quarta-feira, 17 de abril de 2013

PORTELA EM CINCO CARNAVAIS




Semana passada a grande, a enorme, a gigante Portela fez 90 anos. É a maior vencedora da história do carnaval com 21 campeonatos. Passa por um momento difícil caminhando para trinta anos sem títulos e mesmo assim continua com folga na liderança mostrando como foi dominante ao longo dos anos.

São vários os grandes nomes de sua história. Paulo da Portela, Natal, Paulinho da Viola, Clara Nunes, João Nogueira, Monarco, Waldir 59, David Corrêa, Mestre Marçal, Noca, agora Luiz Carlos Máximo e Wanderley Monteiro..Muitos que paro de falar aqui para não cometer injustiças e se for falar de Portela e seus expoentes tão cedo não vou terminar.

Seus grandes carnavais então são incontáveis. Desde 1935 com “O samba dominando o mundo”, “Memórias de um sargento de milícias” de 1966, “Lendas e mistérios das Amazonas” de 1970 (último título sozinha), “Lapa em três tempos” de 1971, “Ilu Ayê” 1972, “O mundo melhor de Pixinguinha” de 1974, “O homem do Pacoval” 1976, “Incrível, fantástico, extraordinário” 1979, “Hoje tem marmelada” 1980 e tantos outros.

Mas vou destacar cinco. Cinco carnavais dos anos oitenta pra cá que me moldaram como compositor de samba-enredo e amante do carnaval.

DAS MARAVILHAS DO MAR FEZ-SE O ESPLENDOR DE UMA NOITE 1981


Samba de David Corrêa (foto) e Jorge Macedo

Pra mim o maior samba de todos os tempos. Não é o maior, mas pra mim é. No meu gosto, na satisfação tendo um começo de samba que me arrepia e no meu conceito de perfeição musical.

O samba foi a febre do ano de 1981 sendo número 1 das rádios FM daquele verão, virando hit de arquibancadas e regravado por grandes cantores. Talvez a expectativa que criou tenha prejudicado o desfile já que provocou uma grande invasão de pista atrapalhando a evolução da escola e aconteceram algumas “atravessadas” em seu desfile.

Não foi campeã, perdeu pra outro grande “Só da Lalá” da Imperatriz Leopoldinense, mas tornou-se imortal.

Esse ano foi reeditado pela Tradição.



CONTOS DE AREIA 1984   



Samba de Dedé da Portela (foto) e Norival Reis

Samba forte homenageando grandes nomes da história da Portela. Natal, Paulo da Portela e Clara Nunes que falecera no ano anterior.

Em uma coluna que escrevi , só procurar por “Elis Regina e outras mulheres bacanas”, contei a uma história que circula que assim que a Portela pisou na avenida e cantou “É cheiro de mato /é terra molhada/ é Clara guerreira/ lá vem trovoada” um grande trovão foi ouvido  na Marquês de Sapucaí.

Foi o ano de inauguração da passarela do samba com suas arquibancadas fixas, primeira vez também que o desfile foi dividido em dois dias ocorrendo uma coisa inédita e que nunca mais ocorreu. Em 1984 tivemos duas campeãs, uma em cada dia.
No sábado seguinte o supercampeonato vencido pela Mangueira. Nesse a Portela foi vice campeã. Mas o título conquistado no seu dia de desfile é contabilizado como oficial e marca como sua última conquista até hoje.   

Foi reeditado pela Tradição em 2004.



ADEILAIDE A POMBA DA PAZ 1987



Samba de Neném, Mauro Silva, Isaac, Arizão e Carlinhos Madureira

Como eu adoro esse samba..Desses citados foi o primeiro que acompanhei “in loco”. No carnaval de 1987 eu tinha 10 anos e já era apaixonado por carnaval. Deixava de ir brincar a folia na pracinha perto de casa para virar a madrugada vendo os desfiles, aprendia o samba antes e de cara me apaixonei por esse.

Não é o meu samba preferido, é o segundo, mas é o que mais me toca, me emociona. Fiquei anos sem ouvir esse samba e só ouvi tempos atrás graças a maravilha da Internet que nos proporciona o youtube e pela primeira vez chorei ouvindo um samba-enredo.

É um samba simples, singelo com uma grande musicalidade e poesia. Um enredo simples sobre uma pombinha que é capaz de fazer um mundo melhor, impensável para o carnaval capitalista de hoje. A pobre pomba teria que arrumar um patrocínio. 

Ao contrário do samba de 81 esse me conquista de vez na segunda. O samba vai numa crescente do verso “leia esse matutino” até “desativem essa bomba pra ninguém se machucar”.

