segunda-feira, 23 de maio de 2011

Capítulo XXII - O fim

E assim em meados do ano 2000, cinqüenta anos depois de partir eu voltava a Tremembé do Oeste. Como diria a pequena Dorothy em “O mágico de Oz” não existe lugar melhor que o nosso lar.  

Apesar de que o “meu lar” estava bem diferente. Enquanto saía da rodoviária quase fui atropelado por um ônibus. A cidade estava muito diferente tinha se modernizado. Mostrava pra Aninha que aquela era a cidade que papai havia nascido e pimpão latia eufórico. Eu estava com peruca branca e óculos para disfarçar-me de velho. Sim eu estava ridículo, mas se não fosse isso ninguém acreditaria que era eu.

Fui até o Moulin Rouge e ele estava lindo. Sandra havia cuidado muito bem dele. Bati na porta ansioso por ver minha irmã e um rapaz com jeito bem afetado atendeu gritando “titiooooo” me abraçando.

Não sabia de onde havia surgido aquela borboleta esvoaçante e perguntei que. Era. Respondeu que era meu sobrinho Doido Tadeu. Pois é a Sandra teve um filho e cometeu essa sacanagem com ele de botar meu nome. E o pior que aquele se chamava Doido, mas o apelido dele poderia ser normalmente “Muito louca”.

Entrei e emocionei-me em estar naquela casa depois de tantos anos. Na casa que nasci e fui criado, casa que trazia tantas lembranças. Recompus-me e perguntei ao meu sobrinho sobre sua mãe. Doido Tadeu respondeu que ela não estava bem de saúde, mas me esperava em seu quarto.
Fui até lá e quando entrei encontrei minha irmã Sandra velhinha 
deitada na cama. Ela me viu e deu um grande sorriso de felicidade abrindo os braços.

Abracei minha irmã emocionado e lá ficamos abraçados por longos minutos. Ela beijou meu rosto e disse que eu estava lindo mesmo com aquela peruca ridícula. Eu ri e falei que era melhor com a peruca. Abraçamo-nos de novo e ficamos os dois ali em silêncio sem falar nada. Apenas matando a saudade e colocando todo aquele amor pra fora.

Minha irmã morreu alguns dias depois e assim foi embora a última pessoa de minha infância e adolescência.

O prefeito da cidade decidiu me homenagear. Falavam em Tremembé que eu era o filho mais querido e famoso do local. Fez uma grande festa na praça com uma grande multidão. Fizeram os discursos de praxe e pediram que eu falasse ao povo tremembense.

Passaram-me o microfone e o prefeito pediu para que eu falasse. Lembrei do meu pai e no discurso que fiz ao voltar da guerra e engasguei. O prefeito insistia dizendo “Fala Doido, como foi sua vida fora de Tremembé para esse povo que anseia por suas palavras!!”.

Eu com o microfone na mão comecei a balbuciar..”a vida..a vida..a vida.....a vida foi fo..” Todos paralisados olhando pra mim o prefeito já branco e eu emendei “ vida foi fo..a vida foi fo..rmidável”. Todos me aplaudiram e o prefeito respirou aliviado.

Depois passei pela praça lembrando meus bons momentos lá. Meus papos com Gustavo e Rodrigo, as vezes que esperava Ericka passar até do Lindão eu lembrei. Via a meninada jogar bola na rua e lembrava de nós ali. Sandra sumindo com os garotos e meu pai assoviando..ser velho é ser refém de suas lembranças. 

Olhei a igreja e vi as pessoas entrando pra missa, vi o padre do lado de fora chamando seu rebanho e lembrei-me de padre Pinheiro. O pai que eu só soube que tinha depois de morrer. Lembrei de minha mãe também. Quanta saudade eu tinha dela.

Doido Tadeu passou a ser administrador do Moulin Rouge junto com Alexandre, um negão “dois por dois” que vinha a ser seu companheiro. Os dois cuidavam de um menininho chamado Duda de mais ou menos nove anos que acabou sendo um bom amiguinho pra Aninha, uma espécie de irmão mais velho. Aquela família estruturada e feliz me animava em relação ao futuro da Aninha. Sabia que ela não estaria mais sozinha. As meninas que trabalhavam no local eram maravilhosas e como eu estava velho, mas não estava morto aproveitava.

Um dia apareceu uma mulher atrás de mim. Devia ter mais ou menos trinta anos, morena, sorriso bonito e seios que nem falo nada..chamava-se Marta.

