domingo, 7 de abril de 2013

PEC NO CAFEZAL




Deodato era negro tinhoso daqueles que não aceitava ser escravo. Muitas vezes fugiu da fazenda do Barão de Bole-Bole e dava trabalho para os capatazes de seu dono. Embrenhava-se pelo mato, tentava chegar a quilombos, enfrentava diligências. Era o cão.

Mais uma vez fugiu e mais uma vez foi pego. Levado ao tronco começou a sofrer os castigos costumeiros. Chibatadas nas costas ao som de Calypso. Nem o Kinzinho da Coréia do Norte teria idéia melhor para torturar alguém.

O negro pedia clemência e que pelo menos a música parasse enquanto apanhava. O Barão apenas olhava e dizia “maldito, vai morrer no tronco” quando o capitão do mato tirou algo de seu bolso, olhou e disse ao patrão “temos problemas”.

O Barão que se excitava vendo o escravo apanhar perguntou o que acontecera e o capitão disse “acabei de ver no meu tablet que Isabel a heroína assinou a lei divina. Esse maluco aí ta livre, acabou a escravidão”.

O Barão assustado perguntou como assim e o capitão reforçou dizendo que uma tal lei Áurea foi assinada, agora a escravidão era proibida no país e não podia mais bater em crioulo, a não ser que fosse policial.

Desolado o Barão mandou que soltassem Deodato do tronco. O homem muito machucado tentava se recompor enquanto o Barão sorria “Deodato, você sabe que sempre te vi como filho e esses castigos não eram nada pessoal. Não quer trabalhar pra mim? Reformo sua senzala, boto até gatonet!”.
Deodato recusou, disse que já tinha proposta de um empresário de funk pra montar um grupo e se mandou com os outros escravos da fazenda.

Era noite e desolado o Barão via todos os escravos irem embora da fazenda abandonando seu cafezal. Amaldiçoou o governo que dava benefícios às classes mais pobres equivalendo seus direitos a classe média e alta. Vociferava “é um absurdo, capaz de daqui a pouco viajar para Paris e encontrar o Deodato”.

Entrou na casa grande, sentou no sofá e viu a mucama. Pediu que ela lhe preparasse uma bebida e fosse para o quarto que queria lhe usar e ela se recusou.

“Patrãozinho, são nove horas, não posso fazer mais nada”.

O Barão disse já saber da libertação dos escravos e que contrataria a mucama como empregada dando um bom salário. Ela revidou.

“Agora só trabalho oito horas por dia. Acordei às seis e meia da manhã. Fiz seu café, acompanhei sinhazinha até o colégio, arrumei seu quarto, fiz o almoço, brinquei a tarde toda com ela, dei banho e fiz outras coisas mais.”.

O Barão suplicava, mas de nada adiantava. A mucama respondeu que só serviria ao patrão se recebesse hora extra. O Barão argumentou que perdera todos os escravos e não teria dinheiro pra pagar o extra.

Diante das recusas suplicou.

“Vamos fazer o seguinte. Eu pago esses minutos em que você me serve, damos uma rapidinha e compenso com a saída mais cedo sexta-feira ok?”.

 “Mas isso é possível?” Perguntou a mucama.

”Sim, já que se trata de compensação dentro da mesma semana. Se assim não fosse, é que teríamos que nos socorrer do banco de horas que só tem validade se for instituído por acordo coletivo de trabalho....Ah! Deixa pra lá!” respondeu o Barão já certo da vitória.

Não entendi nada que o senhor falou. Mas ta certo”. A empregada se encaminhava para preparar o drinque do patrão quando recebeu um SMS. Eufórica parou de preparar o drinque e contou ao Barão que não poderia fazer hora extra, pois recebera convite para ir a um show do Sorriso Maroto.

Despediu-se do patrão, mas voltou o alertando que estava quase na hora do lanche da sinhazinha e ele teria que preparar.   

O capitão do mato assistia a tudo e enquanto o Barão se lamentava por não saber fazer o lanche perguntou se a Baronesa não podia fazer. O patrão respondeu que não, pois a mulher passava férias na casa de uma amiga cantora de axé.

Olhou para o capitão e disse “terei que fazer e você vai me ajudar”.

Dessa forma o Barão de Bole-Bole, poderoso homem do café e seu capitão do mato foram pra cozinha, colocaram avental e tentaram fazer o lanche. Foi um desastre, mesmo com livro de receitas não conseguiram fazer e a cozinha ficou uma zona.

No fim a sinhazinha apareceu na cozinha com um bichinho de pelúcia nas mãos e disse

“Papai, quer gagau!”.

O Barão, irritado, entregou um prato e uma colher pra filha e saiu da cozinha deixando a menina sozinha e dizendo.

“Pois faça você menina preguiçosa. Na sua idade o Dudu já está lendo”.  



  




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