segunda-feira, 2 de maio de 2011

Capítulo VI - A grande guerra

Voltei para Tremembé, mas nem fiquei na cidade por muito tempo, logo o meu pai deu um jeito de me “despachar”. Pegou o telefone e com uns contatos feitos aqui e ali me alistou nas Forças Armadas..pois é, eu de malandro carioca acabei virando soldado de um quartel do Exército de Belo Horizonte. Talvez fosse até melhor pra mim, iria aprender muitas coisas, sobre disciplina, hierarquia..quem eu to querendo enganar, seria bom nada, não era o tipo de vida que eu queria, a única vantagem é que serviria no quartel do meu irmão Tadeu.

O fato de estarmos no mesmo quartel acabou sendo bom pra mim, nos aproximamos mais de uma forma que não éramos quando vivíamos na mesma casa. Viramos grandes amigos, ele me protegia como um irmão mais velho, me dava conselhos, ele era um grande militar, estava cheio de músculos, respeitava hierarquia, era disciplinado, sempre elogiado pelos superiores.

Ao contrário de mim que lembrava um pouco o “Recruta Zero”, famoso soldado de gibis que surgiu tempos depois. Só queria saber de sombra e água fresca, me desempenhava muito mal nos testes físicos, vivia recebendo broncas, eu não tinha nascido praquilo.

O que eu gostava mesmo era das folgas, a turma ia pras noites de BH, cabarés encher a cara. Numa dessas noites conheci uma mulher chamada Iani, minha primeira mulher mais velha, era prostituta de um dos cabarés. Começamos um chamego, mas ao descobrir que eu era virgem, Tadeu comentou numa roda de bebedeiras, disse que não iria pra cama comigo, que a primeira vez de uma pessoa era muito especial e eu deveria ter essa primeira vez com uma mulher que eu amasse. 

Uma noite não conseguimos voltar a tempo da noitada, extrapolamos a hora, todo mundo pulou o muro, mas eu estava tão bêbado que não consegui pular. Tadeu que conseguiria pular tranquilamente foi solidário comigo e não o fez, mandou que eu o abraçasse, fingiu que estava bêbado também e fomos pro portão do quartel nos arrastando e cantando, ganhamos cadeia.

Um fim de semana na cadeia e depois liberados. No fim de semana seguinte, na hora de sermos liberados pra folga o capitão avisou pra tropa em revista que a folga estava suspensa, todos ficariam no quartel porque eu e meu irmão não cumprimos o combinado. Nesse dia eu e Tadeu com certeza batemos o recorde da maratona, tivéssemos que correr muito com o pelotão todo atrás querendo nos pegar.

Os dias iam passando e até que eu me acostumava com aquela vida, já estava aceitando ter que acordar tão cedo, a série de exercícios, estava me sentindo bonito, em forma. As noites de fim de semana em BH eram boas também, o chamego com a Iani, com outras rameiras. Algumas vezes um grupo de rapazes da cidade implicava com a gente, reclamando que dávamos em cima de suas mulheres e quando via uma confusão generalizada começava no bar, com cadeiras e garrafas voando e no fim eu e Tadeu rindo correndo de um monte de homens enfurecidos, a vida até que estava boa, mas tinha um problema.

Nós tentávamos não pensar no assunto, mas a verdade é que o mundo estava em guerra na Europa e nós éramos militares, fatalmente se o Brasil entrasse nessa guerra era grande a chance de pararmos nessa guerra. O ano era de 1942  e o inevitável aconteceu, em agosto desse ano o presidente do Brasil Getúlio Vargas declarou guerra aos alemães e italianos, no ano seguinte foi criada a FEB (Força Expedicionária Brasileira), o destacamento militar que lutaria na Europa.

Procurávamos não tocar muito no assunto, mas o medo existia e crescia cada vez mais. Nossas folgas não foram mais as mesmas, não tinha a mesma alegria. Terminei minha relação com a Iani, quando falávamos em guerra brincávamos que nunca chegaria até a gente, que se nos mandasse o Brasil estaria é ajudando o Eixo, mas o inevitável ocorreu.
Em 1944 embarcamos pra Itália para participarmos da guerra e no país receber treinamento do exército americano para que entrássemos preparados no conflito. Nós éramos vinte e cinco mil homens, conhecidos como pracinhas. Chegamos ao local no dia 16 de julho de 1944, na manhã anterior vimos o Monte Vesúvio e a Baía de Nápoles, assim conhecíamos a Itália.

