segunda-feira, 29 de abril de 2013

O VALOR DA VIDA



Cynthia Magaly Moutinho de Souza. Provavelmente até semana passada nunca ouviram falar desse nome, não é verdade? Pois é, eu também não.

Ninguém ouvira falar da Cynthia porque ela não era ninguém famosa. Era uma pessoa comum como você e eu. Cynthia tinha 47 anos e era dentista em São Bernardo, cidade da grande São Paulo.

Cynthia atendia uma paciente na quinta-feira passada como fazia todos os dias até que tocaram a campainha. Perguntou quem era e a pessoa se identificou como cliente. Abriu a porta.

Não. Não era cliente. Era um assaltante, três no total. Entraram anunciando assalto e a paciente foi amarrada e vendada. Essa paciente só ouviu gritos. Gritos de terror da dentista pedindo para que não fizessem aquilo. O que seria aquilo?

Aquilo era fogo. Incendiaram, sim, queimaram viva Cynthia Magaly Moutinho de Souza. Eram inimigos dela? Ela devia dinheiro a algum bandido? Traficante? Era testemunha em algum processo? Fez alguma coisa de errado? Não!! Nada disso e mesmo que ela tivesse feito alguma dessas situações anteriores não era motivo para lhe incendiar, nada é motivo pra incendiar alguém.

Cynthia Magaly Moutinho de Souza, dentista de São Bernardo, 47 anos, foi incendiada viva porque lhe assaltaram e só tinha 30 reais no consultório.

Nunca ninguém ouvira falar na Cynthia. Hoje ela é famosa no Brasil inteiro por causa de sua morte.

A polícia já identificou os três assassinos. Um foi reconhecido em câmera de vigilância por tentar passar o cartão da vítima em uma loja de conveniência. Chegando a esse chegaram aos outros dois assassinos. O que confessou ter ateado o fogo é um menor de 17 anos.

Menor de 17 anos..Isso me leva de volta à coluna de segunda passada sobre maioridade penal. Repetindo o que eu escrevi sou contra a redução da maioridade. Não acho justo e inteligente botar um garoto que cometeu um furto numa cadeia de adultos com bandidos já formados. Ele nessa situação só terá ótimos professores pra se aprimorar no crime.

Mas como também escrevi acho que menor que comete crime hediondo tem que ir pra prisão de adulto porque esse já é bandido com diploma de faculdade, pós-graduação, mestrado e doutorado. Quem comete crime de adulto tem que pagar como adulto. 

Que tipo de recuperação podemos esperar de um homem de 17 anos que ateia fogo em uma pessoa viva? Ele não tem formação psicológica e educacional pra saber que se tacar fogo em alguém ela morrerá e com grande sofrimento? Um de 17 anos não tem essa formação e um de 18 tem?

Colocar um assassino cruel desses com moleques que cometeram pequenos crimes também não é de uma certa forma lhes dar um professor para se aprimorarem no crime? Vão botar um assassino frio, cruel e que ateou fogo em uma pessoa inocente sem compaixão, ouviu seus gritos com frieza em um reformatório junto com garotos que batem carteira na Central e daqui a pouco ele estará nas ruas para tacar fogo em mais pessoas.  

Essa lei tem que ser revista porque se pararem pra analisar em todos os grandes crimes, todos que nos chocam tem menores envolvidos e a lógica do crime é nítida. Sabem que quase nada pega para um menor de idade então lhes chamam pra cometer crimes e se der algum problema é só esse menor assumir tudo.

Reparem só. Seja no caso da dentista, do estupro e seqüestro de turistas na van, o menino João Hélio que morreu arrastado por um carro, até mesmo o caso de Oruro, que se não foi cruel como os outros teve grande repercussão, todos tiveram menores envolvidos.

Isso tudo ocorre no nosso país. Pessoas morrem por motivos torpes todos os dias e a sociedade ta preocupada com quem vai pra cama com quem, com quem gosta de mulher, de homem ou dos dois.

Quantas pessoas já não pagaram com a vida ao longo desses anos? Famílias ceifadas pela violência aumentando estatísticas, criando comoção, repercussão e foram esquecidas logo depois com o mundo andando como sempre?

Quem além da família daqui algumas semanas se lembrará da dentista Cynthia Magaly Moutinho de Souza? Ninguém fala mais do caso dos turistas, ninguém lembra mais do caso do ônibus 328 castelo/ Bananal que caiu do viaduto e matou sete, da tragédia de Realengo menos ainda.

A vida anda valendo nada. As pessoas se comovem com terrorismo nos Estados Unidos, com mortos em Boston quando nem sabem se chegarão ao fim do dia vivos. Como eu já disse a Cynthia era uma pessoa comum, como a gente e ninguém está livre de um assalto, tomar um tiro ou ser queimado por não ter dinheiro.

Eu me comovo e me choco muito mais com casos como esse em São Bernardo do que com Boston porque essa é a nossa realidade, nosso dia a dia. É o ser humano se desnudando aos nossos olhos e mostrando sua face mais cruel e decadente. Queimar gente viva por dinheiro não é coisa de ser humano, não é coisa de gente e nem posso falar que é coisa de animal porque bicho nunca faria isso. Bicho só mata pra comer ou quando se sente ameaçado.

A cada vez que uma pessoa como a gente toma um tiro ou é incendiada é como se cada um de nós tivesse uma arma apontada pra cabeça ou fósforo apontado para nossos corpos cobertos de gasolina.

Seja uma dentista queimada viva, um jogador de futebol torturado e escapando da morte apenas por ser famoso. Cada ato de violência nos machuca um pouco. É o terrorismo nosso de cada dia. Boston é aqui.

Qual é o valor da vida?

Em alguns casos trinta reais.










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