mais feliz do mundo fazendo castelo de areia com ela.

Tínhamos uma relação perfeita, ela crescia e além de filha se tornava minha amiga. Ainda cantava “valsa para uma menininha” para ela dormir tocava em meu violão enquanto minha filha pegava no sono. Depois de um tempo lhe ensinei a dançar com essa música. Colocava a canção no cd e dançava com ela como uma valsa. Aninha gargalhava.

Fazia também minha especialidade culinária para ela. Tinha uma empregada que limpava a casa e fazia comida, mas essa comida eu fazia questão de fazer. Era a única coisa que sabia fazer na cozinha e minha filha adorava.

Vai aí a receita é meio complicado de fazer, mas espero que aprendam

MISTO QUENTE

Ingredientes

Dois pães de forma
Manteiga
Presunto
Queijo

Modo de preparo

Passar manteiga nos pães
Colocar uma fatia de queijo entre eles
Colocar também uma fatia de presunto
Botar três minutos em uma sanduicheira

Fica uma delícia, até deu fome..ai ai..ah..bom apetite

Coloquei em uma creche para ela começar a se adaptar a outras crianças e comecei a planejar sua festinha de dois anos. Mas antes tinha o carnaval e seria o primeiro carnaval dela mais crescida. Seria especial.

Comprei uma roupa de pirata para mim e de bailarina pra ela. Aninha ficou linda. Fomos para o meu programa favorito no carnaval, o Cordão da Bola Preta.

Era um sábado de Sol, um lindo sábado de Sol de carnaval e o centro da cidade lotou de pessoas de todos os cantos do país querendo se divertir. Aninha estava muito feliz seu primeiro grande evento e eu também com orgulho de ter minha mocinha ao lado. Estava eu lá animado cantando “quem não chora não mama/segura meu bem a chupeta/lugar quente é na cama/ou então no Bola Preta” quando senti uma dormência no braço, depois uma fisgada e caí.

Antes de desmaiar ainda vi uma multidão me cercar e Aninha chorando se abaixar gritando papai, depois lembro de mais nada.

Acordei em um hospital todo entubado. Era uma UTI, um médico surgiu e eu perguntei o que havia acontecido. O médico disse que eu tive um infarte e era um milagre estar vivo, segunda vez que ouvia isso de médico. Implantaram duas pontas de safena em mim e eu poderia ter uma vida normal, mas com cautelas.

Alguns dias depois voltei pra casa e peguei Aninha que estava na vizinha. Ela veio correndo e pulou nos meus braços me dando um abraço apertado. Beijei minha filha e perguntei se ela estava bem, mexendo em meu cabelo ela só disse “saudade papai”. Agradeci a vizinha a fomos pra casa.

De noite ela adormeceu depois que cantei e eu fiquei velando seu sono. Peguei a foto e notei que eu estava desaparecendo nela. Achei que era um sinal eu estava morrendo. Guardei a foto e encostei minha cabeça em minhas mãos que estavam no berço e fiquei olhando minha filha dormir. Triste por saber que não estava distante o dia de me separar dela. Preocupado por não saber como seria seu futuro, ela só tinha a mim. Fiquei a noite toda olhando minha filha e pensando no futuro.

Voltei a ficar triste, depressivo. Nem Aninha me animava. Deixava minha filha na creche e voltava pra cama deitando no sofá e olhando pro nada. Como se tivesse esperando a morte. Sentia novamente todo o peso da idade em cima de mim. As doenças não voltaram, mas eu tinha uma doença nova. O médico se disse impressionado de como um rapaz ainda tinha um coração tão maltratado,  coração de velho..esse coração apanhou muito na vida, uma hora realmente ele não aguentaria.

Um dia deixei Aninha na creche e fui caminhar um pouco. Fui até as pedras do Arpoador e sentei lá olhando para o mar e pensando na vida. Em tudo que tinha vivido e como seria dali por diante. Estava triste, deprimido, sem chão e sem o que fazer.

De repente um homem sentou do meu lado. Devia ter a minha idade corporal mais ou menos. Uns trinta, trinta e cinco anos. Era gordo, barba por fazer, cabelo nem grande nem curto. Estranhei, mas fingi que nem tinha visto continuei olhando o mar como se nada tivesse acontecido até que ele puxou assunto. Segue o diálogo estranho.

Homem: Bonito esse mar né?

Doido: Verdade, muito bonito.

Homem: Essa vista é maravil...

Doido: Olha cara desculpe, mas não tenho maconha nem gosto de pederastias

Homem: Que bom porque nem eu, eu só ia falar que a vista é maravilhosa.

Doido: Tá bom, desculpa

Homem: Eu comecei um namoro aqui com uma menina de São Paulo, mas não deu certo

Doido: Eu também, que coincidência

Homem: Não existem coincidências na vida Doido.

Doido: Como você sabe meu nome?

Homem: Sabendo, sei que você se chama Doido e ah..desde que nasceu.

O homem se levantou e olhando pro mar disse

Homem: E tenta mais suicídio não tá? Vai dar em nada se você pular daqui, no máximo vai pegar um resfriado e levante essa cabeça que sua história ainda não acabou.

Doido: Sabe meu nome, sabe que tentei me matar e que minha história não acabou. Como pode saber tanto de mim?

O homem se virou para ir embora, botou a mão no meu ombro e disse..

Homem: Porque fui eu que te criei.

Espantado virei para trás pra perguntar algo para o homem estranho, mas ele sumiu do nada.

Fiquei ali sentado sem entender nada, quem era aquele homem afinal? O que ele queria dizer com aquelas coisas? Do nada ouvi um latido e senti um cachorro se aproximando e pulando em cima de mim. Era Pimpão com o graveto que joguei pra ele na boca. Fiz uma grande festa com meu cachorro dizendo que tava com saudades e perguntando por onde ele tinha se metido.

Nisso um grande vento começa no Arpoador e uma folha cai em cima da minha cabeça. Olho para a folha e era um promocional da minha cidade, Tremembé de Oeste chamando turistas.

Olhei a folha, fiz carinho no Pimpão e disse que era hora de voltar pra casa..voltar para Tremembé.







Nenhum comentário:

Postar um comentário