 Ao chegarmos à Itália vimos algumas das marcas da destruição trazida pela guerra. No mar, ao redor do navio que nos transportava estavam destroços de navios italianos. Em terra nos deparamos com casas e prédios napolitanos em escombros, destruição causada tanto pelos bombardeios aéreos dos Aliados quanto pelas demolições feitas pelos alemães, antes de abandonarem a cidade.

O porto estava movimentado. A Itália era um país dividido, havia entrado na guerra ao lado da Alemanha nazista, mas a situação mudara no ano anterior. Após a tomada da Sicília pelos Aliados (17 de agosto) e o desembarque de tropas britânicas na Calábria (3 de setembro), a Itália rendeu-se aos Aliados e declarou guerra à Alemanha nazista (13 de outubro).

No entanto, parte da Itália ainda era aliada da Alemanha após a rendição da Itália aos Aliados, os fascistas italianos instituíram um Estado na cidade de Saló. Esse Estado fascista recebeu o nome de República Social Italiana. Entre a população italiana havia aqueles que apoiavam os Aliados, vistos como libertadores
que haviam livrado os italianos da opressão nazista, mas também havia aqueles que ainda apoiavam os fascistas.
Por causa disso fomos instruídos a não passar informações aos civis italianos, para evitar que tais informações chegassem a espiões a serviço dos alemães.


A situação dos Napolitanos era precária, sem comida, o país estava arrasado. A população nos pedia ajuda, nos via como salvadores, chegamos à Itália praticamente desarmados, somente dias depois quando já estávamos em Tarquínia, sessenta quilômetros do Noroeste de Roma recebemos nosso armamento.

Como disse anteriormente recebemos treinamento dos americanos. Oficiais foram mandados para Caserta, nós fomos pra 34° Divisão de Infantaria Americana, fizemos amizade com soldados americanos, maioria proveniente do Texas e do Novo México. Como ainda era treinamento e não guerra tinha como respirar, ainda conseguíamos nossas folgas e foi assim que eu conheci uma mulher. É, até na guerra eu me apaixono.

Eu, Tadeu e alguns soldados americanos e brasileiros fomos em uma taberna numa noite de folga e lá tinha uma garçonete que na hora chamou minha atenção. Loira, seios grandes, jovem, bonita, olhar triste, se aproximou e perguntou o que queríamos. Os americanos já mais adaptados ao local num italiano macarrônico pediram vinho para nós e eu aproveitando que ela não entendia português disse que a queria de sobremesa, mas não precisava de talheres, comeria com a mão. Sei, fui bem cafajeste o que disse, mas não consegui segurar.

Ela voltou com as canecas, o vinho, se virou para mim e em ótimo português disse que eu ficaria sem sobremesa, mas que aproveitasse bem o vinho, retirou-se e todos riram de mim, fiquei muito sem graça. Mandei que ficassem quietos e fui atrás dela na cozinha. Pedi desculpas e perguntei aonde ela tinha aprendido português tão bem. Ela me informou que era brasileira, gaucha e tinha se mudado pra lá poucos anos antes, eu muito envergonhado pedi muitas desculpas e ela falou que eu não me preocupasse, que eu até tinha a divertido mesmo sendo péssimo em cantadas.

Sentei à mesa com os outros soldados e fiquei admirando aquela garçonete, trabalhava muito, fazia praticamente tudo naquela taberna, era linda, linda e triste, deu uma vontade muito grande de proteger, cuidar. Na hora de ir embora disse pros meus companheiros que iria ficar. Tadeu ainda me disse pra não fazer isso, que eu poderia me complicar, mas não dei ouvidos, eu precisava conhecer melhor aquela mulher, fui para o lado de fora e fiquei sentado na calçada esperando a taberna fechar.

Quando ela e o dono fechavam o local me aproximei. A moça tomou um susto e disse para que não se preocupasse, apenas que estava tarde e seria perigoso ela voltar pra casa sozinha, queria lhe fazer companhia. Ela relutou, mas o dono da taberna aconselhou que ela aceitasse porque realmente estava tudo muito vazio e perigoso, assim a acompanhei.

Descobri que seu nome era Paola, tinha mais ou menos a minha idade, dois filhos que deixava com uma vizinha enquanto trabalhava. Tinha um drama na vida o desaparecimento do seu marido, o homem era militante político e um dia foi retirado de casa pela polícia de Mussolini, já fazia dois anos do acontecido e nunca mais tivera notícias dele. Comovi-me com a história da pobre mulher, entendi seu olhar triste, triste e linda, batalhadora, guerreira, deixei em sua casa, me despedi e voltei pensando que lá ia eu para mais uma paixão.