Desci a escada e perguntei se poderia ajudar em algo. Ela respondeu que era jornalista do “Correio de Tremembé”, sempre ouviu falar de mim e queria me fazer uma proposta. Escrever minha biografia.

Fiquei lisonjeado com a proposta e disse que nem tinha tantas histórias assim pra contar. Ele falou que sabia que eu tinha sim acompanhou todas as minhas histórias pelo mundo, até as mais fantásticas e queria fazer minha biografia. Atacado pela vaidade topei.

Assim via Marta todos os dias e contava minhas histórias para ela. Tudo inclusive as mais loucas. Fazia minha biografia, brincava com minha família, ajudava Doido Tadeu e Alexandre a cuidar da casa. Minha rotina era essa.

Um dia Duda entrou chorando em casa e perguntei o que havia acontecido. Ele respondeu que havia perdido todas suas figurinhas em um jogo de bafo. Jogo de bafo é um jogo que várias figurinhas são empilhadas e os jogadores batendo com a mão em cima tem que vira-las.

Lembrei da história de meu avô e as bolinhas de gude e resolvi ajudar Duda. Passei a semana lhe ensinando a jogar passando todas as minhas táticas. Duda marcou uma revanche e nesse dia o levei no colégio desejando boa sorte. Voltei para casa com sensação do dever cumprido, o legado que meu avô havia me passado passei pra ele. No fim do dia Duda voltou pra casa e chorando mais que da outra vez. Perguntei o que havia acontecido e ele falou que minhas táticas eram furadas, tinha perdido de novo. É..eu era bom nas bolinhas de gude mesmo.

Mas jogava botão com ele e deixava ganhar como meu avô fazia e até de bonecas com Aninha eu brincava. Minha filha era uma pessoa feliz e aquele ambiente de cidade do interior fazia bem para ela. Aprendi coisas como dar laços em cabelos só por causa dela. Sua festa de dois anos acabou sendo em Tremembé e ela ficou linda vestida de “moranguinho”.

Eu não era o Luiz Ayrão, mas a nostalgia também tomava conta de mim. Mesmo a cidade diferente Tremembé lembrava meu passado e evidente meu passado lembrava Aloemi o grande amor da minha vida. Cheguei a Tremembé na esperança de revê-la ou ao menos ter notícias suas e nada. Era incrível como Aloemi tinha desaparecido no mapa, última vez que a vi foi quando estive de carro com meus amigos em sua casa e nem notícias suas tive depois. Não me conformava com a idéia cada vez mais real de morrer sem ter notícias dela.

Fiz oitenta anos e uma grande festa foi feita para mim no Moulin Rouge. Eu com a peruca ridícula para ninguém se espantar com minha “jovialidade” assoprei aquela imensidão de velas. Depois da festa fiquei sentado na sala pensando em Aloemi quando Marta apareceu e disse que eu estava pensando nela. Perguntei como ela sabia e Marta disse que eu sempre fazia a mesma cara quando pensava em Aloemi. Eu ri e confirmei que sim. Marta então sentou do meu lado e disse que estava na hora de contar essa história para a biografia.     

Contei toda a história e parecia que Aloemi revivia dentro de mim. Todo aquele amor forte. Eu vivi muito tive grandes experiências, mas a impressão que eu tinha é que minha vida fora incompleta. Tive em guerra na Europa, nos porões do DOPS, caí de avião, voei de asa delta em condições terríveis. Fiz de tudo na vida, mas não consegui ser feliz no amor. Nem com aquelas que tive rompantes de paixão nem aquela que foi o grande amor da minha vida. Tudo o que restava de Aloemi para mim era um retrato encantado. Retrato que eu desaparecia cada vez mais.

Meses passaram e chegou o fim do ano, a virada de 2000 para 2001. Doido Tadeu animado preparava o Moulin Rouge para a festa de réveillon e contava de seus planos para o novo milênio.

Estava tudo certo dele e Alexandre irem em setembro de 2001 para Nova York. Falei que era uma ótima idéia porque havia morado em Nova York e era uma cidade fantástica. Meu sobrinho disse que ansiava por setembro chegar e conhecer a Estátua da Liberdade e o World Trade Center. Imaginava-se no alto das torres gêmeas vendo a cidade pequenininha. Falei que ele iria adorar e que Nova York nunca mais seria a mesma depois de setembro de 2001.

