quarta-feira, 18 de maio de 2011

Capítulo XX - @Bia

Voltei para o Rio enojado com a política e com a vida. Decidi refazer minha vida na cidade. Algum tempo depois estourou uma grande bomba que parou os meios de comunicação. Gustavo sofreu um enfarte fulminante e morreu em um motel acompanhado de um travesti.
Não tive nenhum sentimento com sua morte, também não fui ao enterro. A impressão que eu tinha era que meu grande amigo de infância havia morrido faz tempo. Só pedi a Deus que perdoasse sua alma e me protegesse sempre. Também decidi nunca mais me meter em política.
Sentia falta de praticar esportes e voltei ao meu vôo livre. Nada de competições importantes porque ainda carregava comigo o trauma do acidente com Edu. Edu pro sinal que virou um símbolo do esporte carioca. A barraca que montara tão humildemente virou quiosque e a avenida que o quiosque fazia parte mudou de nome, agora se chamava avenida Eduardo Valente. Uma praça próxima também ganhou seu nome e tive a honra de junto com Soninha e os pais de Edu cortar a fita e tirar o pano de cima de seu busto.
Como disse antes não participava de competições, mas tinha o vôo livre como terapia. Era como pescar em Tremembé ou simplesmente ficar na beira do rio pensando na vida. Pegava minha asa e pulava da pedra da Gávea para pensar. Lembrava dos bons tempos acho que os leitores puderam perceber que os anos oitenta com aquela rapaziada da praia foi um dos melhores momentos da minha vida e eu sentia saudades e pensava em Edu e Diego.
Finalmente depois de mais de trinta anos consegui terminar minha faculdade de direito. Mas depois de tanto esforço peguei o diploma e pendurei numa parede. Era quase um ancião, mas estava conectado com o mundo moderno. Fiz um curso de computação e depois comprei um computador.
Sim eu que nasci em 1920, antes da invenção da televisão e agora estava conectado a internet. Descobria um mundo novo, sites e mais sites com conteúdo muito bacana. Até Tremembé do Oeste tinha site oficial entrei nele e vi como a cidade tinha mudado com o tempo estava grande. Aperfeiçoei-me tanto em internet que comecei a trabalhar fazendo sites. Dava pra tirar um bom dinheiro até porque naquele momento eram poucos que trabalhavam com isso.
Minha rotina era essa trabalhar fazendo e mantendo sites e voando com minha asa delta. Estava em um período introspectivo e não fiz grandes amizades como era corriqueiro em minha vida. Acho que era trauma de tantos bons amigos que fiz e perdi ao longo dos anos.
Uma noite perdi o sono e decidi ler um livro, mas não conseguia me concentrar não sei se a história era chata, mas o fato é que me sentia ansioso. Levantei e fui ao banheiro depois bebi água e fiquei olhando pro computador na sala. Fui até ele e liguei.
Adiantei alguns trabalhos, naveguei um pouco, mas continuava me sentindo impaciente. Na verdade sentia-me sozinho, angustiado e queria alguém pra conversar. Lembrei que existiam sites com chat de bate-papo, mas eu nunca tinha entrado porque achava coisa de solitários. Então era perfeito pra mim naquele momento de solidão.
Entrei e tinha vários tipos de chat. Por cidades, idades, vários tipos de assuntos e inclusive de sexo. Já era madrugada mesmo e decidi entrar pra ver qual era do chat de sexo.
Entrei e vi nicknames ridículos como “Thomas Turbando”, “Penislongo”, “20comer”, “H Romeu Pinto” e eu pra ironizar toda aquele situação escrevi como nick “Pão com ovo”.
Entrei e lógico que vieram várias brincadeiras com meu nome. Eu via os homens tentando cantar as mulheres que entravam e ria do ridículo da situação. Ironizava esses caras e assim iniciava uma briga. Adorava briga em chat assim pelo menos não parava em delegacia.
Uma hora entrou uma mulher que puxou assunto comigo. Papo vai, papo vem e começou sexo virtual. Sinceramente até hoje eu não sei qual a graça de fazer sexo virtual fiz porque estava curioso para ver como era. Mas aquele lance de “imagina eu fazendo isso em você” não era muito a minha praia. Até porque eu precisava das duas mãos pra digitar se é que me entendem.
