segunda-feira, 16 de maio de 2016

CHOREI, CHOREI..


Poderia falar de forma técnica sobre Cauby Peixoto. Sobre sua imensa voz que lhe faz o maior cantor do Brasil. Poderia falar de sua história, mas não. Muitos falarão sobre isso. Prefiro falar da dor.

Que dor..Desde a morte de Michael Jackson não sentia isso, não deixava cair lágrimas com a morte de uma celebridade, alguém que eu não conhecia.

Acho que aí está o erro. Eu não apenas conhecia Cauby Peixoto. Ele fazia e faz parte da minha vida de forma essencial.

Podem estranhar como um cara que ainda não chegou aos 40 anos ter em Cauby Peixoto como um dos maiores ídolos da sua vida. Diria que essa história tem uma culpada. Dona Lieida Quintanilha de Castro Villar. A minha avó.

Perdi as contas de quantas vezes acordei quando criança ouvindo a voz de Cauby entrando na minha mente e se misturando a meus sonhos. Cauby, Julio Iglesias, Agnaldo Timóteo e Ângela Maria eram suas preferências musicais e logo de manhã colocava seus ídolos alto na vitrola e ia arrumar a casa ou fazer almoço. Os vizinhos se juntavam e sentavam na frente da minha casa para ouvir. Todos embevecidos.

E eu irritado descia as escadas tendo que aturar aquela "música de velho". Eu gostava de Michael Jackson, rock nacional, não queria saber daquela velharia.


Na grande maioria das vezes que eu ouvia a voz de Cauby em minha casa era sinal que a mesma estava feliz. Várias vezes me deparei com a cena de Cauby na vitrola cantando Bastidores, Amei você, Ave Maria no Morro ou a mítica Conceição enquanto minha avó e minha mãe arrumavam a mesa e preparavam os quitutes porque o namorado de minha avó estava chegando. Era o campari na mesa junto com torradas, patê e a trilha sonora. Ele chegava em seu Santana e íamos todos para a mesa lanchar, depois minha mãe me levava ao colégio.

Minha avó foi a vários shows do Cauby, tinha inúmeras fotos e me levou a um em uma boate que existia no aeroporto internacional do Rio. Cabelo enroladinho, bigode fino, roupa espalhafatosa, lembro  pouco daquele show, mas lembro das mulheres gritando e do carinho que ele tratou a minha avó. Tantos shows que ela foi que ele já lhe conhecia.

Também teve apresentação do Cauby no famoso show de 1º de maio no Riocentro que minha mãe foi e explodiu a bomba no colo dos militares. História que sempre minha mãe contava e eu me lembro muito bem, assim como ele lembrava de sua querida Conceição.

Muitas histórias..Muitas saudades.

Saudades de minha mãe, imensas e doídas, de minha avó que hoje está velhinha e mora em uma clínica em Curitiba, do namorado dela que morreu de câncer no fim do anos 90. Restou mais nada daquela época. Nem existe mais vitrola, o campari já foi todo bebido. Só restou a mim e essa maldita saudade.

Porque nem o Cauby está mais aqui.


O que era chato quando criança virou admiração com a maturidade. Admiração pelo talento, pelo carisma. O que era chato virou lembrança e o que era lembrança virou saudade.

Tinha como sonho um dia levar minha avó para rever "seu amigo" Cauby cantando. Mais um sonho que se vai sem ser realizado. Nem sei como vão contar para ela que ele morreu.

A morte de Cauby Peixoto para mim é carregada de simbolismos. Com ele morreu mais uma enorme parte de minha infância, das minhas memórias. Com ele mais um pedacinho de mim.

Difícil crescer, difícil virar adulto e olhar para trás vendo que nem tudo que você amava prosseguiu junto nessa caminhada.

Costumo pensar bem nos textos que escrevo, mas esse foi no impulso, na emoção do acontecido. Nem sei se ficou bom. Mas tem momentos que não precisamos ser bons, temos que ser verdadeiros.

"Lembro eu deitado na relva
No frio da manhã
Numa clareira da aldeia Tupi
Entre mil pássaros só uma voz
Uma voz, minha mãe
Música doce
Chamando meu nome
Cauby! Cauby!"


Cauby foi homenageado um um livro meu. "Era da Violência 2" tinha um traficante chamado Cauby Peixoto que alegava ter esse nome porque sua mãe se chamava Conceição. Tem nada mais nada menos que quatorze textos nesse blog em que seu nome é citado e são duas as colunas dedicadas a ele e que colocarei links. Obrigado por tudo professor.


Chorei..Chorei..


Até ficar com dó de mim...


LINKS RELACIONADOS:

SOBE O SOM: CAUBY PEIXOTO 

ELES, EU E MINHA AVÓ

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