quarta-feira, 8 de maio de 2013

SALGUEIRO EM CINCO CARNAVAIS



Conforme prometido nessa quarta-feira prossigo homenageando as escolas de samba com cinco carnavais inesquecíveis para mim. Essa sessão começou com a Portela, continuou com Mangueira e teve Império Serrano na última quarta-feira. Todos os textos com suas fotos e vídeos são fáceis de achar no blog.

Essa quarta-feira é reservada para a última das “quatro tradicionais”. Aquelas escolas que desde os primórdios dos desfiles até os anos 70 dominaram o carnaval carioca. Hoje escrevo sobre uma das mais populares das escolas de samba. O Acadêmicos do Salgueiro.

O Salgueiro fundado em 1953 a partir da fusão de três escolas. Azul e Branco, Unidos do Salgueiro e Depois eu digo. Salgueiro que criou o lema “nem pior, nem melhor, apenas uma escola diferente” e adotou uma postura de vanguarda levando artistas da Escola de Belas Artes para dentro do cenário do samba.

Escola de carnavais competitivos, de beleza plástica e bom gosto. Academia que revelou ao mundo do samba artistas do nível de Fernando Pamplona, Joãosinho Trinta, Maria Augusta, Arlindo Rodrigues e Rosa Magalhães.

Salgueiro de Bala, Anescarzinho, Noel Rosa de Oliveira, Djalma Sabiá, Zuzuca, Almir Guineto. Salgueiro de Rico Medeiros, Renato Lage, Quinho, Laíla, Mestre Louro, Xangô do Salgueiro. Salgueiro de celebridades como Viviane Araújo, Eri Johnson, Jorge BenJor, Edmundo. Da nova geração como Dudu Botelho e Marcelo Motta, várias vezes campeões na agremiação.

Salgueiro de Quilombo dos Palmares em 1960, do histórico Chica da Silva em 1963, de Dona Beja, a feiticeira de Araxá em 1968, Brasil de Todos os Deuses em 1969, Nossa madrinha Mangueira querida em 1972, O rei de França na Ilha da assombração em 1974, O segredo das minas do rei Salomão em 1975, Em busca do ouro 1988, Templo negro em tempo de consciência negra 1989, Me masso se não passo pela rua do Ouvidor 1991, Tambor em 2009..Muitas glórias, tantos carnavais.   

A Academia do samba é uma escola moderna. Dona de uma quadra espetacular é point da juventude e porta de entrada para esses jovens ao mundo do samba e hoje destaco cinco carnavais seus. Como já disse não são necessariamente os cinco melhores carnavais da história da escola nem que eu já tivesse nascido, mas os cinco que mais me marcaram como sambista e compositor.   


FESTA PARA UM REI NEGRO 1971



Samba de Zuzuca.

O samba com refrão mais famoso da história do carnaval, o simples “Ole le, Ola la, pega no ganzê, pega no ganzá”, impossível que você nunca tenha escutado essa melodia. O samba do carnaval de 1971 revolucionou o samba-enredo. Os sambas de antes eram os chamados “sambas lençóis” com letras enormes e Zuzuca resolveu compor um de fácil assimilação para os componentes.

Samba curto contando a chegada de um rei. Simples, mas bem feito, contagiante que explode no refrão. Muito criticado na época acabou se tornando sucesso antes mesmo do carnaval inclusive provocando muitas paródias e algumas fazendo quase tanto sucesso quanto o samba.

O Salgueiro foi campeão do carnaval e o estilo de samba de Zuzuca se tornou tendência com o próprio Salgueiro repetindo a fórmula em 1972. Para quem escreve samba-enredo esse samba é um marco e para muitos essa mudança na feitura do samba-enredo foi fundamental para o início da decadência do mesmo.

“Festa para um rei negro” é histórico e quem acompanha futebol europeu por tv a cabo logo nota sua melodia sendo cantada pelas arquibancadas dos estádios.

O rei negro veio e foi para longe conquistando a Europa.



SKINDÔ SKINDÔ 1984




Samba de David Corrêa e Jorge Macedo.

Talvez os salgueirenses irão torcer o nariz por eu colocar 1984 entre os cinco carnavais especiais. Com tantos carnavais históricos entra um que o samba para muitos é uma marchinha e o desfile foi do tempo das vacas magras?

Pois é. Mas como eu disse são cinco carnavais que me moldaram como sambista e compositor e não necessariamente os cinco melhores e com certeza “skindô skindô” não está somente no meu top 5 do Salgueiro como é um dos sambas mais importantes de minha vida.

Sou um compositor muito influenciado pelos sambas dos anos 80 e claro que se sou tenho David Corrêa como fonte de inspiração. Esse samba junto com Portela 1981 são marcos para mim.

É um samba alegre, contagiante, que faz cantar com sorriso nos lábios, prazer e alegria que poucos provocam em mim. Para alguns é uma “marchinha safada”, pra mim uma letra simples, mas com uma melodia levemente “sacana” cheia de sacadas geniais que provocam esse contagiar. Impossível ficar parado em partes como “ôôô a vida fica mais feliz meu amor”.

Pra mim samba-enredo é isso. Alegria, brincar carnaval.



E POR QUÊ NÃO? 1987


Samba de Didi (foto), Bala e Cezar Veneno.

Samba totalmente diferente do anterior, mas que também mexe comigo e me influencia como compositor. Ao contrário de 84 que era um samba alegre e contagiante “E por quê não?” é um samba lindo, poético, singelo e emocionante mostrando a diversidade musical da Academia.

O ano de 1987 é marcado por grandes sambas como da Portela, Vila, São Clemente e esse que seguia uma tendência de enredos críticos ou com cunho social tão raros hoje em dia nos carnavais “chapa branca”. O Salgueiro em 1987 se preocupava com o mundo em que vivemos e sonhava com um futuro melhor.