No fim a pessoa que fez o tal sexo virtual comigo começou a digitar risadas e eu não entendi. Falou que eu era um otário porque era homem. Riu bastante da minha cara e depois saiu. Não entendi bem aquela reação, o cara “deu” virtualmente pra outro e saiu rindo seria como na vira real um homem fornecer o seu a outrem e depois rir da cara do sujeito dizendo que não era gay. Bem, cada um sabe o prazer, a dor e a almofadinha que tem.
Apesar desse babaca gostei do chat conheci algumas pessoas legais, batemos papos e trocamos e-mails. Fui dormir já de manhã e nem voei naquele dia.
Sempre entrava em chats de noite porque o pulso da ligação era mais barato. Era só a conexão não cair que contava apenas como uma ligação. Torcia pra ligação não cair e pra conexão entrar logo. Sabia que em alguns países já existia “banda larga” quando dá pra usar a internet sem telefone. Mas aqui era conexão discada mesmo então só restava torcer.
Assim aos poucos fui viciando em chat. Entrava todas as noites e ia para o chat de sexo, os outros chats tinham poucas pessoas e o de sexo era sempre movimentado. Gostava de papear, flertar, sempre tive mais facilidade escrevendo do que falando porque por incrível que pareça sou uma pessoa tímida. Só na hora do sexo virtual que ficava um pouco mais chato. Cansei de falar que queria fazer e acontecer com a mulher lendo jornal ou lanchando.
Um dia entrei no chat e encontrei um pessoal batendo papo animado, era a sala 2 de sexo. Entrei e tentei me enturmar, mas parecia que o povo era uma “panela”. Panela é o nome usado por um grupo de pessoas que é unido e não permite que outras pessoas participem. Mas eu sou insistente, gostei da sala, das pessoas e de tanto insistir consegui entrar na panela e me entrosar.
Aquele passou a ser meu círculo de amizades. Estranho isso fazer amizade com quem nunca tinha visto, mas era bacana me divertia. Continuava praticando vôo livre, mas a minha prioridade passava a ser a internet.
Uma noite teclava no chat quando entrou uma @bia. Eu paquerador de internet que era logo chamei pra conversar. Ela demorou pra responder um pouco, mas respondeu pedindo desculpas que todos os homens da sala haviam lhe chamado.
Respondi rindo que tudo bem pegaria minha senha e esperaria minha vez. Uma vantagem que eu tinha nesses chats era que eu fugia do lugar comum falando piadas, coisas inesperadas e assim chamava a atenção. Essa minha resposta chamou atenção dela que riu e rapidamente me respondeu que não precisava de senhas.
Emendamos um bate papo no reservado. Tinha duas opções de papo. “No aberto” você falava com todo mundo e todos poderiam ler o que escrevia. No “reservado” o nome mesmo já diz só a outra pessoa lê.
Ela contou que seu nome era Beatriz, mas podia chamá-la de Bia, respondi que meu nome era Doido, mas podia me chamar de Doido mesmo que quando alguém na rua falava “Hei!! Doido!!” eu sabia que era comigo. Bia gargalhou. Depois que soube que ela não acreditou que meu nome era Doido mesmo. Evidente.
Com a risada dela o papo fluiu. Flui tão bem que os tradicionais “de onde você é?” e “como você é?” demoraram muito para ser perguntados. Ela era de São Paulo. Informou que era branca, o cabelo mudava de cor dependendo de seu humor e se disse “porpetinha”. Eu ri da expressão e ela perguntou se eu tinha problema com gordinhas respondi que só se roubassem minha comida, mas de resto problema nenhum. Ela riu e me descrevi também.
Chegou um momento que achamos melhor ir para uma sala mais vazia onde ninguém nos chamasse. Fomos para uma sala que tinha ninguém e continuamos conversando. Ela contou que era dentista, noiva, mas que seu noivado não ia bem. Eu contei muito superficialmente minha vida. Se eu entrasse em detalhes de minha vida amorosa, pessoal, que tinha mais de setenta e cinco anos e tinha uma foto que envelhecia no meu lugar era capaz dela sair da sala.
