quarta-feira, 29 de maio de 2013

IMPERATRIZ EM CINCO CARNAVAIS



Dando prosseguimento a série das grandes escolas de samba em cinco carnavais hoje é dia de falar de mais uma que quebrou a dinastia das quatro tradicionais. Essa é chique, elegante, já tem até nome monarca para mostrar que tem sangue azul.

É a Imperatriz Leopoldinense. Chamada por alguns como a “escola certinha” a agremiação de Ramos foi a que criou a definição de “desfile técnico”. Desfiles feitos especialmente pra agradar jurados primeiro e depois o público. Dessa forma ganhou vários campeonatos, muitos fãs e também detratores que lhe acusaram de ser fria e criar coisas como “alas enfileiradas” e a direção de harmonia com mão de ferro como se fosse um desfile militar.

Pode ter sido mesmo assim por um tempo, mas são fases como todas as escolas passam. Chamar a Imperatriz de fria é uma coisa sem fundamento. A escola, como mostrarei abaixo, é uma agremiação de sambas e desfiles deliciosos, quentes e que ficaram na história do carnaval.

Fundada em 6 de março de 1959 ganhou as cores verde, branco e ouro. A ideia de fundar uma escola de samba na zona da Leopoldina se deu pela necessidade de ter uma entidade carnavalesca na região à altura do Recreio de Ramos que tinha entre os frequentadores Armando Marçal, Pixinguinha, Villa Lobos, Heitor dos Prazeres, Bide, Mano Décio da Viola entre outros.

Escola modesta dos anos 60 e 70, mesmo tendo uma situação inusitada que lhe impulsionou e mais pra frente contarei, a Imperatriz se revezou entre o grupo principal e de acesso até 1978 quando subiu em definitivo. Dois anos depois seguiu os passos de Beija-Flor e Mocidade sagrando-se campeã do carnaval. Também foi campeã em 1981, 1989, 1994, 1995, 1999, 2000 e 2001 se tornando a primeira tricampeã da era Sapucaí.

Imperatriz de Amaury Jório, Manoel Vieira e Hiram Araújo com seu primeiro departamento cultural em uma escola de samba. De Zé Katimba, Niltinho Tristeza, Gibi, Guga e Dominguinhos do Estácio. De Maria Helena e Chiquinho, imortal casal de mestre sala e porta bandeira da escola. De Max Lopes, Rosa Magalhães, Arlindo Rodrigues e Preto Jóia. De Josimar, Me Leva, João Estevam, Eduardo Medrado, Tuninho Professor e Marquinhos Lessa. De mestres Beto e Marcone. De Wagner Araújo e Luisinho Drummond.

Imperatriz de Oropa, França e Bahia 1970, O que é que a Bahia tem 1980, Onde canta o sabiá 1982, O que é que a banana tem 1991, Mais vale um jegue que me carregue que um camelo que me derrube lá no Ceará 1995, Imperatriz Leopoldinense honrosamente apresenta “Lepoldina, a Imperatriz do Brasil” 1996, Brasil mostra a tua cara em..Theatrum, Rerum Naturalium Brasiliae 1999, Quem descobriu o Brasil foi seu Cabral, no dia 22 de abril, dois meses depois do carnaval 2000, Cana-caiana, cana roxa, cana fita, cana preta, amarela, Pernambuco..Quero vê descê o suco, na pancada do ganzá 2001, Uma delirante confusão fabulística 2005, João e Marias 2008.

A partir de agora cinco carnavais da Imperatriz que me moldaram como sambista e compositor.           

MARTIM CERERÊ 1972


Samba de Zé Katimba e Gibi.

Samba do estilo daquele consagrado por Zuzuca no Salgueiro no ano anterior Martim Cererê tem uma história curiosa que fez o samba ficar famoso e começou a criar a fama da Imperatriz Leopoldinense. 

O autor de novelas Dias Gomes procurava uma escola de samba para retratar em sua novela “Bandeira 2” e a escolha acabou recaindo na jovem e modesta escola de Ramos. A história girava em torno do bicheiro Turcão vivido por Paulo Gracindo.

