terça-feira, 21 de maio de 2013

TROCANDO EM MIÚDOS



*Conto publicado no blog Ouro de Tolo em 8/9/2012


“Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim!
O resto é seu”

O amor..aquilo que procuramos durante toda nossa vida. Desde pequenos nos contam que ninguém é feliz sozinho e logo crianças temos aquele carinho especial por coleguinha da sala de aula, professora ou artista da televisão.

Crescemos e continuamos procurando nossa alma gêmea. Encontramos o primeiro amor e achamos que ele é pra sempre. Teve um tempo até que era mais fácil que isso ocorresse, mas nos tempos modernos o primeiro amor invariavelmente acaba sendo o primeiro apenas. Aquele que vira com o tempo uma doce recordação. 

Em um momento aquela pessoa especial acaba pintando. Aquela que achamos que é para a vida inteira. Conhecemos melhor, vem o namoro, as vezes rola noivado e o casamento que esperamos ser para a vida inteira. Ter filhos, netos e um dia bem velhinhos morrer um nos braços do outro.

Mas nem sempre é assim e André e Juliana começam a conhecer o lado amargo com gosto de fel.

Os dois estão sentados no sofá da sala. Um dos primeiros artigos do lar comprados pelo casal logo após terem marcado o casamento. Um está ao lado do outro sem dizer uma palavra, o silêncio corta como motosserra o clima pesado.

“Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças”

Juliana quebra o clima pesado da sala e pergunta se está tudo resolvido da parte de André. O rapaz responde que sim, dividirá apartamento com o irmão até encontrar um pra ele. André devolve a pergunta e Juliana responde que ficará com a mãe.

Um pouco mais do silêncio que corta a alma é “ouvido” na sala. Como pode? Dois seres humanos que dividiram sonhos, intimidades, que ficavam nus na frente um do outro se expondo de todas as formas possíveis não terem assunto?

Juliana mais uma vez quebra o silêncio e fala que o irmão de André era gente boa e seria bom para ele esse recomeço a seu lado. André dá o primeiro sorriso daquele dia terrível e lembra da despedida de solteiro e do que ele e o irmão aprontaram.  

André, o irmão e amigos bebiam em um inferninho da Lapa quando através de um amigo o irmão de André soube que Juliana e amigas estavam em um clube de mulheres. André e os amigos correram pra lá, deram um papo no dono do estabelecimento e surpreenderam as meninas subindo no palco apenas de sunga e dançando.

André e Juliana dão gargalhada lembrando da cena e depois caem
na realidade. André suspira e levanta para arrumar o resto das
coisas. Juliana pergunta se André precisa de ajuda e ele responde que não.

“Aquela esperança de tudo se ajeitar
Pode esquecer
Aquela aliança, você pode empenhar
Ou derreter”

Juliana para não enlouquecer naquele sofá levanta e começa a encaixotar algumas coisas da sala. Acaba encontrando em uma gaveta o álbum de casamento. Olha as fotos dos dois felizes e uma lágrima cai de seu olho direito. André aparece e pergunta o que ela olha. Juliana responde que é o álbum de casamento e ele se junta à mulher para olhar.

E os dois olhando o álbum viajam ao passado e lembram daqueles momentos. André com gravata cortada fazendo careta, Juliana jogando o buquê, a família toda reunida e no olhar do casal a sensação que aquele momento existiria para sempre.

Não aconteceu...

Juliana pergunta se André quer ficar com o álbum e o rapaz responde que pode ficar com ela voltando ao quarto. Juliana guarda o álbum na caixa junto com seu coração.

André volta do quarto com um chapéu verde e amarelo ridículo e rindo pergunta se Juliana lembra. A moça ri e responde que sim. Era da lua de mel em Buenos Aires. André comprara aquele chapéu assim que chegaram na capital da Argentina. Por coincidência o casal chegou em época de copa do mundo e André viu a estreia da Argentina na copa com aquele chapéu.
  
André volta ao quarto e o telefone toca. Juliana atende e é sua mãe perguntando se está tudo bem. A moça responde que sim e que André estava no apartamento para pegar suas últimas coisas. A mãe de Juliana diz que qualquer coisa que ela precisasse era só telefonar quando Juliana começa a ouvir uma música e diz que tem que desligar e em pouco tempo estaria lá.

“Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado”

A música é “how deep is your love” do Bee Gees. Juliana entra no quarto e André está sentado na cama king size de casal comprada em quinze prestações numa época de dureza. Juliana senta ao lado e pergunta se está tudo bem. André disfarçadamente limpa as lágrimas e responde que sim. Ficam um tempo em silêncio e Juliana lembra que deu o cd com a música no primeiro dia dos namorados deles casados.

André agradece o presente, diz que a esposa sempre soube escolher muito bem o que lhe dar e lembra do aniversário de um ano de casamento quando ele chegou em casa do trabalho e encontrou o caminho da porta até a sala todo iluminado com velas e na mesa de jantar um bilhete escrito “te amo”. Juliana também recorda o momento e diz que colocou “how deep is your love” para tocar e fez um strip para ele em cima da mesa do jantar.

André continua as lembranças lembrando dela no aniversário de dois
anos com camisa do Corinthians molhada se exibindo para ele e ele lhe amarrando e passando nutella sobre seu corpo. Juliana apenas sorri e o silêncio volta. 

O presente a todo o momento voltava teimando em lembrar a eles o momento que passavam.

“Aliás
Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu”

Juliana volta para a sala para terminar de encaixotar suas coisas e André sai do quarto atrás dela com um livro na mão do Chico Buarque perguntando se poderia levar. Juliana responde que sim e que dera esse livro a ele em seu último aniversário. André solta um “ah é” e volta ao quarto.

Relação é assim. Você lembra de tudo do início em todos os detalhes e as coisas que ocorrem no fim ficam esquecidas. Esquecidas e perdidas em "ah és" que comprovam a falta de atenção de um com o outro.

O dia vai passando e André acaba de arrumar a mala e Juliana de encaixotar as coisas. Ele telefona para um frete que fica de pegar tudo da manhã seguinte, ela ainda teria que voltar mais uma vez ao local para pegar as suas.

André sai do quarto com a mala dizendo que está tudo pronto e Juliana lhe mostra um violão. André dá um sorriso e diz “meu violão!!”. Juliana emenda “acredita que estava no quarto de hóspedes o tempo todo? E você achando que tinha perdido”.

André agradece, senta no sofá com o violão e dá umas arranhadinhas até conseguir tirar uma música, a única que ele sabia tocar e cantar.

“Se lembra quando a gente
 Chegou um dia acreditar
 Que tudo era pra sempre
  Sem saber que o pra sempre
  Sempre acaba”

André se dá conta do que tocava e cantava e achou melhor parar se levantando para ir embora. Ele e Juliana ficam frente a frente com o peito querendo explodir, dizer um monte de coisas.

Aquelas coisas que todo mundo que já se separou um dia na vida quis dizer, aquela cena de cinema quando no último momento, no acender das luzes da sala o mocinho diz que ama a mocinha e faz declaração de amor do tipo que a sala toda aplaude.

Mas a vida não é assim. André e Juliana não são mocinhos de filme, são pessoas como qualquer uma que um dia se apaixonaram, acharam que tudo seria pra sempre, mas o pra sempre sempre acaba.

André: Então..é isso..

Juliana: É..é isso..

Olham-se mais um pouco e André entrega sua chave a Juliana. A moça não aguenta e deixa rolar todas as lágrimas que segurou todo o dia. Um choro doído, angustiante que sai de seu corpo sufocado. André ao ver aquela que um dia pensou ser o amor de sua vida também chora e lhe abraça. Ficam uns segundos abraçados, ele lhe dá um beijo na testa e vai embora sem falar nada.

Juliana ainda fica por uns momentos no apartamento vazio. Olha todos os cantos lembrando como foi feliz lá e vai embora batendo a porta.

O que acontece depois? André e Juliana chegam ao fim mostrando que “e foram felizes para sempre” não existe, o pra sempre sempre acaba, mas a graça é continuar tentando ser feliz. Sim, sofrendo até acertar em algum momento e era isso que os dois tentariam agora, separados, mas unidos nesse sentimento. Buscar a felicidade.

“Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde”




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