O papo esquentou um pouco e acabou rolando o tradicional sexo virtual, mas com ela foi diferente foi gostoso. Curioso que foi a única vez que fizemos sexo virtual.
No dia seguinte voei, mergulhei no mar e fiquei pensando naquela menina. Achava estranhíssimo porque pensava e ansiava encontrar novamente uma mulher que eu nunca tinha visto só sabia como era por descrição e morava em outra cidade. Era loucura aquilo nunca daria certo, mas me envolvi.
Envolvi e fui me envolvendo cada vez mais. Viramos o casal símbolo da sala eu ficava nervoso esperando que ela entrasse on line e abria um enorme sorriso quando entrava. Precisava conhecer aquela mulher pessoalmente todos os dias falava que queria ir para São Paulo e ela falava que não. Era noiva e respeitava seu noivo e enquanto estivesse com ele faria nada.
Teve uma noite que ela não entrou e fiquei preocupado, na noite seguinte também não entrou e a preocupação virava desespero. Entrou na terceira noite e nem cumprimentei perguntando o que havia acontecido. Bia me respondeu que o noivo havia chegado bêbado em sua casa duas noites antes, eles brigaram, ele bateu nela e depois a violentou. A violência tinha sido tão grande que ela passou uma noite no hospital, mas já estava bem.   
Fiquei enfurecido queria matar aquele cara. Perguntei o que ela tinha feito depois e Bia respondeu que nada não o denunciou simplesmente terminou o noivado e nunca mais queria vê-lo. Continuei com raiva e discordei falando que ela tinha que fazer algo. Ela respondeu que faria. Iria ao Rio.
Não esperava aquela resposta fiquei quieto e incrédulo. Ela perguntou se eu estava bem e respondi que sim. Bia disse que ficaria apenas um dia no Rio visitaria uma amiga e perguntou se eu poderia vê-la de noite, respondi que sim.
Aquela situação me assustou um pouco e ela notou. Era um encontro as escuras eu nunca tinha visto aquela pessoa. Adorava a Bia, mas virtualmente. Como seria na “vida real?”. Mas eu gostava tanto dela que paguei pra ver. Marcamos em um shopping em Botafogo em frente às salas de cinema.
Combinamos como estaríamos vestidos e fui pra lá. Cheguei antes dela e estava bastante ansioso. Como ela seria? Será que gostaria de mim? Várias mulheres passaram na frente do cinema e eu me perguntava se era ela, algumas me assustaram e eu rezava para não ser e quando passavam pelo local marcado e prosseguiam eu respirava aliviado.
Até que ela chegou e eu gostei do que vi. Loira, gordinha ou “porpetinha” como ela havia se descrito e um decote bem interessante. Fiquei tímido porque não lhe conhecia e nos beijamos no rosto. Perguntei como ela estava, respondeu que bem e falei que estávamos atrasados pra sessão que já estava pra começar. Entramos no cinema mal tendo nos falado antes. Passava Titanic.
Fiquei maior parte do tempo pensando no que faria quando o filme acabasse. Tinha gostado dela, mas por mais incrível que parecesse eu estava tímido como nunca havia sido na vida, estava nervoso e suava frio. Aos poucos fui me envolvendo com o filme e no fim quando quase todo o cinema chorava eu tentava disfarçar meu choro e não passar vergonha na frente da Bia logo no primeiro encontro enquanto ela assistia impassível. Uma coisa que ela disse logo na primeira vez que nos falamos é que só chorava três vezes por ano. Era uma pessoa fria.
Saímos do cinema e perguntei se ela já tinha ido a uma escola de samba. Bia respondeu que não e perguntei se ela queria conhecer a União da Ilha. Ela disse que sim e fomos. Eu estava completamente fora de sintonia mesmo, um primeiro encontro e levar pra escolas de samba, ainda mais na Ilha do Governador que era longe à beça.
Chegamos à quadra e estava muito cheia. Ficamos nem meia hora e fomos para um bar que tinha ao lado. Sentamos e lá a coisa começou a melhorar nos soltamos aos poucos e começamos a lembrar um pouco a sintonia que tínhamos atrás de telas de computadores.
