sexta-feira, 9 de maio de 2014

HOMENAGEM A JAIR





Pensei em fazer uma homenagem ao gigante Jair Rodrigues, um dos maiores intérpretes que esse país já conheceu, mas lembrei que nos primórdios do blog colocava meus livros aqui e logo no primeiro chamado “O retrato da vida” tem a maior homenagem que eu poderia fazer. 

O livro conta a história de um personagem chamado “Doido” e sua vida se mistura com os acontecimentos mais importantes do século XX. Quem quiser conferir é só ver as primeiras postagens do blog. 

Transcrevo aqui um pedaço do capítulo “Tempos de chumbo” onde coloco toda minha admiração e respeito a Jair Rodrigues.

Uma pequena homenagem a Jair

TEMPOS DE CHUMBO



“Os anos 60 eram a pura efervescência pelo mundo inteiro. Um grupo chamado Beatles formado por quatro garotos de Liverpool na Inglaterra eram a grande febre musical e todos queriam imitar. Pelo país começava um movimento chamado Jovem Guarda capitaneado por um rapaz chamado Roberto Carlos e claro eu não poderia ficar de fora disso.

Reuni meus amigos no boteco do seu João e comentei com eles qual era a melhor forma de ganhar mulheres. Os três responderam dinheiro e eu falei que tinha uma forma melhor e que poderíamos ficar famosos. Perguntaram o que e respondi “montar uma banda de rock”.

Os três começaram a rir de mim. Fernando perguntou como iríamos montar uma banda de rock se não sabíamos tocar nada, Marquinhos disse que só sabia tocar cavaco e achava que isso não adiantaria em uma banda de rock e Bruno com seu jeito “boca suja” de ser contou que só sabia ir para o banheiro em um ato solitário tocar..melhor não dizer, podem ter crianças lendo. 

Reclamei, falei que eles não podiam desistir antes da hora e que tudo que quiséssemos poderíamos alcançar, ganhar o mundo e ser um novo Beatles. Eles riram do meu otimismo, mas decidiram topar.

Começamos a ensaiar na garagem do Bruno e a família dele reclamava muito. Com razão éramos péssimos. Fernando era o vocal e baixo, eu e Marquinhos nas guitarras e Bruno na bateria. Uma formação parecida com a dos Beatles. Pegávamos umas músicas dos Beatles e da Jovem Guarda para ensaiar. Íamos bem o problema era só acertarmos o ritmo, enfim faltava tudo.

Aos poucos por incrível que pareça melhoramos. Isso depois de seis meses ensaiando. A família de Bruno que reclamava começou a parar pra assistir e depois até a vizinhança foi. Viramos os ídolos da rua, os novos Beatles. Bruno morava no bairro de Ramos, zona Norte do Rio de Janeiro então viramos os “Beatles da “Professor Lacê”. Era a rua que Bruno morava.   

Um dia descobri que aconteceria um festival de música que passaria ao vivo na TV Record em São Paulo. Corri para contar aos meus amigos e falando que tínhamos que participar. Os três gargalharam e falaram que era loucura minha e eu realmente era doido. Depois de falar o “doido desde que nasci” de sempre falei que tínhamos que confiar em nós mesmos, nós estávamos cada vez melhores e devíamos tentar.

Junto com Marquinhos compusemos uma música pro festival, pegamos os outros dois e ensaiamos exaustivamente. Dia e noite. Depois que vimos que ficou legal fomos a um estúdio, gravamos e mandamos a fita pra TV Record cheios de esperança.

Apenas trinta e seis músicas seriam escolhidas para apresentação ao vivo e nossa ansiedade era grande. Até que recebi uma ligação, atendi e era da produção da Record. Eu só conseguia balbuciar “sim..sim..sim”. Bruno estava na minha casa e ficou ansioso com o telefonema. Quando desliguei gritei “passamos, vamos para o festival!!!”.

Eu e Bruno nos abraçávamos e gritávamos emocionados. Fomos correndo atrás dos outros. Os quatro comemoraram muito, era a grande chance de nossas vidas. Fomos festejar no bar do seu João com feijoada e caipirinha fazendo planos de ganhar aquele festival e mostrar nossa música pro Brasil.

O dia de nossa apresentação se aproximava e nossa ansiedade também. Em vez da garagem começamos a ensaiar em um estúdio alugado com um produtor nos ajudando. Bruno pegou suas economias e comprou uma guitarra pro Marquinhos que emocionado agradeceu lhe abraçando. 

Nós quatro havíamos nos transformado em uma família de verdade e eu ensaiava e pensava se Aloemi me assistiria. Torcia que sim para que ela assistisse, lembrasse do seu amor por mim e quem sabe assim voltaríamos a nos ver. 

