sexta-feira, 13 de maio de 2016

DINASTIA: CAPÍTULO XIII - CHIBATA


Pepe começou a trabalhar no Bar de Barbosa. O local foi enchendo a cada minuto e o rapaz tinha que se virar como podia. Atabalhoado tentava imitar Manuel.

Deixou um copo cair no chão e Barbosa assustado com o barulho perguntou o que ocorria. Manuel rapidamente assumiu a culpa e pediu desculpas alegando que não se repetiria. O Português voltou para dentro do estabelecimento reclamando “Que isso não se repita, descontarei de seu salário”.

Pepe agradeceu ao garçom que sorrindo disse “tome cuidado rapaz”. O jovem acenou com a cabeça que sim e continuou.

No fim cansados fecharam o bar e Manuel mandou que o rapaz voltasse cedo para o trabalho. Pepe agradeceu mais uma vez a oportunidade e Manuel se despediu pedindo que ele agradecesse mostrando trabalho.

O homem começou a caminhar pela calçada e parou. Olhou para trás e viu Pepe parado no mesmo lugar. Voltou.

Chegou próximo a Pepe e perguntou “não tem pra onde ir né?” Pepe respondeu “Não senhor”.

Manuel pensou um pouco e completou “venha comigo”.

Começou a andar e Pepe acompanhou. Enquanto andavam Manuel comentava que a casa era pequena, mas dava pra mais um e não deixaria o jovem na rua porque gostaria que cuidassem de um filho seu caso faltasse.

Começaram a subir uma ladeira e Manuel disse “bem vindo ao morro de Mangueira”. Pela primeira vez Pepe subia uma favela na vida. Viu casas pobres, de madeira, muitas vezes improvisadas que Manuel disse chamar “barracos”, mas viu pessoas felizes, conversando, rindo.

Mais ou menos como Salvatore viu no cortiço em São Paulo.

Antes de entrar na casa de Manuel Pepe comentou que tinha muitos negros ali, Manuel perguntou se ele tinha algum problema em relação a isso e Pepe respondeu que não, só achou curioso.

Manuel riu e falou “Disseram um dia que a escravidão acabou no país e todos nós éramos iguais..E teve gente que acreditou nisso moço”.  

Entraram em casa e viram um rapaz negro sentado numa cadeira dedilhando com dificuldade um violão. Era Romeu, filho de Manuel. Romeu virou para o pai e contou que dona Deolinda estivera na casa.

Manuel resmungou “Ai ai, o que Cartola aprontou agora?”. O filho respondeu que ela estava realmente atrás dele.

Pepe riu e comentou sobre o nome engraçado, Cartola, perguntando se era nome de gente. Manuel respondeu que era nome de um dos grandes talentos do local e escrevia músicas lindas.

Aproveitou e lembrou de apresentar Romeu a Pepe.

Jantaram uma comida simples, mas saborosa feita por Romeu e depois voltaram à sala. A casa na verdade era um quarto e sala. Foi a vez de Manuel pegar o violão.

Ao contrário do filho Manuel tocava muito bem e aproveitou ara cantar uma música.


Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Quem faz nascer os galhos
Do arvoredo e faz a Lua
Nascer mais cedo

Lá em Vila Isabel
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba
São Paulo dá café
Minas dá leite
E a Vila Isabel dá samba

Pepe extasiado ouvia e comentou “Bonita música”. Manuel ainda dedilhando sorriu e comentou “Noel grande amigo, está doente coitado”.

Romeu orgulhoso do pai comentou que Manuel era amigo de grandes sambistas e Manuel perguntou se Pepe gostava de samba.

O rapaz respondeu que não conhecia bem o ritmo, ouvia mais músicas italianas colocadas pelo pai. Manuel contou que no morro tinha uma escola de samba e inclusive já fora campeã do carnaval carioca.

Pepe estranhou e perguntou “Escola de samba? Existe escola para ensinar samba?” Manuel riu e respondeu “De certa forma sim, a Estação Primeira de Mangueira é formada por professores”.

Romeu entrou no papo e comentou que estava quente e seria bom passearem um pouco, mostrarem o morro para Pepe.