No fim levei Bia até seu hotel, ela iria embora pra São Paulo de manhã beijei seu rosto e me despedi. Fui embora com raiva de mim mesmo por ter deixado aquela oportunidade passar e penando que provavelmente não seria mais a mesma coisa entre nós.
Na noite seguinte ela entrou e parecíamos mais tímidos mesmo, sem assunto. Eu não podia deixar isso acontecer tinha gostado dela. Em um momento resolvi me abrir e pedir desculpas pela noite anterior que ela era linda como imaginara, muito atraente e que aquele decote havia me deixado cheio de tesão e com tara em seus seios. Bia riu e pediu desculpas também porque assim como eu se sentiu tímida. Falei que resolveria aquela situação. Iria até São Paulo.
E fui. Bia me esperou na rodoviária e mais uma vez nos beijamos no rosto. Estava “travado” não conseguia avançar na situação e me irritava. Pegamos o metrô e fomos até a Avenida Paulista ver um filme daquelas irmãs gêmeas loirinhas. Entramos na sala e ela estava vazia ao contrário de Titanic. Eu cheio de vergonha enchi-me de coragem e lembrei a ela que uma vez disse no chat que seu beijo era ótimo e que queria saber se era bom mesmo.
Assim surgiu nosso primeiro beijo. A tensão havia acabado nos beijamos com muita vontade e eu com a mão em seu pescoço. Bia pegou minha mão e abaixou colocando em seu seio, depois quando fui ver ela já tinha colocado a minha mão dentro de seu decote. Ela tomava todas as iniciativas e achava ótimo.
Não vimos nada do filme. Saímos de lá e fomos direto a um motel ali perto. Fizemos amor à noite toda foi maravilhoso como eu pensava que seria e na manhã seguinte voltei ao Rio de Janeiro.  O ônibus partia e eu abri a janela colocando meu corpo pra fora. Abri os abraços e gritei pra ela “Eu sou o rei do mundo!!” Leonardo Dicaprio perde pra mim. 
Cada vez mais nos envolvíamos não estávamos namorando, mas a tendência era que isso ocorreria. Combinamos que éramos livres até ela voltar ao Rio de Janeiro e decidirmos o que fazer.
Uma noite ela disse que “ficou” com um rapaz deu-lhe um beijo e isso me incomodou demais. Bia notou que fui frio a noite toda com ela e eu notei que estava me apaixonando.
Sim mais uma vez me apaixonando, mas daquela vez era diferente era um sentimento mais forte que eu não sentia desde Aloemi. Gostava demais da Bia a ponto de uma noite falar que a amava.
Falei e ela respondeu nada, perguntei se estava tudo bem e ela disse que sim só não esperava. Pedi desculpas caso ela não tivesse gostado e ela respondeu “Te amo Do” era assim que ela me chamava. Não havia mais dúvidas, o que discutir no Rio, estávamos apaixonados e queríamos um ao outro.
Ela veio ao Rio e levei em meu lugar preferido na cidade. As pedras do Arpoador. Mostrei para a Bia a vista e as pessoas surfando. Disse que era um grande surfista que antigamente ia todas as manhãs com um amigo surfar ali e até campeonato internacional havia participado. Ela perguntou em que lugar fiquei na competição ri e respondi que era melhor eu não comentar.
Em um impulso tomado pelo imenso carinho que sentia por ela e por aquele cenário que era um dos mais bonitos do mundo virei pra Bia e perguntei se ela queria namorar comigo. Primeira vez que eu fazia esse pedido formal na vida. Bia me olhou e sorriu quase fechando os olhinhos dizendo que sim. Eu amava aquele sorriso dela o jeito que os olhos ficavam pequenininhos. Finalmente Aloemi tinha uma ameaça em meu coração.
Passeamos pela cidade toda naquele fim de semana. Fomos ao Cristo Redentor, ao Pão de Açúcar. Detalhe, morando a tanto tempo naquela cidade era a primeira vez que ia a esses pontos turísticos. Fomos passear nas praias de Ipanema, Copacabana levei até São Cristovão para conhecer o Centro de Tradições Nordestinas e comer um baião de dois. Mantendo a tradição do livro lá vai a receita.
Receita de baião de dois
Ingredientes

