quinta-feira, 4 de abril de 2013

OITO ANOS SEM ELA



Mais um 4 de abril chegou..Como muitos já chegaram na minha vida e se tudo der certo e Deus for um cara bacana comigo muitos virão. Data que não tinha nenhum significado pra mim até 2004 e hoje é uma data que se junta ao 9 de agosto, data que nasci, ao 16 de maio que a Bia nasceu e o 27 de novembro nascimento de minha mãe.

Mas ao contrário das datas acima não há motivos pra comemorar 4 de abril, mesmo que em 2009 nessa data eu tenha recebido o troféu Jorge Lafond com meus parceiros de melhor samba do grupo B do ano.

Com todo respeito a Acadêmicos do Cubango, organizadora da premiação, é pouco em relação ao que essa data me representa e com todo meu lado egoísta que mereço usar, só a mim representa. Dos 366 dias possíveis em um ano é a minha pior data.   

O 4 de abril é simbólico pra mim porque marca um fim e um começo. O fim de uma história que começou em 9 de agosto de 1976. Um caso de amor recíproco e imediato com muitos momentos de emoção, carinho e saudades. História que ganhou contornos dramáticos em 1999 com uma primeira internação e foi piorando, piorando a olhos vistos..

..o definhamento, a perda da alegria e do amor próprio de quem amamos, a sombra da morte cada vez mais escurecendo aquele nosso “objeto” de amor e fazendo criar uma penumbra onde antes só existia luz e cores. Situação que foi piorando a cada dia, mês, ano, que culminou em contornos trágicos e clima de despedida naquele nada saudoso ano de 2005 pra mim.
História que se encerrou no dia 4 de abril, mas teve seu último capítulo em um domingo dia 3.

Como fiz durante um mês fui ao hospital Getúlio Vargas visitar esse meu amor. Sempre fui um cara teimoso e nunca quis enxergar a realidade tão viva e cristalina. Ela estava morrendo. Naquele dia o horário de visitas demorou mais do que o normal, nunca acontecera isso antes e fiquei ao seu lado, segurando sua mão.

Era dia de Fla x Flu decidindo a taça Rio, mas nem liguei. O papa que ela tanto amava acabara de morrer, mas nem contei. Não tinha como, ela não estava mais ali. Apenas dor e despedida existia naquele quarto vazio, naquela cama.

Segurava sua mão e não sentia seus ossos, a mão estava muito inchada. Ela me olhava e arfava como se não conseguisse respirar. Seus olhos me pediam ajuda e eu não entendi. Nunca vou me perdoar por não entender aquele pedido. A hora da visita acabou. Uma enfermeira se aproximou e disse a outra “melhor levarmos para emergência”.

O Flamengo tomou de 4x1 do Fluminense. Mas quem sofreu a grande derrota daquela tarde fui eu. 

Fui pra casa ainda a tempo de ver o fim do jogo, mas não me importou, algo não estava certo, algo não batia bem em mim. Falei com meu padrasto e minha ex-namorada que se encontravam aqui em casa para visitá-la, pois estava morrendo. Falei da boca pra fora, pra assustar. Hoje já não sei se era da boca pra fora.

Fui pra internet e sem conseguir dormir fiquei a noite toda na net. Internet discada que impediu que meu telefone tocasse. Tocou de manhã, meu padrasto atendeu e assustado bateu na minha porta pra dizer que pediram a identidade dela no hospital.

Assim em um táxi eu fiz a viagem mais difícil de minha vida. Longa até aquele hospital, uma viagem que parece que não acabou até hoje. No fundo eu sabia porque me chamaram, mas não queria aceitar. Ligaram-me dando pêsames, mas quando perceberam que eu ainda não sabia mudaram de assunto. Chegando lá o médico enrolou um pouco e confirmou.

4 de abril de 2005. O dia que o amor da minha vida, o dia que a pessoa que me deu a luz, me criou, moldou o ser humano que eu sou. O dia que minha mãe morreu.

Sofri muito nos dias seguintes, mas a memória seletiva que pode ser uma grande amiga não me deixa lembrar todos os momentos. Lembro que estava normal no enterro e só deixei cair umas lágrimas quando fecharam o caixão. De resto eu estava com aquela tranqüilidade de quem não caiu a ficha.

Pessoas queridas me consolavam. Outras reclamavam de que nos afastamos da família não percebendo que essa foi uma forma de defesa dela e na terça chuvosa dia 5, como ela gostava, o caixão desceu. Minha mãe descansou e a história acabou.

Bem. Acabou mais ou menos.

Como eu disse uma história acabou ali, mas outra começou. Um Aloisio forte teve que surgir. Um Aloisio adulto teve que nascer e logo de cara enfrentando dificuldades como “você agora é um adulto, é responsável e se vira”. O garoto mimado tomou uma porrada e teve que aprender nas dificuldades que a vida mostra.