Passeando Manuel contou a Pepe que o morro era formado e quase sua maioria de negros filhos e netos de escravos e Pepe era um dos poucos brancos ali. O rapaz perguntou se Manuel era filho de escravos e o homem respondeu que todo negro era.

Completou que o pai não deu sorte na vida, nascera um ano antes da promulgação da lei do Ventre Livre e foi um dos últimos escravos nascidos no Brasil. Teve que trabalhar muito, dar seu suor, sangue para o homem branco e levou muitas chibatadas nas costas como agradecimento.

Pepe argumentou que Manuel não fora escravo e teve um destino melhor. O negro rindo contou que sua senzala era a favela e tomou chibatadas da mesma forma levantando a blusa e mostrando as costas.

Pepe perguntou o que era aquilo e Manuel respondeu “marcas da chibata”. O rapaz nada entendia e perguntou como aquilo acontecera se ele não foi escravo.

Manuel então lhe contou da “revolta da chibata”.

O homem foi marinheiro um pouco menos de trinta anos antes e participou do movimento denominado por “revolta da chibata” quando marinheiros comandados por João Cândido Felisberto realizaram um motim contra os castigos físicos recebidos e ameaçaram bombardear a cidade.

Relatou que conseguiram o fim dos castigos, mas muitos companheiros foram mortos, principalmente na prisão da Ilha das cobras e ele e outros foram mandados para trabalhos forçados nos seringais da Amazônia. Ficou um ano preso, mas conseguiu fugir.

Pepe comentou a barra que o amigo passara quando Manuel contou que também teve bons momentos como conheceu Jacira, a mãe de Romeu, na Amazônia. A mulher era filha de um dos guardas do local e foi amor a primeira vista. Conseguiram fugir para o Rio de Janeiro e viveram felizes enquanto Deus permitiu.

Pepe perguntou onde estava Jacira e o homem resignado respondeu que morrera no parto de Romeu. O jovem disse sentir muito e lembrou da primeira mulher de seu pai Salvatore, Lorena, que morreu no parto junto com a criança.

Manuel então colocou a mão no ombro de Pepe enquanto caminhavam e comentou “Ninguém está livre dos dramas e das tragédias, elas servem pra nos fazer sofrer e valorizar ainda mais os bons momentos”.

Na caminhada ouviram uma batucada e Romeu chamou Pepe e Manuel para lhe acompanharem. Vinha da casa de uma velha senhora vestida de baiana. Casa simples, um casebre que servia como tempo de candomblé.

Algumas pessoas tocavam atabaques e cantavam músicas em idioma desconhecido para Pepe, era linguagem Ioruba explicou Romeu. Animais eram sacrificados e limpos. Comida farta.

Manuel explicava a Pepe que aquela era uma das religiões que seus ancestrais trouxeram da África e cultivavam nas senzalas. Foi passando de pai para filho e era uma forma de seu povo demonstrar fé e pedir por dias melhores.

Romeu chamou uns amigos e começaram a lutar capoeira. Pepe lembrou-se do pai contando que viu a luta em São Paulo e se aproximou com Manuel para observar. Encantou-se com os passos, a ginga, a arte e Romeu perguntou se ele queria aprender.

Sem jeito respondeu que sim e Manuel puxou-lhe para o centro ensinando alguns passos. Desengonçado Pepe tentava acompanhar o rapaz e aos poucos conseguia imitá-lo.

Pepe teve um dia de trabalho e alegria e ao contrário da noite anterior dormiu em um lugar acolhedor. Era um colchonete simples na sala da casa de Manuel, mas ele sentia novamente o gosto de “família”.

Acordava cedo para trabalhar junto com Manuel e pegava duro no batente. Na ida e na volta de bonde Manuel mostrava o Rio de Janeiro e contava histórias de sua vida. De noite muitas vezes participava de rodas de samba onde alguns dos grandes sambistas da área como Cartola, Carlos Cachaça e Nelson Cavaquinho participavam. Timidamente Pepe aprendia a bater um pandeiro.

Mandava carta para a família em São Paulo contando que trabalhava duro, mas conseguia viver, pagar suas contas e que encontrara pessoas maravilhosas que lhe ajudavam. Nunca perguntou se existiam notícias de Beatriz e nunca ninguém lhe contou nada também.