1ª parte

  •  3 litros de água
  • 600g de feijão mulatinho ou carioquinha
  • 200g de bacon cortado em cubos
  • 400g de carne de sol
  • 300g de charque
  • 250g de lombo suíno

2ª parte

  • 100 ml de azeite
  • 6 dentes de alho picados
  • 1 cebola grande picada
  • 1 colher (sopa) rasa de cominho
  • 1/2 pimenta dedo-de-moça picada
  • 1/2 xícara (chá) cebolinha picada
  • 1/2 xícara (chá) salsinha
  • 1/2 xícara (chá) coentro

3ª parte

  • 250g de linguiça calabresa
  • 300g de arroz cru
  • Queijo fresco picado

Farofa

  • 200g de manteiga
  • Cebolinha picada a gosto
  • 300g de farinha de mandioca torrada

modo de preparo

Dessalgue as carnes no dia anterior, trocando duas vezes a água neste período. Aqueça numa panela de pressão, 3 litros de água. Coloque o feijão, o bacon, a carne de sol, o charque e o lombo suíno. Tampe a panela e quando começar a pressão deixe por 20 minutos em fogo alto.
Após os 20 minutos de cozimento na pressão, deixe esfriar, abra a panela e adicione a linguiça calabresa. Deixe cozinhando com a panela destampada.
Separado, numa frigideira, faça o tempero. Coloque o azeite e refogue o alho, a cebola, a pimenta dedo-de-moça e o cominho. Depois acrescente a cebolinha, a salsinha e o coentro.
Junte o refogado ao feijão e as carnes e em seguida acrescente o arroz. Coloque sal se necessário. Deixe por mais 30 minutos em fogo baixo até cozinhar o arroz e secar a água.
Desligue o fogo, acrescente a farofa e misture muito bem. Se quiser salpique com queijo branco picado. Para servir acompanha bananas da terra fritas e torresmo.

Farofa

Numa frigideira coloque a manteiga deixe derreter. Acrescente a cebolinha, a farinha de mandioca torrada e misture bem.

E o já tradicional..bom apetite !!

Ainda teve tempo de eu “pagar um mico”. Passeamos pela rua da Alfândega no Centro porque ela queria fazer umas compras e levar para São Paulo . Bia entrou em uma loja e vi um homem na frente de outra com microfone na mão anunciando as promoções. Em um grande ato de coragem e loucura cheguei ao ouvido do homem e pedi o microfone emprestado para uma declaração de amor. Enquanto Bia era atendida comecei a falar ao microfone que a amava e queria lhe dedicar uma canção.

O Saara parou. Todos foram para as portas das lojas me ouvirem cantar
“Beatriz” de Chico Buarque e Edu Lobo.

