quinta-feira, 1 de maio de 2014

1° DE MAIO DE 1994



*Coluna publicada no blog Ouro de Tolo em 28/4/2014


Durante a vida nós crescemos, amadurecemos, envelhecemos e durante todo esse trajeto fatos marcam nossas vidas. O primeiro amor, a primeira vez, quando passamos no vestibular, o primeiro dinheiro ganho fruto de nosso trabalho, aquele título inesquecível de nosso time de futebol..

Guardamos fatos, datas. Nosso aniversário, de nossos pais, dia do primeiro beijo na mulher amada, nascimento de um filho. Por mais que nossos corpos envelheçam e nossas memórias já não sejam como antes tem coisas que nunca esquecemos. Seja por marcar nossas vidas ou a comunidade em que vivemos.

Não esqueço 20 de outubro de 2000. Data que ganhei meu primeiro samba, 27 de fevereiro de 2001 quando ganhei meu estandarte de ouro, 4 de abril de 2005 data de falecimento de minha mãe, 16 de maio de 2009 e 9 de agosto de 2013, nascimento de meus filhos, 19 de dezembro de 2013, primeira vez que vi uma peça de teatro minha encenada.

Todos sem exceção têm datas assim e existem datas que representam a todos. Não preciso entrar em detalhes em relação  datas como 21 de abril, 22 de abril, 7 de setembro, 25 de dezembro, 31 de dezembro, 1 de janeiro, todos sabem de suas importâncias desde pequenos.    

E datas que se tornaram importantes para um todo por fatos acontecidos em um ano. A data 11 de setembro até 2000 era um dia comum, hoje arrepia.


Existe uma data que nunca foi comum aqui, já era feriado antes de 1994, mas hoje tem outro significado para um país imenso, de dimensões continentais.

O que você almoçou ontem?

O que você fez em 1 de maio de 1994?

Sim. Essa é uma data que não necessita de explicações. É o tipo de data que até quem não tinha nascido sabe o que estava fazendo. Essa data faz 20 anos essa semana. Os vinte anos da morte de Ayrton Senna da Silva.

Meus Deus! Vinte anos! Essa expressão “vinte anos” assusta muito porque mostra como o tempo é minúsculo em relação ao espaço. Como somos minúsculos em relação ao tempo. 1994 foi outro dia, Brasil campeão do mundo, Imperatriz campeã do carnaval inaugurando os desfiles técnicos e isso tudo já faz vinte anos.


Vinte anos que tivemos uma semana que pelo menos no Brasil passa a impressão que ela não faz parte do tempo e do espaço. Parece que ali foi aberta uma fenda, uma exceção e que aquela semana que começou no GP de Ímola e durou até o enterro faz parte de outra dimensão, outra vida. Que o tempo que nunca para ali parou e permitiu que um país chorasse.

Nossa!! E como esse país chorou!! Como diz uma música em relação a data cantada por Elymar Santos “Nunca vi meu povo sofrer tanto assim” e é verdade, não é exagero. Nunca o Brasil sofreu tanto, nunca chorou tanto. Nada existiu no país naquela semana. Escolas, trabalhos, ruas, todos parados e olhando televisores para acompanhar translado de um corpo e seu enterro.

Não era um chefe de estado, não era um herói de guerra, não era uma vítima de terrorismo, era o enterro de um “simples” piloto de fórmula 1 que morreu na pista.

Como se explica isso?

Explica-se através de uma aula de história. Se o Brasil de hoje não é fácil de ser vivido imagine em 1994. Já éramos (sempre fomos) expostos a corrupção e humilhações de nossos governantes, desemprego, inflação crônica que começava  ser controlada, mas ainda não existia confiança nisso, vinte e quatro anos sem ganhar uma copa. Tudo dava errado nesse país que acabara de perder um presidente por corrupção. O que dava certo nesse país?  


Ayrton Senna da Silva.

Um Silva como tantos Silvas. Sobrenome mais comum de nosso país, mas que tinha uma origem melhor, berço e por isso não desperdiçou seu talento e as oportunidades que surgiram. Senna era o cara que empunhava a bandeira do Brasil em dias como a morte de Tancredo Neves, o cara que botava europeus no bolso, comendo poeira quando estávamos no auge de nosso complexo de vira latas. Era bem sucedido, rico, bom moço, falava coisas bonitas, de Deus, namorava a rainha dos baixinhos e partia com a faca entre os dentes “defendendo a pátria” e sendo o melhor do mundo no que fazia.

Senna no começo dos anos 90 era a única coisa que o Brasil era o maior do mundo. Agora imaginem esse cara “morrendo em combate”? Via satélite para todo o Brasil. O herói tombado, agonizando nas nossas vistas e nós não podendo fazer nada. O Brasil ficou atordoado, zonzo como a população de Metrópolis em Superman 2 quando pensa que ele morreu e fica sem rumo pelas ruas.

Assim ficou o Brasil naquele domingo. As ruas ficaram estranhas, vazias, clima pesado, éramos zumbis vagando por ruas desertas num filme de terror automobilístico. Torcidas atordoadas em estádios de futebol se uniam para gritar seu nome, jogadores se ajoelhando no gramado. Nunca na história do Brasil existiu um domingo como aquele. Um trauma que está aí até hoje, que ainda comove, machuca e traz desconforto.  

 
Eu acordei dia 1 de maio de 1994 sem ver Senna como nada na minha vida, meu ídolo na F1 era Piquet. Fui dormir chorando de soluçar como se perdera alguém de minha família e foi assim por cinco dias.

Morava em Barra dos Bugres, interior do Mato Grosso e no dia seguinte tinha estágio com crianças no colégio que eu fazia segundo grau. Coube a mim no pátio do colégio explicar o significado da morte e que o herói deles não mais voltaria.

Errei. Vinte anos se passaram e a impressão que tenho é que ele nunca partiu.

Não entro no mérito se foi exagerada a reação brasileira ao acontecido ou dessa devoção que quase o canoniza que existe hoje, mas acho bonita essa relação do povo brasileiro com Ayrton. É verdadeira, honesta e de amor puro. De quem tem saudade, orgulho e gratidão.

E sinceramente? Que povo bonito esse que chora por esportes e não por guerras.

Valeu Ayrton por sua vida e morte. Por nos dar o seu melhor e tirar de nós o melhor que temos.


Acho que essa foi a sua grande vitória.        



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