Um dos compositores do samba é o advogado Gustavo Baeta Neves, mais conhecido como Didi. Didi é o maior compositor da história da Ilha do Governador ganhando 16 sambas na União da Ilha e 4 no bloco Boi da Freguesia, hoje Boi da Ilha.

Também venceu 4 concursos de samba no Acadêmicos do Salgueiro sendo esse o último. Adoentado não participou da final de samba-enredo e nervoso tentava com um radinho acompanhar a final do hospital.

De lá descobriu que vencera e morreu um pouco depois em abril de 1987.

O planeta sonhado pelo Salgueiro até hoje não existe. Uma pena porque o passarinho realmente poderia fazer do mundo um belo ninho.




PEGUEI UM ITA NO NORTE 1993



Samba de Demá Chagas, Arizão, Celso Trindade, Bala, Guaracy e Quinho (foto).

O que faz um samba-enredo se tornar histórico? Aliás, o que faz qualquer tipo de arte se tornar imortal? Ninguém sabe, ninguém tem a formula, se fosse tão fácil assim teríamos obras imortalizadas a rodo.

Um samba normal, com melodia interessante, boa letra que conta a história de uma pessoa que pegou um ita e migrou para o Rio de Janeiro. Samba bacana, mas não era nem o melhor do ano. Refrão contagiante, como muitos já feitos no carnaval.

Um samba aparentemente comum, como mostrou todo o pré- carnaval. Mas de comum provou não ter nada.

Bastou um pouco menos de uma hora e meia para que os versos “Explode coração/ Na maior felicidade/ É lindo meu Salgueiro/ Contagiando e sacudindo essa cidade” se tornassem imortais. Não falo simplesmente de samba, esses versos entraram pra história da música brasileira.

É difícil explicar a magia que às vezes a Marquês de Sapucaí é capaz de proporcionar. O Fato é que esse refrão provocou uma catarse poucas vezes vista em um desfile de escolas de samba e foi fundamental para que o Salgueiro saísse de uma fila de 18 anos e voltasse a ser campeão do carnaval.

Do desfile lembramos pouco. Poucas fantasias, poucos carros, dizem até que a Imperatriz estava mais bonita. Mas ninguém consegue se esquecer de Quinho cantando esse samba ou a reação das arquibancadas. As pessoas pulando, batendo palmas, interagindo com o desfile como nunca mais vimos.

O Salgueiro é danado. Demora pra ser campeão, mas quando é faz desfiles como esses. O Ita pego no Norte entrou para a história do carnaval.

Na maior felicidade.



CANDACES 2007



Samba de Dudu Botelho, Marcelo Motta, Zé Paulo e Luiz Pião.

Peguei um Ita no Norte realmente revolucionou o Salgueiro e podemos dizer que a escola é dividida entre antes e depois desse desfile. Eu costumo dizer que o Ita deu um carnaval consagrador a academia, mas lhe fez perder uns 20. 

Fez perder porque desde 1994 a escola e os compositores tentaram repetir a fórmula de sucesso não entendendo o que eu disse acima. Não existe fórmula para que uma obra se torne imortal, acontece e pronto e essa busca pelo Ita perdido fez a escola se perder.

Mas em 2007 parece que ela se tocou sobre isso.

Fez um enredo diferente do que vinha fazendo. Enredo afro voltando as suas origens, voltando a Chica da Silva. Contando a história de Candaces, as mulheres guerreiras imediatamente a escola mostrava que queria uma nova fórmula de sambas, queria algo de qualidade.

Nem todo mundo entendeu e muitos quiseram fazer um “Ita afro”, mas para sorte do Salgueiro e do carnaval uma parceria entendeu o recado e resgatou o velho Salgueiro. Fez um samba forte, pulsante, negro, contundente com um refrão totalmente afro. Uma ousadia em uma escola que se acostumara aos refrãos fáceis.

O samba se consagrou na disputa e foi escolhido mostrando ao carnaval uma nova geração de compositores. Junto com o samba da Beija-Flor, também afro, foi o grande do pré-carnaval e o Salgueiro fez um excelente desfile.

A Beija-Flor veio arrebatadora e mereceu o campeonato, mas o Salgueiro merecia pelo menos o vice. Injustiçada a escola ficou fora do desfile das campeãs e infelizmente isso fez que retraísse nessa mudança de estilo sendo conservadora na escolha do samba de “Tambor” dois anos depois preterindo o belo e ousado samba de Edgar Filho, Beto Mussa e Simas.

Mas essa é uma outra história.  O que importa é que com Candaces o Salgueiro foi Salgueiro.


Bem..Esses são os cinco carnavais que prefiro do Salgueiro. Das tradicionais a que passa por melhor momento sempre brigando por títulos. A partir de semana que vem começo a escrever sobre aquelas que “arrombaram a festa”. Expressão genial tirada do livro do amigo Fabio Fabato para denominar as escolas que a partir dos anos 70 começaram a dividir os títulos com as tradicionais.


 Lá vem Salgueiro... 






2 comentários:

  1. Candaces acabou infelizmente não funcionando na Sapucaí. Além do "ôôô" do Quinho que foi canetado, a direção de harmonia se descabelou ao encontrar a escola muda, sem cantar o samba, que mesmo bonito teve uma passagem fria. A escola veio visualmente arrebatadora, mas ironicamente foi o samba quem derrubou o Salgueiro, acarretando no retorno ao pragmatismo na escolha que vetou o belíssimo "Menina quem foi teu Mestre".

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    1. Pois é. Foi mais ou menos o que eu disse. Uma pena que isso tenha ocorrido.

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