quinta-feira, 23 de maio de 2013

O BRASIL ATRAVÉS DAS ESCOLAS DE SAMBA


*Coluna publicada no blog Brasil Decide em 19/5/2013


Semana passada escrevi sobre o Brasil através das novelas contando que as fases que o país viveu dos anos 70 pra cá refletiram diretamente nas novelas já que assim como elas fazem moda elas retratam a realidade da ocasião.

Na mesma coluna citei que as escolas de samba também passavam por essa situação então resolvi nesse domingo mostrar como. 

O desfile das escolas de samba está enraizado em nossa cultura. Desde os anos 30 essa manifestação popular marca os carnavais brasileiros unido as diversas classes sociais através de suas baterias, baianas, alas, componentes, carros, enredos, fantasias e sambas. Esses desfiles se transformaram muito ao longo dos anos assim como o Brasil e em cada fase desses desfiles dá pra ver nitidamente o que vivíamos.

Em seu começo as escolas eram bastante nacionalistas. Gostavam de enaltecer nosso país, nossos símbolos e eram extremamente patrióticas. Batiam exatamente com a nacionalista era Vargas, um nacionalismo que foi ainda mais exacerbado com a entrada do Brasil na guerra.

A super campeã do carnaval Portela foi uma das que entraram “nessa onda”. No auge da era Vargas a escola veio com enredo “Homenagem à justiça” em 1940. Durante a guerra a escola de Madureira veio com “Carnaval de guerra” em 1943 que tinha versos como “Para o front eu vou de coração/ Abaixo o Eixo/ Eles amolecem o queixo/ A vitória está em nossas mãos”.

Em 1944 a escola veio com “Brasil glorioso”, em 1945 “Motivos patrióticos”, em 1946, já com o fim da guerra, “Alvorada do novo mundo” retratando a esperança com a paz. O curioso é que os carnavais de 43, 44, 45 foram assinados por uma chamada “liga de defesa nacional”. Isso parece mais nome de partido político.

A Mangueira em 1943 desfilou com “Samba no Palácio Itamarati”. Não existe letra do samba disponível, mas pelo título imagino que tenha a ver com a diplomacia brasileira e assim com a guerra. Em 1956, menos de dois anos após o suicídio, a escola homenageou Getúlio Vargas.

Chegaram os anos 60 e 70, tempo brabo de ditadura militar e as escolas de samba decidiram não se meter muito na questão falando mais da história do Brasil. Mas mesmo assim tivemos alguns enredos e sambas falando do momento que o Brasil vivia e mostrando claramente a divisão que existia entre os prós e contras o regime.

Entre o “Brasil ame-o ou deixe-o e o proibido proibir”. Duas escolas de samba entre o final dos anos 60 e primeira metade dos 70 deixaram bem claros seus pensamentos.

A primeira foi o Império Serrano em 1969 falando dos “Heróis da Liberdade”. O samba a princípio era mais um com conteúdo histórico, mas trazia versos que não só poderiam como incomodaram o regime militar.

Silas de Oliveira foi chamado ao DOPS para explicar os versos “Essa brisa que a juventude afaga/ Essa chama que o ódio não apaga/ Pelo universo é a revolução/ Em sua legítima razão”. O genial compositor prestou depoimento e o Império foi forçado a trocar “revolução” por “evolução”.
Mesmo assim os militares não esqueceram a escola. Com aviões deram rasantes em cima da agremiação enquanto desfilava atrapalhando sua apresentação e não se sabe se por coincidência ou não Silas nunca mais venceu um concurso de samba.

Na contramão veio a Beija-Flor nos anos 70 ao subir para o grupo principal. A escola ficou marcada com “Brasil ano 2000” de 1974 onde falava entre outras coisas “É estrada cortando/ A mata em pleno sertão/ É petróleo jorrando/ Com afluência do chão” numa clara exaltação aos militares e a Transamazônica. Em 1975 veio com “O grande decênio” e as “pérolas “Lembrando o PIS PASEP/ Também o FUNRURAL/ Que ampara o homem do campo/ Com segurança total”.

Uma letra claramente a favor da ditadura. Uma época que hoje envergonha a escola nilopolitana e lhe trouxe problemas nos anos 80. Dizem as más línguas que a escola perdeu alguns carnavais por vingança dos jurados que lhe apontavam como “escola do regime militar”. 

Por falar em anos 80 com a democracia e a má fase brasileira envolvida com inflação, corrupção e insegurança vieram os enredos críticos. Caprichosos de Pilares foi uma das que mais aproveitou esse momento com enredos como “E por falar em saudade” que dizia “Diretamente o povo elegia o presidente”, veio também com “Brasil com Z jamais”. A São Clemente foi outra que foi contundente em suas críticas como em “Capitães do asfalto”.    

A escola apresentou versos fortes como “Enquanto o filho do papai rico/ Desfruta do bom e o bonito/ Do dinheiro que o pai tem/ Lá vai o menino pobrezinho/ que acorda bem cedinho/ Pra vender bala no trem”.

O Império Serrano voltou a criticar o regime militar em 1987 com “Eu quero” e os versos “Me dá me dá/ Me dá o que é meu/ Foram vinte anos que alguém comeu”. Época de uma maior consciência social e ecológica com Salgueiro falando “E por quê não?” sonhando com um mundo melhor,  Portela com “Adelaide, a pomba da paz” em 1987 e Vila Isabel com “Direito é direito” em 1989. As escolas cumpriam seus papéis de manifestação cultural e de cidadania.

Nos tempos atuais elas refletem ainda o Brasil e o mundo. Numa era de alienação em que vivemos elas seguem a risca o compromisso com o “cabresto” e a baixada de cabeça. Natural já que elas recebem milhões de verbas públicas, ganham quadras novas ou reformadas e algumas tem dirigentes que não agüentam meia hora de inquérito policial.

Pegam dinheiro de prefeituras e governos para falar de suas cidades e estados. Se querem falar da história do Brasil contam apenas a oficial e até mesmo a São Clemente que um dia cantou que o samba sambou agora ta arriscada a falar de favela exaltando as UPPs.

Crítica não existe mais. Não que o Brasil e o mundo tenham melhorado muito, mas porque as pessoas se acomodaram e estão cada vez mais interessadas apenas em suas pequenas conquistas que na coletividade. Estão erradas? Não sei, esse é o mundo de hoje, esse é o mundo das escolas de samba de hoje.

Assim caminha o samba de hoje em dia. Caminha mesmo, em alas enfileiradas e empurrados por diretores de harmonia para não atrapalharem a escola. Vamos ver que mudanças o Brasil e o samba trazem até a apoteose.

O tempo “ruge” e a Sapucaí é grande.  



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