E aprendeu. Levantou quando muitos não acreditavam, se virou quando alguns acharam impossível. Amou, ganhou sambas, riu, se divertiu, chorou, cresceu, se fortaleceu, viveu.

Reencontrou o amor pleno, o amor que pede nada em troca. Descobriu que o maior amor de sua vida não precisa ser um só, descobriu Ana Beatriz.

E descobriu que existe sim vida após a morte tanto para quem morre quanto para quem fica. Nunca estarei sozinho nesse mundo, pois sei que quando ela fechou os olhos em 4 de abril de 2005 eu ganhei um anjo da guarda, um ser de luz protetor, qualquer que seja a religião ganhei uma guardiã.

Que está comigo em todos os momentos segurando minha mão enquanto eu arfo e meus olhos pedem ajuda.

Te amo mãe, te amarei pra sempre e não será um 4 de abril que acabará com isso. Te amo na intensidade daquele abraço que te dei meia noite no reveillon de 2004 pra 2005 quando estávamos brigados e eu não quis começar o ano daquela forma. Bendito abraço que me livrou de uma consciência pesada.

A Bia já sabe quem é você quando olha suas fotos, que você está com papai do céu e saberá tudo de bom que você representou ao pai dela e fez na vida.

E principalmente que eu sofri uma derrota naquela tarde, mas no fim ganhei o campeonato.

Graças a você. Sempre a você

Oito anos dona Regina..Meu Deus...Oito anos..
Não vou usar o clichê que parece que foi ontem porque não parece. Esses oito anos têm o peso, o tempo e a intensidade de sua realidade. Sim, infelizmente hoje me parece distante a data que estive com você, que tive suas mãos, braços e colo pra me proteger.

Mas é estranho porque algumas coisas parecem tão vivas e presentes em mim. A nota oito impensável em geografia que você me abraçou e choramos juntos na sexta série. Você catando as alegorias chorando e guardando em casa depois que eu perdi meu primeiro samba ou três anos depois chorando ouvindo o meu primeiro samba na avenida ou quando no palco do Olimpo com
todo o mundo do samba presente eu dediquei o Estandarte de Ouro a você.

Coisas corriqueiras como eu estar no computador e atrás você deitada na cama vendo tv já em sua fase final onde eu todas as noites ia ficar com você para que não se sentisse sozinha ou mesmo quando o telefone tocava e você falava “Isio, é mamãe”. Sua voz é tão nítida ainda.

Lembro que três dias depois da sua morte entrei no seu quarto, deitei na sua cama e passei a noite toda ali com sua foto em minhas mãos sem chorar, fazer nada, apenas queria morrer. Nunca mais entrei naquele cômodo, mas não morri naquele dia, acho que aquele foi o dia que renasci.

Oito anos..Dói, ainda dói muito hoje em dia, mas pelo menos eu chego no fim desse texto olhando pra trás e percebendo que o título está errado. Não são “oito anos sem ela”, o certo é “uma eternidade com você”

Deus..oito anos..Como pude sobreviver, como agüentei..Acho que uma palavra responde a isso. Amor. Que você aonde quer que esteja sei que sente por mim, também pela Bia e eu sempre sentirei por você. 

4 de abril? É só uma data e é nada perto desse amor.

E enquanto não te reencontro pra você dizer que teve orgulho de ser minha mãe e da vida que tive mato as saudades de você  primeiro postando a música que sempre disse ser minha. Filho Único de Erasmo Carlos e por fim pagando um dos maiores micos da minha vida postando um vídeo que fiz cantando a música que compus pra você no dia de sua missa de sétimo dia.

Juro que não estava chorando apesar da impressão que dá , como prova tenho que a minha patética voz não embargou rs Sono e olhos pequenos fazem essas coisas, não adianta né dona Regina, saí como você rs

Te amo, a benção, até um dia.


Mãe.




NO ESPELHO

Como vou viver sem o teu amor
Como viver sem o ombro amigo
Naqueles momentos onde só existe dor
Como vai ser ficar sem você

Reluz uma lágrima em meus olhos
Eu sei, não vou lutar sozinho
Geralmente quando eu mais choro
Imagino teu afago, teu carinho
No espelho encontro teu olhar
A imagem que me fortalece
Vejo que estás a me acompanhar
Intensa sua chama me aquece

Legado que sigo em meu caminho
Lembranças nunca irão se apagar
Amor é como passarinho
Radiante tendo o céu a desbravar


video











2 comentários:

  1. Me emocionou com esse texto. Senti mais ou menos parecido quando partiu meu padrasto, que foi muito mais que pai pra mim. Eles se vão mas ficam pra sempre conosco, a prova disso está aí, nesse texto. Abraço!

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    1. Obrigado pelas palavras. Sim,ficam até porque somos o que somos hoje por causa do que nos ensinaram e do amor que anos deram, isso não se apaga. Abração

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