Mas eu, o pára raio de confusões não podia parar de arrumar confusões tinha que me apaixonar justo no meio de uma guerra em um país estranho e por uma mulher do local, casada. Estava lá pra matar, não para amar. Participava dos meus treinamentos, mas só pensava nela, no seu sorriso triste. Outras folgas vieram e eu sempre estava lá, nossa amizade ia crescendo cada vez mais, sempre a levava em casa, sozinho e me arriscava a ser pego por inimigos, a ser punido por meus superiores, mas nada disso me importava, apenas ela. Enquanto meu irmão e outros soldados brasileiros reclamavam porque receberam modelos de armas de antes da 1° guerra mundial e os americanos tinham a última geração de armas eu pensava que tinha que ajudar a Paola de alguma forma.

Uma noite, como sempre levei Paola pra casa e quando ela entrava em sua residência a vizinha saiu correndo falando em italiano, não entendi nada mas vi que era algo sério porque Paola entrou correndo. Não me fiz de rogado e entrei atrás, entrando a vi com o filho no colo. O menino chorava com muitas dores e ela chorava junto pedindo pra acalmá-lo. Parei na porta e falei que o menino precisava de um médico. Entrei no quarto, peguei no colo e pedi que ela me mostrasse onde estava o hospital mais próximo.
Ficamos a noite toda no hospital. O menino tinha apendicite e foi operado naquela madrugada mesmo, fiquei na recepção com ela e depois no quarto. Enquanto Paola o acarinhava ao dormir notei pela janela o Sol já forte no céu percebi a enrascada que havia me metido. Ela chegou perto de mim, me agradeceu e deu um beijo no rosto, falou que eu voltasse pro quartel e que eu era um grande homem.

Voltei para o quartel feliz pela aproximação com ela e sabia que estava com problemas. Ao chegar fui preso, ganhei uma semana de detenção, uma das semanas mais longas que já tive. Fui liberado, mas proibido de sair do quartel, mesmo assim saí. Os soldados levaram um susto quando me viram entrar na taberna. Paola abriu um sorriso e perguntou o que eu fazia lá já que tinham avisado que eu não poderia ir, sorri e disse que não conseguia ficar longe dela.

Sentei e bebi minha caneca de vinho. Tadeu virou pra mim e disse que já conhecia aquele meu olhar, que eu estava apaixonado. Ri e falei que ele me conhecia mesmo, eu estava e se tudo desse certo levaria aquela mulher para o Brasil. Ele bebericou seu vinho rindo dizendo que eu era louco, respondi que não era louco, era doido.

Como de costume fiquei para levá-la pra casa. Andando na rua me deparei com dois soldados e notei que o uniforme deles era diferente. Eles também notaram, eram inimigos. Paola me pegou pela mão e saímos correndo com eles atrás atirando, conseguimos nos livrar. Perguntei se estava tudo bem com ela, ela respondeu que sim e me perguntou se eu estava bem, eu não estava.

Estava com dores. Ela reparou que havia uma mancha de sangue no meu uniforme na altura do ombro. Falou que tínhamos que ir a um hospital, mas me recusei, não era prudente um soldado Aliado internado num hospital de um país do Eixo. Ela me levou para casa e viu que o tiro era só de raspão, cuidou de mim a noite toda e enquanto fazia curativo em mim me beijou.
Um beijo que desejava faz tempo, que me fez esquecer toda a dor, tudo que ainda estava pro vir. Eu não estava naquele país a passeio, sabia que uma hora teria que pegar em armas e ir pro front, poderia sim morrer tentava ao máximo não pensar nisso, mas a minha morte não era uma hipótese para ser descartada, aproximava-se a hora de ir pro campo de batalha até que a hora

Surgiu. Fui até a taberna. Paola perguntou se eu queria uma caneca de vinho e respondi que não, que só havia ido até lá pra me despedir e estava indo pra guerra de verdade.

Ela deixou cair a bandeja no chão, me abraçou e pediu que eu tomasse cuidado. Dei um beijo em sua testa e falei que voltaria e a levaria pro Brasil comigo. Ela sorriu e disse que iria me esperar. Despedi-me, caminhei até a porta e ela falou meu nome, parei, ela foi até a mim e beijou minha boca, fez um carinho e pediu ”volte pra mim”.