Com a Imperatriz envolvida na história acabou que o compositor Zé Katimba virou personagem de novela vivido pelo imortal Grande Otelo e o samba-enredo do ano “Martim Cererê” acabou sendo tema do personagem tornando-se assim o primeiro samba-enredo a fazer parte de trilha de novela. Por coincidência o primeiro a virar abertura de novela também foi da Imperatriz muitos anos depois.

Dessa forma os sambas de enredo ganharam a casa dos brasileiros através da televisão e a Imperatriz e Martim Cererê foram eternizados. Anos depois Dias Gomes adaptou a história para o teatro dando-lhe o nome de “O rei de Ramos”.

A peça estreou em 1979 no teatro João Caetano com músicas de Chico Buarque e Francis Hime.

Martim Cererê é um samba-enredo delicioso, curto, malandro e que vale muito a pena ouvir, pois faz parte de nossa história.



O TEU CABELO NÃO NEGA 1981   


Samba de Gibi, Serjão e Zé Katimba.

Eu sempre costumo dizer que os anos 80 são a era de ouro do samba-enredo e o ano de 1981 representa muito bem isso. O grande samba do ano, cantado em todas as rádios, bailes, programas de tv e estádios de futebol era o da Portela “Das maravilhas do mar fez se esplendor de uma noite”. Mas não era o único grande samba.

Além da Ilha, que pra mim tem um de seus melhores sambas nesse ano, outro samba chama muita atenção por sua beleza e alegria. O samba da Imperatriz homenageando o grande compositor Lamartine Babo. Compositor de marchinhas e de canções populares para os times de futebol do Rio de Janeiro que acabaram virando hinos dos clubes.

O torcedor do América Lamartine ganhou um samba-enredo a sua altura. Um samba, como eu disse por exemplo, de Salgueiro 1984 que dá vontade de pegar a cabrocha e sair dançando, sambando. Uma melodia gostosa defendida com maestria por Dominguinhos do Estácio e sua voz limpa, suave.

Samba que é bonito e tem pegada. Vários momentos explosivos que puxam o público e o desfilante a cantarem junto. Um samba tão bem feito com uma escola que vinha de um campeonato (empatada com outras duas) e pronta pra vencer não podia dar em outra coisa a não ser título.

O favoritismo da Portela ficou apenas no favoritismo. A grandiosidade do desfile e do fenômeno que foi seu samba acabaram lhe atrapalhando e a Imperatriz que não é boba nem nada acabou abocanhando essa vitória histórica eternizando o samba.

Nesse palco iluminado só deu Imperatriz.



LIBERDADE, LIBERDADE ABRE AS ASAS SOBRE NÓS 1989 



Samba de Niltinho Tristeza, Preto Jóia, Vicentinho e Jurandir.

Não me canso de dizer que 1989 é o ano que não acabou. A impressão que eu tenho quando vejo VT dos desfiles da Beija-Flor e da Imperatriz Leopoldinense é que são ao vivo. Torço e vibro como se estivessem acontecendo e parece que a disputa não tem fim.

E não tem mesmo. Até hoje debatem sobre esse carnaval e se foi merecida a vitória da Imperatriz. Ânimos se acirram, vozes se elevam como se estivéssemos na quarta-feira de cinzas daquele ano.

Eu costumo dizer que a Beija-Flor fez o melhor desfile da história e a Imperatriz o melhor desfile de 89. Estranho né? Mas é verdade.

Já falei do desfile nilopolitano semana passada. Desfile impactante, monstruoso, histórico, épico, se for colocar todos os elogios aqui o texto não acaba. Mas a Imperatriz não fica atrás.

A proposta da escola de Ramos foi outra, mas não menos fantástica. Requintada, luxuosa, linda, envolvente, em nada lembra a Imperatriz que os detratores dizem. Muito quente e com um samba-enredo que se não podemos dizer cem por cento condizente com a história do país é sensacional em letra e melodia. Um dos maiores de todos os tempos.