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz”
Bia saiu da loja com as mãos na boca e um riso de nervoso. Estava extremamente tímida e com vergonha. Eu também estava, mas fui até o fim e quando acabou nos beijamos sob aplausos da platéia.
Cada dia mais eu gostava dela. Cada dia mais achava que Aloemi ganhava uma pessoa para dividir meu coração. Nos víamos a cada duas semanas ela vindo ao Rio ou eu a São Paulo. Conheci seus pais e eles me trataram muito bem. Conheci sua família toda e era maravilhosa, encantei-me por seu avô. Sentia-me feliz, abençoado por novamente ter aquele sentimento.
Planejamos e viajamos no fim de semana dos namorados pra Argentina. Ficamos em um hotel perto do Obelisco e visitamos o museu de Gardel, a Casa Rosada sede do governo argentino, cemitério onde está enterrada Evita Perón, o bairro de Boca onde fica o mítico Boca Juniors e lá ocorreu algo que para mim virou um simbolismo como a perda da aliança de Aloemi. Bia perdeu a máquina fotográfica. Continuamos a viagem, mas não foi a mesma coisa, ela ficou muito triste.
Voltamos ao Brasil e quando não estávamos juntos matávamos as saudades através do chat. Tudo ia bem até que..
É eu sei sempre tem um “até que”. Só que na maioria das vezes esse “até que” representava algo de ruim que acontecia comigo, mas dessa vez foi o contrário o “até que” representa algo de ruim que fiz com uma pessoa.
Até que comecei a me aproximar de uma pessoa cujo nickname era Lilith. Começou como amizade até que começamos a ter conversas mais íntimas no reservado. Bia tinha uma viagem para Europa ao mesmo tempo que Lilith, que era paulistana também, viria ao Rio visitar uma irmã. Era uma excelente oportunidade para fazer algo ruim.
Bia viajou e Lilith veio. Enquanto eu voava ela foi pra praia me esperar. Desci, ela se apresentou e o restante..não preciso nem quero entrar em detalhes. A Lilith era uma mulher bonita, dava-me bem com ela e teria adorado que ela tivesse aparecido na minha vida em outro momento. Não era a hora. 
Eu nunca falei que era uma pessoa boa. Até acho que sou, mas vocês devem ter percebido no livro que sou um ser humano como outro qualquer mesmo acontecendo histórias muitas vezes difíceis de acreditar. Fiz coisas boas e ruins ao longo da minha vida e talvez essa em minha vida inteira foi a pior, o maior erro. Não por Lilith que era uma pessoa maravilhosa, mas pelo que fiz com a pessoa que eu amava. Fiz com ela o que Aloemi fez comigo.
Ela voltou e o namoro prosseguiu mesmo com essa falha terrível que cometi, até porque fui mais uma vez fraco e não contei. Não vi mais Lilith, mas trocávamos emails e conversávamos no chat todas as noites. Amava a Bia demais, mas gostava de falar com Lilith. Não era fácil.
Um dia senti falta dos desafios do esporte e decidi me inscrever no campeonato carioca de vôo livre. Não podia morrer sem ser campeão em algo esportivo. Até tinha sido quando derrotei o menino no colégio no desafio de bolas de gude, mas não era a mesma coisa. Precisava de um desafio maior e inspirado em Edu me inscrevi. Queria ganhar e dedicar a ele. Contei para Bia que se empolgou e disse que viria torcer por mim.
Ela veio. Chegou na sexta-feira e curtimos bastante a noite vendo filme no video-cassete e comendo balde de pipocas com refrigerante. Era uma das coisas que mais gostávamos de fazer. Batemos papo no fim da noite, após fazer amor, como sempre fazíamos. Não era só o namoro que era bom o papo também era, Bia era muito inteligente então nos meus braços conversávamos sobre tudo até amanhecer o dia.
No dia seguinte um amigo bateu em minha porta cedo porque haveria uma reunião entre a organização e os participantes da competição. Deixei Bia dormindo e saí. Saí com um aperto no peito a sensação que algo ruim aconteceria.
Participei da reunião e voltei correndo com vontade de ver minha namorada e lhe dar um beijo. Entro em casa e vejo a Bia séria sentada na frente do meu computador. Nesse momento gelei.    
Ela séria e com cara triste perguntou o que eu tinha tido com Lilith. Fraco disse que nada. Ela então virou a tela do computador e mostrou nossas conversas incluindo o que ocorreu quando ela viajou. Fiquei sem chão havia sido descoberto e fiquei sem saber o que fazer. Sentei no sofá e como um retardado só conseguia balbuciar “desculpa”. Ela sentou ao meu lado e perguntou “por quê você fez isso?”. Nesse momento pela primeira vez vi minha namorada chorar.
Passamos o dia os dois chorando e conversando. Tentava de todas as formas pedir perdão que a amava e ela não me deixasse, mas nada adiantaria. Ela não tinha porque me perdoar eu errei feio com ela  joguei sujo e ela com razão perdeu a confiança em mim. Mas mesmo com tudo que fiz, com a traição Bia disse que só iria embora no dia seguinte. Assistiria minha competição de vôo porque sabia o quanto era importante pra mim. Nesse momento senti-me ainda mais um ser menor, mesmo em um momento de dor pensou em mim.
O dia seguinte chegou e eu saltei. Voava, mas só pensava em Bia no tanto que ela sofria por minha causa e que eu tinha estragado aquele namoro perfeito. Voava e chorava não conseguindo me concentrar. Até que fiz um péssimo pouso e me acidentei.
Só acordei no hospital. Quando acordei Bia estava ao lado do médico e deu um sorriso, perguntei o que tinha ocorrido e o médico contou que eu sofrera um acidente com a asa, ficado dois dias em coma e era um milagre estar vivo.  Não vi túneis, não me vi fora do corpo, nem luzes. Nada disso. Situações estranhas em minha vida só aconteciam comigo acordado. O médico disse que eu era um homme de sorte porque minha namorada passou o tempo todo ali comigo dormindo no sofá.
Ele saiu e fiquei sozinho com a Bia. Tentei falar algo sobre nós dois e ela pediu para que não me esforçasse que descansasse e depois conversaríamos. Descansei e alguns dias depois estava pronto pra sair.
Saí com ela do hospital e Bia disse que iria embora e que não tinha mais jeito entre nós. Chorei tentei argumentar, mas foi em vão ela estava decidida. Pedi então para ela realizar uma última coisa comigo. Ela perguntou o que, peguei sua mão e falei “vem comigo”.
Subi a pedra da Gávea com ela e a asa. Bia disse que eu era doido mesmo tinha acabado de sair de um coma e pensava em voar. Respondi que era doido desde que nasci e que ela iria comigo. Bia respondeu que nem fu.. voaria de asa delta, mas de tanto insistir cedeu e foi.
Voamos pelo Rio de Janeiro calados, tristes como uma despedida deve ser. Mas dava pra notar que ela estava deslumbrada com o que via, o mesmo sentimento que tive quando voei com Edu. Um momento olhei para o lado e vi uma lágrima caindo de sua face..não era pra ser assim..por que eu fiz aquilo com ela?
Descemos e levei a Bia até o aeroporto Santos Dumont de taxi. Enquanto o carro seguia e sabíamos que aqueles eram nossos últimos momentos como casal tocou no rádio em um desses programas  que só toca músicas antigas a canção “I loved you” de Freddy Cole. Uma canção triste que fala de um amor que acabou. Vou colocar aqui a letra traduzida.
I LOVED YOU (EU TE AMAVA)
Eu te amava
Mesmo contra minha vontade, eu sabia que te amava
O tempo era suportável, porque eu te amava
Mas algum dia eu sabia que você iria embora
O amanhã
Nunca existirá um novo amanhã
Pois só posso pensar no passado
De todos os modos

