terça-feira, 24 de maio de 2016

A CULTURA EM XEQUE


Não podemos negar que o governo de Michel Temer começou animado. Em doze dias medidas impopulares, protestos, quedas de ministros, difícil focar em algo para analisar, mas vou focar naquilo que é a minha área.

A cultura.

Em qualquer lugar do mundo artista tem tendência de esquerda, a cultura é de esquerda e aqui no Brasil não é diferente. Durante a história do país tivemos muitos exemplos disso com o auge ocorrendo na ditadura militar onde artistas lutaram contra o governo.

Quase toda a classe artística agora se mobilizou na luta pela defesa do governo Dilma Rousseff. A diferença é que agora tiveram "confronto" nessa atitude. O governo era longe de ser uma unanimidade, muitos setores da população se voltaram contra e não gostaram dessa atitude dos artistas. Tivemos nesse período casos como o de Chico Buarque sendo xingado na saída de um restaurante no Rio de Janeiro e o lamentável episódio com José de Abreu que acabou em cusparada em São Paulo.  

Como todos sabem o governo caiu. Temer assumiu e por "coincidência" acabou com o ministério da Cultura. O ministério foi reduzido a uma secretaria atrelada ao ministério da Educação.

Aí a confusão foi formada.

Poucas vezes vi a classe artística tão engajada e unida como depois desse episódio. Quem era contra e a favor do impeachment se uniu, locais foram ocupados pelos artistas como ocorreu com colégios do Rio pelos estudantes (Aliás, parabéns aos alunos do Mendes de Morais por conquistarem o que queriam com a a ocupação). No fim o governo Temer recuou de novo e vai voltar com o ministério.

O que fica disso tudo?

Além do evidente sentimento que as coisas não estão bem e o país está longe de uma pacificação fica a cultura em xeque.

Porque assim como os artistas se uniram acabou-se revelando um ódio a eles inesperado. Por essa mobilização chamam os artistas de vagabundos, de gente que mama nas tetas do governos, de aproveitadores da Lei Rouanet. Chegam ao ponto de xingar gente como Chico Buarque, Fernanda Montenegro, Caetano Velloso, Wagner Moura..Gente com serviços prestados a cultura e a esse país em geral maior que a maioria dos políticos, esses sim mamadores de dinheiro público, que se sustentam com dinheiro do contribuinte.

Passam uma total ignorância que foi bem revelada na maior parte desse processo de impeachment. Lei Rouanet tem nada a ver com ministério da Cultura.O governo não dá dinheiro diretamente ao artista. O artista faz o projeto e leva para ser aprovado ou não, caso seja aprovado aí ele vai até as empresas tentar captar o recurso. Esse recurso que a empresa passa ao artista é descontado de impostos. Essa é a lei, o governo apenas aprova o projeto que pode ser de qualquer um seja grande artista, iniciante, de direita ou esquerda. Claudio Botelho, aquele que em uma peça pediu a queda da Dilma, é um dos maiores arrecadadores.

Então é besteira falar de vagabundagem de artista ou de mamadores da lei Roaunet, assim como é besteira se voltar contra a cultura. Um país só se transforma de verdade com cultura e educação. Com esclarecimento, visão, princípios básicos de cidadania, de nossos direitos e deveres, coisas que só a educação permite e existem poucas formas de educar melhor que a cultura.

Cultura dá emprego, muitos empregos diretos e indiretos. Artistas não são vagabundos. Pintam, escrevem, dirigem, atuam, desenham, produzem. Fazem o retrato de um tempo. Reclamam de quem retratam em vez de reclamar da paisagem. A burrice chegou a tal ponto que artista terá que ressuscitar o "Julinho da Adelaide" do Chico para poder emitir opinião no twitter.

Chegou a tal ponto de muitos vibrarem porque o filme "Aquarius", aquele que denunciou o "golpe" em Cannes, perdeu a Palma de Ouro. Acho engraçado isso porque trataram como se fosse fácil ganhar o prêmio. Desde o "Pagador de promessas" o Brasil não vence e derrota por derrota o Danilo Gentilli perdeu o troféu Imprensa então ficou 1x1.

Contestar o nível cultural brasileiro até aceito. Tempo que não produzimos nada de valor no cinema, teatro, música. Mas isso só prova que precisamos ainda mais de cultura, não de cortes.

Assim como é besteira contestar investimento em cultura usando saúde e educação para tal. Há dinheiro para tudo, só pararem de roubar.

Roubo que fez cair ministro com onze dias de governo.

Talvez a corrupção seja a nossa maior cultura e por isso não vamos para a frente. Se é para acabar com uma cultura que seja com essa.


Desse golpe sou a favor.


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