sexta-feira, 10 de maio de 2013

A VOLTA DO MARACANÃ


*Coluna publicada no blog Ouro de Tolo em 5/5/2013

E ele voltou. Sábado passado o velho gigante, outrora maior do mundo despertou. Em um evento teste para a Copa das Confederações onde jogaram amigos de Bebeto x Amigos de Ronaldo (Não sei porque essa honraria a Ronaldo se ele não tem história nenhuma no maraca, aliás, saber eu sei, mas enfim) o Maracanã voltou a ser palco de futebol após quase três anos.

O estádio foi fechado em agosto de 2010 de forma mais cruel e desrespeitosa possível. Em um péssimo Flamengo x Santos pelo campeonato brasileiro. Um tenebroso time do Flamengo que empatou em 0x0 com um preguiçoso Santos já classificado para a Libertadores do ano seguinte.

Foi no ano de 2010 também que fui pela última vez ao estádio. Nas quartas de final da Libertadores com meu amigo e parceiro Cadinho da Ilha ver o Flamengo perder por 3 x 2 pra Universidad do Chile. Cadinho sempre foi um grande pé frio e nunca me dei bem com ele em estádios.

Fechado e com previsão de ser reaberto em dezembro de 2012 evidente que como em tudo no Brasil a obra sofreu atrasos e só agora ocorreu essa reabertura. O estádio ainda não está pronto sofrendo obras dentro e em seu entorno, esse estando bastante atrasado.

A obra custava X, acabou em 3X (também como tudo no Brasil). Muita gente ganhou dinheiro às custas do pobre estádio que será passado a preço de banana para Eike Batista. O Maraca é nosso, mas só por enquanto. Daqui a pouco o Maraca será dele.  

Será dele por um valor muito menor do que o gasto com as reformas. Farra do dinheiro público. Ocorrerão demolições de espaços importantes para o esporte nacional como o parque aquático Júlio Delamare e a pista de atletismo Célio de Barros.

Muita coisa errada. Muitas coisas a serem explicadas. Essa farra financeira, essa privatização que mais parece doação, esse beija mão com a Globo que foi a única a ter acesso ao evento teste e os seus artistas no foco da reabertura. 

Muita coisa errada. Muita coisa pra enojar.

Mas é o Maracanã..

Não dá pra quem ama futebol nesse planeta ficar impassível ao Maracanã. O estádio é um orgulho do futebol, do nosso país, dos cariocas que lhe tem como segunda casa. Eu não sou um cara que vai a estádios todas as semanas, mas tenho história no Maracanã, o Migão com certeza também tem e você leitor provavelmente também. Se não tem ao vivo tem do seu clube do coração em algum evento que viu pela TV ou ouviu falar.

Comecei a frequentar o estádio muito menino ainda. Alguns amigos de minha mãe me levavam, depois comecei a ir com meu tio vascaíno e por causa disso tinha que ficar na torcida do Vasco. Era uma droga assistir sem poder torcer, mas era o Maracanã, eu estava lá e isso que importava.

Mais velho comecei a ir com namoradas, amigos, vi grandes craques jogarem, aprendi xingamentos novos e fiz grandes amizades de 90 minutos por lá. Essas amizades são com aquelas pessoas que você nunca viu na vida e debate futebol, xinga jogador junto e abraça como a um irmão na hora do gol e você nunca mais vê ao deixar o estádio.  

O lugar que comia biscoito globo e o cachorro quente apenas com salsicha e custava uma fortuna. O lugar em que as pessoas na frente levantavam em um lance de perigo, esqueciam de sentar depois e a galera com raiva gritava “Senta!! Senta!!”. O estádio democrático com várias pessoas de todos os tipos, algumas muito curiosas e que se misturavam em momentos de paz (na maioria das vezes) pra torcer por seus clubes sem divisão de torcidas na geral.

Não será mais tão democrático assim. O estádio agora é luxuoso, não tem mais geral há algum tempo e dificilmente veremos mais essas pessoas. Como todo mundo eu lamento que isso ocorra, mas ao contrário da maioria eu entendo.

O futebol hoje é mais caro e exige mais conforto para assistir tanto que são raros atualmente os estádios com capacidade de mais de cem mil pessoas. O outrora gigante que recebeu 200 mil pessoas em um Brasil x Uruguai em 1950 pode agora receber apenas 78 mil. Mas em 1950 assistiram a copa até sobre andaimes deixados na construção. Agora será em poltronas retráteis.