Romeu era um rapaz muito estudioso. Manuel sonhava com uma vida diferente para o filho, diferente que ele e tantos negros viviam e fazia questão que ele estudasse. Romeu passava o dia inteiro em um colégio da região da Tijuca, um dos melhores da cidade e era o único negro do local.

Sofreu preconceito, mas aos poucos mostrando sua inteligência e força de vontade foi quebrando resistência tornando-se orgulho do pai.

Um dia Romeu procurou Pepe pedindo sua ajuda.

Pepe que estava sentado do lado de fora da casa observando a Lua e a vista do alto do morro perguntou qual era o problema. Romeu respondeu que estava apaixonado.

Pepe abraçou o rapaz e disse que era uma grande notícia, devia estar feliz. Romeu abaixou os olhos e triste contou que a moça era branca.

Ele entendeu então o problema do amigo e contou que sentia muito, perguntou como podia ajudar. Romeu pediu que o amigo pedisse a moça em namoro ao pai.

Pepe se assustou e Romeu comentou que era uma chance de encontrá-la fora do colégio. Pepe pedia em namoro, buscava a moça para passear, saíam e ele encontraria os dois na rua substituindo o amigo.

Pepe não sabia se era uma boa ideia e Romeu praticamente implorou que o amigo aceitasse.

Aceitou e Romeu lhe abraçou agradecendo.

Combinaram tudo e Pepe foi com sua melhor roupa até a casa da moça. Ela atendeu a porta e baixinho o rapaz perguntou qual era seu nome mesmo que tinha esquecido. Ela respondeu “Sabrina” e ele emendou “Oi Sabrina, eu sou o Pepe, sou amigo do Romeu e vim te pedir em namoro”.

Sabrina riu do inusitado e pediu que Pepe entrasse. O rapaz entrou e Sabrina chamou o pai contando que “ele chegara”.

O pai de Sabrina já esperava pelo futuro genro e entrou na sala. Encontrou um rapaz branco, bem apessoado, bem vestido e gostou do que viu. Pepe pediu a mão de sua filha e o homem perguntou sobre sua família.

Pepe respondeu que era da família Granata, uma família italiana de posses em São Paulo, só não disse que as posses eram uma pequena loja no Brás e que as intenções com sua filha eram as mais sérias possíveis.

O homem gostou de tudo que ouviu e concedeu o namoro. Pepe perguntou se podia passear com ela e o homem deixou com a condição de voltarem antes de anoitecer.

Dessa forma Pepe e Sabrina saíram da casa e caminharam algumas ruas. Encontraram Romeu e Pepe respondeu “está entregue”.

O casal se beijou com Pepe dizendo que aquilo era uma loucura e não daria certo. Romeu pediu que não se preocupasse que era temporário e pensaria em alguma solução.

Combinaram hora da volta e na hora marcada Romeu estava lá entregando Sabrina de volta e antes de anoitecer Pepe entregava a “namorada” ao pai.

Várias vezes fizeram isso e o pai da moça já cobrava um compromisso mais sério de Pepe e isso lhe preocupava. Pepe cobrava uma solução de Romeu sob ameaça de ser obrigado a contar a Manuel o que ocorria e o rapaz prometeu achar uma solução.

Um dia como combinaram Pepe foi até uma esquina esperar Sabrina para levá-la em casa e nada do casal chegar. Atrasaram-se por minutos, horas e Pepe a cada girada do ponteiro ficava mais preocupado. Viu a noite chegar e pensou “hoje o pai de Sabrina me mata”.

Cansou de esperar e preocupado começou a procurar por Romeu e Sabrina. Procurou por lanchonetes, sorveterias, bares e nada. Já desesperado por não saber o que fazer viu Romeu sentado no meio fio de uma calçada sozinho.

Aproximou-se e notou que o rapaz chorava. Sentou-se ao seu lado e perguntou o que ocorria. Romeu respondeu que o pai de Sabrina pegara os dois em flagrante.

Pepe pôs a mão na testa e disse “Meu Deus!! Mas eu avisei que não daria certo Romeu!!”. O rapaz chorando contou que nunca fora tão humilhado na vida.