Assim fui pra guerra. Meses de conflitos, dificuldades, vendo gente morrer, gente do meu lado e inimigos, sendo que eram meus inimigos e nunca haviam feito nada pra mim. Só pensava no porque de tudo aquilo só porque um dia um ser ridículo com um bigodinho mais ridículo ainda perdeu a mulher para um judeu em vez de tomar um porre e compor um samba como todo traído faz resolveu invadir a Polônia.

No final de novembro recebemos a missão de conquistar uma elevação na região dos Apeninos, se chamava Monte Castelo. A nossa campanha na Itália, aliás, foi essencialmente travada em montanhas e colinas, para que pudéssemos alcançar Bolonha, era preciso romper a Linha Gótica, um complexo defensivo dos alemães, formado por fortificações nos montes Apeninos. Se conseguíssemos romper a Linha Gótica poderíamos utilizar uma estrada conhecida como Rota 64.

Esse tipo de terreno favorecia o exército que estivesse na defensiva e no caso era o alemão. A principal vantagem dos alemães era a posição privilegiada, do alto das montanhas e colinas eles podiam nos ver tentando avançar e sem a vantagem do fator surpresa ao escalarmos as colinas e montanhas defendidas pelo exército alemão podíamos ser facilmente atingidos pelos tiros das metralhadoras alemãs.

Além de tomar cuidado para nos protegermos dos inimigos ainda precisávamos ter habilidades de alpinista. Cada um de nós carregava cerca de 25 quilos de equipamento e não havíamos recebido treinamento para o combate em montanhas, sequer tínhamos feito exercícios básicos de combates em terreno elevado..é, estava complicado.

Tentamos várias vezes tomar Monte Castelo. As quatro primeiras tentativas fracassaram. Em dezembro a situação piorou, inverno rigoroso com nevasca e nenhum de nós estava acostumados a essa situação. Pra não correr risco de ter meus pés congelados e amputados colocava jornal velho dentro das botas, mas em fevereiro conseguimos conquistar Monte Castelo.
Continuamos na luta, depois conquistamos Soprassosso e Castelnuovo, depois veio a batalha mais sangrenta, a de Montese.

Uma batalha terrível, com muitas baixas. Estava eu na luta atirando, tentando sobreviver quando ouvi uma voz me chamando, me virei e era meu irmão caído com a mão no peito.

Corri em sua direção, peguei na sua cabeça e implorei para que ele resistisse. Seu peito estava cheio de sangue tinha sido alvejado. Tadeu virou pra mim e disse que eu era um herói, um guerreiro e que tinha muito orgulho de mim. Tinha certeza que nossa mãe, nosso avô e todos que amamos que já haviam partido iriam lhe receber bem e que eu ganhasse aquela guerra por nós. Eu só conseguia chorar, disse que o amava e dei um beijo em sua testa, Tadeu morreu em meus braços.

Um grande ódio tomou conta de mim, tudo pro causa daquele desgraçado do Hitler. Peguei minha arma e saí atirando nem tenho idéia de quantos inimigos matei naquele dia, vencemos a batalha, tomamos Montese, mas a minha guerra pessoal havia perdido, mais uma perda de quem eu amava.

Ainda tomamos Turim antes de vencer a guerra. Hitler se matou, Mussolini assassinado e a guerra chegava ao fim. Não me esqueci do prometido ansiava por ver Paola novamente, viajei ao seu encontro pra poder levá-la de volta ao Brasil.

Bati em sua porta empolgado, ansioso. Ela abriu e deu um sorriso comentando “você está vivo!!”, dei um abraço nela e quando tentei beijá-la desviou o rosto e se soltou dos meus braços. Nesse momento apareceu um homem por trás dela, num péssimo português ele perguntou “Você que é o Doido?”.

Sem entender muito respondi que sim. Ele então saiu da casa apertou minha mão com vontade e disse que era o marido de Paola e que era muito grato por eu ter cuidado de sua mulher e de seus “bambinos” e por junto com o meu país lutar pra libertar o dele. Perguntou se eu queria entrar para comer algo e respondi que não, já estava voltando para o Brasil, me despedi deles e fui embora.

Assim voltei ao Brasil com mais uma desilusão amorosa, doía não ter a Paola comigo, mas doía mais ainda não ter o Tadeu. Meu irmão havia sido morto lutando pela liberdade, ele e tantos outros pracinhas heróis desse país. O mundo estava livre, mas meu coração estava preso em uma grande tristeza.

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