segunda-feira, 15 de abril de 2013

A GERAÇÃO ESPN NO PAÍS DOS ESTADUAIS




Nesse momento rola um Fla x Flu que não vale nada pelo campeonato carioca. Público diminuto, jogo em Volta Redonda porque o Rio ficou sem estádios, fim de feira completo, o estadual agoniza.



O outrora estadual que enchia estádios, mexiam com paixões, construía ligações eternas entre clubes e torcedores. Os estaduais são donos dos maiores públicos da história dos estádios mais antigos.

Por quê isso aconteceu?

Vários fatores. Mudança na cultura de torcedor que começou a valorizar mais o brasileiro e a Libertadores que até os anos oitenta era um peso morto no calendário. O Santos de Pelé, por exemplo, só ganhou duas porque o clube dava prioridade a excursionar pela Europa e ao estadual.

Calendário mal feito onde deixa os clubes sem uma pré temporada decente e eles são obrigados a fazer durante o torneio. Situação que é facilitada pela fraqueza hoje dos clubes menores. Aqui no Rio mesmo nós já tivemos América e Bangu disputando títulos brasileiros, Madureira dando jogadores para seleções brasileiras e hoje esses clubes perecem.

Só sobrevivem no carioca os clubes do interior do estado com a força de subsídios dados por prefeituras e empresas.

Federações estaduais fazendo torneios inchados com clubes que não tem nenhuma condição de disputar esses campeonatos e fazendo dos jogos algo constrangedor. Clubes grandes que não valorizam o torneio, jogam de forma sonolenta, muitas vezes com reservas.

E a imprensa que todos os dias bate na tecla que são torneios que não valem nada, que os clubes deviam deixar de lado e se dedicar a outros torneios..Isso entra na mente do torcedor que se desinteressa e não vai.

Fora outros problemas que são do futebol brasileiro e não apenas dos estaduais como segurança, horário de jogos, estádios, etc.

Por isso devemos acabar com o estadual?

Claro que não. Como eu disse acima muito da paixão que temos hoje por nossos clubes é devido o estadual. Os corinthianos lembram com carinho do gol de Basílio em 77 acabando com jejum de 23 anos, os rubro-negros dos gols de Rondinelli em 78 e Pet em 2001, vascaínos gol de Cocada em 88, botafoguenses do gol de Mauricio em 89 acabando com um jejum de 21 anos, tricolores do gol de barriga de Renato em 95.

Todos esses clubes ganharam ao longo dos anos títulos nacionais, alguns títulos continentais e mundiais, mas esses gols, essas conquistas tem um espaço no coração dos torcedores como tem as grandes conquistas.

Campeonato estadual é a chance de gozar com um amigo que torce pelo rival na segunda-feira, ok que com a internet hoje é possível zoar um amigo que torce pelo Cruzeiro ou Inter por rede social, mas não é a mesma coisa. Estadual permite que clubes pequenos sobrevivam, clubes que dão emprego, que tiram jovens da marginalidade e algumas vezes revelam grandes jogadores.

Romário surgiu no Olaria, Ronaldo no São Cristóvão, só pra citar dois exemplos.

Acabar com esses clubes pequenos é acabar com muito da essência do futebol brasileiro e com aquilo que temos de melhor. A fartura de craques pinçados de campos de terra. Evidente que com menos vagas em clubes menos jogadores serão pinçados e o nível cai. Qualquer um que tenha um pouco de lógica sabe disso.

Mas muitos defendem o fim. Chamo esse grupo de “Geração ESPN”.

Deixo claro que gosto do canal e gosto dos campeonatos europeus. Eu sou um que assiste a Uefa Champions League com muito interesse e torcendo pelo Real Madrid. Mas tem espaço pra todo mundo, para todos os campeonatos e times.

O futebol de lá é melhor? Mais organizado? Poxa, bacana, que um dia aqui também seja assim, mas pra isso tem que matar nossos estaduais e nossos pequenos?

Lá também têm jogo ruim, times inexpressivos. Jogos tirando Real Madrid e Barcelona na Espanha dão sono, campeonato francês dá sono, o italiano ta uma “draga”, português acho péssimo. Lá tem jogaços como Barcelona x Bayern, mas também tem Lillie x Ajaccio e pra ver um desses prefiro ver América x Bangu ou Ponte Preta x Guarani.

Semana passada zoaram o Neymar porque enquanto ele enfrentava o Flamengo do Piauí pela Copa do Brasil o Lucas enfrentava o Barcelona. Ta certo, mas pegaram um dia de jogos pra fazer essa maldade. No segundo semestre Neymar pegará o Fluminense, Grêmio, Atlético Mineiro, Corinthians e o Lucas pegar um Ajaccio da vida ou mesmo um time da quarta divisão francesa pela copa da França.

Vamos zoar também?

A questão é que o Brasil é um país continental. Não é como na Europa que é composta em sua maior parte por países pequenos e por isso aqui existem os estaduais. Além do mais dos anos 90 pra cá o Brasil cresceu economicamente. 

Nossos clubes também cresceram e hoje eles têm condições não só de segurar seus craques como Neymar como repatriar como Ronaldinho Gaúcho e Pato e trazer estrelas de fora com Seedorf e Fórlan. Não temos culpa que a Argentina, que passa por décadas difíceis, não conseguiu segurar o Messi que nunca jogou profissionalmente pelo país.

Nunca serei contra os campeonatos estaduais porque eu seria contra a minha emoção, as minhas melhores lembranças, o choro ao ver a bola do Pet entrar e garantir o nosso tricampeonato. Posso e sou contra, como todo mundo que gosta de futebol deve ser, os estaduais de hoje. Reformulados podem ter um grande charme ainda e ótimas competições.

Isso que a “Geração ESPN”, os “Fãs do esporte” tem que entender. O Barcelona nunca me dará a emoção que o Flamengo pode me dar vencendo um Fla x Flu, mesmo que esse não valha nada. Mesmo com o Fluminense com time misto e o Flamengo eliminado.

Como, por exemplo, aconteceu agora. Deixe-me acabar a coluna que tenho que ir zoar os tricolores.



Chupem tricoletes.     


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