Eu te amava
Há tantas lembranças de momentos
De quando eu te amava
Eu te amava mas você nunca foi minha
Um verão
Um verão a ser lembrado para sempre
Quando me deixou, com os olhos molhados pela despedida
Aqueles tão preciosos momentos, dizendo os últimos adeus
E eu te amava
Mas você nunca foi minha

Ouvimos a música, as lágrimas começaram a correr de nossos rostos e nos abraçamos até chegar no aeroporto.
Chegamos ao aeroporto e calados esperamos a hora do embarque. Chegou a hora dela entrar, nos beijamos com lágrimas nos olhos e ela se despediu de mim. Antes de passar pela porta de embarque virou-se e me disse “Você foi a minha vida inteira e eu fui apenas um capítulo da sua” e foi embora.
Havia mostrado para Bia o “mundo real”. A menina inocente e feliz tinha graças a mim aprendido o lado ruim do amor. A dor de amar, o medo de amar novamente e a perda da confiança no sentimento. Eu era um canalha sentimental.
Posso dizer uma coisa a vocês, amores vem e vão acabam de várias formas, mas não existe a pior forma de fim que o “fim de um amor interrompido”. O fim de pessoas que se amam e acabaram por algo que não é o fim do amor de um dos lados. É como morrer em um acidentede carro, por tiro, enfim, não morrer de causa natural.
 O fim de uma relação com o amor entre o casal permanecendo equivale a um assassinato.
Voltei pra casa afundei-me no sofá com um um copo de uísque na mão e uma garrafa ao lado e chorei muito. Um choro de dor, desespero como aquele quase cinquenta anos atrás com Aloemi. Mas agora era mais doído era o choro do remorso. Havia magoado, ferido uma pessoa que só amor me deu. Como eu podia ser tão canalha? Em qual passagem de tempo eu me transformei num filho da puta? Existem várias formas de dor, todas são terríveis, mas a pior dor é a dor de remorso.
E a mais bonita é a dor de amor. A dor de amor é o câncer da alma.  E ela é a mais bonita porque é sublime, é humana é a dor de ter rejeitado um sentimento seu puro, ter rejeitado o amor.
Continuei conversando com ela pelo chat, mas não era mais a mesma coisa. Ela me amava eu a amava e eu tinha que fazer alguma coisa. O tempo foi passando, semanas, chegando a meses e eu sofrendo por ela até que um amigo do chat deu uma idéia.
Ele assim como Bia era de São Paulo e falou que eu tinha que fazer um grande ato. Mostrar todo o amor que sentia e eu lembrei de uma música que havia feito pra ela e nunca tido coragem de cantar. Uma versão de “She”. Meu amigo falou que era essa a idéia. Que eu tinha que botar em prática e que ele estava comigo. Tocaria violão na serenata.
Cheio de medo e coragem ao mesmo tempo embarquei para São Paulo. Encontrei esse amigo e fomod para frente de sua casa. Lá ele começou a tocar. Dei uma tossida de nervoso e cantei com um bouquet de rosas na mão. Em alguns segundos ela surgiu na janela assustada e me vendo cantar como quem não acreditasse. Ela sabia que aquela versão existia, mas nunca tinha ouvido. 
Apenas a Bia conhecia essa versão agora vocês vão conhecer.
ELA
Ela
Que ganhou em seu olhar
Minha poesia e meu cantar
Tomou pra si minha emoção
O meu sonhar