Naquela noite fui dormir e tive um sonho estranho. Todas as mulheres da minha vida apareceram. Minha mãe, Sandra, Manoela, Dona Li, Susana, Luciana, Iani, Paola, Marcela, dona Áurea, Rafaela, Alice, Karina, Silvana, Laryssa, Ana Cristina, Raquel, Thais, Vivian, Kelly, Natália, Alessandra, Gabriela, Bianca, Bia..no fim até cigana Regina e Marta apareceram e todas falando a mesma coisa “procure Aloemi!”. Menos a Luciana que disse “Seu viad..procura Aloemi porr..!!”    

Depois desse redemoinho de emoções, com todas essas mulheres falando na minha cabeça sonhei que estava no fundo do mar e não conseguia sair. Tentava sair e ouvia as vozes falando “procure Aloemi.” Acordei assustando, sem ar e sentei na cama tossindo muito e espantado com o sonho.

Desci e Alexandre contou que tinha carta para mim. Estranhei e olhei o remetente..era a Ericka!!!

Abri correndo a carta e nela Ericka pedia desculpas pela forma estranha que foi embora do rio no dia da festa de formatura. Contou como era sua vida em AXT 49, planeta que vivia. Havia casado com um daqueles ETs e com ele teve muitos ETzinhos e que sentia saudades de mim, que era pra eu ser feliz.

No fim da carta tinha um PS e nele estava escrito “procure Aloemi”. Ericka havia sido a única que não apareceu no meu sonho. Botei a carta na mesa da sala sentei no sofá com aquela minha cara de bunda habitual e Aninha se aproximou passou a mão no meu rosto e disse “Aloemi papai”.

Marta chegou para escrever o último capítulo de minha biografia. Sentei com ela em uma mesa e mostrei a carta e contei do sonho. Ela disse que o nosso papo naquele dia seria difícil não ligaria o gravador porque achava melhor adiar o último capítulo porque tinha uma notícia pra me contar.

Assustado perguntei o que havia acontecido e Marta contou que Aloemi tinha morrido. Ela descobrira naquela manhã que fazia umas semanas de sua morte e ela estava enterrada no cemitério de Tremembé.

Ouvi a notícia e meu chão sumiu, meu corpo gelou. Fiquei tonto e falei pra Marta que não estava me sentindo bem precisava deitar. Ela entendeu e mandou que eu fosse. Sem falar uma palavra subi as escadas e fui para meu quarto.

Deitei olhando pro teto como fiz várias vezes na minha juventude ali naquele mesmo quarto e comecei a chorar. Um choro de desespero, doído demais era como se minha vida tivesse acabado. Aquela mulher que eu tanto havia amado durante cinqüenta anos, que fez a esperança de vê-la novamente um dia ser a força maior de minha vida estava morta. Era a cereja do bolo, a morte que faltava para minha vida acabar de vez. Peguei a foto de nós dois e com ela no peito chorava o choro mais doído de minha vida. Estava tudo acabado, nunca mais beijaria Aloemi, nunca mais afagaria seus cabelos, nunca mais teria meu amor comigo.

De noite depois de muito chorar levantei, troquei de roupa e sem peruca nem nada com meu aspecto natural desci. Ninguém percebeu que passei pela sala, abri a porta e saí. Estavam todos tão ocupados com suas alegrias que não perceberam minha tristeza.

Fui para a beira do rio, a mesma beira do rio que tanto já havia sido minha companheira e consolado minhas tristezas.

Pensei muito na minha vida até aquele momento. Cheguei aos oitenta anos e por essa necessidade de ser livre eu construí nada. Não me dei bem em uma profissão não comprei uma casa, ta ganhei de herança, mas é diferente. Não fiz uma família, ganhei uma filha que eu não verei crescer. Eu não tinha uma pessoa para dividir meus anseios, minhas dúvidas, esperanças.

Acabei a história sozinho. Não fazia diferença na vida de ninguém, ninguém ia dormir pensando em mim e eu não aparecia na mente de ninguém ao acordar. Pessoas me amaram e deixaram de me amar com a mesma facilidade. A vida foi passando, as pessoas foram caminhando e eu fiquei. Na vida dos sonhos eu fui um sucesso. Na vida real fui um projeto ambicioso e fracassado.

 Fiquei algumas horas lá e mais ou menos onze da noite de 31 de dezembro de 2000 levantei e decidi que tinha que ir a outro
lugar.

Precisava ir ao cemitério de Tremembé.


Cotinua amanhã...

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