Se eu lembro do “Cristo mendigo” nilopolitano lembro do luxo de Ramos. Lembro do desfilante vestido de Duque de Caxias em cima de um cavalo em uma altura de dar medo. A bateria deu um show, desfile perfeito em beleza, nos quesitos e mesmo com o fantástico desfile da Beija-Flor não dá pra contestar o da Imperatriz que foi uma verdadeira volta por cima já que fora rebaixada em 1988, mas conseguiu ficar no grupo.     

Um samba histórico sem exageros já que foi tema de um trabalho de história no meu colégio logo que voltamos às aulas. Samba que ganhou a eternidade e virou abertura de novela esse ano com a novela “Lado a lado”. Lembram quando eu disse em Martin Cererê que isso ocorreu? Então. Foi com esse samba, tinha que ser com esse samba.

Um samba que ficou mais famoso que o hino que lhe inspirou. É. Não tem nada de errado na Imperatriz campeã, podiam, quem sabe, ter dividido o título.

Esse carnaval nunca vai acabar. 



CATARINA DE MÉDICIS NA CORTE DOS TUPINAMBÁS E TABAJERES 1994


Samba de Marcio André, Alvinho, Aranha e Alexandre da Imperatriz.

Foi um ano interessante de desfiles. Em 1994 o grande favorito era o Salgueiro que conquistou um título histórico no ano anterior com
“Peguei um Ita no Norte”, seu famoso refrão “Explode coração/ Na maior felicidade” e foi para o carnaval de 94 com um samba do mesmo estilo, empolgante e de refrão fácil. O erro do Salgueiro é que não foi só nesse, em quase todos os anos até 2013 procurou o Ita perdido, mas o Salgueiro não é o assunto aqui.

Outro samba que chamou muito a atenção no pré carnaval de 94 foi o da Mangueira, o famoso “Atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu” homenageando os novos baianos. Samba com a marca Davi Correa de versos populares e refrãos fáceis.

O samba da Ilha também era bacana. Com a marca do Franco e a volta do Quinho. Tinha a Viradouro em crescimento e ..e..Tinha a Imperatriz né? Mais ou menos, não falavam muito nela.  

A Imperatriz em 1994 lançou um novo estilo de fazer carnaval, o “mineirinho come quieto”. Não falavam mesmo muito na escola nem em seu samba como não fizeram nos anos seguintes em que foi campeã. Sobre o desfile mesmo não falaram muito e se foi colocada entre as possíveis campeãs também não foi colocada com muito ardor.

Um erro. Um grande erro.

A Imperatriz não fez um desfile que chamasse a atenção do público? É, realmente não fez, mas errou aonde? Em nada. A “certinha de Ramos” fez um desfile perfeito desde sua comissão de frente até a última ala respeitando os quesitos, os defendendo bem
e mostrando isso aos jurados. Além disso, fez um desfile bonito, com luxo, um bom enredo a ser contado e um bom samba que se não era genial passou muito bem no desfile.    

Na apuração apontavam o Salgueiro como bicampeão, mas a Imperatriz comeu pelas beiradas e levou o campeonato depois de cinco anos. Era o primeiro título de Rosa Magalhães na escola onde formaram uma longa e vitoriosa parceria. A Imperatriz bonita, certinha, barroca começava seu domínio que duraria quase uma década.

E eu estava lá nas arquibancadas no desfile das campeãs vendo o começo desse domínio.



BRASIL DE TODOS OS DEUSES 2010


Samba de Jéferson Lima, Flavinho, Gil Branco, Me Leva e Guga.

Não foi um desfile campeão, vice, nem mesmo que levou a escola ao desfile das campeãs. A grande campeã Imperatriz Leopoldinense ficou apenas em oitavo lugar. Pouco né? Então por quê colocar esse desfile entre os cinco?

Primeiro que nunca disse que seriam os cinco melhores desfiles, seriam os cinco desfiles ou sambas mais importantes pra mim. Teve um tricampeonato antes desse desfile e não coloquei nenhum desses anos, por quê? Porque a escola é grande demais e não merece ser lembrada por desfiles em que lhe jogaram latas.

Uma escola de samba é maior que campeonatos, ela é feita de cultura, fermentam a história da cultura popular desse país e 2010 acho muito mais representativo.

Representativo pelo grande samba que desfilou que marca uma transformação não só dela como do carnaval carioca.

