sexta-feira, 26 de abril de 2013

ELA, EU E MICHAEL JACKSON



Nesse momento vejo na HBO um documentário sobre Michael Jackson contando sobre sua carreira e um espetáculo teatral que estão preparando em sua homenagem com suas músicas. Artistas que participam desse musical e outros como seus irmãos falam no documentário sobre ele, seu talento e vida pessoal.

Michael Jackson independente das bizarrices é um artista, mais que isso, uma personalidade que está enraizada na minha vida para sempre. Eu posso viver mais cinquenta anos, passar décadas de sua morte que se eu escrever um texto sobre ele quando estiver com oitenta anos de idade escreverei exatamente isso.

Acho que nem é só comigo, mas com boa parte das crianças da primeira metade dos anos oitenta. Arrisco-me a dizer que Michael Jackson foi meu primeiro ídolo, antes mesmo de Zico que é o maior de todos os meus. Eu sou da geração “Thriller”, quando comecei a me entender como gente foi na época que o álbum surgiu e Michael se  tornou o maior artista do mundo.

Thriller é do fim de 1982, o clipe é do fim de 1983 e como na época não tínhamos a velocidade da informação como hoje o estouro pra valer no Brasil foi em 1984. Eu tinha sete pra oito anos e criança nessa idade já se acha, pensa que é adulto e Michael Jackson era o cara. Botava aquela jaqueta brilhante, óculos escuros, luva e fazia o moonwalk!!! Cara, isso pra gente era o máximo!! Todo moleque da minha geração queria fazer o moonwalk e dar o golpe do karatê kid!!

A onda em 1984, 1985 era o break. Toda festinha tinha concurso de break pra ver quem dançava melhor. A garotada imitava os passos do Michel Jackson, era um barato. Em 1985 com a chegada dos Menudos seduzindo as meninas os garotos se uniram contra e enquanto elas dançavam músicas do grupo ficávamos quietos só agitando na hora do Michael. Isso nós com oito anos, depois fomos envelhecendo e ganhando malandragem de chamar as meninas para dançar nesse momento. 

Se a memória não me engana Thriller não foi a primeira música lançada por aqui. A primeira foi “Beat it” e depois “Billie Jean”.Eu adorava “Beat it” e gostava de cantar com todo meu inglês “perfeito” de um moleque de sete anos que mal sabe o português. No “embromation” eu me sentia o Michael Jackson. Pegava uma caneta, fingia que era microfone e cantava. Claro que sozinho, porque sempre fui tímido e morria de vergonha.

Até que passou Thriller no Fantástico.

Família toda na sala pra ver o clipe e eu fiquei com medo. Vi o Michael Jackson transformado, com aqueles olhos grandes e fechei os meus. Depois com o tempo fui prestando mais atenção no clipe, curtindo a dança. Continuava preferindo Beat It, mas Thriller ganhou lugar no meu coração.

Fui crescendo. Surgiu Bad e achei estranho o fato dele estar menos negro. Começaram a aparecer histórias bizarras como ele dormir numa câmara anti-envelhecimento, querer comprar esqueleto do homem elefante, pedir pra ser congelado ao morrer pra um dia voltar a vida. Histórias que inventam e a gente acaba pegando como verdade.

Aí a idolatria foi diminuindo. Ainda curti Bad, parei pra ver no Fantástico o lançamento mundial de Black & White e achei a música boa, mas cada vez mais seu aspecto bizarro me chamava mais atenção que as músicas.

Já adulto me separei totalmente de Michael Jackson deixando para trás meu primeiro ídolo como um boneco que na infância foi nosso melhor amigo e depois fica perdido numa caixa em um sótão. Descobri o Jacksons 5, suas músicas e a participação efetiva dele em “We are the world”. Achei bacana, curti as canções, mas só. Tinha outros ídolos, o Aloisio adulto deixara Michael Jackson nas lembranças apenas.

Ele colaborou com isso também. Cada vez mais branco, esquisito, parando de fazer músicas, se metendo em confusões, acusações de pedofilia.

Michael Jackson foi se destruindo e destruindo tudo de bom que deixou para as pessoas.

A coisa começou a mudar em 2005. Perdi minha mãe e tinha que sobreviver de alguma forma. Comecei a vender Dvds piratas numa feira aqui no meu bairro aos domingos. Tirava uma graninha legal que dava pra me manter e pra chamar clientela colocada dvds para tocarem.

E nisso surgiu um Dvd chamado “The number one” com os melhores clipes de Michael Jackson.

O ídolo da minha infância reapareceu pra ajudar o adulto. Era colocar Thriller na barraca e aparecia uma multidão para assistir. O Dvd vendia como água e me ajudou muito. Em casa quase todos os dias assistia ao dvd e relembrava como aquele artista era fantástico. Finalmente dei o devido valor a Thriller. A dança, aos figurinos, a história, a voz. Sim, um grande cantor, mas que tinha tanta qualidade artística em tantas funções diferentes que a voz perfeita tecnicamente ficava em segundo plano.

Já voltara a ser fã quando no espaço aberto do site galeria do samba contaram que ele sofrera uma parada cardíaca. As informações eram desencontradas até que veio a confirmação da morte. Fiquei sem chão, chorei, fiquei muito triste e olha que estamos falando de um cara que perdeu a mãe, o amor da sua vida.

