quarta-feira, 24 de abril de 2013

MANGUEIRA EM CINCO CARNAVAIS



Semana passada fiz um texto para o blog lembrando dos noventa anos da Portela e decidi lembrar cinco carnavais inesquecíveis. Não vi todos ao vivo, mas foram cinco carnavais que se não tive oportunidade de ver em sua época me marcaram ao longo dos anos como compositor e sambista.

Essa semana é marcada pelas eleições na Estação Primeira de Mangueira, tão gigante, tradicional e com marca tão valiosa quanto da Portela. Tão machucada nas últimas décadas quanto, mas assim como a escola de Madureira continua com seu charme, magia e imponência.

Mangueira de “O mundo encantado de Monteiro Lobato” que lhe deu o título em 1967, “Lendas do Abaeté” de 1973. Mangueira oriunda do bloco dos Arengueiros e que nasceu como bloco no dia 28 de abril de 1928. Completará oitenta e cinco anos nesse fim de semana de suas eleições. A primeira agremiação a ter uma ala de compositores e desde sua fundação mantém a característica, a da única marcação de surdo em sua bateria. 

Mangueira de grandes figuras como o histórico cantor Jamelão, como Dona Zica, Dona Neuma, Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, Nelson Sargento, Delegado, Mussum, Alcione, Beth Carvalho, Hélio Turco e aquele que ao lado de Noel Rosa pra mim é o maior sambista da história e ao lado de Chico Buarque o maior de nossos compositores. Cartola.

Assim como fiz com a Portela destacarei cinco carnavais da segunda maior detentora de títulos de nosso carnaval, dezoito no total e assim como fiz com a azul e branca são carnavais que eu vi ou que me marcaram como compositor e sambista.


YES, NÓS TEMOS BRAGUINHA 1984



Samba de Jurandir, Hélio Turco, Comprido, Arroz e Jajá.

Foi o primeiro desfile na Sapucaí como local fixo de desfiles. A passarela do samba realizada por Darcy Ribeiro e projetada por Oscar Niemeyer. Primeira vez também que o desfile foi dividido em dois dias.

Como já expliquei no texto sobre a Portela cada dia teve uma campeã e as melhores de cada foram disputar um supercampeonato no sábado seguinte. A escola não ganhava um campeonato desde 1973 e começava ali com um dos maiores compositores de nosso carnaval uma seqüência de grandes desfiles homenageando personalidades.

O desfile da Mangueira entrou para a história por um fato que nunca mais ocorreu. As escolas ainda não sabiam lidar com a Praça da Apoteose, lugar que hoje serve para dispersão,  mas na época ainda contava como desfile.

Aproveitando que era a última escola e a confusão que estava na frente para dispersão aconteceu aquilo que entrou para a história como “A volta da Mangueira”. A escola voltou pela pista desfilando, cantando e sambando feliz o belo samba que lhe deu o supercampeonato.  



CAYMMI MOSTRA AO MUNDO O QUE A BAHIA TEM E A MANGUEIRA TAMBÉM 1986



Samba de Ivo Meirelles, Paulinho e Lula.

Mais uma vez a Mangueira homenageando uma personalidade, um grande compositor. Dessa vez o compositor Dorival Caymmi. Um dos autores do samba é Ivo Meirelles que veio a se tornar um artista conhecido e presidente da agremiação.

O carnaval de 1986 foi o primeiro que assisti pela tv e marcante por belos sambas e pela chuva que fez com que a Beija-Flor de Nilópolis desfilasse com água nas canelas. A Mangueira com muito samba no pé e cantando sua bela obra que citava o supercampeonato de 1984 e um refrão pequeno e chiclete “tem xinxim e acarajé/ tamborim e samba no pé” brigou fortemente com a escola Nilopolitana e garantiu seu segundo título em três anos mostrando ser a grande escola dos anos 80.

Muita gente acha que a Beija-Flor merecia ter vencido, mas a Mangueira desfilou com porte de campeã e pra mim foi merecido.

Fica como um detalhe pessoal meu. Com apenas nove anos de idade não entendia como alguém podia cantar tem “xixi” numa letra de música.



CEM ANOS DE LIBERDADE, REALIDADE OU ILUSÃO 1988



Samba de Hélio Turco, Jurandir e Alvinho.

Samba maravilhoso. Na minha opinião o melhor da história da Mangueira. Um dos melhores de todos os tempos e não foi campeão do carnaval. 

O carnaval de 1988 foi um carnaval diferente. Era o centenário da Lei Áurea, lei assinada pela Princesa Isabel libertando os escravos no país e dessa forma as escolas de samba em sua maioria decidiram homenagear a data.

A bicampeã Mangueira foi uma delas. Buscando o inédito tricampeonato na Marquês de Sapucaí a escola entrou na avenida poderosa cantando de forma valente e emocionante que o negro estava livre do açoite da senzala e preso na miséria da favela. Era um desfile para campeonato, ao contrário do contestado bicampeonato de 1987.