Sim, não estou exagerando. Como eu disse acima a Imperatriz teve um tricampeonato conturbado, contestado e criou uma fama ruim. Essa fama ruim começou a ser diluída com desfiles mais alegres, a escola mais solta a partir de 2005 num bonito enredo sobre Hans Christian Andersen (ano em que disputei na agremiação).

O problema que enquanto a escola se tornava mais simpática os resultados sumiram. Aos poucos deixando a disputa pelo título, o desfile das campeãs e mesmo os grandes sambas não vinham surgindo. O ano de 2010 foi um ano de rupturas.     

Rosa Magalhães deixou a agremiação indo para a União da Ilha. O campeão de 1989 Max Lopes retornou e fez o enredo “Brasil de todos os Deuses”.

Um bom enredo que originou um grande samba.

No começo das disputas o samba comentado era o de Martinho da Vila na Vila Isabel sobre Noel Rosa, mas graças a era da internet o “mar de fiéis”, assim ficou conhecido o samba, acabou se propagando e transformando em um oceano.

No boca a boca, no link a link, no download a download as pessoas foram conhecendo o samba e se apaixonando por ele. Quando foram ver o mar de fiéis havia levantado maré e tomado a quadra. Virou a sensação, uma das unanimidades do carnaval 2010 e levou a vitória na escola.

Aquela vitória não representava apenas uma mudança de rumos na escola de Ramos fazendo que a outrora certinha fosse uma agremiação que queria conquistar o público e os jurados através de seu grande samba. O mar de fiéis foi um embrião para uma mudança nos sambas de enredo, um chamado para que outras escolas ousassem e escolhessem grandes sambas como Portela e Vila nos anos de 2012/2013. Sambas fundamentais para títulos e idas ao desfile das campeãs.

A escola não desfilou no nível do samba ficando apenas em oitavo lugar como eu já disse, mas o samba deixou sua marca. Derrotou o samba do consagrado Martinho levando o Estandarte de Ouro de melhor do ano e todos os prêmios do carnaval. Virou uma marca, um começo de uma era e deu frutos a Imperatriz que continuou investindo em suas disputas de samba, sua ala de compositores e com isso voltando ao desfile das campeãs em 2013.    

Um mar de fiéis que quer voltar ao seu lugar de direito.


Bem. Aí estão cinco carnavais dessa grande escola que virá em 2014 homenageando um dos meus grandes ídolos. Arthur Antunes Coimbra, o Zico. Que faça um grande desfile e continue na retomada de suas vitórias levando sempre consigo a alegria e a comunicação com o público. Certinha? Que seja certeira em grandes desfiles.

Semana que vem tem o povo de Vila Isabel.


O meu sonho de ser feliz...


FONTE
GALERIA DO SAMBA

www.galeriadosamba.com.br 


ESCOLAS EM CINCO CARNAVAIS:


PORTELA

http://www.aloisiovillar.blogspot.com.br/2013/04/portela-em-cinco-carnavais.html

MANGUEIRA

MOCIDADE


BEIJA-FLOR



2 comentários:

  1. Gostei muito da inclusão de 1994. Lembro demais do encantamento com a comissão de frente, de passistas emocionadas com a beleza das fantasias e a qualidade Rosa Magalhães de desenvolvimento de enredo e criação de figurinos, especialmente a explosão rococó nas baianas. Quanto ao samba, achava-o legal e durante o desfile foi que aprendi o que é "a realidade da avenida" no que se refere ao crescimento do samba-enredo. Pelo menos os comentaristas da Manchete, especialmente o mestre Pamplona incluíram sim a Imperatriz no rol de favoritas daquele ano. Diria que em 91 a Mocidade me ensinou o que era o melhor desfile e quem merecia ganhar, em 1994 a Gresil ensinou-me o valor de cada quesito.
    Ah, tem uma "marcha sem vergonha" da escola de ramos que amo, de 1987 em homenagem a Dalva de Oliveira.

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  2. A marcha da Dalva é muito legal mesmo. Em 94 ela foi incluída junto com Ilha e Viradouro, mas os jornais davam mais ênfase ao Salgueiro, Abraços

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