terça-feira, 16 de abril de 2013

SEQUESTRARAM MINHA SOGRA



*Conto publicado no blog Ouro de Tolo em 2/2/2013

Achei aquela história fantástica e comecei ali a entender porque Manolo era tão querido e carismático, de certo puxara o pai. Conversei com ele, fiz a tal entrevista e fui para casa com o material.

No notebook escrevi a matéria e depois fui para a sala. Abri uma cerveja e pensei na tarde agradável que passara no bar e fiquei com pena que ele fechasse. Pensei em quantas histórias maravilhosas aquele local escondia e com o seu fim ninguém conheceria.

Pensando nisso tudo decidi ligar para meu velho pai.

Tempo que não conversava com seu Jair e fiquei mais de meia hora com ele no telefone falando sobre samba. No fim comentei com meu pai que o “Casa de bamba” fecharia e se tornaria uma igreja evangélica. Meu pai lamentou e perguntei se ele não queria no dia seguinte beber uma cerveja no local.

Meses que não via meu pai, fiquei atolado com o processo de separação, o trabalho e decidi que era hora de fazer uma média com o coroa. Fui até a frente de sua casa e buzinei. Rapidamente muito bem vestido meu pai surgiu.

Pedi sua benção e brincando perguntei o porque de toda aquela elegância. Meu pai sorriu e respondeu que o sambista por natureza é elegante. Sempre tem uma calça branca, um sorriso no rosto e gingado nas pernas.

Fomos em direção ao “Casa de bamba” e chegando no bar meu pai
se emocionou e exclamou “Nossa, quanto tempo não venho aqui!!”. 

Pegamos uma mesa e fomos servidos pelo Almeidinha. Bebíamos cerveja, comíamos umas calabresas e falávamos de samba quando o pessoal de outra mesa reconheceu meu pai.

Vários senhores de idade estavam na mesa e começaram a gritar “Olha o Jair da harmonia!!” e chamaram por meu pai. Meu pai reconheceu alguns que estavam na mesa e feliz se aproximou dos homens. Cumprimentou a todos e me chamaram pra se juntar a eles.

O papo estava bem animado. Perguntaram meu nome e respondi Pedro de Oliveira, um dos homens comentou “nome pomposo, igual de Noel Rosa de Oliveira”. Outro homem comentou que sempre achara bonito o nome Noel Rosa de Oliveira e um deles perguntou se o conhecia.

Respondi que sim, era o poeta da Vila e eles riram falando que não, esse era outro. Noel Rosa de Oliveira era um renomado compositor nascido no morro do Salgueiro e compositor de Xica da Silva. Eu em minha ignorância comentei que achava que Xica da Silva era de Jorge Benjor e eles riram.

Um dos homens comentou que quem passara pelo bar mais cedo fora um dos filhos do Dr Bezerra e perguntou se meu pai conhecia o homem. Ele respondeu “claro que sim, fui diretor de harmonia da Unidos do Saca Rolha na época do seqüestro”. Jornalista convicto fiquei curioso com aquela história de seqüestro e perguntei do que ele falava.

Todos na mesa riram e meu pai decidiu me contar.

Voltamos alguns anos no tempo e a Unidos do Saca Rolha era uma escola do grupo de acesso capitaneada pelo Dr Bezerra, famoso bicheiro da região.

O carnaval se aproximava e a promessa era de um grande desfile pela comunidade “sacarolhense”. O ensaio fervia quando Dr Bezerra pediu a palavra.

“Alô meu povão da comunidade sacarolhense!!”. A bateria fez rufar e Bezerra parou para tal. Quando a bateria se aquietou o homem continuou.

“Podem ter certeza que a gente viemos pra ganhar o carnaval!! Eu garanto que se alguém tiver que ganhar o carnaval tem que ganhar da gente!!”. Outro rufar silenciou o patrono que esperou que a bateria parasse e continuou.

“A gente temos garra, temos dedicação..” novamente a bateria rufou e irritado Bezerra gritou ao microfone “Para com essa porra que eu quero falar!! Próxima manifestação da bateria vou mandar minha rapaziada enfiar a baqueta nos senhores e os senhores sabem aonde!!”.

Um silêncio sepulcral tomou conta da bateria enquanto Bezerra continuava “Obrigado..Como eu tava falando a gente temos empenho, dedicação, suor e dinheiro pra cacete!! No dia do desfile teremos trinta microondas na frente da quadra pra enfiar o povo dentro e ir pra Sapucaí..”.

Pequinês, o braço direito de Bezerra falou em seu ouvido “é microônibus doutor”.

Enfurecido Bezerra pegou o microfone e disse “Stallone, enfia a baqueta!!”.

Dessa forma Stallone, o chefe da segurança de Bezerra levou o pobre Pequinês que gritava em desespero para o lado de fora da quadra enquanto Bezerra novamente falava ao microfone “Então a parada é a seguinte!! Quer saber? Vou falar mais porcaria nenhuma!! Encheu o saco!! A cerveja na quadra hoje é 0800 pelo coroamento da nova rainha da bateria, minha dileta esposa Katylene Cristina!!”.

A bateria que estava com camisas com o rosto de Katylene finalmente pôde fazer o rufar enquanto a moça, mulher escultural digna de capa de playboy sambava na frente da bateria “pão com ovo”.

Bezerra cheio de cordões de ouro, anéis de ouro, relógio de ouro, dente de ouro e até unha encravada de ouro bebia uísque no camarote quando um homem chegou ao seu ouvido e comentou “seqüestraram sua sogra”.