Ela
Que um dia me acolheu
Disse seu amor sou eu
Se abrigou em um verão
No meu coração

 Ela
Me tirou uma grande dor
Em seus braços me acalentou
Me fez sorrir, fez gargalhar
Não mais chorar

Ela
Minha vida devolveu
Colando o corpo junto ao meu
E em um beijo de amor
Me fez amar

E eu, pobre moço que eu sou
Que a felicidade um dia abandonou
Só vivia pra sofrer, me entristecer
Tive uma mão suave para acarinhar
Uma voz doce no ouvido a sussurrar
Deixa cuidar de você

Ela
A quem eu devo gratidão
A quem eu amo de paixão
Que a minha vida
Com ternura foi marcar

Ela
Minha amante e companheira
Amor para a vida inteira
Mulher que me faz feliz
Beatriz

Cantei e no fim vi que ela se emocionou, pediu para que eu esperasse que iria descer.
Desceu, abriu a porta e eu cheio de esperanças tentei entregar o bouquet, mas ela recusou. Perguntei porque, mas ela nem precisou responder. Nesse momento surgiu por trás dela seu ex noivo que colocou as mãos em seus ombros.
Bia olhou pra mim sem jeito e disse “desculpa Do” e entrou com ele. Fechou a porta e eu fiquei ali parado com o bouquet na mão sem reação. Meu amigo já havia se mandando faz tempo.
Depois de um tempo ali sozinho me recompus e me virei para ir embora. Andei pela rua sem chorar, meu rosto não demonstrava nenhuma reação. Passei por uma mendiga e dei as flores para ela. Ela agradeceu, pegou uma rosa e colocou na boca para comer. Notei que não era isso que ela precisava e dei um dinheiro também.
Embarquei num ônibus pro Rio de Janeiro. O ônibus partiu deixando para trás todas as minhas esperanças parecia que finalmente eu acordava e sozinho na última poltrona chorei compulsivamente encostado à janela. Eu que numa janela de ônibus havia gritado tempos antes que era o rei do mundo havia me transformado num farrapo humano.
Mas eu merecia aquela dor.
Foi a última vez que chorei pela Bia. Naquela noite decidi botar meu coração em um freezer passar cadeado e colocar em um porão. Não iria sentir nem demonstrar mais dor. Perdi a mulher que poderia me fazer feliz depois de tantas derrotas na vida e perdi única e exclusivamente por culpa minha.
Tirei um retrato do bolso, mas não era o retrato da vida. Era um retrato nosso no Arpoador do dia que começamos a namorar. Depois tirei a poesia que tinha escrito pra ela e iria entregar, mas nem consegui. Li a poesia vi o retrato e chorei pela última vez.
POESIA PARA BIA    
Na 1° vez que te vi
Acariciaste meu rosto
Disseste bem vindo
E fez de meu ombro encosto
Perguntou-me da viagem
Se havia feito muito calor
E naquele dia
Ofereceu-me o amor

 Na 2° vez que te vi
Me deste um beijo na boca
Disse que estava faminta
Por mim, que já estava louca
Acabamos na cama
Fez do meu corpo teu leito
E naquele dia
Ofereceu-me o seu peito

Na 3° vez que te vi
Começamos a planejar
Como seria o futuro
Depois de a gente casar
Acabamos na praia
Amando sob um céu escuro
E naquele dia
Ofereceu-me um futuro

Muitas vezes te vi
E sempre foi tão gostoso
A vida era perfeita
E tudo tão maravilhoso
Apresentou-me família, amigos
Seu choro na despedida
E naquele dia
Ofereceu-me a vida

Da última vez que te vi
Percebi que algo mudou
O amor que tinhas por mim
Como encanto acabou
Nem despediste e assim
Ficou só  minha vontade
E naquele dia
Ofereceu-me a saudade
E com a saudade ofertada por Bia fui embora. Pela primeira vez desde Aloemi achei que pudesse ser feliz no amor, mas por culpa minha não fui. Pensei que finalmente tinha encontrado uma pessoa para dividir minha vida, para ter almoços de domingo com família reunida, crianças, cachorros. Cheguei um dia a acreditar que seria pra sempre, mas o pra sempre sempre acaba. É..tava doendo.

Havia dito que no ônibus foi a última vez que chorei com essa história..havia sido..agora é a penúltima



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