segunda-feira, 27 de maio de 2013

RETALHOS DE CETIM


* Conto publicado no blog Ouro de Tolo em 16/3/2013

Fiquei boquiaberto com o que ouvi. Evidente que conhecia a história do massacre na escola, mas não conhecia a história do assassino e senti pena da vida da moça que foi tão afetada por causa de um ato insano.

Clara nunca mais foi a mesma, perdeu a alegria e se sentiu culpada pelo massacre. A moça abandonou o samba e arrumou refúgio na igreja.

Perdi o clima de festa depois dessa, dessa e da Bia com o tal de Zé e pensei que fosse uma boa ir embora. Meu pai também já estava cansado e se antecipou a mim pedindo pra ir embora.

Levei meu pai pra casa e fui pra minha esperar o maldito do Zé. Ele tocou a campainha oito em ponto e quando atendi estava lá com minha Julinha.

Julia tem oito anos e sempre foi muito grudada comigo. Ao me ver deu um salto em meu colo de felicidade. Apertei bem forte e gostoso minha filha enquanto Zé dizia “bem, ta entregue”.

Achei estranho o modo dele falar, um tanto afetado e respondi ok. Ele deu tchau e saiu. Fechei a porta com minha filha reclamando que teve que ouvir Madonna o trajeto todo até minha casa.

Estava tudo muito estranho.

Pedi uma pizza e ficamos vendo desenho na tv. Enquanto minha filha se divertia eu pensei um pouco em Bia e depois em todas aquelas histórias que ouvi.

Começava a levar a sério a história do livro. Aquelas andanças pela “Casa de bamba” fizeram acordar um lado sambista meu até então adormecido. Depois que Julia dormiu coloquei um dvd que tenho com desfiles antigos e enquanto via o espetacular desfile da União da Ilha em 1989, Festa Profana, lamentei que carnaval como aquele não voltava mais.

E cheguei a conclusão que realmente era aquela a minha missão. O resgate, que não lhe deixasse sumir.

No dia seguinte cedo já estava na porta de meu pai buzinando. Seu Jair saiu e perguntou o que eu queria. Mandei que se arrumasse, pois voltaríamos ao bar.

Meu pai riu e perguntou desde quando eu tinha virado sambista, respondi desde quando notei que poderia dar um bom livro.

Meu pai se arrumou e entrou no carro. Assim que ele entrou liguei o veículo e disse “acho que o tal do Zé é gay”. Meu pai riu e falou que eu estava com dor de cotovelo e emendei “O cara torce pelo Fluminense, fala afetado e é fã da Madonna”. Meu pai tentou defender alegado que isso queria dizer nada e completei “é gay, tenho certeza”.

Chegamos ao bar e fomos recebidos pelo Almeidinha. Perguntei se Manolo estava no lugar e o homem rapidamente apareceu. Contei sobre meu projeto pra ele que gostou e me convidou para subir.

Manolo, meu pai e eu subimos e eu me interessei pelos quadros pedindo para que o dono do bar me mostrasse. Manolo começou a mostrar e me interessei por um onde ele abraçava um homem negro e com cara de humilde.

Perguntei quem era e Manolo contou que era Benito, trabalhava no barracão da Beija-Flor, muito gente boa. Meu pai comentou que lembrava dele e Manolo disse que ele tinha uma história interessante perguntando se eu queria saber.

Respondi “evidente que sim” e ele me contou.

Benito como foi dito trabalhava no barracão da Beija-Flor de Nilópolis e a escola é conhecida por ter algumas das mais suntuosas alegorias do carnaval.

O trabalho não era fácil. Benito morava em Nilópolis e acordava antes do galo cantar todos os dias e pegava o ônibus em direção da Cidade do samba na capital do Rio de Janeiro. Era o dia todo no batente suando, se esforçando para ajudar na construção do maior espetáculo da Terra.

Quem vê apenas o desfile das escolas de samba não imagina o sacrifício que aquilo trás. As horas de trabalho e sem dormir de profissionais e pessoas que apenas querem ajudar. O suor, sangue choro deixados em um barracão fazendo carros alegóricos ou ateliê com as fantasias.

Seja numa escola grande que lhe dá toda assistência ou na pequena que apenas vale o amor e muitas vezes a pessoa que está no trabalho não só não recebe nada como muitas vezes tem nem comida ofertada.  

Tudo isso para aquela hora de emoção, a hora de ver a escola na avenida.

E Benito era um apaixonado por samba e pela Beija-Flor. Desfilava na escola desde criança e depois de adolescente achou na escola Nilopolitana uma forma de crescer profissionalmente. Conseguiu emprego no barracão e tornou um dos melhores profissionais. Carpinteiro de mão cheia fazia do carnaval sua profissão.

Uma noite mesmo chegando cansado do trabalho decidiu tomar uma cervejinha numa birosca perto de casa. Bebia aliviado aquela “gelada” e agradecendo a Deus por mais um dia de trabalho quando o amigo Tobias se aproximou.

Tobias lhe cumprimentou e brincando Benito perguntou aonde o amigo ia daquela forma “todo bonitão. Garboso Tobias respondeu que iria ao ensaio da Beija-Flor e perguntou se o amigo não iria.

Benito respondeu que estava cansado e Tobias mandou que o amigo parasse de bobeira, pois o carnaval estava chegando. Tobias respondeu novamente que não queria, mas Tobias insistiu tanto que o amigo acabou topando.

Benito foi pra casa, tomou um banho e foi com o amigo para quadra. Chegando lá encontraram a comunidade nilopolitana cantando forte o samba do ano, considerado um dos melhores do carnaval.