Pepe olhava Romeu que chorando copiosamente contou.

“Ele me chamou de macaco, mandou que eu me olhasse no espelho, me enxergasse que eu nunca seria do nível de sua filha. Que eu era preto fedido e morreria preto não importasse o que eu fizesse na vida. Falei que eu estudava, seria alguém e ele respondeu que estudo não mudaria minha cor que era a cor da miséria, da escória e eu cheirava a excremento”.

Pepe indignou-se com as palavras do homem e Romeu levantou da calçada contando que ele estava certo, poderia esfregar sabão no corpo que não mudaria a cor de sua pele. Pepe também levantou e argumentou que era besteira, todos eram iguais independente de cor de pele.

Com muito ódio Romeu ficou frente a frente com Pepe e disse “você fala isso porque é branco. A chibata nunca sairá de nossas costas”.

Pepe se distraiu pensando no que Romeu acabara de dizer quando passou um bonde e Romeu saiu correndo atrás. Pepe correu para alcançá-lo. Segurou seu braço e Romeu gritou para que lhe soltasse. Pepe soltou, Romeu olhou para o amigo e entrou no bonde.

O bonde partiu e Pepe ficou olhando. Lembrou de sua história com Beatriz e como fora humilhado por seu pai. Pensou nas coincidências das duas situações e como quis morrer quando foi humilhado e abandonado.

Nesse momento sentiu um calafrio e correu atrás de Manuel.

Encontrou o homem em um bar perto do morro de Mangueira.Aflito gritou por Manuel que correu até o amigo perguntando o que ocorria e querendo saber de seu filho. Pepe contou toda a história e o homem desesperado revirou a cidade atrás de Romeu.

Manuel e Pepe foram a todos os locais possíveis de encontrar o rapaz e nada. Pepe perguntou se de repente Romeu não poderia ter voltado para casa e Manuel cansado, preocupado respondeu que não custava nada procurar por lá.

Entraram na casa gritando por Romeu. Nada. Pepe procurou na sala enquanto Manuel no quarto, depois o homem foi procurar no banheiro.

Ao entrar no banheiro Manuel deu um grito “Meu Deus!!”. Pepe na sala se assustou e correu ao seu encontro. Ao entrar botou as mãos na cabeça e ficou paralisado.

Encontrou Romeu morto, com uma corda pendurada no pescoço e um desesperado Manuel segurando seu corpo e perguntando “o que fizeram com você meu filhinho?”.

Nada mais podia ser feito, nada mais adiantava. Romeu, um jovem estudioso, batalhador e cheio de esperanças e sonhos foi condenado a morte por ser negro.

No enterro o morro de Mangueira em peso desceu para se despedir do jovem. Cantaram o último samba com o qual a escola desfilou e sobre seu caixão uma bandeira da Estação Primeira. Clima de tristeza, muito choro e Manuel quieto, como se um escudo estivesse a sua frente.

O enterro acabou e Pepe chamou o amigo para irem embora.

Manuel saiu andando, com passos bem apressados diferentes do que costumava dar e Pepe gritando pelo amigo em vão.

Manuel foi até a casa de Sabrina. Tocou insistentemente a campainha e o homem do lado de dentro gritou mal humorado “Já vai!! Já vai!!”.

O homem abriu a porta e irritado perguntou o que era. Manuel sem dizer uma palavra sacou uma arma e atirou na barriga do homem que morreu instantaneamente.

Depois Manuel sentou na calçada, ao lado do corpo do homem e cantando “quem é você que não sabe o que diz, quem é você que palpite infeliz” esperando que a polícia chegasse e lhe prendesse.

Romeu ficou sem sua “Julieta”. Manuel sem seu filho querido a quem investia todo seu suor para ter um futuro melhor e Pepe ficou sem seus grandes amigos que salvaram sua vida no Rio de Janeiro.

Do lado de fora da casa em Mangueira Pepe sentado tentava dedilhar o violão dos amigos e pensava no que Romeu lhe disse.

A chibata nunca sairá das costas dos negros.

Salve o navegante negro

Que tem por monumento

As pedras pisadas dos cais



CAPÍTULO ANTERIOR:

RIO DE JANEIRO 

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