terça-feira, 20 de maio de 2014

NUMA ESTRADA DESSA VIDA




*Capítulo da coluna 'Enredo do meu samba" publicado no blog "Ouro de Tolo" em 23/11/2013

Ah amigos..Essa não deu pra engolir. Comecei a rir quando ele acabou a história e Dodô sério perguntou o motivo da graça. 

Meu pai que voltava da ligação foi até a mesa e respondeu por mim “Desculpe Dodô, mas essa evidente que é mentira”. O homem se irritou, levantou e perguntou “Prove que é mentira?”.

Meu pai disse que nunca existiu uma Acadêmicos do Gato Molhado e o povo nunca invadiu a pista em um desfile das campeãs. Dodô olhou bem sério para nós e vociferou “O problema dos jovens é não ter memória”.

Disse isso e foi embora.

Meu pai comentou “É, ficou chateado mesmo”. Ri e comentei que pior do que ele ficar chateado foi ter saído sem pagar a conta e que sobraria pra gente. Seu Jair olhou o relógio e disse que teria que ir embora, tinha um compromisso. 

Levantei e respondi que tudo bem o levaria ate lá e meu pai argumentou que não precisava, pegaria um táxi.

Disse isso, me deu um beijo na testa e partiu. Achei tudo muito estranho. Paguei rapidamente a conta e peguei meu carro para segui-lo.

Segui curioso em saber o que meu pai aprontava. Até que parou na casa de uma pessoa conhecida. Esperou um tempo na porta e a conhecida saiu da casa. Deu lhe um beijo e entrou no carro.

Era minha ex-sogra!! A jararaca da dona Elza.

Não acreditei e continue seguindo. Rodaram por uns quinze minutos até entrar em um motel!! Não acreditei naquela cena!! Meu pai num motel com aquela cascavel!!

Imediatamente liguei para Bia que me atendeu dizendo estar ocupada e querendo saber o que eu queria. Perguntei se ela sabia onde estava a “mamãezinha” dela e enquanto minha ex pedia pra que respeitasse sua mãe completei “em um motel com o meu pai”. 

Esperava seu apoio, sua indignação e em vez disso ela perguntou “O que você tem a ver com isso?”. Espantei-me e respondi que tudo já que era meu pai com sua mãe. Bia emendou “Você devia arrumar o que fazer em vez de seguir minha mãe e seu pai. Vai procurar fazer o que eles estão fazendo no motel e me deixe que estou ocupada”. Desligando o telefone.

Fiquei com cara de bobo na frente do motel e com o telefone na mão. Nisso surgiu um guarda dizendo que eu parara em local proibido e pedi desculpas ligando o carro e indo embora.

Não podia ser possível!! Eu brincava quando falava que os dois tinham um caso e pelo jeito era verdade!! Saí do local atordoado com o que vi e decidi voltar ao “casa de bamba”.

Voltei e o bar estava cheio. Fui para o balcão e pedi uma bebida diretamente a Manolo. O homem perguntou se eu queria uma cerveja e respondi “Não, hoje eu quero cachaça mesmo!!

O dono do bar me serviu e perguntou o que acontecia. Achei que alguém iria me entender e contei toda a história. No fim Manolo riu e disse “Você devia ir pra casa e tentar fazer o mesmo”.

Olhei o falso espanhol e perguntei “Até você?”. O homem gargalhou enquanto lavava copos e completei “Estou me sentindo traído”. Manolo aproveitou que diminuíra um pouco o movimento e falou “vou te ajudar, vou contar uma história pro livro”. Perguntei se tinha traição e o homem respondeu que não, mas tinha “dor de corno”.

Peguei o gravador e pedi que ele me contasse.

Contou a história de Donato, compositor do glorioso Acadêmicos do Salgueiro. 

Donato era jovem ainda, tinha trinta anos e sempre foi um apaixonado pelo Salgueiro. Começou em ala mirim, depois entrou para o Aprendizes do Salgueiro, mais velho virou ritmista da agremiação, trabalhou na harmonia até que decidiu se aventurar como compositor.

Já estava há sete anos na função, mas sem vitórias. O máximo que conseguira foi chegar em duas finais. O maior sonho da vida de Donato era se tornar um campeão pela Academia do samba. Ver seu Salgueiro desfilar com uma obra de sua autoria na Marquês de Sapucaí.

Lógico que, além disso, queria construir família. Ter filhos, netos, uma esposa pra amar pela vida toda e pelo menos nesse lado a vida parecia caminhar melhor.

Três anos antes entrara para a faculdade de administração na UFRJ e logo no primeiro dia, perdido pelo prédio, acabou trombando com uma moça. Pediu desculpas pegando suas coisas no chão e quando olhou para ela se encantou de imediato.