Desorientado, só mandei um sms pra minha namorada dizendo “Michael Jackson morreu” e fiquei a tarde, a noite e a madrugada toda zapeando as tvs e entrando em sites da internet pra ver notícias de sua morte. 

Quando as emissoras passaram aqueles clipes que fizeram minha infância para homenageá-lo em sua morte a criança Aloisio voltou. Eu que tive tantas perdas na vida, machucado por mortes e separações via ali um bom pedaço daquela criança morrendo junto com ele. Pode parecer exagero e até pode ser, mas era todo um simbolismo.

Não era apenas o Michael Jackson com jaqueta vermelha e cara esquisita dançando com mortos vivos que morria. Era minha infância, toda uma era de minha vida, toda uma lembrança.

E a gente viu como pode ser injusto. Ele ficou branco, ficou esquisito, mas em vez de perguntarmos porque preferimos rir. Em vez de pensar na sua infância sofrida com pai autoritário debochamos. Em vez de pensar que era uma pessoa solitária e triste galhofamos. Em vez de perceber que o menino que lhe acusou de molestar depois pediu desculpas afirmando ser obrigado pelo pai a dizer aquilo lhe chamamos de tarado e pedófilo.

Michael Jackson morreu na nossa frente. Sabíamos que ele iria morrer pelo caminho que percorria e assistimos a tudo com pipoca e refrigerante como assistíamos a seus clipes geniais.   

Eis que quase quatro anos depois de sua morte eu, não sei porque, tenho a idéia de botar Thriller pra Bia ver no youtube. Eis que também não sei porque ela se apaixona no ato pela música, o clipe e por “Maicou Jeston”.

Ela não pode me ver que diz “Me leva pra ver o Maicou Jeston” e eu trago para meu quarto e coloco o clipe. Todas às vezes vê a parte falada e me pergunta o que conversam. Assiste sempre com muita atenção e na hora da dança levanta tentando imitar e cantando “trile, trile nai” no embromation que eu cantava.

No fim na hora da risada bota a mão na minha boca e sorrindo pede para que eu não imite a risada. Mas sempre dou um jeito de rir e ela finge medo.

Todos os dias isso, às vezes mais de uma vez por dia e na casa da vó me contaram que ela ficou louca quando lançaram o comercial da Sky com a música. Ela pulava e gritava “Maicou Jeston”.

Acabou que por ironia do destino o primeiro ídolo da minha vida também virou o primeiro ídolo de minha filha.

Michael Jackson deixou a caixa do sótão e voltou a ser um grande amigo depois de trinta anos. Meu primeiro ídolo, o cara que me ajudou num momento difícil e o cara que me uniu definitivamente a minha filha porque sei que quando ela tiver minha idade e ouvi-lo vai lembrar de mim.

Faturou mais de um bilhão de dólares? Mais de cem prêmios? Mais de cem milhões de cópias de um mesmo disco? Recordista de faturamento em shows?  Recordista de vendas de disco e artista que mais músicas botou no primeiro lugar das paradas? Ficou branco, com nariz esquisito e parecendo um monstro? É o rei do pop e talvez o artista mais completo que já surgiu nesse planeta?

Nada disso é importante.

O importante é que ele é o “Maicou Jeston” da Bia e nosso melhor amigo.

*Quis o destino que eu descobrisse após a coluna terminada que a apresentação histórica postada no começo do texto, onde ele apresentou ao mundo todos os passos de dança que se tornaram sua marca, tenha ocorrido no dia 16 de maio de 1983. Essa data, 16 de maio, é do nascimento da Bia.


Esse aí ainda vai nos assustar, encantar e divertir por muito tempo. Ainda bem.   



   

6 comentários:

  1. Você sabe a história desse vídeo do início do post?
    Foi um show comemorativo aos 25 anos da Motown, onde artistas da gravadora apresentaram hits que fizeram história na gravadora.
    Michael, na época, já havia rompido o contrato com a Motown e estava na Epic/CBS. Para participar, ele exigiu que pudesse apresentar uma música nova, que não fazia parte do acervo da Motown, além do número que faria com seus irmãos.
    Recebeu resistência na ocasião, mas a Motown entendeu que uma figura como MJ não poderia ficar fora da festa e acabou cedendo à sua exigência.
    Com certeza não se arrependeram. Parece que sua aparição na TV foi record de audiência e entrou pra história.

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    1. Sabia que era uma apresentação histórica pra Motown, mas não sabia que era a primeira vez da música, muito interessante

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    2. Pior é que era uma música de outra gravadora.

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    3. essa e outras histórias tem nesse livro.
      o livro é de muito fácil leitura, contando de forma bem resumida toda a trajetória dele. e o mais legal é que é recheado de fotos.
      http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/2660177/michael-jackson-50-anos-do-icone-do-pop/

      se quiser uma leitura mais densa, indico esse:
      http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/2866644/michael-jackson-a-magia-e-a-loucura-ed-revista-e-atualizada/

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  2. e esse DVD que é pica das galaxias!
    http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/182097/live-in-bucharest-the-dangerous-tour-dvd/

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  3. Valeu pelas dicas. Vou procurar comprar

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