Só que parodiando o homenageado do ano anterior Carlos Drummond de Andrade no meio do caminho tinha uma Kizomba, tinha uma Kizomba no meio do caminho. 

A catarse provocada pela Unidos de Vila Isabel impediu o sonhado tricampeonato. Mas os dois desfiles são históricos, campeões e merecem todas as homenagens. O samba mangueirense é uma aula e tem que ser ouvido por todo mundo que pensa em fazer samba-enredo.



CHICO BUARQUE DA MANGUEIRA 1998  



Samba de Nelson Dalla Rosa, Vila Boas, Carlinhos das Camisas e Nelson.

Mais uma vez a Mangueira partindo para um campeonato homenageando uma grande personalidade brasileira. Um homenageado a altura dos que lhe deram seus últimos campeonatos. O gênio Chico Buarque de Hollanda.

O ano mangueirense começou com polêmica em relação ao samba-enredo. O samba composto por compositores paulistanos foi mal visto por muita gente. Alguns por questão de bairrismo, outros por não lhe acharem do nível do homenageado.

Eu particularmente gosto do samba, é a cara da Mangueira e acho que exigir um samba do nível de Chico é complicado. Ele é um dos maiores de nossa história e como se equiparar a alguém assim?

A Mangueira vinha por uma fase ruim. Onze anos sem ganhar um carnaval, sem dinheiro, algumas vezes ameaçada por queda para o acesso a verde e rosa não era uma das favoritas daquele carnaval embalado pelo samba “Orfeu do carnaval” da campeã do ano anterior Unidos do Viradouro.

Mas como eu costumo dizer aquela esquina da Presidente Vargas com a Marquês de Sapucaí tem magia e assim que ouvi o samba começar a ser cantado com Chico Buarque no carro de som, aquela comoção toda em torno dele pensei “campeã”.

Não deu outra. Ninguém sabe fazer enredo sobre personalidades como a Mangueira. Ninguém sabe como fazer carnaval sem dinheiro como ela e dessa forma, empatada com a Beija-Flor e embalada por “seu guri” a Mangueira voltava a ser campeã do carnaval.



BRASIL COM Z É PRA CABRA DA PESTE, BRASIL COM S É NAÇÃO DO NORDESTE 2002


 Samba de Lequinho e Amendoim.

A Imperatriz conseguira em 2001 realizar aquele sonho que eu disse ser da Mangueira em 1988,  a primeira tricampeã da Marquês de Sapucaí. Um tricampeonato contestado, vaiado, mas tricampeonato.

Mangueira continuava com sua agonia. Tirando o título de 1998 a agremiação não vinha para as cabeças. Até conseguira um terceiro lugar no ano anterior, mas não era considerada favorita, era meio deixada de lado.

Em 2001 Max Lopes, o carnavalesco supercampeão de 1984 retornou para agremiação e fez esse enredo sobre o Nordeste para 2002. Enredo feliz com um samba mais feliz ainda. Samba com refrães fortes e um ousado refrão de seis versos no meio. Ousado e lindo que terminava com o genial trocadilho “Doce cartola sua alma está aqui” relacionando o compositor ao doce.     

Fez um grande desfile, de campeã e uma apuração dramática com a Beija-Flor. De novo com a Beija-Flor como em 1986 e 1998. O sistema de decimais começara naquele ano e a agremiação foi campeã com apenas um décimo de vantagem sobre a nilopolitana.

Foi o último ano de Mangueira com dona Zica que faleceu antes do carnaval de 2003. No ano que o “doce cartola” foi cantado o amor de sua vida foi lhe reencontrar.


Bem..Aí estão cinco carnavais que amo da Mangueira. Esperando que a escola faça uma boa escolha nas eleições e retome seu caminho de vitórias e grandes carnavais. Que saia das páginas policiais e volte a valer sua força de grande expressão cultural desse país.

Que o cenário de seu futuro seja uma beleza.


 O carnaval precisa e merece.









  

2 comentários:

  1. Aloisio,

    Primeira vez que entro no seu blog e só posso lhe parabenizar pela aula de samba e carnaval que vc deu.
    Pra quem é apaixonado por isso,seu blog é uma jóia.Não existe um puto de um portal com tanto riqueza de informação e curiosidade.

    Sobre os melhores sambas da Mangueira,gostaria de saber sua opinião sobre os de 2011 e 2012,que pra mim,foram espetaculares.Foram os últimos que fizeram a Sapucaí inteira cantar com a histórica paradona da bateria.

    Abs

    Henrique

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    1. Obrigado pelo comentário.

      Gosto muito, são sambas comunicativos e que se tornaram populares seguindo uma linhagem nova e interessante da Mangueira. O de 2012 entrou numa coletânea com sambas da escola que fiz pouco antes do carnaval.

      abs

      Aloisio

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