Sorriu e perguntou se ela sabia onde ficava a sala do primeiro período. A moça apontou para as costas dele, era a sala e ele nem tinha visto.

Donato agradeceu e disse que não observara. A moça se apresentou como Thais e contou que também era sua sala. Dessa forma os dois entraram.

Construíram amizade. Uma turma legal de seis ou sete alunos que iam para todos os lugares juntos. Pagodes, boates, bares. Uma turma inseparável que aproveitou também para torcer pelos sambas de Donato.

A parceria do rapaz no Salgueiro sempre teve torcida grande e a mesma era considerada a mais bonita dos concursos. Naquele ano, reforçada pela rapaziada da faculdade, Donato competia com um bom samba e pela primeira vez chegava à semifinal da agremiação.

Foi uma semana tensa para Donato que mal conseguia se concentrar nas aulas. No dia da semi estavam todos lá e o samba fez uma grande apresentação.

Na hora do anúncio dos finalistas Thais estava ao lado de Donato segurando sua mão. Quando anunciaram a parceria na final foi uma grande explosão de alegria e emoção. Thais e Donato se abraçaram e acabaram se beijando.

Pediram desculpas um ao outro e a comemoração prosseguiu em um bar. 

Não tocaram no assunto por um bom tempo mesmo mexidos com o beijo. A final chegou e o samba de Donato perdeu. No fim foi o abraço dela que lhe consolou.

Donato deixou Thais em casa. Ela se despediu, saiu do carro e foi
até a porta para abrir. Donato saiu do veículo, foi até a moça e falou “Não tenho como ignorar mais”. Thais se virou para o rapaz e respondeu “nem eu”. Eles se beijaram novamente. 
 
Na semana seguinte foram a um pagode e lá tinha um videokê. Donato se encheu de coragem, comprou uma ficha e ao microfone disse que iria cantar uma música para Thais.

Cantou “coração em desalinho” de Monarco. Cantarolou os versos “Numa estrada dessa vida, eu te conheci oh flor”. Thais se emocionou e começou a chorar. Donato pegou sua mão e cantou olhando o tempo todo. No fim lhe pediu em namoro ganhando um beijo.

Donato perdeu um samba, mas ganhou uma namorada. Não ganhou apenas namorada, ganhou uma companheira.

E foi assim durante esse período todo. Donato e Thais eram um grude só. 

Namorados, amantes, companheiros. Em pouco tempo alugaram um apartamento e foram morar juntos. Achavam careta esse negócio de casar na igreja, já se achavam casados e para o resto da vida.

Donato trabalhava em um escritório de contabilidade e Thais como secretária de um dentista. Juntavam dinheiro para comprar um apartamento próprio e realizar o sonho do primeiro filho. Donato e Thais eram considerados o casal perfeito.

E ele insistia no sonho de ser campeão no Salgueiro recebendo todo o apoio da namorada. Batendo na trave algumas vezes, se decepcionando, mas no dia seguinte tendo a cabeça levantada por seu amor que lhe dizia “Não desista que você é um campeão”.  

Até que o ano chegou. A parceria de Donato acertou em cheio no samba que despontou como favorito logo no começo. O samba conquistou os segmentos do Salgueiro e chegou à final com grandes chances de vitória.

Na noite anterior Thais levantou e viu o namorado sentado na sala. 

Perguntou se ele estava muito tenso e Donato respondeu que sim.  A moça fez um chá para ele, entregou e caminhou para o quarto. Donato comentou que ela estava diferente e Thais sorriu respondendo “estou não, impressão sua, tenta descansar”.  Entrando no quarto.

Na final a parceria de Donato fez uma grande apresentação e na hora do anúncio do resultado o rapaz quase infartou quando ouviu o intérprete cantar seu samba. Sim, ele realizara o sonho de uma vida. Era campeão no Salgueiro. 

Chorando foi puxado por parceiros e torcedores pro palco e não conseguia acreditar no que via. A quadra toda cantando seu samba, furiosa feliz tocando, o casal de mestre-sala e porta bandeira rodando. Tudo o que sonhara estava ali acontecendo.

Desceu do palco muito emocionado e encontrou Thais. A moça sorriu, abraçou o namorado e disse “parabéns”. Donato abraçou forte agradecendo, mas não era bobo. Algo estranho ocorria.

Descobriu o que era duas semanas depois quando a moça lhe disse que precisavam conversar. Sentaram-se na sala e Thais contou que estava indo embora, era melhor que terminassem. 