Tobias foi para o centro da quadra cantar o samba, enquanto Benito comprou uma cerveja e ficou observando.

Observava a cara alegre das pessoas cantando com garra o samba-enredo até que avistou uma mulata linda sambando. Benito nunca vira aquela mulher na quadra e de cara ficou encantado.

Benito não conseguia tirar os olhos da mulata que sambava graciosamente com malandros em volta tentando cortejá-la. Um momento a mulata cruzou olhares com Benito e sorriu. O homem nada entendeu e olhou para os lados pensando ser com outra pessoa, mas tinha ninguém perto.

Olhou novamente pra mulata que sorriu. “Não é possível, é comigo mesmo!!” pensou Benito e era sim.

Um tempo depois a mulata se aproximou dele e perguntou se tinha alguma toalha. Benito tirou uma do bolso e ela agradeceu, pegou e se secou. Foi devolver a toalha a um encantado Benito que respondeu que não precisava e podia ficar pra ela.

A mulata agradeceu, sorriu e se afastou. Benito se encheu de coragem e foi atrás dela, puxou pelo braço e perguntou se o sorriso enquanto sambava era pra ele.

A mulata olhou para ele e perguntou “que sorriso?”. Benito abaixou a cabeça com vergonha e ela rindo emendou “claro que sim bobo”. Benito abriu um sorriso e perguntou se ela queria uma cerveja.

Assim beberam e bateram papo com Benito esquecendo completamente do amigo Tobias que estava no meio da quadra agarrado a um monte de cabrochas. A mulata se apresentou como Alice, disse que se mudara há pouco pra Nilópolis e sairia pela primeira vez na escola, na ala de comunidade.

Empolgado Benito contou que também sairia na ala e trabalhava no barracão da escola. Mostrou as mãos machucadas com o trabalho e
Alice comentou que achava seu trabalho de herói e que sem gente como ele não saía o carnaval. 

Benito agradeceu sem jeito e Alice comentou que a quadra estava quente e que fossem dar uma volta.

Os dois deram uma caminhada e de repente Alice pegou na mão de Benito. O homem se empolgou, encheu de coragem e lhe deu um beijo.

Dali partiram para um motel onde fizeram amor.

No fim Benito estava extasiado e fazia planos de se encontrarem mais vezes. O homem empolgado falava de namoro, até casamento. Alice ria e falou que se encontrariam sim, muitas vezes, mas não por hora.

Benito não entendeu e perguntou o porque. Alice respondeu que o carnaval se aproximava, ela se atolara de trabalho além dele ter o trabalho no barracão e precisar se concentrar nas alegorias.

Benito entristeceu e Alice lhe deu um beijo pedindo pra não se chatear prometendo lhe encontrar no desfile. Benito perguntou se a moça tinha celular e ela respondeu que não, mas reforçou a promessa. No dia do desfile se reencontrariam na Sapucaí e começariam ali suas histórias.

O carpinteiro teve que aceitar e começou a contar as horas para o desfile. Trabalhava com afinco no barracão, mas só pensava na mulata e não via a hora de lhe reencontrar.

O homem estava cada vez mais apaixonado. Trabalhava e em todos os ensaios estava lá na quadra com a esperança de reencontrá-la. Tobias brincava com o amigo dizendo que queria ter conhecido essa mulher que mexeu com seu coração.     

Tentava contar de suas conquistas, até da mais recente, mas Benito não lhe dava ouvidos só pensando em Alice. Tobias notou o estado do amigo e pediu que não se preocupasse, se ela prometeu desfilaria.

E chegou o carnaval.

Benito acordou cedo para ajudar a levar os carros para avenida. Os carros da Beija-Flor eram ricos, impactantes e com certeza mais uma vez a escola brigaria pelo campeonato. Da Sapucaí Benito voltou pra casa correndo, tomou um banho e pegou o saco preto com a fantasia e assim voltar pra avenida...E assim reencontrar sua amada.

Benito não via a hora de chegar na avenida e reencontrar Alice, lhe abraçar e dar um beijo.

Chegou na avenida e percorreu a escola toda sem achar Alice. Perguntou a todos os harmonias da escola e ninguém conhecia. O homem foi se desesperando a medida que chegava a hora do desfile.  

A hora do desfile chegou e Benito foi obrigado a tomar posição em sua ala sem Alice. O carpinteiro olhava pra trás, pros lados num fiapo de esperança de ver sua amada e nada. Uma mão foi colocada em seu ombro, Benito virou na esperança de ver Alice, mas era Tobias.

Tobias perguntou se o amigo estava bem e ele chateado respondeu que Alice não aparecera. Tobias lamentou e chamou a namorada dizendo que queria apresentar para seu melhor amigo, uma pessoa especial. Puxou novamente Benito e disse “parceiro, essa é minha namorada nova, mas com certeza a última, a mulher da minha vida”.  

Benito virou e tomou um susto. Era Alice.

Como se nada tivesse acontecido Alice beijou o rosto de Benito e disse que já lhe conhecia. A sirene tocou, era hora do desfile.

A Beija-Flor começou a desfilar e Benito via a sua frente Alice e Tobias felizes e abraçados cantando o samba-enredo. Uma chuva torrencial começou na Sapucaí e o desfile ficou ainda melhor com a escola mais uma vez mostrando que era a prova d`agua.

A chuva se misturou com as lágrimas que caíam da face de Benito e seu rosto ficou molhado. A chuva conduzia o pranto de Benito e a Beija-Flor para mais um campeonato.

Eu chorei na avenida eu chorei..

..Não pensei que mentia a cabrocha que eu tanto amei.



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