Chegamos ao local do festival e nas coxias já ficamos nervosos vendo tantas estrelas circularem., Elza Soares, Roberto Carlos, Gilberto Gil, Caetano Velloso, Geraldo Vandré, Chico Buarque, Jair Rodrigues, Edu Lobo, Elis Regina, Paulinho da Viola..e nós, tremendo como vara verdes.

Pelo sorteio nos apresentaríamos depois de Jair Rodrigues que cantaria uma música do Geraldo Vandré e Théo de Barros. No meio de tantos astros da música Bruno ia e voltava toda hora do banheiro de nervoso. Nosso papo estava hilário. 

Fernando : Bicho, vocês estão vendo? Só tem artista consagrado aqui.

Doido: Fiquem calmos por favor. Calmos, calmos porra!!!

Fernando: Você pede calma, mas ta nervosão bicho.

Doido: Eu to calmo, calmíssimo, todos aqui são iguais a gente, sem exceção.

Marquinhos: Não Doido, não são iguais a gente. O Chico Buarque por exemplo não é igual a gente. Ele é bonitão, é boa praça, é ótimo compositor, cantor, se eu fosse mulher dava pra ele.

Fernando: Héin?

Marquinhos: Se eu fosse mulher porra, não sou.

Doido: Tá bom, ta bom, tirando o Chico todo mundo é igual.

Marquinhos: Tem a Elis também que...

Doido: Cala a boca !!

Bruno: Ai.. vou ao banheiro de novo..

Estávamos assim para fazer nosso show, nesse clima de paz e tranquilidade.

De repente Jair Rodrigues foi chamado. Nós éramos o seguinte a nos apresentar então fomos até a beira da coxia assistir. O “cachorrão” como era chamado começou com suas brincadeiras de sempre e abriu o vozeirão. Quando abriu a voz mandou isso aqui...

“Prepare o seu coração prás coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar
Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo, a morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar, eu vivo prá consertar

Na boiada já fui boi, mas um dia me montei
Não por um motivo meu, ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse, porém por necessidade
Do dono de uma boiada cujo vaqueiro morreu “

Ouvimos a isso estupefactos. Quando começou a parte acelerada da música e ele cantou “Boiadeiro muito tempo, laço firme e braço forte” um clima de “fudeu” tomou conta da gente. Fernando falava que queria a mãe dele, Marquinhos de olhos arregalados perguntava “que porra era aquela?”. Bruno foi mais uma vez ao banheiro e eu paralisado ouvia aquela apresentação magistral.

Nunca havia visto coisa parecida, estava vendo a história da música sendo feita na minha frente. A apresentação visceral do Jair acabou aos gritos de “já ganhou”.

Ele saiu sob aplausos e anunciaram o nome de nossa banda “Os 4 fabulosos”. Estávamos paralisados e não entramos, o locutor chamou novamente e continuamos parados.

Chico Buarque chegou perto de nós e desejou boa sorte. Marquinhos segurou em sua mão e antes que pedisse o Chico em casamento o puxei para o palco.

Entramos sob o silêncio da plateia, ajeitamos nosso equipamento virei para meus parceiros e falei que nós éramos bons e não estávamos ali a toa, faríamos uma grande apresentação. De repente ganhamos a dose de auto confiança que precisávamos, demos as mãos gritamos e nos posicionamos para nossa apresentação.

E começamos a nossa apresentação e posso dizer tranquilamente que foi a pior apresentação de um artista já feita na televisão brasileira. Nada deu certo. Fernando desafinava como uma taquara rachada, as guitarras estavam desconcentradas, Bruno errava tudo lá atrás e deixava peças da bateria cair. Começamos a ser vaiados no começo timidamente.

No começo foram tímidas, mas foram aumentando, aumentado virando uma coisa pavorosa. As pessoas em protesto cantavam “A banda” do Chico Buarque e “Disparada” que acabara de ser cantada. Com as vaias a apresentação conseguiu piorar até que não conseguíamos mais tocar.

Marquinhos em um acesso de fúria pegou a guitarra e a destruiu toda batendo no chão. Bruno chegou perto dele com os olhos arregalados e Marquinhos perguntou qual era o problema, Bruno respondeu “Minha guitarra seu filh.. da put..!!!”. Marquinhos havia esquecido que a guitarra era emprestada.

Bruno pegou Marquinhos pelo pescoço e uma grande confusão começou no palco parecendo luta de tele cach. Fomos expulsos do palco e assim se encerrava a carreira dos “4 fabulosos”.”


Valeu Jair!!

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