O mundo de Donato caía. Um gelado tomava conta de seu corpo, frio na espinha. Desorientado ele perguntou qual era o motivo. Thais respondeu que precisava ficar sozinha. Desesperado o rapaz perguntou se ela se apaixonara por outro e Thais jurou que não.

Chorando viu Thais arrumar suas coisas e chegar até a porta com as malas. O homem esqueceu todo o amor próprio que tinha e se agarrou nas pernas dela pedindo para que não fosse embora. Thais pediu que ele parasse, pois não lhe amava mais.

“Eu não te amo mais”. Não existe dor maior para um ser humano que ouvir essa frase de quem ama. Donato ficou sem forças e soltou as pernas de Thais que apenas disse “se cuida” e partiu. Ao bater porta e sair Donato se tocou que ficara sozinho, perdera o amor de sua vida e gritou seu nome em desespero. Em desespero e em vão porque ela não voltou.

Começou a chorar e dormiu ali mesmo. No dia seguinte acordou com um dos parceiros chamando para gravação de tv. Donato alcançara o sonho de ser campeão pelo Salgueiro e mais. O samba era um dos melhores do ano, cotado até para Estandarte de Ouro.

Mas ele nunca pensou que seria tão amargo o gosto da conquista de um sonho. Não conseguia aproveitar, não conseguia ficar feliz.

Trocava tudo aquilo por Thais.

Insistiu muito. Ligava todos os dias para Thais até que a moça trocou o número do telefone. Foi até a casa da mãe da moça que sempre dava uma desculpa e no fim não aguentando mais pediu que ele não aparecesse novamente senão chamaria a polícia.

A vida de Donato transformou-se em um inferno e foi dentro desse inferno pessoal que ele chegou na Sapucaí para realizar o sonho de ver a escola cantando seu samba.

As arquibancadas iam a loucura, a escola cantava com garra e alegria. Todos felizes, menos Donato. O homem desfilou mudo o tempo todo, com lágrimas nos olhos.

No fim enquanto todos comemoravam sozinho Donato caminhava para a saída da apoteose quando viu aquilo que nunca desejaria ver.

Thais aos beijos com outro compositor da escola.

Donato parou para ver a cena. Não conseguia chorar, gritar, desesperar, nada, apenas ver. Thais percebeu que ele via e parou. O casal ficou um tempo olhando Donato e ele olhando a eles. Thais fez cara de pena, mas não conseguia esboçar nenhuma reação.

Segundos que pareciam horas, pareciam uma vida inteira. Um amigo de Donato percebeu a situação e lhe puxou para ir embora.

Na manhã seguinte o samba do Salgueiro foi agraciado com o Estandarte de Ouro de melhor samba do carnaval e a parceria toda foi até o apartamento de Donato lhe dar a grande notícia. Batiam na porta e nada do rapaz atender. Até que um deles percebeu cheiro de gás e se desesperaram.

Começaram a socar a porta até que conseguiram arrombar. No lado de dentro o cheiro de gás era fortíssimo e Donato desmaiado. Ao lado um bilhete. Era a letra de “coração em desalinho”. Donato resolvera se matar.   

Foi imediatamente levado ao hospital e lá salvo por um milagre. No dia seguinte Donato desolado olhava pela janela do quarto e vociferava “Um suicida fracassado não merece viver”.

Uma enfermeira linda entrou no quarto e perguntou se ele estava
bem. Sem olhar Donato respondeu que sim e em seguida a enfermeira deu parabéns pelo Estandarte de Ouro e a vitória no carnaval.

De estalo Donato olhou para a enfermeira e perguntou “venceu?”. Ela sorrindo respondeu “Sim, com dez em tudo”. Donato deu o primeiro sorriso em meses e a enfermeira continuou “A escola estava linda, não tinha como perder, ainda mais com o seu sambaço”.

Tímido Donato agradeceu e a enfermeira comentou que qualquer coisa era só lhe chamar. Ia saindo do quarto quando voltou e perguntou “Quando você sair daqui será que podemos ir a um barzinho e você me contar como faz um samba-enredo”.

Donato respondeu “claro”. A enfermeira deu um sorriso lindo e quando estava saindo ele chamou e perguntou seu nome.

Ela se virou e disse:

“Pode me chamar de recomeço”.

Assim ela saiu e com brilho nos olhos depois de tanto tempo Donato olhou para teto, deu largo sorriso e falou “recomeço...”

O coração não estava mais em desalinho..


..Nunca é tarde para um recomeço.


ENREDO DO MEU SAMBA (CAPÍTULO ANTERIOR)

FABRICANDO CARNAVAL

Nenhum comentário:

Postar um comentário