Não sou contra o conforto, ainda mais agora que estou ficando velho. Sempre amei ir ao Maracanã. Atravessar aquele túnel escuro, ter o impacto de ao fim dele encontrar o estádio gigantesco, colorido e com aqueles gritos que graças a formidável acústica ecoavam forte em meu ouvido é uma das lembranças mais maravilhosas que tenho. Mas era preciso mudar.

O estádio tinha rachaduras, infiltrações, lagartas em campo, reboco caindo, torcedores tomavam saco de mijo na cabeça, banheiros em péssimas condições onde tinha que estar com muita vontade para entrar, água na canela pra entrar ou sair do estádio muitas vezes. Não era fácil.

Muita gente é contra essa modernização, esse conforto. O curioso que em casa ninguém tem esse romantismo. Se puder faz uma grande reforma mudando tudo e deixando moderna e confortável.

O que fazia e faz o Maracanã não era reboco caindo, arquibancada de concreto ou pilastras atrapalhando a visão. O Maracanã é tão fundamental à nossas vidas por sua história, carisma e magia que ele provoca que não sabemos explicar.        

Deve provocar estranhamento em seu começo, mas o novo sempre causa esse estranhamento. Tenho certeza que com o tempo e novas histórias se formando isso se dissipará e o elo de amor da torcida com o estádio continuará. O Maracanã é tão amado, faz tanta falta que provocou rejeição ao Engenhão.

O Maracanã fez muita falta ao futebol brasileiro e principalmente ao carioca. A média de público caiu drasticamente sem ele. O Flamengo parece que se perdeu sem o estádio e acho que com sua volta tudo isso irá mudar. O estádio é moderno, padrão europeu, a torcida ficará ao lado do campo trazendo muita dor de cabeça ao treinador que fizer besteira e apoio ao time. Quem sabe assim o gigante deixa de ser um estádio neutro como muitas vezes foi acusado?

Quem sabe, essa é bem mais difícil, finalmente a história se redime com o Maracanã e permite que uma seleção brasileira seja campeã do mundo em seu solo sagrado? Hoje é uma missão quase impossível, mas já vimos tantas missões quase impossíveis se realizarem nele.

Petkovic que o diga.

Maracanã de Papai Noel, Frank Sinatra, Paul McCartney, Madonna e João Paulo II. Maracanã de Pelé e seu milésimo gol, de Zico, Roberto, Romário, Bebeto, Ademir, Zizinho, Barbosa, Didi, Nilton Santos, Gerson, Jairzinho, Zagallo, Julinho Botelho e uma vaia estrondosa que virou aplausos, de Belini e sua estátua.

Maracanã de Assis, Romerito, Doval, Paulo Cesar Caju, Cocada, Túlio, Mauricio e o fim de 21 anos de sofrimento. De Nunes e do ladrilheiro, Rondinelli e o gol da raça, de Reinaldo fazendo gol machucado, de Rivelino e seu elástico, de Obdulio Varella e Ghiggia.

Maracanã de Edmundo, Leandro, Andrade, Adílio e Júnior, o vovô garoto. De Rojas e da fogueteira. Do pobre, do rico, do geraldino, do arquibaldo, das torcidas do Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, América, Bangu e da fiel que em 1976 lhe invadiu no sonho de acabar com um jejum de títulos.

Maracanã do Pedro Migão, meu, do povo brasileiro.

Maracanã de Mané Garrincha.

Ele está de volta. Um querido amigo, pai, irmão, o dono de muitas lembranças queridas. Histórias de pais e filhos que depois são passadas aos netos perpetuando nossas vidas e cumplicidade. Custou uma fortuna e tinha obrigação de estar lindo, como está, mas é o nosso Maracanã. Não tem como ser frio com ele. 

E mesmo sabendo de toda corrupção e má gestão, mesmo sabendo que cairá em mãos nebulosas não teve como não me arrepiar em vê-lo aberto novamente. De ver público em suas cadeiras, bola rolando em seu gramado. Ver que ele voltou.

E parem com essa história que o Maracanã era o outro e não existe mais. Ele está lá nos esperando para que mais histórias sejam criadas, novos ídolos surjam e além do mais o nome do estádio é Mário Filho, não é Maracanã que é o nome do bairro então Maracanã será sempre.

Domingo eu vou ao Maracanã.

Pro resto da vida irei também.

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