sábado, 18 de maio de 2013

O BRASIL ATRAVÉS DAS NOVELAS


*Coluna publicada blog Blog Brasil Decide em 12/5/2012



A moda agora é classe C. Essa denominação é usada para mostrar um grupo de brasileiros que não tinham tantas condições financeiras e graças a economia do país nos últimos 20 anos cresceram. Pessoas que criaram um maior poder aquisitivo e agora tem condições de viajar, melhorar suas casas, melhorar suas vidas.

As novelas sempre tiveram uma parceria com o momento do Brasil. Seja criando tendências como enxergando as mudanças do país, o momento que ele vivia e nesse caso não está sendo diferente. As emissoras de tv (leia-se Globo) entenderam que com a chegada da tv a cabo e da internet perderam o público da classe A para essas novas mídias.

Perceberam também que essa classe C é que vem mantendo sua audiência e decidiram virar seus holofotes a esse público. Não só a tv, mas todas as grandes mídias como rádio, revistas e jornais. Os artistas mais populares como cantores de pagode, funk e sertanejo universitário são os donos desses espaços com suas músicas populares, de fácil entendimento e nem sempre de qualidade, mas que atingem esse público.

Com as novelas não seria diferente até porque elas são espelhos do país.

Alguns dos maiores sucessos e fracassos recentes em novelas no Brasil têm a ver com esse momento em que vivemos. “Cheias de charme”,”Avenida Brasil” e a recente “Sangue bom” exploram bem esse lado. 

Cheias de charme tinha como tema principal três empregadas que se transformaram em cantoras e chegaram ao sucesso. Avenida Brasil tinha a família de Tufão, um jogador de futebol que ganhou dinheiro e ficou famoso, eram milionários, mas mantinham todos os hábitos de quando eram pobres e Sangue bom retrata jovens que eram meninos de rua, foram para um lar assistencialista e adotados subiram na vida.

Novelas populares, classe C feliz com seus ganhos, coloridas, populares em seus temas, músicas, retratando como boa parte da população vê o Brasil hoje em dia. Popular, colorido e com pessoas crescendo. Não é necessariamente a realidade, mas é assim que vem sendo pintado, é assim que se sente quem assiste a TV (de plasma e com HD por sinal). A pessoa da classe C que assiste essas novelas se sente um vitorioso e gosta de ver essa sua vitória retratada na tv. 

Quando isso não ocorre o produto é ignorado e se transforma em um fracasso como “Guerra dos sexos” que foi um grande sucesso em 1983 retratando a, na época, evidente guerra entre homens e mulheres pelo poder, o crescimento das mulheres fora de casa, no ambiente de trabalho, a nova família.

Por isso foi sucesso em 1983, retratava o Brasil da época, por isso foi fracasso hoje, não retrata o Brasil de 2013.

No Brasil de 2013 a mulher já se estabeleceu como chefe de casa, profissional competente, não existe mais essa guerra e pior, a novela ganhou pecha de elitista porque mostrava trama de gente rica e o pobre era retratado apenas como pobre com todos os estereótipos existentes nos anos 80.   

Dessa forma um dos maiores sucessos da história das telenovelas sucumbiu.

“Fina estampa” não foi um grande sucesso, mas também retratou esse crescimento em cima do personagem de Lília Cabral. “Salve Jorge” mostra o povo do morro do alemão pacificado, a empregada doméstica que tem empregada e tem todos aqueles aspectos populares e sociais do Brasil de hoje. A “piriguete”, a “favelada barraqueira”, a que vai pra Turquia pra subir na vida, o sertanejo universitário, o funk, o pagode.

A história é confusa, odiada pela maioria pensante, mas a classe C gosta garantindo o sucesso dessa novela inacreditável. Agora mesmo o jornal Nacional mostrou gente em shopping procurando roupas que a “delegada Helô” usa na novela. 

Isso é novidade? Não, como eu disse no começo as novelas sempre foram termômetro, sempre mostraram a realidade que o Brasil vivia, basta voltar para os anos 80.

Algumas novelas mostram bem como era o país na época. A primeira é “Roque Santeiro”, que vem da peça “O berço do herói” e tentou virar novela nos anos 70 e foi censurada. Mostra o coronelismo bastante forte na época (infelizmente ainda existente), corrupção, farsa, heróis inventados. Um lugar chamado “Asa Branca” que poderia se chamar Brasil com todas as suas facetas boas e ruins.

“Vale Tudo” mais ainda que Roque mostrou exatamente o Brasil do fim dos anos 80. Corrupto, colarinho branco, onde as pessoas pisavam nas outras para mudar de classe social, os ricos se livravam da cadeia e os pobres pagavam o pato e no último capítulo a cena que definia o Brasil. Marco Aurélio, o personagem de Reginaldo Faria dando uma “banana” para o Brasil ao fugir para o exterior. 

Também tinha o lado da esperança já que passaríamos por eleições diretas naquele ano. Esperança mostrada em Raquel, personagem de Regina Duarte que conseguiu subir na vida sem pisar em ninguém e repetindo todo aquele discurso e clichês de “pessoas honestas”.

“Salvador da pátria” também foi polêmica ao mostrar um matuto crescendo e virando político. Os anti PT acusaram a Globo de favorecer o candidato Lula ao mostrar um analfabeto, homem do povo, chegando ao poder. O PT acusou a Globo de fazer campanha contra já que o tal matuto na verdade era uma marionete e sofreu mudança de personalidade se transformando em um igual aos poderosos.

Nos anos 70 tivemos “O Bem amado” com sua Sucupira que não sei como os militares deixaram ir ao ar. Uma crítica forte ao governo vigente através de Odorico Paraguaçu, também teve “Saramandaia” com realismo fantástico usado para criticar o governo. Não sei como será nesse remake de 2013, taí o desafio de não se mostrar datada como Guerra dos sexos. 

O povo gosta de se ver na tv e ver o país em que vive. O documentário da vida real ganha contornos de ficção e se confunde com realidade mesmo que mostrem uma ida a Turquia como se fosse uma ponte aérea Rio x São Paulo.

Mas como dizem..O povo gosta de voar e agora está ainda mais fácil parcelando no cartão.



2 comentários:

  1. Um fato que gerou antipatia antecipada pelo remake de "Guerra dos Sexos" foi uma declaração do autor menosprezando a classe C e a periferia. Ficou com a pecha de elitista, fresco e tucano.

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    1. Nem sabia disso, mas realmente ele desprezou esse público e foi desprezado por ele

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