Antológico, inesquecível, lindo em sua simplicidade.



GOSTO QUE ME ENROSCO 1995




Samba de Noca da Portela (foto), Colombo e Gelson.

A Portela já sofria com jejum de títulos e má administração, mas se tem uma coisa que nunca lhe abandonou foram os bons sambas.

Naquele ano houve mudança no cargo de cantor da agremiação. Saiu Dedé da Portela e entrou Rixa. Rixa é considerado o “Pavarotti” do samba, dono de uma voz maravilhosa, um temperamento complicado e naquele ano fez uma gravação histórica com o não menos maravilhoso Carlinhos de Pilares.

O clima era diferente naquele ano, parecia que a velha Portela acordara e isso ficava mais evidente com a volta de Paulinho de Viola a agremiação. O verso “E faz Madureira de novo sonhar” ganhava vida.

Como esperado a Portela foi Portela em 1995 e eu no interior do Mato Grosso via emocionado aquele desfile colossal. Um desfile campeão que não foi campeão. Perdeu para a Imperatriz que desfilou com um belo samba e um carro a menos inaugurando uma era de campeãs duvidosas e perda da inocência em relação aos desfiles.

Mas esse samba e esse desfile ficaram eternizados..Ah se ficaram.




E O POVO NA RUA CANTANDO..É FEITO UMA REZA..UM RITUAL 2012




Samba de Luiz Carlos Máximo (foto), Wanderley Monteiro (foto), Toninho Nascimento e Naldo.

Já falei várias vezes desse samba na coluna que eu tenho no blog Ouro de Tolo. Apelidei de “Barcelona dos sambas” e o apelido pegou.

O nível dos sambas de nosso carnaval vinha melhorando com alguns bons sambas esporádicos como Beija-Flor 2004 e 2007 e Imperatriz 2008. Em 2010 tivemos dois belos sambas, da Imperatriz e da Vila, mas faltava “o samba”.

Ele veio em 2012.O samba da Vila sobre Angola já era um sambaço, seria o melhor dos últimos anos e ganhador de todos os prêmios do carnaval, seria.

Se não existisse o magistral samba da Portela que se tornou febre na internet logo no lançamento para a disputa. O “Madureira sobe o Pelô” ganhou uma grande torcida por todo o Brasil que escutava em sites o concorrente portelense e graças a essa pressão o samba se tornou vencedor.

O Barcelona dos sambas veio em ótima hora. A Portela atravessava uma grande crise moral, institucional e financeira. Pior que o sambaço de 95 enfrentou.  Presidente Nilo caíra em descrédito, a Portela pela primeira vez desfilara sem competir no ano anterior devido a um incêndio e o portelense passava por baixa estima enorme.

O samba recuperou o orgulho do portelense que entrou rasgando na Marquês de Sapucaí cantando a plenos pulmões a bela música. A escola não veio pra campeonato, graças a incompetência de seu presidente, mas o samba foi fundamental para a conquista da vaga no desfile das campeãs.

Madureira subiu o Pelô e arrumou uma vaga no sábado.



Bem..Esses foram cinco carnavais da madrinha que mexeram comigo. Espero que surjam mais e tenho certeza que surgirão. Basta que sua “verdade” seja restabelecida dia 30 de maio nas mãos de seus sócios.  

A águia merece voar bem alto, o carnaval merece que a águia voe alto.



Parabéns e obrigado madrinha Portela, que me ajudou a caminhar.






















2 comentários:

  1. Tenho muito a dizer/escrever, porém no momento o sono oriundo de medicamentos me obriga a ser muito superficial. Por isso separo três dos citados sambas, o de 1984 - a mim apresentado via TV Manchete nos Especiais "Recordar é viver" que passava nas manhãs de sábado de carnaval até 1994; de 1987 - agradeço a Deus pela existência do youtube e através dele ter conseguido adquirir o vídeo deste desfile, sou completamente apaixonado por "Adelaide"; 1995 - amo-o desde o primeiro momento que o ouvi numa vinheta/clipe da Manchete em janeiro do ano em questão, simplesmente o melhor da década de 1990.
    Preciso ao menos dizer que se trata da opinião de quem ama escolas de samba sem nunca ter ido ao RJ, a grosso modo é como um cinéfilo que nunca pisou numa sala de cinema mas é totalmente entregue à magia da sétima arte vista por outras mídias.

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  2. O amor não tem local para ser sentido e eu sempre digo que o amor de fora é até mais bonito, que um dia você venha e passe por essa emoção

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