Bezerra se assustou e perguntou como aquilo poderia ter acontecido, o homem que também era seu assessor pediu que Bezerra fosse ao lado de fora da quadra.  

O bicheiro saiu e alguns policiais que estavam na rua e trabalhavam como seus seguranças já estavam de prontidão. Bezerra perguntou o que acontecia. O homem contou que invadiram a casa do bicheiro e roubaram quadros, esculturas, o poodle da família e sequestraram a sogra.

Bezerra espantado perguntou “Até o poodle?” e o homem perguntou o que fariam. Naquele instante Stallone voltava com um dolorido Pequinês e Bezerra deu a ordem “Stallone, pegue os homens e dê uma geral pelo bairro. Tragam o poodle de volta e se possível a jararaca da mãe da Katylene também”.

Bezerra foi pra casa com muitos assessores, seguranças e puxa-sacos em volta enquanto Katylene chorava e era consolada pelo carnavalesco. Em determinado momento Stallone entrou na sala com o poodle nos braços e Bezerra sorriu indo a seu encontro. Pegou o cachorro no colo, beijou e perguntou se tinham lhe feito mal. 

O homem bem mais aliviado disse que já estava tudo bem e que todos fossem dormir. O carnavalesco se levantou, pôs as mãos na cintura e perguntou “Como assim benhê? E a mãe da Katylene?.

Katylene levantou e perguntou “Isso mesmo e a minha mãe?”. Baixinho Bezerra comentou “bicha desgraçada” e pediu que todos sentassem e esperassem contato dos seqüestradores.

Depois de algum tempo o telefone da casa tocou e Pequinês atendeu, eram os seqüestradores. Passou o telefone a Bezerra e sentou-se em cima de uma almofadinha. Bezerra atendeu e do outro lado da linha o seqüestrador aparentando bastante nervosismo pediu um milhão de reais para soltar a senhora.

Bezerra ouviu a tudo e pediu que o seqüestrador ligasse para seu celular em cinco minutos. Passou o número e desligou.

Ninguém entendeu nada. Katylene perguntou o porque daquela atitude e Bezerra respondeu que preferia falar reservadamente com o seqüestrador.     

Bezerra foi para o quarto e o telefone tocou. Ele atendeu e pediu que o seqüestrador fizesse novamente a proposta. O seqüestrador confirmou, um milhão pela soltura da velha.

Bezerra no ato revidou, pagava dois milhões para o seqüestrador ficar com a sogra.

O seqüestrador nada entendeu e Bezerra confirmou a proposta. O seqüestrador furioso gritou “o senhor pensa que eu estou brincando!!  Eu não estou!! Eu mato essa velha!! Juro que mato!!”. Bezerra retrucou que não mataria e lucraria mais ficando com a sogra.

O seqüestrador disse “Eu vou mandar a orelha dessa desgraçada pra provar que não estou brincando!!”. Bezerra pediu que mandasse a língua, seria um favor para a humanidade e desligou.

Para a família Bezerra disse que negociava e tudo daria certo, mas a verdade é que o seqüestrador ligava todos os dias tentando negociar o resgate e Bezerra irredutível falava “só pago pra ficar com ela”.

O desespero do seqüestrador aumentava a cada dia e em vez de um milhão ele já pedia dez mil pelo resgate. Bezerra continuava irredutível até que num dia de grande desespero o sequestrador ligou de novo.

Entediado Bezerra atendeu e o sequestrador implorou “pelo amor de Deus doutor, to liberando de graça, vem pegar essa jararaca”. Bezerra respondeu que não negociava e ele continuou implorando “Doutor, tenha piedade, minha vida se transformou em um inferno desde que sequestrei. A velha come pra caramba, bebe, me faliu, não para de falar, reclama de tudo e nem meu futebol consigo mais ver na tv, tenho que aturar novela todas as noites!!”. 

Bezerra bateu pé firme e desligou o telefone com o homem chorando e gritando que pagava mil reais para buscarem a velha.

Todos assistiam a tv quando entrou um link ao vivo mostrando o fim de um seqüestro. Era o da sogra de Bezerra que saía da casa protegida pelos policiais da divisão anti-seqüestro e um homem depois saiu chorando da casa, mãos para o alto gritando “Prende eu!! Prende eu que sou ladrão!!”.

Sem conseguir negociar com Bezerra o homem preferiu ligar para a polícia e se entregar a ficar com a velha.

Na mansão de Bezerra todos comemoravam enquanto o homem com o poodle no colo lamentava baixinho “acabou a folga”.

A velha entrou na casa sendo festejada por todos, se aproximou de Bezerra e deu um tapa em seu rosto dizendo “imprestável, nem pra pagar um resgate”.

O sequestrador sentia-se aliviado na cadeia, livre do sofrimento de conviver com aquela velha quando o carcereiro lhe chamou dizendo que tinha visita.

O homem estranhou e foi até a sala de visitas. Entrou, a porta foi fechada e deu de cara com a sogra de Bezerra.

A senhora vestia um sobretudo, tirou e ficou apenas de camisolinha. Maliciosa deu um sorriso e disse “hoje você não escapa de mim”.

O sequestrador desesperado pegou nas grades e começou a gritar por socorro.

Sequestraram a sogra de Bezerra, bem feito pro sequestrador..

*Homenagem ao imortal Bezerra da Silva




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